Conhecendo Buenos Aires
As cidades de Buenos Aires27 e Rio de Janeiro são cidades sem leste. Explico. Em ambas a zona leste é tomada pelas águas. E são distintas as formas que estas limitam suas terras a orientarem-se pelos três pontos cardeais restantes. Em Buenos Aires cabe ao Rio de la Plata pôr água, literalmente, em possíveis interesses de edificação viária ou imobiliária naquela zona. Na cidade carioca é a Baía de Guanabara que limita às zonas sul, norte e oeste os esforços humanos de seu povoamento. Estas diferenças um pouco que anunciam as distintas sociabilidades de suas populações, no que concerne ao uso das cidades. Enquanto a carioca está fundada na utilização das praias – sejam as da Baía, mas sobretudo as do mar, que envolvem o sul e o oeste - os portenhos dão às costas ao rio poluído e se internam nos espaços culturalmente concebidos. As diferenças entre as cidades se acentuam ainda mais dos pontos de vista histórico e sociológico.
Minha intenção nesse capítulo é descrever a cidade portenha que conheci em meu trabalho de campo, expressando meu entendimento sobre ela. Interessa-me construir descritivamente o cenário no qual observei, entre outras coisas, determinadas relações envolvendo o comércio baseado na venda ambulante. Quero marcar de que maneira faço distinção da principal cidade argentina em comparação com o Rio de Janeiro, cidade na qual vivo e desenvolvo pesquisa há alguns anos. E nessa abordagem farei recurso, na medida de meus interesses, às idéias de Ezra Park, autor que concebia a cidade enquanto algo mais que um amontoado de ruas, edifícios, sistemas de transporte e comunicação, sendo fundamentalmente um corpo de costumes e tradições que comunicam sentimentos e atitudes das pessoas que nela vivem, organizadas a partir dos processos vitais que as envolvem (Ezra Park, 1976: 16). Tanto quanto possível pontuarei minha descrição através de comparações com a cidade carioca, com especial atenção às relações que têm essas metrópoles com a região de seus entornos, os chamados conurbanos. Espero que o recurso às analogias e contrastes contribua para
27A capital federal da República Argentina está situada no hemisfério sul da América, a 34º 36' de latitude sul e 58º 26' de longitude oeste; a cidade se estende sobre um terreno plano na margem à oeste do Rio La Plata de 19,4 quilômetros de norte a sul e 17,9 km de leste à oeste. Tem, portanto, cerca de 250 km2 .Sobre demais características geográficas ver INDEC: www.indec.gov.ar. Sobre a história da fundação de Buenos Aires ver. Ref: http://imeviolao.googlepages.com/historia-buenos-aires.html (27/5/2009).
melhor explicitar meus argumentos.
Já durante meu trabalho de campo, naquela que abriga o distrito federal argentino, percebia que a organização material da cidade tinha uma maneira muito particular de interagir com aquilo que, para manter o recurso a Ezra Park, poderia ser entendido enquanto uma organização moral da mesma. O problema é que falar da organização moral de uma cidade é fundamentalmente um recurso para fazer alusão às regras de conduta e comportamento sistematizadas para mais além de termos legais. A sociedade portenha, na contemporaneidade, trata-se de uma reunião complexa de pessoas que professam variadas religiões ou partilham diferentes credos institucionais, as quais são originárias de múltiplas regiões da Argentina, como também de distintas partes do mundo. Assim, não me parece possível referir-me à organização da cidade fundamentada em uma moralidade, ou seja, na primazia do conjunto de regras consideradas válidas por apenas um grupo social. Antes, parece-me que a disposição da cidade baseia-se em um arranjo de normas de convivência entre distintas concepções morais, ainda que não sejam desprezíveis os movimentos que determinados grupos fazem para impor seus códigos aos demais. Esta ordem de conflitos, como pude observar, não é capaz de impor um caráter homogêneo à cidade, sendo ela um
caleidoscópio de cores, sons, perfumes, práticas e ações discursivas. É bem verdade que
a planta da cidade fixa os limites e o caráter das construções físicas em seu interior. Todavia, os gostos e conveniências pessoais, os interesses vocacionais e econômicos tendem a segregar e classificar as populações, comandando as formas de ocupação e utilização dos domínios da cidade. Dessa forma se regem os ritmos de extensão do seu mercado, processo vital para uma maior complexificação da divisão social do trabalho (Ezra Park, op.cit: 37).
Esses processos, no entanto, podem ser mitigados, influenciados pelas estruturas de transportes e comunicações. Estas, ainda que sejam fontes primárias na organização ecológica da cidade, tendem contemporaneamente a produzir alterações contínuas em seus critérios classificatórios, na medida em que a existência de distintas concepções de espaço e tempo por parte de pessoas e grupos tende a ressignificar os valores conferidos às localidades e suas formas de ocupação. Particular atenção dispenso a esse aspecto, pois me parece que é na observação das formas de agir e pensar, em função dessas representações sobre tais dimensões, que se pode entender os contrastes marcantes entre
as formas de organizar os fluxos da vida social em cada uma das cidades que pesquiso e sobre as quais reflito o desenvolvimento da chamada venda ambulante.
Um outro ponto que me interessa destacar em relação a Buenos Aires é seu caráter de pólo de atração de grandes correntes migratórias, de distintos interesses econômicos, políticos e ideológicos (Velho, 1976: 10). Centro irradiador de uma concepção urbana e cosmopolita, que transborda desde seu epicentro original, “a praça de mercado em volta da qual foi erigida” (Ezra Park, op. cit: 36), preenchendo todos os recantos da cidade, como também fundando as demais regiões que constituem a chamada Grande Buenos Aires28. E isso se estabelece na medida em que não só novas conveniências de comércio surgiram ao longo das décadas, mas, sobretudo, pela complexificação da sua organização econômica, que exigiu a multiplicação de ocupações e profissões à medida que aumentou a densidade populacional da mesma (Wirth, 1976: 102), como também em função de sua integração a um mercado mais amplo, seja em termos nacionais ou mundiais.
A cidade neste texto é fundamentalmente o lugar onde se erigem e se deslocam os mercados, em função das conveniências e interesses das pessoas por se estabelecerem em seus domínios. E o mercado, como síntese da vida urbana, das crises inerentes à existência urbana é, por isso mesmo, lugar das possibilidades, das oportunidades; onde os desafios são lançados e vividos nas lutas cotidianas por aquisição de alguma estabilidade – valor que não está dado, mas se constrói - por parte dos sujeitos e grupos aos quais estão vinculados. Desafios que são vividos intensamente e, se vencidos ou perdidos, são comemorados ou lamentados de maneira efêmera. Afinal, a dinâmica da vida social impõe que em um momento mais adiante, frente à assunção de novos riscos, às vezes pelos mesmos atores, outras por distintos sujeitos, a vida prossiga. E assim forja-se esse conhecimento acumulado que é a cidade e as trocas/mudanças que se processam em seu interior.
Aspectos materiais e físicos na composição de uma grande cidade
Já na primeira vez que avistei Buenos Aires desde a janela do avião, enquanto sobrevoava o Rio de la Plata, sua topografia plana chamou-me a atenção. A imagem
28 Em certa medida, essa perspectiva pode ser também aplicada ao Rio de Janeiro, cidade que também atraiu pessoas das mais diferentes regiões do mundo e, principalmente, do enorme território nacional brasileiro.
captada pelos olhos contrastava com a da mente, onde até então morros e elevações eram os únicos leitos possíveis para acomodar cidades, como acontece com o Rio de Janeiro. Mais tarde, quando voltei ao Rio, realizaria operação inversa, fazendo com que Buenos Aires se tornasse uma recordação, frente às imagens captadas por minha retina no Rio de Janeiro. No entanto, era a primeira vez que eu a observava comparadamente a uma outra cidade. O que não é o mesmo olhar. Esta comparação de imagens suscitaria em mim a composição de representações acerca dos imaginários societários por trás dessas composições. A previsibilidade estaria para Buenos Aires e suas quadrículas, por exemplo, assim como o traçado incerto da cidade carioca ensejaria certa inclinação para o inexcrutável.
Vista aérea da Cidade de Buenos Aires. Destaque para seu aspecto quadriculado
Da mesma forma, o deslocamento entre o Aeroporto de Ezeiza, no chamado conurbano bonaerense29, e a capital federal argentina, permitira-me perceber o caráter dominante de planície que se estende a toda Grande Buenos Aires. Nestas acomodam-se uma infinidade de quadras construídas tal qual um conjunto de imensos tabuleiros de xadrez,
29 O Conurbano, também conhecida como Gran Buenos Aires é a Região Metropolitana que circunda Buenos Aires. É constituída por 25 municípios, além de incluir a cidade portenha: Almirante Brown, Avellaneda, Berazategui, Esteban Echeverría, Ezeiza, Florencio Varela, General San Martín, Hurlingham, Ituzaingó, José C. Paz, La Matanza, Lanus, Lomas de Zamora, Malvinas Argentinas, Merlo, Moreno, Morón, Quilmes, San Fernando, San Isidro, San Miguel, Tigre, Tres de Febrero y Vicente López. Nestes municípios, segundo o INDEC, vivem cerca de 12 milhoes de pessoas, cerca de 24% da população argentina, em uma área de 3.630 km2. Cf.: http://www.indec.gov.ar. Mais adiante, no quinto capítulo, aprofundo um pouco mais sobre minhas percepções acerca dessa relação entre a capital federal e demais cidades na chamada Gran Buenos Aires
nos quais jogam gerações de argentinos30. Posteriormente, à medida em que se tornaram freqüentes as viagens entre os dois países, como também pelo interior de Buenos Aires, outros detalhes fui incorporando à minha percepção sobre aquela região que era considerada a mais desenvolvida da Argentina31.
Entre o chamado conurbano e a capital argentina, à beira das estradas, via de regra, é possível perceber casas, prédios de variadas dimensões, galpões, fábricas abandonadas, entre outras construções que, vistas à meia distância, constituem as cidades vizinhas à capital, os chamados partidos. À medida que se tornam mais complexas arquitetonicamente, parecem sussurrar a proximidade com a cidade de Buenos Aires, que eu sempre ouvira ser representada como uma das mais modernas do continente sul- americano. Neste movimento, particular atenção me despertou a existência de casas feitas de placas de papelão ou de madeira, circundados por cercados ocasionais, estes últimos formados por tramados de ferro, portas de automóveis, arames lisos, entre outras formas de se encerrar formas íntimas de vida precária. Aqui também as favelas – as chamadas villas de emergencia - são planas em suas formas de ocupação popular do solo.
Essa designação de emergência para essas formas de ocupação me estimularam a pensar na sua caracterização ideal enquanto uma efemeridade. As villas de emergencia, segundo Cravino (2001), teriam surgido em 1930 enquanto forma de moradia popular precária, no marco de intensas migrações internas, no contexto de industrialização substitutiva das importações e, portanto, no quadro de decomposição da chamada economia rural que caracterizava o interior argentino. Ao longo das décadas, os estratos sociais conterrâneos continuaram a chegar em Buenos Aires, ora ampliando os espaços requeridos, ora se estabelecendo de forma menos precarizada na cidade. Contudo, eram acompanhados de estratos migrantes dos países limítrofes – particularmente Bolívia e Paraguai - que também encontraram nessas localidades suas primeiras oportunidades de
30 Segundo Ferreras (2006), o aspecto quadriculado da cidade de Buenos Aires, que se estende para as cidades do chamado conurbano, foi introduzido por Juan de Garay em 1534. Ainda que tenham sido múltiplas as políticas públicas de urbanização de Buenos Aires, com conseqüências do ponto de vista imobiliário, a manutenção da quadrícula sempre foi uma exigência das autoridades portenhas e bonaerenses.
31 Desde suas origens enquanto capital do vice-reino espanhol, em 1776, Buenos Aires vivenciou um forte desenvolvimento econômico que, ao promover uma forte circulação de bens e de pessoas, proporcionou a difusão dos ideais liberais europeus a partir do final do século XVIII. Considerações sobre tal processo histórico podem ser encontradas em Sáenz Quesada (2006).
se fixar nas áreas mais próximas à cidade, criando expectativas mais favoráveis de contratação de suas forças de trabalho32 na capital e adjascências.
À medida que passou o tempo, percebi que entre a cidade e o conurbano essas formas populares de se viver respondem a critérios diferentes de organização das moradias. As
villas são predominantes na capital, ocupando terrenos estatais; assim, parecem-se mais
com as favelas cariocas onde suas vielas estreitas não permitem a circulação de automóveis. Os assentamentos típicos do conurbano geralmente ocupam área privada; as casas são dispostas em quadras, na busca de reproduzir o tipico quarteirão quadriculado dominante em toda aquela região. Assim, enquanto o primeiro tipo parece uma forma emergente e transitória de estabelecer-se na cidade, a segunda já se apresenta como uma forma mais duradoura de estabelecimento de pessoas, em suas estratégias de se localizarem naquela região onde eram mais significativas as possibilidades de trabalho, como também os recursos urbanos para prover demandas existentes por educação, saúde e lazer.
Neste trajeto, sempre me pareceu um espetáculo particular não ver uma montanha sequer desde a janela do automóvel, do ônibus ou do trem. Igualmente córregos incidentais ou trechos de rio não impõem fraturas ao leito de terra, diferentemente do que se pode observar na cidade em que nasci. Pensava que era nessa particularidade geográfica que residia uma característica da cidade portenha – que se estendia ao conurbano, conforme descobri com o tempo – a qual me fascina desde o primeiro momento: a simetria na numeração das quadras. Uma após a outra, elas são numeradas de 100 em 100 números; desta forma as ruas, paralelas umas às outras, sempre tem numerações correspondentes. Essa característica possibilita que um portenho, como percebi, possa desenvolver a memorização do mapa da cidade de forma a bem orientar- se em seu interior.
Um mergulho na cidade
Uma vez que deixava a auto-pista Riccieri, que liga Ezeiza à Cidade de Buenos Aires, o deslocamento até minha casa se constituía de um trajeto que formava um ângulo reto entre a Avenida Entre Ríos e a avenida Las Heras. Neste trajeto, deslizando entre
prédios novos e antigos, grandes e pequenos, que servem como residências, repartições públicas e estabelecimentos comerciais, percebi a combinação de concreto, ferro e vidro que caracterizam a bela cidade de Buenos Aires. A Avenida Entre Ríos, após cruzar a Avenida Rivadavia, transforma-se em Avenida Callao. Com o tempo descobri que Rivadavia tem essa capacidade de alterar os nomes e numerações das ruas e demais avenidas que cruzam seu caminho33, enquanto ela corre caudalosamente pela cidade até desaguar sua multidão de carros, ônibus, caminhões, motos e pessoas em localidades a oeste do conurbano bonaerense. Mais algumas quadras adiante, no cruzamento com a Avenida General Las Heras, foi onde fiquei hospedado.
Com o passar do tempo, acabei por acostumar-me com os comentários das pessoas que vim a conhecer entre agosto de 2007 e fevereiro de 2008 sobre o significado social de meu endereço. Afinal, fazia parte do chamado Barrio Norte34 que, como aprendi, tem uma representação análoga à zona sul de minha cidade. É ali que reside parte dos estratos mais bem estabelecidos da sociedade portenha35. Numa inversão completa com relação ao Rio, os bairros da zona norte opõem-se aos da zona sul em função de sua
33 Em Rivadavia está o marco zero de todas as ruas e avenidas que cortam-na perpendicularmente, fazendo com que à direita e à esquerda elas sigam paralelamente, quadra por quadra, guardando equivalência na numeração. Assim, se na décima quadra os imóveis são organizados de 900 a 1000, nas quadras perpendiculares a ela se dará a mesma coisa. Com o tempo, como pude perceber, o habitante da cidade passa a ter facilmente o mapa registrado em sua mente, sabendo não só a distância de onde está até um certo ponto, mas também os tempos que podem ser feitos por um táxi em um horário de trânsito livre e, em alguns casos, até os ônibus que passam pela localidade.
34 Barrio Norte é uma zona da cidade de Buenos Aires conhecida com este nome porque se encontra ao norte da zona central da cidade. Uma referência nesse sentido pode ser o monumento do Obelisco, localizado no meio da Avenida 9 de Julio, em seu cruzamento com a avenida Corrientes. É região composta por setores de vários bairros como Recoleta, Retiro, Balvanera e Palermo. Pode-se situá-lo tomando como limites as avenidas Córdoba, 9 de Julio, Las Heras e Coronel Diaz, sendo a Avenida Santa Fe seu principal eixo.
35 Os portenhos gozam de uma identidade nacional que, segundo minha percepção, pode ser considerada por outros núcleos identitários dentro da Argentina como pouco positiva. Nesse sentindo, e ainda segundo minha percepção, difere daquela que são representadas sobre os cariocas por parte da maioria das identidades regionais brasileiras. Os portenhos podem ser estigmatizados, segundo alguns discursos, por serem da capital e, portanto, “querer tudo só para eles”. É o que costumavam dizer para mim, por exemplo, pessoas que vivem nas cidades vizinhas à capital, no chamado conurbano bonaerense. Também há construções que os critica negativamente por uma suposta auto-representação enquanto europeus. Dessa forma, se julgariam superiores, em contraposição ao restante atrasado do país onde se pode observar uma maior predominância de miscigenação entre colonizadores europeus pobres e povos indígenas originários. A identidade carioca, segundo minha experiência, não é vista de forma tão negativa entre os brasileiros. Ainda que não seja vista unanimemente de forma positiva, costuma-se representar as pessoas que nascem no Rio de Janeiro enquanto alegres, de bem com a vida e, em certa medida, alheios a formas repressivas de ordenamento da vida social. Um exemplo desse tipo de representação é a música da cantora gaúcha Adriana Calcanhoto, onde ela declama “ Cariocas são bonitos /cariocas são bacanas/cariocas são sacanas /cariocas são dourados/cariocas são modernos/cariocas são espertos/cariocas são diretos /cariocas não gostam de dias nublados/Cariocas nascem bambas /cariocas nascem craques /cariocas têm sotaque /cariocas são alegres /cariocas são atentos /cariocas são tão sexys /cariocas são tão claros /cariocas não gostam de sinal fechado”.
melhor infraestrutura urbana. Minha localização nas proximidades do cruzamento entre as avenidas Las Heras e Callao permitiu-me reconhecer as principais características da cidade partindo de um bairro de classe média alta36.
Em Buenos Aires a proximidade com o Porto de Buenos Aires, mas também o contorno do Rio La Plata, foi sempre fator determinante para distinguir os melhores acomodados em termos sócio-econômicos. No Rio de Janeiro, distintamente, à medida que os setores populares se tornaram hegemônicos na ocupação das áreas próximas ao porto - nos bairros da Saúde e São Cristóvão, por exemplo - os setores mais bem estabelecidos buscaram refugiar-se próximo ao mar, tão logo as tecnologias disponíveis contribuíssem para a superação dos inúmeros obstáculos naturais37. Ao longo do século XX esta opção acabaria por criar as condições para que se verificasse no bairro de Copacabana aquilo que Gilberto Velho denominou por uma Utopia Urbana (1978), que seria a vinculação de estratos sociais diferenciados a uma representação cosmopolita de se viver no Rio. Se para os cariocas isso é absolutamente distintivo, em termos de status, no caso portenho morar na zona norte parece ter significado diferente, ainda que seja considerada uma região atrativa dentro de uma perspectiva turística. Morar ali, na percepção de muitos com quem convivi naqueles meses, seria um privilégio em função da historicidade e da tradição, e não em função de uma representação de um estilo de vida “moderno”.
É possível que os prédios de distintos estilos arquitetônicos, perfilados nas amplas avenidas que servem o bairro, como também em suas estreitas ruas, constituam a imagem que informa a maioria dessas representações. Mas, com o passar do tempo,