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Conhecimento lexical e competência lexical

CAPÍTULO II. LEXICOLOGIA APLICADA AO ENSINO : DESENVOLVIMENTO LEXICAL

2.6. Desenvolvimento lexical: a consciência lexical

2.6.1. Conhecimento lexical e competência lexical

O conceito de competência linguística refere-se à capacidade que um indivíduo tem de produzir um número infinito de frases a partir de um número finito de regras: «Chomsky a introduit la notion de compétence linguistique pour référer aux connaissances intuitives de règles grammaticales sousjacentes à la parole qu’un locuteur natif idéal a de sa langue et qui le rendent capable de produire et de connaitre de phrases correctes. Ces connaissences concernent les unités, les structures et le fonctionnement du code interne de la langue – phonologie, morphologie et syntaxe – dont l’étude sera décontextualisée, dissociée des conditions sociales de production de la parole (ou performance en termes chomskyens» (Cuq.J.P.,2003: p.48).

O termo competência lexical (CL) é uma transposição para o domínio do léxico da terminologia chomskyana de competência linguística. Deve-se a Louis Guilbert (1965) e a Josette Rey-Debove (1970) esta transposição que definem “competência lexical do indivíduo” como o conjunto de unidades lexicais (e respectivas regras semânticas, morfossintácticas e pragmáticas) que um determinado indivíduo conhece, usa em discurso de acordo com as funções de comunicação e com as necessidades de expressão própria; segundo estes autores, este conceito depende da capacidade de memória do indivíduo, da sua idade, nível social e grau de cultura.

71 Assim, podemos afirmar que a competência lexical é o conhecimento que um determinado utente de uma língua tem sobre as unidades lexicais (características morfossintácticas, semânticas e pragmáticas), o conhecimento e a capacidade que o indivíduo tem para as utilizar, convenientemente, em contextos linguísticos e em diferentes situações de comunicação.

Mais recentemente o termo competência comprende uma tripla dimensão de capacidade cognitiva e comportamental: «Ce terme recouvre trois formes de capacité cognitive et comportamentale: compétence linguistique, communicative et socioculturelle” (Cuq, J.P., 2003:p.48).

Muitos linguistas ao abordar o conceito de competência preferem diferenciá-lo em competências lexicais, competências gramaticais, competências semânticas, competências comunicativas, competências sociolinguísticas, competências pragmáticas, como é o caso de Tavares, C. F. (2007).

No entanto, existe uma relação entre gramática e léxico : «Na concepção do léxico como conjunto de palavras lexemáticas, apenas os lexemas pertencem ao léxico e a gramática (mais precisamente a gramaticalização) entra no léxico apenas como elemento na formação de palavras. Contudo, tendo em conta que as unidades lexicais concretas do português contêm, além do valor lexical (significação e designação), uma significação categorial; por este motivo e neste aspecto, o léxico pertence também à gramática. Segundo a gramática transformacional, o léxico pertence à gramática como subcomponente do componente básico (léxicon de Chomsky) ou como subcomponente do componente semântico, ou ainda, na tese transformacional, o léxico pertence à estrutura profunda através dos chamados elementos pré-lexicais.» (Vilela, M. 1979:p.14).

Portanto, o léxico está intimamente ligado, por um lado com o mundo extra- linguístico e por outro lado com as regularidades da língua, a gramática, tanto no que concerne a morfologia como a sintaxe: “há um condicionamento mútuo lexical e gramatical” (Ibidem: p. 15).

72 Campos, M.H.C. e Xavier, M. F. reforçam esta distinção, afirmando que : «A gramática da língua será, então, um conhecimento global abrangendo diversos domínios – Fonologia (ou estudo dos sons da língua), Morfologia (ou estudo da constituição das palavras), Sintaxe (ou estudo da organização das sequências linguísticas maiores que a palavra), Semântica (ou estudo da significação linguística). O conhecimento nos diversos domínios converge para a produção e reconhecimento das sequências gramaticais, isto é a competência linguística dos falantes-ouvintes da língua e pode ser analisado nas suas diversas componentes» (1991:p.22).

A competência linguística não designa apenas as regras sintácticas e morfológicas de uma língua, mas engloba também a competência lexical, primeiro pilar do conhecimento de uma língua.

A importância do conhecimento lexical reside no conhecimento de todos os processos que participam na aquisição de novas unidades lexicais e também na capacidade de produzir unidades lexicais novas e analisar unidades lexicais; esta capacidade para Basílio, M. (1980: pp. 8-9) permite que «Os falantes de uma língua possam formar palavras nessa língua, assim como analisar a estrutura de palavras já existentes e estabelecer relações de vários tipos entre elas».

A competência lexical não designa apenas o conhecimento de uma lista de entradas lexicais, mas “tanto uma lista de itens lexicais como um sistema de regras que dê conta de sua capacidade de relacionar itens lexicais uns aos outros, analisar a estrutura internas desses itens e, naturalmente, formar novas palavras” (op. cit.).

Nesta óptica, considera-se que um falante de uma língua possui competência lexical quando sabe combinar três aspectos fundamentais: a capacidade de dominar conjuntos de unidades lexicais, a capacidade de dominar a estrutura interna de várias sequências lexicais e o seu relacionamento entre si; a capacidade de formar novas unidades lexicais na base das entradas lexicais existentes, descobrindo e rejeitando as sequências lexicais ambíguas.

Numa perspectiva de ensino-aprendizagem, o conceito de competência apresenta algumas propriedades específicas; assim, segundo Figueiredo, O. M. (2011:

73 p. 346), a competência “é sempre resultado de aprendizagem. Porque o significado não é independente da função e da acção, em termos pedagógico-didácticos, não é aconselhável separar a componente gramatical da componente semântica e das suas realizações de uso. Neste sentido, a competência lexical, que participa da competência linguística, sociolinguística e pragmática é sempre o resultado das aprendizagens significativas. Na perspetiva da acção didáctica ter competência lexical é conhecer para agir, num processo de resolução de problemas. E conhecer uma palavra de forma sistemática, é implementar uma quantidade de informações sobre ela como sejam: saber a sua denotação; identificar a sua categoria gramatical e funcional; reconhecer a sua forma oral (fonética/fonologia) e escrita (ortografia); saber relacioná-la com outras palavras por associação/substituição (relações paradigmáticas); saber combiná-la com outras palavras (relações sintagmáticas); conhecer os seus registos e usá-los de forma adequada; identifica-la nos seus usos conotativos (metafóricos); mantê-la disponível (e atualizada com novas extensões semânticas) para recorrer a ela quando necessário».

Assim, definimos competência lexical como o conhecimento e a capacidade de usar as unidades lexicais da língua em diferentes contextos linguísticos e em diferentes situações de comunicação (oral ou escrita); o uso correcto das unidades lexicais em contextos diferentes, actualizando o conteúdo semântico nelas presente; o léxico de uma língua encontra-se numa rede complexa de relações (morfológicas, sintácticas, semânticas, pragmáticas), produzindo uma variedade de significados o que faz com que as unidades lexicais adquiram, no discurso, novas polissemias (cf. Leheman, A. e Berthet, F. M.: 2000).

A competência lexical compreende o conhecimento dos diversos processos de enriquecimento lexical, de entre os quais os empréstimos (internos e externos), os neologismos, os processos de extensão semântica, as amálgamas, os acrónimos, as siglas, as onomatopeias, os processos de derivação e de composição; e, paralelamente a este conhecimento, implica saber usar as respectivas unidades lexicais resultantes destes processos. Declarar a compreensão de uma determinada unidade lexical, não ocorre por simples processo mental, mas pela percepção do seu significado e da sua estrutura (cf. Figueiredo: 2011).

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