4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.4 ENTRE MUDANÇAS E PERMANÊNCIAS: OS IMPACTOS DA CONSTRUÇÃO
4.4.1 Conhecendo a região do entorno: a Rua São Francisco
De acordo com o IPPUC (2012), a rua São Francisco é considerada uma das ruas mais antigas da cidade e está localizada no bairro Centro, que foi o ponto inicial de ocupação da cidade de Curitiba. Nos tempos coloniais era um local “em que se amarravam cavalos em argolas fincadas nas estreitas calçadas de pedra e se penduravam os chapéus nos beirais das casas” (IPPUC, 2012). A capela do Terço e um hospital contíguo originaram os primeiros nomes dados à rua no século XIX, Rua do Terço e Rua do Hospício, sendo que um costume comum era a população batizar os logradouros a partir dos usos, características ou construções significativas existentes no determinado espaço (IPPUC, 2012). Rua do Fogo é o nome mais antigo, datado de 1786, mencionado em documentos da Câmara Municipal
Acredita-se que a designação tenha surgido em virtude das casas de má fama e suas moradoras, concentradas nos poucos quarteirões da rua. Com o passar do tempo, muitas dessas casas transferiram-se para endereços mais distantes do núcleo central, e a São Francisco adentrou o século 20 como uma rua eminentemente comercial, onde se encontrava de tudo um pouco [...] (IPPUC, 2012).
A rua só ganhou sua denominação atual no ano de 1867. A página
“Conhecendo Curitiba”, da Prefeitura Municipal de Curitiba (2015f) mostra o caráter comercial e de serviços que a rua passou a assumir
Neste período, o logradouro já apresenta vários estabelecimentos comerciais e de prestação de serviço. O "Almanach do Paraná" de 1900 relaciona o funcionamento, nas quatro quadras da São Francisco, de um escritório de advocacia, dois bilhares, um botequim, duas barbearias, quatro armarinhos, uma funilaria, dois armazéns, dois hotéis, duas relojoarias, uma fábrica, um escritório comercial de erva-mate, uma camisaria e loja de calçados, uma serralheria e duas selarias. Ao longo do século XX, outros estabelecimentos passam a atender na tradicional rua, como a Papelaria João Haupt e a Casa de Saúde São Francisco. Ali também surgem várias pensões para receber os estudantes da Universidade do Paraná.
A figura 63 ilustra a rua na década de 1910, com a vista da rua São Francisco a partir da Rua Riachuelo, na direção da atual Presidente Faria.
Figura 63 – Rua São Francisco vista a partir da Rua Riachuelo sentido Rua Presidente Faria Fonte: Diretoria de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural / Fundação Cultural de Curitiba –
PMCe (2015)
Nos dias de hoje, em meio a construções já mais modernas, a rua ainda conserva seu viés histórico, a partir de algumas edificações da época, de paredes grossas, e da manutenção do calçamento em paralelepípedo, instalado no século XIX. A figura 64 mostra como era a rua são Francisco, ainda antes do processo de revitalização pelo qual ela passou no ano de 2012. A vista agora é da perspectiva da Rua Presidente Faria sentido Rua Riachuelo. Observa-se que se tratava um local de passagem de veículos, mas também de estacionamento. Na esquina, o terreno abandonado contíguo ao prédio.
Figura 64 – Vista da rua São Francisco a partir da Rua Presidente Faria sentido Rua Riachuelo Fonte: Lucilia Guimaraes - IPPUC (2011)
No ano de 2012, a Rua São Francisco passou por um processo de revitalização, juntamente com outras regiões centrais, como parte das obras do Projeto Novo Centro, proposto no plano de Governo 2009/2012. Este projeto tinha como objetivo realizar a revitalização do centro da cidade e estimular a recuperação, conservação e novos usos da área, com foco principal no entorno do antigo Paço Municipal, compreendendo as ruas Riachuelo e São Francisco (IPPUC, 2012).
Antes da execução do projeto foram feitos alguns diagnósticos, sendo que um deles estava relacionado com a identificação dos estabelecimentos instalados na rua, conforme a figura 65.
Figura 65 – Relação dos estabelecimentos instalados no trecho Riachuelo-Presidente Faria da Rua São Francisco
Fonte: IPPUC (2010)
O projeto previa a revitalização da rua São Francisco, que vai da Rua Presidente Faria até a Rua Barão do Serro Azul, sem interferir no seu aspecto histórico. Dessa forma, as ações realizadas, de acordo com o IPPUC (2012), seriam:
As calçadas serão alargadas em aproximadamente 2 metros. Onde as calçadas são em matacão colonial (grandes blocos de basalto preto), será
adicionada uma faixa de 1,2m em piso nivelado, antiderrapante que permitirá acessibilidade.
As calçadas atualmente em lousa serão substituídas pelo mesmo material da Rua Riachuelo, permitindo uma continuidade no calçamento.
O pavimento em paralelepípedos será mantido e passará por correção geométrica e de nivelamento. As pedras serão retiradas e uma nova base será executada para reasseamento do meio-fio e dos paralelepípedos.
Dos tempos em que se amarravam os cavalos, restou uma argola fincada no meio-fio que será recolocada para o novo realinhamento.
A iluminação pública será com postes e arandelas fixadas nas fachadas com alimentação subterrânea, dando continuidade à iluminação existente no Setor Histórico.
O projeto também faz a proposta de pintura das fachadas dos imóveis. Em parceria com um fabricante de tintas, os proprietários terão matéria-prima para renovação de seus imóveis dentro do estudo de cor feito pelo IPPUC.
No final de 2012 as modificações propostas para a rua São Francisco foram finalizadas (Figura 66). Algum tempo depois, entre o período do fim da revitalização e o processo de construção da PBC, o Projeto Arte Urbana – Memórias de Curitiba, coordenado pela ACP, Associação de Comerciantes do Paraná (GAZETA DO POVO, 2013), realizam intervenções nas portas metálicas dos imóveis, nas quais foram realizadas pinturas com a técnica do grafite, com a participação de diversos artistas. Vários desenhos culturais, de símbolos importantes para a cidade ou para a capital foram confeccionados, como forma de preservar a Memória da cidade a partir desta manifestação cultural (Figura 67).
Figura 66 – Rua São Francisco, após revitalização Fonte: Batista (2015)
Figura 67 – Grafites nas portas metálicas dos estabelecimentos da Rua São Francisco após intervenção do projeto Arte Urbana – Memórias de Curitiba
Fonte: Marchiori – Gazeta do Povo (2013)