1 BREVE RELATO SOBRE A ESCOLHA DO TEMA
4.1 Pressupostos teóricos que norteiam a construção das
4.1.1 Conhecimento, Aptidão, Habilidade e Competência: relações
Cada vez que a sociedade passa a reestruturar suas organizações sociais e os atributos do ser produtivo, novas expressões e termos são enfatizados e, muitas vezes, tornam-se representativos das mudanças. A fase atual não é diferente neste sentido e, por isso, os termos abaixo estão definidos e relacionados ao foco da competência.
Conhecimento
O nascimento da Filosofia, na Grécia, foi caracterizado por questionamentos relacionados ao significado do Ser, mais explicitamente com a
origem e a ordem do mundo (52). Com isso, nasce a “ontologia, isto é,
conhecimento ou saber sobre o ser”, nas palavras de Chauí (52).
Vários filósofos gregos preocuparam-se com o conhecimento. Para Sócrates, conhecer é passar da aparência à essência, da opinião ao conceito, do ponto de vista individual à idéia universal de cada um dos seres e
de cada um dos valores da vida moral e política. Como Sócrates, Platão e Aristóteles buscaram definir formas de se conhecer as diferenças entre o conhecimento verdadeiro e a ilusão (52) . Nesse período, alguns princípios gerais
sobre o conhecimento foram delineados, como a distinção entre o conhecimento sensível (aquele que alcança a mera aparência das coisas) e o conhecimento intelectual (aquele que alcança a essência das coisas); as fontes e formas de conhecimento: sensação, percepção, imaginação, memória, linguagem, raciocínio e intuição intelectual, entre outros.
Com os filósofos modernos, o problema do conhecimento tornou-se crucial, iniciando pelo exame da capacidade humana de conhecer, pela relação entre o pensamento e as coisas, a consciência (interior) e a realidade (exterior), o entendimento e a realidade (52).
Na atualidade, o conhecimento enquanto erudição, sabedoria possui características bastante dinâmicas demarcadas pelo movimento
constante da “desconstrução”. Nas palavras de Demo(17) “o que pode ser
visualizado como novo é a perspectiva de que o conhecimento, em vez de produzir certezas, é marcadamente uma estratégia de as desmontar. Parece ser mais uma habilidade de lidar criativamente com a incerteza, com a qual convive dialeticamente. Já por isso é muito mais um processo interminável de desmonte, do que uma fábrica de produtos duradouros. Sua detergência, pois, não é somente um passo inicial, que toda nova teoria, por exemplo, implica, mas a própria razão maior de ser, porquanto cada teoria nova é feita, não para atingirmos algum porto seguro, mas para navegar em frente”.
O conhecimento está intimamente ligado à competência. Na avaliação de Resende (49) “...quem tem mais conhecimento é, potencialmente, mais competente”, porém poder-se-á perceber, mais adiante, que possuir conhecimento é necessário, porém não suficiente para que as competências existam de fato.
Aptidão
Na definição de Resende (49), aptidão é a “(...) característica ou
recurso inato e desenvolvido. Diz respeito principalmente às características ou atributos físicos/ fisiológicos, mentais ou intelectuais, de personalidade, temperamento ou caráter. Exemplos: resistência física, visão de profundidade, raciocínio analítico, memória”.
Uma inferência possível de ser realizada no cruzamento de aptidão com competência é que uma escolha vocacional compatível com as aptidões do indivíduo poderia talhar-lo com maior eficiência para o desenvolvimento de competências afins.
Habilidade
É um conceito complexo, na medida que se relaciona com a maneira de executar tarefas. Assim, ter condição para algo é aptidão como, por exemplo,
falar, mas falar com eloqüência e objetividade é uma habilidade(49). As
habilidades podem, mais facilmente, ser treinadas e aperfeiçoadas, ao contrário
da aptidão(49). Possuir aptidões e habilidades favorece o exercício das
competências na medida que estamos lidando com talentos natos e com o empenho/ desejo de superação do indivíduo que, seja por experimentação formal ou por vivências cotidianas, potencializam uma “facilidade” herdada.
Competência
Nas palavras de Perrenoud (4), competência é a “capacidade de
agir eficazmente em um determinado tipo de situação, apoiado em conhecimentos, mas sem limitar-se a eles”.
As competências têm sido amplamente discutidas nos âmbitos do trabalho e do ensino, atualmente. Essa discussão expressa, numa abordagem analítica, uma situação de defasagem entre a necessidade de cabeças capazes de articularem teorias e práticas e a existência de cabeças- cheias de conteúdos dissociados e pobremente constituídos.
São muitos os autores de diversas áreas que buscam conceituar as competências e trazê-las para os campos do ensino e do trabalho, dentre eles o sociólogo suiço Philippe Perrenoud, cujas idéias subsidiaram a descriminação das bases conceituais a seguir:
• Competência é a “...capacidade de mobilizar diversos recursos cognitivos para enfrentar um tipo de situações” (4). Neste sentido,
• “1. as competências não são elas mesmas saberes, ‘savoir- faire’ou atitudes, mas mobilizam, integram e orquestram tais ‘recursos’ (4);
• 2. essa mobilização só é pertinente em ‘situação’, sendo
cada situação singular, mesmo que se possa tratá-la em analogia com outras, já encontradas (4);
• 3. o exercício da competência passa por operações mentais complexas, subentendidas por ‘esquemas de pensamento’..., que permitem determinar (mais ou menos consciente e rapidamente) e realizar (de modo mais ou menos eficaz) uma ação relativamente adaptada à situação(4);
• 4. as competências profissionais constroem-se, em formação, mais também ao sabor da ‘navegação’... de uma situação de trabalho à outra...” (4);
• Com relação ao savoir y faire (saber e fazer), Perrenoud(4)
sem estar sempre ou imediatamente associado a um conhecimento procedimental (porém, se corresponder a um poderá tornar-se simplificado e enriquecido); b) também é uma competência, porém esta pode ser mais ampla do que um saber-fazer e estar mais articulada com os conhecimentos formais; c) um saber-fazer pode funcionar como recurso a ser mobilizado por uma ou mais competências de níveis elevados.
• Geralmente, três elementos complementares são necessários para se descrever uma competência: a) relacionar cada uma delas a uma determinada situação, tarefa, problema; b) identificar os recursos cognitivos
utilizados (saberes, técnicas, savoir- faire, atitudes,
competências específicas, esquemas motores, de percepção, de avaliação, antecipação e de decisão; c) a natureza dos esquemas de pensamento que permitiram a associação, a mobilização, o orquestração dos recursos utilizados em situação complexa e em tempo real(4).
• Esses elementos complexos levam a considerar a instabilidade deste terreno, tanto no plano dos conceitos como das ideologias (5).
• As competências constroem-se em função das situações que o indivíduo enfrenta com maior freqüência (5).
• As competências profissionais são privilegiadas, na medida em que as situações de trabalho reproduzem-se dia após dia, em decorrência da rotina e da divisão de tarefas(5).
• “A competência do especialista baseia-se, além da inteligência operativa, em esquemas heurísticos ou analógicos próprios de seu campo, em processos intuitivos,
procedimentos de identificação e resolução de um certo tipo de problemas, que aceleram a mobilização dos conhecimentos pertinentes e subentendem a procura e a elaboração de estratégias de ação apropriadas” (4).
• A perícia nesse processo também supõe “... atitudes e posturas mentais, curiosidade, paixão, busca de significado, desejo de tecer laços, relação com o tempo, maneira de unir intuição e razão, cautela e audácia, que nascem tanto da formação como da experiência” (4).
Essas referências que permeiam a palavra competência e buscam explicá-la e contextualizá-la no âmbito do seu desenvolvimento e da sua aplicabilidade sustentaram a análise do conteúdo das falas dos profissionais entrevistados, na busca da identificação dos referenciais de competências dos diferentes níveis de titulação dos enfermeiros.
Prosseguindo com a intenção de unir a definição com as
expressões da competência no mundo do trabalho e da formação, outros subsídios teóricos foram buscados e o que se tem, a seguir, são construções teóricas vinculadas a essas associações.