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Conflitos nos limites das fronteiras internas do Brasil – 2014

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2014). Elaborado por Rita de Cassia da S. Luquini

. Verifique-se que, a maioria dos estados brasileiros apresentam problemas em seus limites político-administrativos. No cenário nacional, a Bahia e o estado de Minas Gerais se destacam com números expressivos de problemas em suas fronteiras interestaduais (Quadro 4).

Quadro 4 - Síntese dos conflitos nos limites das fronteiras internas do Brasil, 2014

Conflito Descrição

1 Abel Figueiredo - PA/ São Pedro da Água Branca – MA

2 Jaçanã - RN / Nova Floresta – PB

3 Correntes - PE / Santana do Mundaú e Quebrangulo - AL / Bom Conselho – PE

4 Paripiranga - BA / Simão Dias – SE

5 Chapada das Mangabeiras na divisa Maranhão/Piauí e Bahia

6 Serra Geral na divisa entre Bahia e Tocantins

7 Cavalcante - GO / Paranã – TO

8 Divisa Norte do Distrito Federal com Planaltina- GO

9 Divisa Sul do DF com Goiás - Valparaíso, Cidade Ocidental Novo Gama e Sto. Antônio do Descoberto 10 Ilha dos Pombos Carmo - RJ / Volta Grande – MG

11 Ilhas do Rio Paraná (diversos municípios)

12 Barra do Turvo - SP / Guaraqueçaba – PR

13 Pará - Mato Grosso / Salto Sete Quedas ou Cachoeira Sete Quedas

14 Tavares - PB / Carbaíba – PE

15 Águas da Prata - SP / Poços de Caldas – MG

16 Barracão - PR / Dionísio Cerqueira – SC

17 Encruzilhada - BA / Divisopólis – MG

18 Parintins - AM / Juriti – PA

19 Cocos - BA / Formoso – MG

20 Mucuri - BA / Conceição da Barra, Pedro Canário – ES

21 Nova Belém - MG / Água Doce do Norte – ES

22 Almeirim - PA / Laranjal do Jari – AP

23 Cocal - PI / Granja – CE

24 Botelhos - SP / Caconde – MG

25 Dores do Rio Preto - ES / Espera Feliz – MG

26 Vilhena - RO/ Comodoro - MT (Incra)

27 Linha Cunha Gomes- Porto Velho - RO /Acrelândia - AC (Incra)

28 Humaitá - AM / Porto Velho - RO (Incra)

29 Monte das Gameleiras, Japi - RN / Araruna – PB

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2014). Elaborado por Rita de Cassia da S. Luquini.

Nota: Dados obtidos junto a Gerência da Divisão Territorial Brasileira.

Documentos oficiais da Bahia e de alguns dos estados confrontantes solicitam definição e demarcação dos limites político-administrativos das áreas em conflito, comprovando, em alguns casos, não serem recentes os questionamentos, bem como, os pedidos de soluções para esses problemas. Um documento, por exemplo, datado de maio de 1954, oriundo do Gabinete do Ministro da Justiça, à época o Exmo. Sr. Tancredo Neves, endereçado ao então governador de Minas Gerais, o Exmo. Sr. Juscelino Kubitschek de Oliveira, solicitava informações e providências

adequadas para que fosse ultimada a divisão territorial entre os municípios de Caravelas, pertencente à Bahia, e Nanuque, pertencente a Minas Gerais. Tais providências adequadas não se resolveram até o momento.

Em julho de 1966, o Delegado Especial Major Hórton Pereira de Olinda, da Delegacia Especial da Secretaria de Segurança Publica da Bahia, emitiu um documento para o Secretário, no qual relatava a sua preocupação quanto à segurança dos municípios de Ibirapoã e Lagedão, para onde havia sido nomeado. Os fiscais mineiros acusavam os colegas baianos de terem instalado um posto arrecadador no território de Minas Gerais sem a autorização de quem de direito e, também, de cobrarem impostos sobre pautas absurdamente mais baixas. O Major relatava, também, ter recebido guias fiscais que comprovavam os valores, além de solicitar uma comissão mista interestadual para avivamento da linha limítrofe entre os estados. O então Secretário de Segurança Pública encaminhou o documento ao Procurador da Justiça, em agosto de 1966, que o reencaminhou ao Procurador Geral do Estado da Bahia para as providencias cabíveis, das quais, não se tem registro.

Outro fato curioso foi o “Estado de Minas” (de 9 de maio de 1973), veículo de comunicação da imprensa mineira, que circulou com matéria intitulada “Um pedaço de mar para Minas”, cujo conteúdo revelava que 12 quilômetros de praia de um porto no mar de Caravelas, pertencente ao território baiano, na realidade, pertencia ao estado de Minas Gerais. O conteúdo da manchete alegava que as referidas terras haviam sido doadas pelo Imperador Dom Pedro II à Companhia de Estrada de Ferro Bahia-Minas que, posteriormente, as hipotecou ao Banco de Crédito Real do Brasil como garantia de empréstimo hipotecário, conforme escrituras de janeiro de 1887. Segundo o jornal, esses terrenos foram pagos pelo estado de Minas com títulos da dívida pública mineira. Com base nesses fatos, a matéria do jornal trazia a reivindicação do pedaço de praia de Caravelas para Minas Gerais.

Em julho de 1988, um documento proveniente da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia - Instituto de Geociências Aplicada, Governo do Estado de Minas Gerais, apresentava uma seleção de áreas para ser objeto de permuta territorial com a Bahia, o que não ocorreu, está no âmbito da discussão técnica até os dias atuais.

No que diz respeito à fronteira entre Bahia e Goiás, um relatório de visita técnica, datado de fevereiro de 1983, elaborado por técnicos da Secretaria de Agricultura, Instituto de Terras da Bahia (INTERBA), juntamente com técnicos da

Secretaria de Planejamento Ciência e Tecnologia (SEPLANTEC) contestava os trabalhos de medição e demarcação realizados na área por técnicos do Instituto de Desenvolvimento Agrário de Goiás (IDAGO). Segundo o relatório, este trabalho atentava contra a autonomia da Bahia e não poderia ser realizado unilateralmente. Os técnicos baianos propuseram visitação com uma comissão mista interestadual. Esta divisa encontra-se em litígio até a presente data.

Quanto aos questionamentos entre a Bahia e o Espírito Santo, sabe-se que, na década de 80, circularam algumas notícias nos meios de comunicação, entretanto, não houve nenhuma ação judicial por parte do estado vizinho, tampouco, tentativas de acordo. O limite político-administrativo das fronteiras externas da Bahia com os vizinhos Sergipe, Minas Gerais, Goiás e Tocantins, cuja competência é atribuída ao IBGE, permanecem em discussão ao tempo dessa pesquisa.

No cenário local, foco principal desta pesquisa, existem situações semelhantes. Os conflitos existentes nos limites entre os municípios baianos se arrastam há vários anos. O estado passou por transformações sociais e econômicas, o crescimento populacional foi expressivo, novos municípios foram criados e a delimitação territorial não acompanhou essa dinâmica. Conforme já apontado anteriormente, a última redefinição político-administrativa foi realizada em 1953, ou seja, mais de 60 anos sem propostas políticas de revisão territorial por parte das autoridades competentes. Lacuna esta que contribuiu ainda mais para o agravamento da situação (Mapa 7).

A Proposta de Emenda Constitucional – PEC n.o 15, de 12 de setembro de 1996 (BRASIL, 1996), alterou o arranjo constitucional vigente, conteve a criação de novos municípios e subtraiu dos Estados o direito de legislar sobre suas fronteiras internas, ficando, assim, sob a responsabilidade do Governo Federal. Consequentemente, impediram-se ações e medidas por parte dos Governos Estaduais para solucionar os problemas de limites em seus territórios. Todavia, em 11 de agosto de 2014, foi aprovada, no Senado Federal, a Lei Complementar no. 397 de maio 2014 que dispõe sobre a criação, a incorporação, a fusão e o desmembramento de municípios, nos termos do § 4o, do art. 18, da Constituição Federal. No capítulo IV das Disposições Transitórias e Finais, o Art. 23 favorece aos

Estados revisar e/ou atualizar os limites de seus municípios a cada cinco anos. Portanto, esta Lei Complementar, caso fosse promulgada pela Presidência da República, seria o amparo legal necessário aos Estados para solucionar os conflitos nos limites de seus municípios.