• Nenhum resultado encontrado

4 A LINGUAGEM DOCUMENTÁRIA COMO INSTRUMENTO MEDIADOR

4.1 Conhecendo as Linguagens Documentárias

Uma vez atuando como instrumento comunicador e mediador da recuperação da informação documentária, a linguagem documentária demonstra a sua finalidade prática ao viabilizar a obtenção de resultados precisos e relevantes que atendam às necessidades de buscas dos usuários/pesquisadores.

Porém, uma linguagem documentária só pode representar a informação contida nos documentos e promover sua recuperação se for constituída com base nas diretrizes propostas para sua construção.

Segundo Lancaster (2002), são dois os objetivos do controle do vocabulário utilizado em um sistema de recuperação de informação: o primeiro é o de facilitar a representação consistente dos assuntos por parte dos indexadores e usuários, evitando a dispersão da informação. O controle é feito por meio do agrupamento dos sinônimos e quase-sinônimos, com a distinção dos homógrafos e com a reunião dos termos que possuem relações de significação mais próximas. O segundo objetivo é o de facilitar a realização de buscas amplas sobre um assunto, atrelando os termos com relações paradigmáticas17 ou sintagmáticas18.

17

Relações paradigmáticas, são “o conjunto de signos que mantêm entre si uma relação virtual de substitualidade [...] tidas genericamente como relações associativas”. (TÁLAMO, M. de F. G. M.

Linguagem documentária. São Paulo: APB, 1997. p. 6). 18

“Relações sintagmáticas são toda combinação da cadeia linear [...] respondendo pela combinação dos signos efetivamente presentes numa cadeia verbal, falada ou escrita”. (TÁLAMO, M. de F. G. M.

Essas relações, também definidas como relações lógico-semânticas, devem estar explícitas em uma linguagem documentária e podem ser divididas em três tipos: relação de equivalência, hierárquica e não-hierárquica

Segundo Cintra et al. (2002, p. 51), “As relações hierárquicas são aquelas que se definem entre noções subordinadas em um ou vários níveis [...]”, ou seja, “são aquelas que ocorrem entre termos de um conjunto, onde cada termo é superior ao termo seguinte, por uma característica de natureza normativa”.

A hierarquização de termos permite realizar uma indexação muito mais consistente e condizente com as necessidades de recuperação do usuário. A elaboração de uma estratégia de busca posicionando-se os termos mais genéricos e/ou mais específicos permite a obtenção de respostas mais satisfatórias em relação às necessidades de pesquisas. Os termos associados permitem ampliar as estratégias de busca, no sentido de a linguagem disponibilizar termos que estão relacionados com outros, isto é, um termo passa a lembrar outro, favorecendo a recuperação da informação.

Quanto às tipologias das linguagens documentárias, os estudiosos da área de Organização da Informação apresentam diversas formas e critérios para defini-las.

Para Guimarães (1990), as linguagens documentárias podem ser classificadas (ou hierárquicas) e alfabéticas, quanto à forma de apresentação dos conceitos; e, sob o aspecto da coordenação, elas podem ser pré-coordenadas ou pós-coordenadas.

Gil Urdiciain (1996) apresenta os critérios de controle – livres e controlados -, coordenação dos termos – pré-coordenados e pós-coordenados - e o

de estrutura – hierárquica, combinatória e sintática para definir as tipologias das linguagens documentárias.

Segundo Lancaster (2002), a estrutura de um vocabulário controlado deverá consistir de duas partes: uma organização sistemática dos termos e uma lista alfabética desses termos. Essas partes poderão ser separadas ou totalmente integradas. Quanto ao critério de coordenação (combinação), a linguagem se apresenta com termos pré-coordenados ou pós-coordenados.

Independentemente das tipologias das linguagens documentárias apresentadas na literatura, verifica-se que os autores têm em comum a definição dos critérios de estrutura como as linguagens hierárquicas e alfabéticas, e de coordenação como as pré-coordenadas e pós-coordenadas.

Assim, as linguagens documentárias hierárquicas os assuntos relacionados por superordenação e subordinação. São linguagens hierárquicas típicas a Classificação Decimal de Dewey (CDD), a Classificação Decimal Universal (CDU), a Classificação de Dois Pontos, a Classificação da Biblioteca do Congresso (Library of Congress Classification) a Classificação de Black (Black’s Classification for Dental Literature), entre outras.

De acordo com Guarido (2001, p. 8), as linguagens documentárioas hierárquicas apresentam

“[...] uma distribuição sistemática de conceitos em diversas categorias ou classes, de tal maneira, que cada assunto tem um lugar pré-definido. Trata- se de uma linguagem codificada de forma numérica, alfabética ou alfanumérica que pretende ser a descrição sintética do conteúdo dos documentos. Sua utilização é habitual em Unidades de Informação, por seu caráter hierárquico”.

Quanto às linguagens documentárias alfabéticas, estas apresentam os seus termos ordenados alfabeticamente, como nas listas de cabeçalhos de

assuntos, nos tesauros e no Vocabulário Controlado DeCS, objeto de estudo desta pesquisa.

As listas de cabeçalhos de assuntos são linguagens alfabéticas que apresentam uma gramática bem estruturada, com um rígido controle de sinônimos, quase-sinônimos e homógrafos. Possui regras específicas para as formas de entrada dos cabeçalhos, uso de abreviaturas e, geralmente, arrolam termos representativos de todas as áreas do conhecimento.

Nessas listas, a representação dos cabeçalhos indiretos são feitos por meio do uso de traço, vírgula e parênteses, sendo as mais utilizadas e mais conhecidas a Sears List of Subject Headings (Sears) e a Library of Congress Subject

Headings (LCSH).

A LCSH, embora seja considerada uma linguagem pré-coordenada, apresenta atualmente os termos em uma estrutura lógica-semântica de relações hierárquicas, como os tesauros.

Com relação aos tesauros, essas são linguagens de estrutura combinatória, de caráter especializado, cujas unidades são denominadas descritores.

Segundo Fujita (1998, p., 109),

como elemento fundamental da estrutura de tesauros, as relações hierárquicas são elaboradas a partir de um termo que denomina uma categoria ou classes de termos. [...] Isto significa que os termos de um tesauro são classificados segundo uma ordem hierárquica existente com a finalidade de oferecer uma visão geral do assunto.

Os tesauros se compõem de uma base léxica (descritores e não- descritores) estruturada em relações hierárquicas (termos genéricos e específicos), não-hierárquicas (associativas – termos relacionados) e de equivalência (não- descritores – sinônimos ou quase-sinônimos).

A relação hierárquica baseia-se em níveis de superordenação, que representa uma categoria, classe ou o todo, e, em nível de subordinação, seus membros ou partes, representados pelas abreviaturas TG e TE, respectivamente. (AUSTIN; DALE, 1993).

Assim, as relações hierárquicas, conforme demonstrado nas figuras 1 e 2, podem ser estabelecidas de duas formas: as relações genéricas, isto é, de gênero/espécie ou coisa/tipo – indicam que o conceito expresso na categoria mais específica (espécie/tipo) é parte do conceito da categoria mais genérica (gênero/coisa). Já nas relações partitivas, isto é, todo/parte, essas indicam que “[...] o conceito da parte depende do conceito do todo e não pode ser definido previamente à definição do conceito do todo”. (CINTRA et al., 2002, p. 61).

Aparelho de Amplificação Sonora Individual

Aparelho de Amplificação Aparelho de Amplificação

Sonora Individual Analógico Sonora Individual Digital

FIGURA 1 - Relações hierárquicas genéricas de coisa/tipo

Adaptado de: LIMA, V. M. A. de; BOCCATO, V. R. C. et al. Atualização da lista de assuntos USP: compatibilização de linguagens documentárias. Ciência da Informação, Brasília, v. 25, n. 2, p. 179.

Face

Olhos Nariz Boca Orelhas

FIGURA 2 - Relações hierárquicas partitivas

Adaptado de: LIMA, V. M. A. de; BOCCATO, V. R. C. et al. Atualização da lista de assuntos USP: compatibilização de linguagens documentárias. Ciência da Informação, Brasília, v. 25, n. 2, p. 179.

As relações não-hieráquicas, representadas pela abreviatura TR, “[...] indicam a ligação entre os termos que estão em campos semânticos distintos, porém próximos. Cada termo relacionado pode constituir-se no ponto de partida para uma família de termos aparentados”. (ZAVITOSKI, 2001, p. 40).

Essas relações podem ocorrer em duas situações: dentro de uma hierarquia, isto é, os termos podem estar no mesmo nível de relacionamento (termos/elementos coordenados) ou podem se apresentar em relação de dependência recíproca. Neste último caso, essa dependência pode acontecer em níveis seqüenciais como: causa/efeito, coordenação, atividades complementares, entre outros. Pode-se verificar essa última situação por meio do Quadro 1.

Causa/Efeito Som Alto Perda Auditiva

Coordenação Boca Orelhas

Atividades

complementares Ensino Aprendizagem QUADRO 1 – Relações não-hierárquicas

Adaptado de: LIMA, V. M. A. de; BOCCATO, V. R. C. et al. Atualização da lista de assuntos USP: compatibilização de linguagens documentárias. Ciência da Informação, Brasília, v. 25, n. 2, p. 180.

As relações de equivalência, designadas pela abreviatura UP, correspondem à relação entre o termo preferido (descritor) e o não-preferido (não- descritor) onde dois ou mais termos são considerados, para fins de indexação, como referentes ao mesmo conceito” (AUSTIN; DALE, 1993, p. 42).

O não-descritor pode ser um sinônimo (termos com o mesmo significado) em relação ao termo principal – descritor – e um quase-sinônimo (termos geralmente possuidores de significados diferentes na linguagem natural mas, para fins de indexação, são considerados como sinônimos).

Além disso, a linguagem deve também diferenciar os termos homógrafos (homônimos) pois, os termos podem se prestar a mais de uma interpretação - Cadeira (Objeto para sentar), Cadeira (Cátedra) - e reunir termos que possuem uma relação mais próxima entre si.

A estrutura de um tesauro é de natureza lógico-semântica. O conjunto das noções de um determinado domínio (categoria) se apresenta no sentido vertical (relações hierárquicas) as quais se agregam às unidades informacionais que se relacionam horizontalmente (relações não-hierárquicas). Assim, as relações hierárquicas se apresentam como relações lógicas entre os termos, e as não-hierárquicas se associam semanticamente. (ZAVITOSKI, 2001).

As relações lógico-semânticas podem ser exemplificadas dentro da área de Fonoaudiologia, por meio do termo Dislexia, conforme demonstrado na Figura 3:

Termo: Dislexia TG TE NE UP TR Transtornos da Linguagem Dislexia Adquirida

Transtorno cognitivo caracterizado pela habilidade deficiente em compreender palavras ou frases escritas e impressas, apesar da visão estar intacta. Esta condição pode ser decorrente do desenvolvimento ou adquirida. A dislexia do desenvolvimento é marcada por realização de leitura que decai substancialmente abaixo do esperado, dada a idade do indivíduo, medida de inteligência e educação apropriada à idade. O distúrbio da leitura interfere significantemente com as realizações acadêmicas ou com atividades da vida diária que necessitam habilidades de leitura

Dificuldade de Desenvolvimento de Leitura Dislexia de Desenvolvimento

Transtornos da Leitura Alexia

Transtorno do Desenvolvimento da Leitura Transtornos de Aprendizagem

FIGURA 3 - Representação da área de Fonoaudiologia na estrutura de um tesauro.

Fonte: BIREME , 2005.

Dessa maneira, conforme a Figura 419 e também demonstrado no esquema abaixo, as relações lógico-semânticas têm a função de unir os termos entre si, estruturados em relações hierárquicas, não-hierárquicas e de equivalência.

Relação Hierárquica

Transtornos da Linguagem (Termo Genérico – Superordenado) Dislexia Adquirida (Termo Específico – Subordinado)

Relação de Equivalência Alexia

Dificuldade de Desenvolvimento de Leitura Dislexia de Desenvolvimento

Transtorno da Leitura

Transtorno do Desenvolvimento da leitura

Relação Não-Hierárquica

Transtornos de aprendizagem (Termo Relacionado - Associativo)

19

TG = Termo Genérico (BT = Board Term); TE = Termo Específico (NT = Narrow Term); NE = Nota de Escopo (SN = Scope Note); UP = Usado Para (UF = Used Form); TR = Termo Relacionado (RT =

Related Term) Usado Para - (Termos Sinônimos) Usado Para - (Termos Quase- sinônimos)

Diante do exposto, diferentemente das listas de cabeçalhos de assuntos que, por serem linguagens documentárias pré-coordenadas, têm suas unidades formadas por assuntos, os tesauros são estruturas pós-coordenadas constituídas por relações conceituais.

Consultando a literatura, verifica-se que as linguagens documentárias pré-coordenadas são aquelas “[...] nos quais os termos que as compõem se coordenam em um processo prévio à sua utilização” e as linguagens pós-coordenadas “são as que os termos que as compõem se coordenam em processo posterior à sua determinação, por exemplo, no momento de seu estabelecimento ou de seu uso”. (CURRÁS, 1995, p. 81).

Assim, a linguagem pré-coordenada permite a coordenação dos termos no momento da indexação, como os sistemas de classificação, e as listas de cabeçalhos de assuntos e a linguagem pós-coordenada viabilizam a coordenação no momento da recuperação da informação como os tesauros e o Vocabulário Controlado DeCS.

Assim, quando se utiliza uma linguagem pré-coordenada para a representação dos assuntos de um documento, o usuário, no momento da recuperação, terá somente a possibilidade de fazê-lo por uma única forma, isto é, sob a maneira exata que o indexador procedeu à sua representação. No caso de entradas múltiplas, o primeiro termo será o determinante no processo de recuperação da informação.

Exemplificando essa situação, caso o usuário queira realizar uma busca bibliográfica sobre o tema Perda auditiva em crianças portadoras de fissura lábiopalatina, este deverá procurar a informação desejada sob a seguinte representação:

Perda auditiva – Crianças – Fissura Lábiopalatina

Para garantir que a recuperação seja efetivamente concretizada, o indexador deverá dispor de remissivas para possibilitar ao usuário outras alternativas de acesso e recuperação, como:

Crianças – Fissura Lábiopalatina – Perda Auditiva Fissura Lábiopalatina – Perda Auditiva - Crianças

Dessa maneira, teríamos a representação dos termos elaborada da seguinte maneira20

Perda Auditiva – Crianças – Fissura Lábiopalatina X Crianças – Fissura Lábiopalatina – Perda Auditiva X Fissura Lábiopalatina – Perda Auditiva - Crianças

A linguagem documentária pós-coordenada, porém, não se comporta dessa forma. O tema Perda auditiva em crianças portadoras de fissura lábiopalatina terá a sua indexação realizada pelos termos:

Perda Auditiva Criança

Fissura Lábiopalatina

A coordenação dos termos é feita no momento da recuperação, fazendo uso dos operadores booleanos disponíveis no sistema: AND, OR, AND NOT. Exemplo:

Perda auditiva AND Criança AND Fissura Lábiopalatina

Após a exposição sobre as definições, funções, tipologias, estruturas e formas de coordenação das linguagens documentárias, passa-se a contextualizar o Vocabulário Controlado DeCS no capítulo A Linguagem documentária DeCS: análise formal e discussão.

Documentos relacionados