CAPITULO II- LUGARES E PESSOAS: O ESTILO DAS MINAS DO ROCK POR MEIO DE SHOWS,
3. DEFFUSION NO ESTILO DAS MINAS DO ROCK
3.2 CONFLITOS ENTRE AS MINAS DO ROCK
Durante o trabalho de campo foi possível perceber conflitos entre as dykes e as não dykes na cena do rock de mina, assim como as minas do rock da “primeira geração”63 com as da “segunda geração”. Este conflito é permeado por relações de poder no sentido de que há uma imposição, na medida em que o dyke rock ganha visibilidade, de ser dyke na cena das minas do rock, ou seja, quem não se auto-atribui enquanto dyke nesta cena é visto com desconfiança pelas dykes:“Acho idiotice quando
dizem que a gente não é feminista, que a gente não é sapatão, que eu já ouvi falar, eu
63
O termo geração é empregado no texto enquanto ferramenta metodológica, embora tenha sido utilizado por uma das entrevistadas para se referir aos distintos grupos etários de garotas presentes nos shows, esta etnografia não tem o intuito de discutir a questão geracional, pois neste trabalho ela é empregada enquanto processo.
85
acho patético (...) hoje em dia tem dyke que tá passando e que me olha torto porque acham que eu não sou sapatão” (Entrevista com Érica, 2008).
Além disso, há conflitos entre gerações de minas do rock: as da “primeira geração”, jovens mulheres com idade entre 25 a 30 anos e que na maioria das vezes são as responsáveis pela organização destas festas e festivais, criticam as da “segunda geração”, garotas entre 19 a 24 anos, por não dar continuidade a projetos como o Lady
Fest, Viva La Woman e Sapa Fest: “a gente tá ficando um pouco cansada, né, velha, a
gente ta ficando cansada já” (Entrevista com Emilia, 2008). E as da “segunda geração” por sua vez não se identificam com o riot grrrl, diferentemente da “primeira geração” que se auto-atribui enquanto riot grrrl, este visto como algo ultrapassado64 e que não corresponde mais às suas realidades: “Riot Grrrl! Claro, meu, tô na cena punk. É que meio, ninguém mais fala disso. Isso foi uma coisa meio dos anos 90, enfim” (Entrevista com Heloísa, 2008).
Nesse sentido, quando se chocam as trajetórias das minas do rock da “primeira geração” com as da “segunda” há conflitos relacionados a diferentes tipos de aspirações formuladas em diferentes idades: as aspirações da “primeira geração” de minas do rock, como visibilidade do rock de mina, a busca de espaços disponíveis para shows de bandas de meninas e uma constituição de uma cena das minas do rock é conquistada e dada de imediato para as da “segunda geração”, e estas por sua vez não querem ser identificadas como uma banda de mina e sim como uma banda de rock65.
64No documentário Bela Donas: meninas na cena punk de Anelise Paiva Csapo há um depoimento de uma integrante de uma banda de garotas da “segunda geração” que deixa bem claro a não identificação com o feminismo e portanto com o riot grrrl “Feminismo já era, as minas estão fazendo tudo que os caras fazem. A gente não tem esse lance de feminismo”. (Trabalho de conclusão de curso. PUC: 2004. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=S5KHqpIBkaM&feature=related).
65Bourdieu (2002) diferentemente do conceito de de deffusion de Clarck(1976) olha a noção de conflito entre gerações, no caso entre jovens e velhos, como relacionadas á transmissão de poder e diferenças entre aspirações: “Muchos de los conflitos entre generaciones son conflitos entre sistemas de aspiraciones constituídos em edads diferentes. Lo que para geracion I fue uma conquista de toda la vida, la geracion 2 lo recibe al nacer, de imediato(...) Cuando se pierde “El sentido del limite”, aparecen
86
Além disso, com o passar do tempo, as garotas da “primeira geração” entram no mercado de trabalho e não possuem mais o tempo livre disponível para dar continuidade às atividades como a organização de festivais voltados para as minas do rock e manutenção do site Quitéria66. Como exemplo do processo de deffusion do estilo das
minas do rock menciono o fato de que o último Lady Fest, realizado em 2009, foi
chamado de “Mini Lady Fest” com a diminuição do números de bandas, oficinas e debates. O site Quitéria, também importante na dinamização da cena, “saiu do ar” e a Dykon Records conseguiu lançar somente duas bandas, Santa Claus e Hidra. Esses dados ilustram o processo de deffusion do estilo das minas do rock, também relacionado às atividades das organizadoras que, com o passar do tempo, são inseridas no mercado de trabalho e que segundo as entrevistadas, não possuem mais o tempo livre para a organização destes projetos se comparados ao tempo disponível que possuíam quando os criaram.
De acordo com Abramo (1994), é no tempo livre que grupos juvenis procuram atividades de diversão, desenvolvendo um estilo próprio de se vestir, de carregar símbolos, bem como a eleição de elementos privilegiados de consumo, que se tornam simbólicos e marcam uma identidade distintiva. Isso faz do lazer um espaço relevante para o desenvolvimento das relações de sociabilidade, visto que é menos regulado que a escola, a família e o trabalho. Portanto, é nesses espaços de lazer e em outras atividades relacionadas à diversão e ao consumo cultural que é possível a manifestação de novas condições juvenis, que por sua vez criticam o modo de vida atual e as construções referentes às expectativas de futuro.
conflitos sobre los limites de edad, los limites entre las edades, donde está em juego la transmissíon del poder y de los privilégios entre las geraciones” (BORDIEU, 2002:170)
66 Segundo a apresentação no site www.quitéria.com.br : “Quitéria é uma revista pop feminista online, para meninas interessadas em música, informação, arte e debate. Feminismo, além de ser uma luta por mudança social, produz uma quantidade de cultura imensa e –porque não dizer- divertida. Bandas, fanzines, livros, bate-papo em mesa de bar e tudo e mais um pouco (FACCHINI,2008:153)
87
Com a diminuição do tempo livre e como conseqüência do processo de
deffusion, há uma perda significativa da capacidade das minas do rock de produzir
interferências, e o estilo que criaram, principalmente no âmbito da música, da estética corporal e do comportamento, se transforma em um estilo consumido em festas e shows, diminuindo o papel do feminismo riot grrrl como homologia de seu estilo. Ao mesmo tempo, a sociabilidade nestas festas e shows ganha comparativamente maior espaço: neste processo de diffussion as iniciativas explicitamente atreladas ao feminismo perdem importância em comparação com uma estética corporal e determinada sociabilidade produzidas e consumidas nos lugares de sociabilidades das
minas do rock.