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Parte I – Redes, Parques de Ciência e Tecnologia e o Desenvolvimento Regional

4. A sociedade do conhecimento

4.1. Conhecimento e tecnologia

Tanto o conhecimento como a tecnologia, apresentam-se como conceitos complexos pelo que encontrar uma única definição dos mesmos se mostra como uma árdua tarefa. Assim, parece ser mais eficaz que se exibam as diferentes definições encontradas para cada um e assim tentar chegar a uma noção geral relativa aos conceitos acima mencionados. Além do conhecimento e da tecnologia, é importante que se esclareça também no que consiste a ciência uma vez que esta se encontra interligada a ambos.

O conhecimento, conceito não recente no que diz respeito à discussão sobre o seu significado, era já para Platão aquilo que é necessariamente verdadeiro e não considera crenças ou opiniões. De forma mais genérica, assume-se o conhecimento como um conjunto de informação armazenada, adquirida através da experiência ou de processos de aprendizagem.

Segundo Luísa Oliveira (2008) o debate sobre aquilo que se entende por conhecimento revela que existe uma certa ambiguidade relativa a este termo. Para Machlup (apud Oliveira 2008:39) o problema relativo à definição do termo conhecimento prende-se com a pobreza da

língua inglesa quando comparada com outras línguas, como o francês ou o alemão que possuem dois termos para distinguir conhecimento.

Como se disse anteriormente, é importante que se dê relevância não só à existência de conhecimento mas também à sua produção pelo que deve recorrer-se àquilo que Gibbons et al (1994) definem como os modos de produção do conhecimento. Os autores definiram o que se entende por “modo de produção 1” e “modo de produção 2”, esquematizados no quadro nº1. Quadro nº1 “Vetores de mudança na transformação do saber científico”

Vetores de mudança Produção de conhecimento: Modo 1 Produção de conhecimento: Modo 2 Contexto predominante

de produção de saber Universidade

Mercado (não sendo reduzido à comercialização)12 Via de afirmação e de

legitimação do saber

Interesses e profissionalização da

comunidade académica Não existe ainda Organização do

conhecimento

Em especialidades,

institucionalizadas em disciplinas Transdisciplinar

Característica de base Homogeneidade Heterogeneidade

Organização da produção Organização hierárquica, segundo as normas académicas

Organização não hierárquica, flexível e tipicamente transitória

Controle de qualidade Pelos pares Pelo “mercado”

Produtores de

conhecimento Cientistas Conjunto heterogéneo de “práticos”

Fonte: Luísa Oliveira (2008:48) A estes modos de produção do conhecimento pode ainda acrescentar-se um terceiro, considerado uma combinação entre o modo de produção 1 e o modo de produção 2 e designado por “ciência pós-académica” (Ziman, 2000 apud Oliveira 2008). Pode considerar-se que na “ciência pós-académica” o conhecimento é produzido em conjunto, entre universidades e empresas, não se limitando a apenas um espaço para ser produzido, comercializado ou utilizado.

Pode ainda assumir-se o conhecimento como um recurso cada vez mais essencial em termos de competitividade e desenvolvimento pois o desenvolvimento dos territórios depende em grande parte do desenvolvimento do seu tecido industrial, das empresas e das organizações que nele existem.

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Para Caraça (1993 apud Mateus, 2008:36) a ciência pode ser definida como “um conjunto de conhecimentos organizados sobre os mecanismos de causalidade dos factos observáveis, obtidos através do estudo objetivo dos fenómenos empíricos diretamente aplicáveis à produção, à melhoria ou à utilização de bens e serviços”. Por outras palavras, pode entender-se a ciência como o conjunto de conhecimentos sobre determinado fenómeno e a posterior possibilidade de aplicar esse conhecimento à produção, melhoria ou utilização de bens e serviços. Contudo, não deve reduzir-se a ciência à sua possível utilização em bens e serviços. Segundo o mesmo autor, a ciência também se associa a atividades de investigação e desenvolvimento experimental onde se enquadram “trabalhos criativos prosseguidos de forma sistemática, com vista a ampliar o conjunto dos conhecimentos, incluindo o conhecimento do homem, da cultura e da sociedade (…) ” (Caraça, 1993 apud Mateus, 2008:36).

No que diz respeito à tecnologia, Corti (1997 apud Mateus, 2008:36) define-a como o resultado da existência de conhecimento técnico e organizacional e a utilização deste conhecimento, seja por parte de um indivíduo ou de uma organização, para alcançar objetivos operacionais. Esta definição chama a atenção para algo que já tinha sido mencionado anteriormente: não basta possuir conhecimento, há que saber utilizá-lo.

Laranja e outros (1997) fornecem ainda uma outra definição de tecnologia que parece complementar a anterior. Segundo estes autores “tecnologia é essencialmente conhecimento útil, conhecimento aplicado aos processos de desenvolvimento e produção, colocação no mercado e utilização de bens e serviços. (…) A tecnologia pode ser ainda entendida como um conjunto de métodos e de procedimentos, resultantes quer de conhecimentos científicos, quer de experiências acumuladas” (Laranja, 1997:14 apud Oliveira 2008:50).

A correta leitura das definições aqui reunidas permite compreender a relação existente entre ciência, conhecimento e tecnologia. A ciência, à partida, implica já a existência de conhecimento uma vez que surge como o conjunto de conhecimentos obtidos e utilizados posteriormente, seja em termos de bens e serviços ou associada ao conhecimento sobre o homem e sobre a sociedade. Por outro lado, a tecnologia é também a convergência entre a existência e utilização de conhecimento técnico e organizacional com o intuito de alcançar objetivos operacionais. Em suma, o conhecimento está na “base” tanto da ciência como da tecnologia, proporcionando e impulsionando ambas, através da sua produção, utilização e difusão.

Tem vindo a assumir-se como de extrema relevância não só a posse mas também a correta utilização e difusão de conhecimento adquirido pelo que importa agora compreender no que consistem os processos de transferência de conhecimento e de tecnologia. A terminologia

“transferência de conhecimento” tem origem numa perspetiva neoclássica, sendo assumida como a transferência de qualquer bem ou serviço, como o capital ou outra mercadoria (Oliveira, 2008).

De acordo com a Enteprise Europe Network13 o processo de transferência de tecnologia pode ser entendido como o processo de transferência de propriedade intelectual relativa a um produto. Este processo pode ser distinguido em transferência de tecnologia vertical ou horizontal. No âmbito vertical, é um processo de transferência de atividades de I&D para um ambiente comercial, envolvendo gestão de direito e de propriedade intelectual. No âmbito horizontal, a transferência de tecnologia explica-se como a obtenção de uma determinada tecnologia de um determinado mercado e a transferência da mesma para outro mercado, geralmente menos desenvolvido.

Considerando a definição anterior, conclui-se que a transferência de tecnologia, por implicar transferência de atividades de I&D e também de propriedade intelectual, está intrinsecamente ligada à transferência de conhecimento, pelo que pode dizer-se que tecnologia é indissociável do conhecimento bem como a transferência do primeiro implicar inequivocamente a transferência do segundo.

Segundo Bozeman (2000) e Molas-Gallart et al (2002) (apud Pinto, 2009:71) a transferência de conhecimento apresenta-se como um processo voluntário e ativo de envolvimento entre organismos de investigação, empresas, governos ou a comunidade, que implica à partida benefícios de parte a parte, e de forma a produzir, adquirir, aplicar ou permitir acesso ao conhecimento necessário para melhorar o bem-estar material, humano, social e ambiental.

Hugo Pinto (2012) afirma que a transferência de conhecimento é mais do que o processo de transferir o conhecimento apreendido, está também relacionada com funções que a “ciência académica” deve cumprir na sociedade contemporânea e que, segundo Larsen (2011 apud Pinto, 2012:5) são a criação de novo conhecimento, a contribuição decisiva na resposta a problemas concretos, a dinâmica económica dos territórios e a capacidade inovadora das empresas. Pode ainda dizer-se que a transferência de conhecimento se mostra como um aspeto central na competitividade e coesão territorial uma vez que a transferência de conhecimento efetuada na universidade, permite assumir a mesma como “produtora e protetora dos comuns que resultam da investigação científica para a sociedade que a envolve, especialmente empresas que absorvem este conhecimento e o levam para o mercado” (Pinto, 2009:3).

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A Enterprise Europe Network é uma rede de serviços que auxilia as empresas a inovar e a competir no espaço europeu através de serviços como informação e aconselhamento, ajuda na internacionalização de negócios, apoio à inovação e parcerias tecnológicas e incentivo à cooperação na Europa.

É importante referir que as questões associadas à transferência de conhecimento e de tecnologia conduzem para um outro ponto: o modelo tripla hélice de Etzkowitz de Leydesdorff, onde se explica a importância da relação entre universidade, estado e indústria e a importância das universidades como elo de ligação e como produtoras de conhecimento. Contudo, esse tema será aprofundado no ponto seguinte do presente capítulo.

Podem identificar-se mecanismos formais e informais no que diz respeito à transferência de conhecimento que se mostram importantes se se considerar a questão da resposta às necessidades das sociedades contemporâneas, como se mostrou anteriormente. Bercovitz e Feldman (apud Pinto, 2009) afirmam que os mecanismos de transferência de conhecimento entre as universidades e as empresas são cinco: i. Investigação financiada; ii. Licenças; iii. Contratação de estudantes; iv. Criação de novas empresas; v. Serendipidade14. Por seu lado, Debackere e Veugelers (apud Pinto, 2009) identificam que existem ligações formais entre a ciência e a indústria, nomeadamente a criação de empresas tecnológicas, a investigação colaborativa, a investigação contratada e consultoria e o desenvolvimento e exploração de direitos de propriedade industrial. Contudo os mesmos autores identificam outras formas, mais informais, como a cooperação na educação, a formação avançada para os funcionários das empresas e os intercâmbios de pessoal entre a empresa e a universidade.

Há que considerar que as relações formais podem dar origem a contactos informais e à formação de redes de carácter pessoal (Pinto, 2009). Por outro lado os contactos informais são essenciais para a promoção de relações formais. Por outras palavras, as relações formais e informais que se criam através da relação entre ciência e indústria formam um círculo, onde umas podem originar as outras e estas serem fulcrais para o desenvolvimento das primeiras.