CAPÍTULO 1 UM POUCO DO QUE JÁ FOI DITO SOBRE
1.4 Conflitos internos, a cisão e a paz retomada
Se por um lado a Igreja Presbiteriana sofreu forte resistência dos Católicos, por outro, seus conflitos internos retardaram sua consolidação e provocou o surgimento da Igreja Presbiteriana Independente.
No final do século XIX e início do século XX, a Igreja Presbiteriana do Brasil viveu um de seus momentos mais conturbados, culminando com a cisão de 1903. A
137
CORTEZ, Natanael. Os dois tributos, op. cit., p. 94.
138
Idem, idem.
139
A BÍBLIA SAGRADA. Trad. em português por João Ferreira de Almeida. 2. ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
origem desse movimento deveu-se à Igreja de São Paulo e um de seus protagonistas foi o Rev. Eduardo Carlos Pereira, que pretendia transformar o Seminário Presbiteriano em colégio, a independência absoluta da Igreja Presbiteriana Brasileira na educação de seus filhos e de seu ministério, bem como a incompatibilidade absoluta do Evangelho com a maçonaria.
Durante o 5º Sínodo, realizado em junho de 1900, a questão maçônica foi debatida e chegou-se à conclusão de que era permitido, a qualquer membro da Igreja, ser maçom se a sua própria consciência não o proibisse. Reconhecia-se assim o direito de cada membro ter a sua opinião a respeito desse caso, mas julgava prejudicial à causa do Evangelho qualquer propaganda pró ou contra a maçonaria” 140
Por ocasião da 6ª reunião do Sínodo de 1903, realizada em clima de suspeita e desconfiança, em decorrência da situação eclesiástica vivida e, principalmente, pela questão suscitada sobre os missionários estrangeiros, a questão maçônica alcançou o seu clímax. Sobre esta questão, o Dr. R. Baird, então missionário no Ceará e seu representante na reunião de 28 de junho, declarou ser maçom há muitos anos, tendo sempre pregado nas lojas, sem contestação, a mediação de Cristo. Para ele, todo homem de bem é maçom e os apóstolos de Jesus Cristo tinham princípios maçônicos.141
Na reabertura dos trabalhos, às 8 da noite do dia 31 de julho 1903, os que defendiam a incompatibilidade da presença nos quadros da Igreja de crentes maçons entregaram para leitura um documento no qual reafirmavam que os seus signatários estavam convencidos da incompatibilidade entre a Maçonaria e a Igreja e exortavam respeitosamente aos ministros e presbíteros maçons a abandonarem a maçonaria por amor da paz e da Igreja escandalizada e pediam que o Sínodo reconhecesse o direito de externar seus pensamentos sobre o assunto.142
Na hora da votação, prevaleceu a decisão a favor da moção de autoria do Rev. Gammon, que pedia para que não se reconsiderasse a deliberação tomada no Sínodo precedente sobre este caso. Conhecido o resultado, o Rev. Eduardo, em discurso comovente, despediu-se:
140
LESSA, Vicente Themudo, op. cit., p. 608.
141
Idem, p. 669.
142
Irmãos missionários, permitti-me dirigir-vos cordial despedida. Procurei, nas bases apresentadas pelo dr. Chester e dr. Ellinwood, um plano de cooperação entre missionários e os nacionais. Vós o não quizestes, creio que errastes; futuro, porém, o dirá. E vós, meus patricios, reagi quanto pude em favor do vosso prestigio moral, nada consegui. A maçonaria cavou um abysmo entre nós e vós. Ella foi, porém, o instrumento e, se me permittem a expressão, a mão do gato para tirar as castanhas do fogo. Como vistes, Christo foi levantado no seio deste Concilio por uns, pregado numa cruz por outros, coroado de gloria. Vós ouvireis falar de nós, nós ouviremos falar de vós e um dia perante o Juiz nos encontraremos. Felicidades, meus patrícios.143
Na verdade, o que estava atrás de tudo isso era o relacionamento entre as missões estrangeiras e a Igreja nacional. Os missionários presbiterianos, desde a autonomia (1888), foram arrolados como ministros da nova Igreja nacional. Porém, continuavam a participar de uma organização paralela, a “missão”144, que ainda detinha considerável grau de autonomia, já que era a financiadora da Igreja Nacional. Não raro, esta condição transformava-se em um ponto de tensão e desentendimento. A autonomia da Igreja nacional estava, para Eduardo Carlos Pereira, claramente vinculada ao sustento próprio.145
O cisma da Igreja Presbiteriana do Brasil atingiu também a Igreja Presbiteriana de Fortaleza, mediante pedido de desligamento de vários de seus membros para ingressarem na Igreja Presbiteriana Independente.
Aos 23 dias de Outubro de 1904, reuniu-se a sessão da Egreja, estando presentes o Pastor Rev. Dr. R. P. Baird, os Presbyteros snr. Candido Olegário Moreira, e Francisco Bonates, e abriu-se com oração. Os membros Dr. Albino José Faria, Dona Luduvina Magno de Faria, e Dona Virginia Magno de Faria, foram desligados por terem se tornado independentes.146
No dia 14 de abril de 1906, outros membros da Igreja foram eliminados por terem aderido à Igreja Presbiteriana Independente.147
143
Idem p. 673.
144
Missão presbiteriana do norte (Estados Unidos), o Board de Nova York, que iniciou sua missão evangelizadora no Brasil em 1859. (Cf. LESSA, Vicente Thenudo, Op. cit. p. 18).
145
LÉONARD, Émile-G, op. cit. p. 136-153.
146
Acta da sessão do dia 23 out. 1904 da Egreja de Fortaleza.
147
Acta de 14 abr. 1906, dá como elliminados da Egreja, por terem entrado para a Egreja Independente: Candido O. Moreira, Margarida C. Moreira, Pedro F. Silva, Virginia F. da Silva, Vitalino F. Duarte, Isabel Maria de Oliveira, Antonio V. de Moraes, Manolla Laura de Lima, Rodolpho Magno, Francisca G. Falcão, Cândida Margarida Cruz, José M. dos Santos, Carolina Maria dos Santos, Maria Francisca de Oliveira, Dignamecita de Farias, Joaquina B.de Castro, Francisco Fernandes de Oliveira, Joanna J. Oliveira, Odilon Carvalho, Magdalena P. de Carvalho, Manoel J. Leôncio, Raimundo Gomes Barbosa e Maria Franklin de Queiroz.
O período do Rev. Natanael Cortez na direção da Igreja Presbiteriana de Fortaleza (1915-1943, e até 1952 como pastor emérito) foi coroado de muitas realizações. Respeitado por todos aqueles que conheciam um pouco de suas conquistas, fruto de grande perseverança, era reconhecido tanto como orador e reverendo, por parte dos seus amigos da Igreja, quanto como educador e promotor do idealismo nos jovens a quem ensinava, como exaltou Gueiros:
Os seus primeiros anos no pastorado cearense se caracterizavam pelas lutas com o adversário, em que ele transformou a pena no gladio inflamado para vencer a oposição e as campanhas levantadas contra o obreiro incansável e indefeso que ele se revelou no campo evangelístico. Ficou memorável nas festas presbiterianas no Ceará a campanha pela imprensa através das colunas dos jornais locais. Por esse mesmo tempo ele produzia, do púlpito, memoráveis conferências de apologia da Bíblia e da reforma e alguns dos seus vultos proeminentes.148
É bom ressaltar que, por meio do Concílio Vaticano II, a própria Igreja Romana deu início ao processo de aproximação entre as duas Igrejas. Em Fortaleza, o primeiro passo foi dado por D. José de Medeiros Delgado, arcebispo metropolitano, convidando Natanael Cortez para presidir a assembléia da Semana da Unidade Cristã. Essa situação foi revivenciada durante as comemorações do jubileu ministerial de Natanael Cortez, em 1964, quando, pela primeira vez no Ceará, um sacerdote católico ocupou o púlpito de uma Igreja protestante. Na ocasião, o espírito do Concílio Ecumênico fez-se presente, tanto assim que o Arcebispo de Fortaleza, pelo seu representante, Mons. André Camurça, assumiu o púlpito para saudar o Pastor Natanael, que no dizer de Eduardo Campos, significou “ato de grande significação para a unidade das Igrejas cristãs em nossa terra”.149
De 1883 a 1930, a Igreja Presbiteriana estabeleceu sua presença no Ceará. Durante quase cinqüenta anos, o presbiterianismo não somente consolidou-se, revendo a oposição da Igreja Católica como se integrou na sociedade cearense em clima de paz e harmonia.
148
Discurso do Rev. Dr. Antônio Teixeira Gueiros, por ocasião das Bodas de Prata de Natanael Cortez, em 1940. CORTEZ, Natanael. Os Dois Tributos. A César a Deus, op. cit. p. 131.
149
CAMPOS, Eduardo. Natanael Cortez e o ministério da palavra: biografia de um pastor do rebanho de Deus. Fortaleza: IPF, 1989, p. 34. (Edição comemorativa do Centenário de nascimento de Natanael Cortez)
O próximo capítulo é sobre a origem da História Cultural, trabalho os conceitos da história das mentalidades e os conceitos de apropriação, representação e prática, introduzidos por Roger Chartier. Para ele, a História Cultural deve tomar como objeto a compreensão das formas e dos motivos, ou seja, das representações do mundo social.
Michel de Certeau, Cliford Geertz e Peter Burke dão sustentação ao conceito de História Cultural como parte necessária do empreendimento histórico coletivo, contribuindo, assim, para a construção da História Cultural dos Presbiterianos de Fortaleza, objetivo deste estudo. Trabalho ainda, nesse capítulo, Ecléa Bosi, Paul Thompson e Michel de Certeau, cujos estudos abordam a lembrança, a memória e a memória coletiva.