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Capítulo 5 – Beatriz

5.1 Encontrando Beatriz

5.1.2 Conhecendo a experiência de Beatriz como professora

Beatriz é professora há catorze anos, tendo passado por diversas escolas de um concelho próximo de Lisboa. Permanece há três anos na mesma escola a acompanhar uma turma do 1.º ao 3.º ano de escolaridade com convicção que a acompanhará até ao final do 1.º ciclo, dada a continuidade pedagógica ser um critério de escola. Esta situação é muito do seu agrado, o que a fez, em momentos decisivos optar por se manter ligada à escola.

“No primeiro ano tive um ano numa escola, depois um bocadinho mais longe…Nos quatro primeiros anos tive um ano em cada escola, depois do primeiro ano de serviço passei para quadro de zona pedagógica, e depois… estive contratada um ano e depois

112 passei a quadro de zona pedagógica. Este ano é a primeira vez que levo um grupo do 1º ao 4º ano.” (EI,33)

Trabalhar de forma continuada no tempo com um grupo de alunos é muito do seu agrado referindo consistentemente a necessidade de tempo para as aprendizagens e para a relação, sendo as suas opções profissionais orientadas por esse valor: o melhor para os seus alunos.

Posso ficar numa escola qualquer do agrupamento. Fiquei nesta pois tenho uma continuidade pedagógica… é um critério de escola tanto para os alunos, como para os professores há uma continuidade no trabalho que é desenvolvido, o estímulo é outro também. (EI, 62-65) Tanto para os alunos como para os professores, isso é bom… (EI,69).

Desde sempre quis ser professora do 1º ciclo afirma, referindo-se ao facto de não se recordar dessa sua determinação tão precoce mas da sua mãe lha recordar, sendo essa história contada numa memória da sua infância: “… da minha infância não me recordo grande coisa… mas a minha mãe diz que sim, desde cedo que eu sempre quis ser professora primária.” (EI,91).

Recordando a sua primeira aula e a sua primeira turma, fala com alguma comoção da experiência difícil e simultaneamente gratificante que teve com os seus primeiros alunos sentindo-a como “(…) mais um estímulo para continuar a carreira que tinha escolhido.” (EI, 78).

No primeiro ano de serviço, fiquei colocada na escola (...), uma escola de intervenção prioritária e gostei muito, por muitas razões… Era o primeiro ano de serviço, não é? Estava fascinada com a saída do curso fiquei com um 1º ano de escolaridade que era o que eu mais desejava à saída do curso e tinha um grupo de colegas que era espetacular… a escola era de intervenção prioritária, os alunos era um grupo muito fraquinho (EI,71). (…) Eram meninos muito carentes afetivamente, socialmente… Lembro-me da sensação de ter uma turma nas mãos e não saber o que fazer… Eram meninos muito carentes, era uma escola muito problemática, tinha mesmo fome na sala, muitas crianças com fome na sala. Faltaram coisas, muitas coisas… (EI, 290)

Considera que o seu percurso de escola em escola durante alguns anos foi muito importante para o seu desenvolvimento pessoal e profissional salientando que “por

113 todas as escolas onde tenho passado tenho gostado do ambiente, não houve uma escola que eu possa dizer que não gostei” (EI, 82). Contudo ao descrever a sua experiência com o seu primeiro grupo de alunos evidenciam-se as dificuldades com que se deparou desde logo no início da sua carreira.

Beatriz parece ter encarado essas dificuldades como verdadeiros desafios pois parece ter encontrado os recursos internos necessários para lidar com elas deixando na sua memória boas recordações e gratidão: “ (…) trabalhei muitas coisas que aquela turma precisava, muito para além dos conteúdos académicos. Foi muito necessário!”. E conclui na sua passagem pelo passado que tem “tido sorte pelas escolas por onde tenho passado”. (EI,79). Assume a sua opção de professora do 1º ciclo como uma opção consciente e da sua própria vontade, sentindo-se muito bem nesse papel, tanto mais que adquiriu habilitações para ser também professora de Educação Física, nunca tendo contudo vontade de seguir esse caminho.

Já leciono há 14 anos, tirei o curso no Piaget em 96, depois fiz uma equiparação à licenciatura, para ficar então com o grau académico de licenciatura, noutro ramo do 2º ciclo, de Educação Física que também é uma área de ensino... (EI, 20)

A sua identificação com a profissão prende-se não só com os conteúdos de ensino, mas essencialmente com a sua identificação com os meninos em início de escolaridade e com a sua vontade de aprender tão “à flor da pele”. Ao referir-lhe ser sempre bom ter outra opção noutra área profissional nos tempos que correm, Beatriz mantém firme a sua ideia de contribuir para as primeiras aprendizagens da Língua, da Matemática e do Estudo do Meio assim como das áreas das Expressões, encontrando na monodocência uma realização pessoal mas também uma grande exigência. É com paixão que afirma “Gosto muito desta faixa etária e por enquanto não me fascina e por enquanto não ambiciono mudar a minha opção” (EI, 27) considerando a monodocência simultaneamente “uma dificuldade e um grande desafio” (EI, 117), tendo “o professor de ser multifacetado, de “aprender a tornar-se “bom em tudo”, não pode descurar nenhuma área” (EI, 118).

Beatriz atribui a sua determinação em ser professora desde muito cedo ao imenso gosto que tem de trabalhar com crianças pequenas. Pensa ter sido a imagem da sua própria professora “ uma professora antiga que veio de Bragança para cá” (EI, 95) e a relação que estabeleceu com ela que a marcou tão definitivamente apesar de se

114 recordar de alguém “que tinha uma forma especial de educar os alunos” com “uma estrutura muito rígida” (EI, 96) mas que contudo a acabou por influenciar de forma muito positiva:

Não sei bem porquê! Inconscientemente estimulou-me… Depois consegui ter uma ligação futura, fiz questão que me assinasse a fita de curso, houve ali uma ligação, morava em Almada, conhecia os meus pais, não houve outro sonho que me tivesse empatado ou baralhado as ideias, foi sempre um sonho sempre que eu quis, sempre, sempre, pensei em ser professora primária, gosto muito de crianças, e… é a fase da descoberta em que eles estão muito verdes, e nós ajudamos… Querem saber tudo, nós ajudamos a aprender… (EI, 99)

Considera que as crianças que iniciam a escolaridade têm uma grande curiosidade e estão muito disponíveis para aprender sendo isso que a cativa particularmente neste ciclo de escolaridade: “É esta curiosidade que me atrai neles, o quererem saber tudo…” (EI, 105). E acrescenta com algum orgulho sentir que nestas idades “(…) o professor ainda tem um papel importante” (EI,110).

Sente uma grande responsabilidade enquanto profissional de dar o melhor aos seus alunos, não se poupando a esforços para o conseguir. Apercebi-me da sua confiança, conquistada em muitos momentos, por um caminho pessoal de autoconhecimento e conhecimento do que ensina e como ensina, mas também de alguma insegurança relativamente às solicitações que lhe são dirigidas e relativamente às quais receia estar aquém das expetativas:

Eu tenho medo de cair no erro “eu estou a dar desta forma, então, é a melhor forma de dar”. E não é… Eu acho que alguém… Quem estiver de fora que me possa dizer ajudar- me, esclarecer questões e dúvidas (…) Se eu estou insegura deixo transparecer isso aos meus alunos e tiro-lhes a segurança. Eu não quero isso para os meus alunos. E se há alunos com dificuldades isso ainda se irá agravar mais… Outras experiências vão-me ajudar sentir-me o mais segura possível, para transmitir essa segurança aos meus alunos. (EI,139)

Mantém por isso uma grande vontade de receber toda a ajuda possível e faz todas as formações que pode, tentando desse modo tornar-se mais sensível e aberta às diferentes didáticas. Frequentou recentemente o Programa de Formação Contínua em Matemática, para professores dos 1º. e 2º. Ciclos do Ensino Básico (PFCM) na Escola Superior de Educação de Setúbal, considerando ter sido uma imensa ajuda para a sua

115 forma de lidar com a matemática, as ideias centrais do currículo e na escolha das tarefas assim como na forma de as explorar, tendo em vista as aprendizagens a realizar.

(…) fiz o 1º ano de PFCM, e lembro-me que com a formadora (...), trabalhámos muito exaustivamente essa noção [sentido de número], e conseguimos fazer em conjunto um trabalho muito interessante, tinha um grupo muito fraquinho…. Fizemos trabalhos muito interessantes com o número, com os alunos… (EI 211).

Curiosamente ainda sem falar dos motivos que a levaram a aceitar tão prontamente trabalhar em colaboração comigo neste projeto, para além da sua imensa vontade de se valorizar profissionalmente, adquirindo mais conhecimento curricular, didático e pedagógico, começa a tornar-se visível a sua apetência para as questões relacionadas com os números. Falando da sua experiência desse ano no PFCM dispõe- se entusiasticamente a partilhar comigo o portefólio que realizou na altura referindo:

O meu portefólio foi todo baseado na noção de número, não foi só uma tarefa, todas se canalizavam para o número e a noção de número…estou a lembrar-me das tarefas dos cromos e das diversas formas de contagem. Posso enviar-te o meu portefólio … (EI, 239)

Após a realização da formação e da reflexão realizada após as aulas e no portefólio final, afirma ter-lhe ficado daí uma sensibilidade diferente para a abordagem dos conceitos matemáticos através da apresentação de tarefas desafiadoras que têm por horizonte o trabalho das grandes ideias chave do Programa de Matemática do Ensino Básico:

Sim, ficou-me uma sensibilidade daí… O programa, vou ser sincera, vou lendo aos bocadinhos à medida que vamos introduzindo uma “nova matemática” trabalhando com o programa de matemática, não o li todo, todo sozinha……mas sozinha e isolada sublinhando o que é importante para trabalhar aqui vou fazendo aos poucos à medida que vamos abordando as temáticas… e depois analisamos em conjunto, com a (…) (EI, 251).

A vontade de trabalhar em conjunto é uma constante no seu discurso, parecendo sentir-se mais segura por poder partilhar e discutir a escolha de tarefas e a antecipação de dificuldades e de estratégias de resolução. Refere ser muito importante esse trabalho de pares apoiado na experiência dos anos anteriores: “Vemos o que foi feito, fazemos outras em virtude daquelas, fazemos a nossa planificação, mas sim é sempre um trabalho de conjunto que até à data tem funcionado bem” (EI,163).

116 Beatriz é uma pessoa e uma professora entusiasta, muito positiva, com uma relação muito próxima dos alunos, dos seus pais, encarregados de educação, avós e outros familiares e bastante ambiciosa relativamente aos seus objetivos de trabalho com os diversos interlocutores.

Os minutos que antecediam a aula, os intervalos que Beatriz não aproveitava para falar com os alunos enquanto estes lanchavam, pois podiam ficar a lanchar na sala enquanto ela arrumava a sala ou o armário ou preparava qualquer coisa para o momento que se iria suceder na aula, eram permanentemente ocupados na interação com os outros ou comigo. Não raras eram as vezes que os colegas entravam na sala para partilhar momentos da vida na escola, assim como encarregados de educação que tinha chamado ou que vinham por sua iniciativa, sobretudo, no princípio ou no fim das aulas.

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