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Conhecimento científico e competência narrativa na medicina

No documento Imaginando a vida examinada. (páginas 140-145)

Narratividade como fundamentação para a Ética e como metodologia para a Bioética

3. Conhecimento científico e competência narrativa na medicina

Na epistemologia, geralmente, se distingue entre conhecimento científico, fruto da racionalidade e conhecimento narrativo que tem a sua base na imaginação. Esse último é usado para compreender o sentido de histórias de vida, captando sua significância cognitiva, simbólica e afetiva. Por isso permite uma rica compreensão da singularidade

---José Roque Junges---

de uma pessoa, já que a sua forma de linguagem consente captar a particularidade de uma situação existencial. O conhecimento narrativo lida com experiências singulares, não estando pautado por proposições universais. O conhecimento lógico-científico quer alcançar a universalidade, transcendendo a particularidade, enquanto que o narrativo, ao contrário, quer iluminar e dar conteúdo ao universal, revelando o particular.

Outra característica do discurso narrativo, que o distingue do científico, é a sua intersubjetividade, pois a narração exige alguém que conte uma estória e um outro que a escute. A narratividade é essencialmente relacional, porque demanda um narrador e um ouvinte, um escritor e um leitor. Essa dimensão intersubjetiva aponta para a necessária competência narrativa para produzir conhecimento narrativo, pois, para narrar, é necessário saber e ter competência tanto para contar quanto para ouvir, tanto para escrever quanto para ler. Quem não aprendeu a ouvir estórias contadas por outros, não saberá narrar estórias; quem não aprendeu a lê-las não terá condições de escrevê-las. Essa mútua imbricação entre saber narrar e saber ouvir estórias constitui a competência narrativa, além da capacidade de captar narrativamente as circunstâncias e a particularidade de uma estória.

A narratividade do conhecimento e sua necessária competência tiveram uma grande repercussão e desenvolvimento no que se convencionou chamar de medicina narrativa (CHARON, 2001; 2004; 2006). O crescente desenvolvimento de tecnologias de diagnóstico (exames de laboratório, ressonâncias magnéticas etc.) e de terapêutica (medicina baseada em evidências, algoritmos clínicos etc.) podem levar a pensar que a tradicional anamnese clínica narrativa, que sempre caracterizou o exercício da medicina, não é mais necessária. A medicina baseada em narrativas teria sido superada pela medicina baseada em evidências científicas. As consequências práticas dessa tese são a causa da atual crise no exercício da medicina.

A sofisticação técnica pode fazer os médicos perderem a habilidade para reconhecerem as dificuldades sentidas pelos seus pacientes, para desenvolverem empatia pelo seu sofrimento e para engajarem-se, com coragem e interesse, na busca de uma resposta para a doença. Por isso além do conhecimento científico, os médicos necessitam de competência para ouvir as narrativas de seus pacientes, para compreender honestamente os significados subjetivos implicados na situação clínica e para agir com beneficência para responder às necessidades dos doentes que estão sob o seu cuidado. Essa competência narrativa pode ser definida como estar atento para ouvir, compreender e responder às estórias dos doentes. Essa escuta interessada exige, como contraparte, a capacidade de representar narrativamente com

---José Roque Junges---

fidedignidade, nos prontuários e relatórios clínicos, o que foi ouvido. Em outras palavras, a competência narrativa está baseada em dois polos que se exigem mutuamente: por um lado, a atenção, pois o paciente necessita de alguém que o escute com interesse e, por outro, a representação que reproduz narrativamente, com fidelidade, o que foi ouvido para que o narrador se sinta representado. Por isso, trata-se de uma relação intersubjetiva de confiança em que ambos, médico e paciente, são atores da comunicação narrativa, permitindo ao primeiro agir clinicamente com empatia, reflexividade, profissionalismo e lealdade em favor do segundo (CHARON, 2001; 2004).

A competência narrativa agrega eficiência prática à habilidade clínica do médico, pois enriquece o raciocínio lógico-científico com o raciocínio narrativo, porque, segundo Solomon (2008, p. 411-412), resumindo Charon (2006): incentivar o paciente a narrar a sua situação coleta mais informação do que questionários padronizados sobre os sintomas; ouvir as suas narrativas produz parceria de confiança entre médico e paciente; ajudando narrar o que sente poderá ajudá-lo a encontrar e construir um sentido para sua doença; as narrativas permitem captar a singularidade da situação daquele paciente; e, por outro lado, consentem organizar fatos desconexos numa unidade em vista do diagnóstico; suscitam um pensamento criativo sobre uma situação particular para além de mecanismos gerais e comuns; e as narrativas facilitam aos médicos uma visão crítica de sua prática.

Essa maior eficiência clínica, quando se conjuga raciocínio científico com competência narrativa, demonstra que não se pode opor simplesmente conhecimento lógico-científico e conhecimento narrativo porque eles se exigem mutuamente. Quando uma teoria científica ainda não está reconhecida, o que existem são fatos e hipóteses desconexos que só uma linguagem narrativa consegue expressar e dar-lhe uma unidade a partir da qual poderá emergir uma teoria científica (SOLOMON, 2008).

Por isso a ciência necessita do conhecimento narrativo sobre os dados para os quais ela pretende encontrar uma explicação científica. Essa dicotomia entre os dois conhecimentos e, - pior ainda -, a negação da centralidade da narratividade na clínica, conduz a uma deturpação e a uma corrupção do exercício da medicina, porque se perdem informações importantes para o diagnóstico, não se constrói uma relação de confiança e diminui a eficiência da prática terapêutica. É uma ilusão pensar que, com as evidências científicas, a clínica pode abandonar a anamnese narrativa, adquirindo o status de ciência. Na medicina, o conhecimento científico da fisiologia e da patologia sempre deve andar de mãos dadas com o conhecimento narrativo da particularidade dos casos clínicos. A habilidade científica do médico para o diagnóstico e a terapêutica

---José Roque Junges---

só poderá ter eficácia clínica se for conjugada com uma fina competência narrativa para captar o caso singular desse paciente em concreto.

Considerações finais

A narratividade é uma dimensão essencial da existência humana, enquanto ser de linguagem. A identidade singular de cada ser humano se vai conformando narrativamente, porque é a narração que costura, numa unidade existencial, as mudanças que acontecem no percurso da vida. Por isso, a narratividade é também a base da ética, porque ela permite, por meio da identidade narrativa, apontar o sujeito de uma ação moral prometida e assumida. Essa premissa antropológica pode fazer compreender a importância da narração de casos concretos de conflitos morais para o aprendizado da ética, porque fornece recursos para lidar com o enfrentamento de dilemas no futuro. A narratividade é, igualmente, uma ferramenta central para a análise de casos clínicos ou de pesquisa nos comitês de bioética, já que concede uma maior atenção aos detalhes nos quais se manifesta o cerne da questão moral. Por fim, a competência narrativa é uma exigência para o exercício da medicina, porque conjuga o conhecimento científico com a singularidade do caso clínico particular, permitindo maior eficácia terapêutica

Referências

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---José Roque Junges---

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Pressupostos e implicações éticas da vida

No documento Imaginando a vida examinada. (páginas 140-145)

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