5.3 FATORES INTERFERENTES
5.3.1 Conhecimento anterior
Os professores A, B, C, E, F e G acreditam que o conhecimento anterior interfere na memorização dos exercícios e sequências trabalhados. O professor H diz que não interfere e os professores D e I apresentaram dúvida, o primeiro (D) por nunca ter feito a observação intencionalmente, o segundo (I) por acreditar que o conhecimento anterior possa, dependendo da proposta a ser desenvolvida, atrapalhar o processo.
Logo, o conhecimento anterior se apresenta como fator interferente para seis dos nove
professores entrevistados, que afirmam que “Pessoas que já tem mais vivência em dança têm
o repertório motor mais organizado.” (PROFESSOR A); “Eu acho que a falta de contato com a técnica do balé dificulta muito mais o aprendizado deles aqui na universidade.”
(PROFESSOR E). Outro participante parte da ideia do sequenciamento das disciplinas: se há Dança Clássica I, II, III e assim por diante (até a VI), é correto pensar que o conhecimento anterior é necessário para um processo de ensino-aprendizagem mais eficaz, pois o conhecimento adquirido anteriormente dará suporte aos novos aprendizados, proporcionando o aperfeiçoamento do praticante de dança. O professor G, em resposta à questão 5, reafirma a
importância do conhecimento anterior na prática da dança, como podemos ver: “Então, eu volto
à questão anterior do movimento, de você já saber o movimento, e juntar com outros que você já saiba é mais fácil para memorizar”. Como constatou Hebbinghaus (1885) em seu estudo sobre as medidas da memória, leva-se menos tempo para reaprender algo já visto, ainda que seu grau de dificuldade seja maior que o tempo que se leva para aprender um conteúdo nunca visto anteriormente.
50 O professor D afirmou nunca ter feito esse tipo de análise, por isso não poderia responder ao questionamento, enquanto que os professores H e I responderam que não e que depende, respectivamente. Entretanto, ao analisar suas respostas, é possível inferir que o conhecimento anterior interfere sim na memorização das sequências ou exercícios trabalhados. Vejamos o que o Professor H disse ao responder a questão 4 (você percebe nos seus alunos que o conhecimento anterior dos movimentos é um fator que interfere na memorização das
sequências e/ou exercícios trabalhados?): “Não, a não ser quando ele já é bailarino de alguma
companhia ou de algum grupo e ele vem com vícios de movimentos, que aí é uma questão puramente técnica e não de memória. É mais a execução do movimento que vem com vícios que diferem do que a técnica fala, e como a gente tem essa... Por exemplo, balé clássico, que é onde eu sinto que eles têm maior dificuldade de memorização das sequências, é em função justamente disso, porque no contemporâneo a gente fala ‘rola, levanta, cai, recupera, contrai...’ ou alguma coisa nesse sentido, que eles têm mais contato.” O exemplo trazido pelo professor H aborda conhecimento anterior e confirma que este interfere no processo de memorização de sequências ou exercícios; na dança contemporânea a terminologia é mais próxima do cotidiano do aluno, usa termos que os indivíduos conhecem desde criança, por isso, segundo o Professor H, os alunos demonstram mais facilidade sua. É mais fácil, por exemplo, um aluno que nunca teve contato com a dança executar uma sequência demonstrada ou até mesmo ditada de dança contemporânea do que de dança clássica, porque ele é capaz de reconhecer os movimentos, seja pelo nome ou pela forma. Isso se deve ao conhecimento anterior que em uma existe, por ser mais próxima do cotidiano, e em outra não existe, pela falta de contato com a dança anteriormente. Outro ponto abordado pelo Professor H são os vícios trazidos pelos alunos, principalmente no balé clássico, que diferem do estabelecido pelas técnicas da modalidade, e isso dificulta a memorização de conhecimento novo e até mesmo a correção de conhecimento já existente. Por exemplo, um aluno que aprendeu a execução de uma pirueta utilizando os braços como impulsores e sem a marcação de cabeça, terá dificuldade para aprender motoramente a forma correta do movimento (em que os braços não dão impulso e a cabeça ‘sai’ por último e chega primeiro).
O Professor I, que tinha negado a interferência da vivência na memorização, disse: “(...)
porque ele tem um padrão de movimento e para, digamos, criar um outro mapa, um outro corpo que pense de modo diferente, talvez ele não se dê conta em curto prazo de tempo, talvez ele precise de um tempo maior para reconhecer o seu próprio potencial, distante daquilo que ele já vivenciou.” Quanto à resposta dada pelo Professor I, pode-se entender também que o conhecimento anterior é fator interferente na memorização de um exercício, pois é algo que
51 pode interferir tanto de forma positiva como negativa. Assim como o conhecimento anterior da técnica do balé auxilia um bailarino a iniciar a técnica das pontas no balé, ele também pode atrapalhar esse mesmo bailarino a desenvolver habilidades na dança urbana, por exemplo. Vale dizer que nada disso é uma regra, tratam-se apenas de possibilidades e inferências. A possibilidade de um mesmo indivíduo ser um excelente bailarino clássico e um brilhante dançarino urbano não é nula. Discute-se aqui apenas os fatores que podem ou não influenciar no processo de memorização no ensino-aprendizagem da dança.
Como dito, essa interferência do conhecimento anterior na memorização da prática da dança pode ser tanto positiva quanto negativa. Isso ocorre quando, por exemplo, um aluno condiciona seu corpo e seu repertório motor a um único estilo de dança, o que pode dificultar a prática de outra modalidade ou, ainda, quando aprende de forma incompleta ou incorreta, dificultando a correção e aprendizagem efetiva. Importante lembrar que a memória é um sistema limitado, apesar de extenso, e, quando um indivíduo se dedica exclusivamente a uma prática e esta é constante, seu corpo memorizará aquela atividade e criará um “padrão”. Dependendo do nível de dedicação e exclusividade, a pessoa poderá ter dificuldades para aprender outras modalidades.
Retomando o exemplo do bailarino clássico, que dedicou anos à técnica clássica e decide experimentar a dança do ventre, que apresenta postura e movimentações muito diferentes (uma é mais rígida, enquanto a outra é mais flexível, possui movimentos ondulados e desencaixados) a primeira dificuldade enfrentada será a da postura, pois seu corpo memorizou uma posição
ereta, alongada, com pés en dehor e quadris encaixados e alinhados, enquanto que a dança do
ventre propõe um relaxamento da coluna, desencaixe de quadril e pés, na maioria das vezes, paralelos.
Nas hipóteses desse trabalho, apontou-se que o conhecimento anterior de determinada modalidade ou técnica poderia auxiliar e facilitar o bom desempenho na memorização da mesma. Entretanto, não se pensou que esse fator pudesse dificultar o aprendizado das modalidades que sigam caminhos diferentes. Da mesma forma que o conhecimento anterior do balé poderá provocar dificuldades de memorização em outras modalidades, alguém que venha destas outras também poderá enfrentar dificuldade de memorização nas danças clássicas. Isso ocorre porque o corpo codificou, por muito tempo, uma informação e a fixou como “padrão”. Não é à toa que é possível, na maioria dos casos, perceber apenas no olhar a que modalidade o bailarino possui maior familiaridade.
Nestas situações, analisam-se a reaprendizagem e o reconhecimento, dois dos três tipos de rememoração das medidas da memória. O reconhecimento atua nos casos em que o