CAPÍTULO 6 EXPECTATIVAS DE PARTICIPAÇÃO ATIVA DAS GESTANTES E
6.2 Selecionando o tipo de atenção obstétrica para a condução do pré-natal e
6.3.4 Conhecendo e usufruindo seus direitos como cidadãos
Para as gestantes e os acompanhantes envolvidos nessa pesquisa, os usuários das maternidades brasileiras poderão participar durante os partos e nascimentos institucionalizados, a partir das suas próprias expectativas, à medida que conhecerem seus direitos civis, como cidadãos que são.
“É um direito, né (referindo-se a participação durante o parto e o nascimento). Por mais que ele (referindo-se ao profissional médico) resista num primeiro momento, mas aí tem que lembrá-lo que é no nosso corpo que as coisas estão acontecendo (referindo-se ao próprio processo de parto). Por isso é que precisamos conhecer os direitos que temos” (Bromélia).
“As pessoas podem falar que conhecem seus direitos e que isso não pode acontecer (referindo-se a indução ao parto cirúrgico sem indicação)” (Calêndula).
“Eu acho importante discutir sobre os nossos direitos. Do contrário, como vamos reivindicá-los e vivenciar partos satisfatórios?” (Magnólia).
“Acho que ter um parto que respeite as nossas vontades é um direito que temos e muitas vezes não reivindicamos” (Frésia).
Acreditam que a submissão histórica com que os indivíduos vivenciam esse processo se deve, em suma, ao poder atribuído “erroneamente” aos profissionais de saúde e a conseqüente relação vertical que os mesmos estabelecem com as gestantes, negando-se muitas vezes ao diálogo e a decisões compartilhadas. Para Barbosa et al. (2003), se analisado sob essa ótica, o parto e o nascimento
demonstram o plano das relações de poder instituído na sociedade ao longo dos tempos. Ainda, para esses autores, eles são atualmente uma das muitas formas de opressão do “feminino”, pois legitimam socialmente o controle masculino sobre o corpo e a fecundidade. Porém entendem, em consonância com a reflexão feminista, que uma vez que esses indivíduos despertem para o fato de que são cidadãos providos de direitos legais, a participação ativa dos usuários no momento do parto e nascimento acontecerá em maior escala.
“Também vai ter posicionamentos diferentes, né (referindo-se às condutas profissionais), como em qualquer área. Mas podemos analisar os argumentos, porque aí voltamos na questão dos interesses, e de que a gente tem direito de saber os dois lados (referindo-se ao direito de informação)” (Bromélia). “É mesmo, sabe que a gente tem que prestar muita atenção nisso (referindo- se à necessidade de posicionamento junto a equipe de saúde), se não nossos direitos são esquecidos (Zênia).
“Eu acho que nós temos esse direito de exigir respeito durante o parto” (Flox). “Nós temos direito a informação, seja na rede pública ou privada. E é claro, de escolher a forma que seremos atendidos também. É uma questão de reivindicar” (Flox).
Nesse sentido, os principais direitos discutidos pelo Grupo estiveram relacionados ao fórum legal, como a licença-maternidade e as facilidades oferecidas atualmente às trabalhadoras que estão amamentando e o direito a um acompanhante durante todo o período de internação hospitalar. Quanto a este último, concordaram que, além de ser um direito assegurado por lei em nosso país, a presença de uma pessoa “conhecida” é mais uma garantia de vivenciar partos e nascimentos humanizados.
“Eu vou querer ter meu acompanhante sempre comigo. Acho que vai me ajudar a decidir as coisas” (Prímula).
“Eu estou tranqüila, sabe! Até pelo fato de ele (o acompanhante) ter ido comigo na maternidade (referindo-se a visita), de ele ter assistido o vídeo (referindo-se ao vídeo de parto vaginal assistido durante a 5ª oficina), de eu ficar podendo contar com ele (referindo-se ao direito a um acompanhante), que eu não sei como eu vou estar no dia” (Prímula).
“Eu espero que possa ter o acompanhante que tenho direito, que ele esteja presente, que cuide de mim, que ele vá acompanhar ou fazer toda a limpeza do bebê” (Calêndula).
Acreditam que o diálogo prévio e a construção do conhecimento vivenciado por ambos (gestantes e acompanhantes), durante todo o período pré-natal, resultará
em uma “sintonia” importante para a participação no momento do parto e nascimento institucionalizado. Consideram que além de representar a mulher enquanto “porta- voz” para as decisões necessárias nos momentos em que estiver com dor ou outra expressão que lhe impeça de tomar decisões, esse acompanhante poderá minimizar-lhe o desconforto, uma vez que a conhece e construiu junto com ela um “planejamento” para as situações a serem vivenciadas. Nesse sentido, Brüggemann, Papinelli e Osis (2005) apontam para as evidências científicas de redução das intervenções durante os “partos acompanhados”.
Porém, ao refletirem coletivamente, questionam se o direito ao acompanhante de escolha da mulher (garantido em Lei Federal) é realmente de sua escolha.
“A mesma coisa é em relação à permanência do acompanhante durante o parto. Parece que os hospitais que aceitam, querem alguém preparado para ajudar. Aí nesse contexto se eu escolher uma criança ou a minha avó, aposto que não vai poder. Essa é a autonomia que temos? Temos ou não direito de escolher?” ( Angélica)).
Para Hotimsky e Alvarenga (2002), na maioria das maternidades brasileiras, as mulheres não são consultadas quanto às suas preferências em relação ao acompanhante para o momento do parto, ficando essa decisão na esfera profissional. Ainda, para essas autoras, quando os profissionais elegem o acompanhante definido como “ideal” para o momento, a partir das suas expectativas, podem intervir nos valores e formas de organização familiar (considerando-se as mais variadas formas de se denominar família). Brüggemann, Papinelli e Osis (2005) acreditam que essas questões demonstram que ainda há um longo caminho a ser percorrido para que as escolhas das mulheres e homens que vivenciam o processo do nascimento sejam respeitadas e que essa distância ganha proporções ainda maiores com a resistência de muitos profissionais.
Ao provocarem tais questionamentos, os participantes concluem que não são apenas os direitos das mulheres que foram construídos a partir de um processo autoritário (considerando que elas não só perderam o controle sobre seus corpos, como não conseguem escolher quem assistirá a isso), mas percebem que os homens-pais são igualmente excluídos do processo de decisão, uma vez que não reconhecem direitos que lhes permitam exercer a paternidade plenamente.
“A legislação fala a respeito do direito da mãe. E o pai [...] os programas de pré-natal atendem as mães, nunca os pais [...] e a saúde do homem não é importante?” (Flox).
“Eu acho que esse é um passo que a gente vai ter que conquistar no futuro (referindo-se aos serviços que ainda não aceitam acompanhantes homens), porque até então a gente tem essa cultura de aceitar as coisas impostas. Nós também temos o direito de participar como maridos. Eu acho que é um direito da família participar do parto como um todo. Acho que pode ser complicado, mas é um direito nosso” (Flox).
Ao interpretarem a privação de direitos dos homens e mulheres que vivenciam o processo do nascimento e de ambos enquanto entidade, os participantes dessa pesquisa nos remetem as disposições e dilemas do “casal grávido”. Para Salem (2007) o “casal grávido” é uma “experiência sintetizadora”, formada por conotações psicologizantes e libertárias, ancoradas em dois sentidos principais: a participação paterna efetiva em todo o processo e a busca pelo natural. Assim, a busca das gestantes e acompanhantes pelo conhecimento dos seus direitos e de formas de usufruí-los pode estar vinculada à construção ética, moral e libertária do “casal grávido”, fortemente valorizado por ativistas do Movimento no “resgate” do processo do nascimento como um evento fisiológico e social. Nesse sentido, Hotimsky e Alvarenga (2002) chamam a atenção para o fato de que essa construção pode, ao contrário do que aparentemente propõem (fortalecer os sujeitos para exercerem o direito do protagonismo do processo), controlar e regular o cenário do parto e do nascimento (quando estabelecem a relação do nascimento com o casal tradicionalmente aceito pelas premissas sociais), contrariando a própria noção de direitos reprodutivos.
Porém, mesmo que tais indagações não aconteçam na maioria das maternidades brasileiras, os participantes desta pesquisa entendem que à medida que se reconhecem como sujeitos críticos e reflexivos, refletem sobre o parto em si, reconhecem as intencionalidades dos produtos e serviços que lhes são oferecidos, conhecem e usufruem seus direitos de cidadãos e conseguem agir como protagonistas e em co-responsabilidade com a equipe, poderão participar dos partos e nascimentos hospitalares, tornando-os humanizados a partir das suas expectativas.
6.4 NEGOCIANDO E DIALOGANDO COM OS PROFISSIONAIS DE SAÚDE