Capítulo 3 Plantas Brasileiras: importância científica e comercial
3.1 Conhecimento natural como nova fonte de lucro no processo
Assim como ocorrido em outros reinos europeus, o período das Luzes em Portugal tem entre suas características a intenção do Estado em racionalizar os ganhos advindos da Colônia, de forma que as potencialidades econômicas fossem melhores exploradas. O gradual decréscimo dos lucros provenientes com a extração do ouro, como acima exposto, impunha a necessidade de obter novos meios de exploração comercial. Encontrar no território brasileiro uma nova fonte de lucro era uma premissa que condicionava a própria manutenção do processo colonial. No que tange ao conhecimento das potencialidades naturais, a estratégia do governo português foi de aliar um maior conhecimento da fauna e flora colonial, introduzindo os gêneros naturais da Colônia de maneira eficiente ao comércio ultramarino. O projeto atrelava de maneira direta o desenvolvimento econômico do Reino ao conhecimento natural das possessões do Novo Mundo. Assim, era urgente a necessidade de melhor explorar e conhecer as potencialidades da natureza colonial.
A assertiva se mostrava relevante pois, nos dois primeiros séculos de colonização, Portugal não havia impingido à natureza brasílica nenhum estudo de grande magnitude. Em contraposição às possessões territoriais espanholas, as quais foram objetos de obras amplamente disseminadas, como a exemplo da
Historia natural y moral de las Indias do jesuíta espanhol José de Acosta, a maior
parte do material documental português conheceu pouca ou nenhuma difusão. Ainda que ao primeiro século foram produzidas diversas cartas e tratados de viajantes, clérigos e colonizadores, onde podem ser encontradas uma rica descrição natural da América portuguesa, estas estiveram durante muito tempo restritas a pequenos círculos de leitores. Podemos perceber tal condição nas cartas escritas pelos padres jesuítas Manuel da Nóbrega (1517-1570) e o espanhol José de Anchieta (1534- 1597), que apesar da importância para o reconhecimento natural da Colônia, permaneceram restritas às redes de comunicação jesuítas. Em outros casos, como no Tratado Descritivo do Brasil em 1587 de Gabriel Soares de Sousa (1540-1591) e
Tratados da Terra e da Gente do Brasil de Fernão Cardim (c.1549-1625),
permaneceriam ainda incógnitas durante séculos, sendo publicadas integralmente apenas no século XIX. Ainda que algumas exceções se façam presentes, como a publicação relativa às viagens dos franceses André Thevet (1502-1590) e Jean de
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Léry (1536-1613), bem como a obra História da Província Santa Cruz do cronista português Pêro de Magalhães Gândavo (1540-1580), a natureza da América portuguesa somente foi difundida de maneira ampla pelas mãos de George Marcgraf (1610 – 1644) e Guilherme Piso (1611-1678) durante o século seguinte.
A Historia Naturalis Brasiliae (1648), assinada pelos dois naturalistas44 a serviço da Coroa holandesa durante as expedições que ambos realizaram no Brasil, foi a obra que pela primeira vez, de maneira ampla e com maior consistência, deu notícia à Europa sobre a natureza brasílica (Ehrenpreis 2015, 78-86). A vinda dos naturalistas ao Brasil ocorreu durante a ocupação da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais no litoral nordeste, que esteve sob o comando do Conde Maurício de Nassau (1604-1679), a quem a obra é dedicada.
Como dito anteriormente, a publicação da História da Província Santa Cruz, publicada quase um século antes, foi de fato a primeira obra impressa sobre a natureza colonial portuguesa. Contudo, a publicação holandesa se diferencia desta por ter sido impressa em latim, língua científica do período, o que permitiu alcançar um número significantemente maior de leitores. A Historia Naturalis Brasiliae também se distingue por seu conteúdo que, em coesão com a literatura científica do século XVII, se apresenta como um rigoroso tratado de História Natural da flora e fauna brasileira. Ricamente ilustrado, em suas páginas são encontrados uma série de gravuras sobre as plantas, peixes, insetos, mamíferos e répteis do Brasil, que por serem de todo desconhecidos na Europa, foram recebidos com grande curiosidade entre os naturalistas. A obra tem especial ênfase nas propriedades medicinais destes animais e plantas, além de relacionar as patologias as quais os colonos estavam vulneráveis. Para além de um tratado médico, a obra também relata a geografia, população e cultivo da cana-de-açúcar na região.
A importância da Historia Naturalis Brasiliae para a comunidade intelectual europeia atravessou os séculos, sendo a principal fonte de conhecimento sobre a
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Originalmente era creditada apenas a Guilherme Piso, que a escreveu sob a direção de João de Laet (1581-1649). Todavia, pairavam incertezas sobre a autoria de Piso na totalidade da obra, visto que era sabido do papel relevante de George Marcgraf, que havia morrido em Luanda antes da publicação da obra, durante as expedições de Piso pelo litoral nordestino. Dez anos após a primeira publicação, Piso reedita a obra, acrescentando novo conteúdo, como o Tractatus Topographicus de Marcgraf, além de sublinhar ao longo do conteúdo que muitas das iconografias presentes do livro foram debuxadas por Marcgraf. Assim, convencionou-se pela historiografia a admitir a dupla autoria da Historia Naturalis Brasiliae, sendo a primeira parte, De Medicina Brasiliensi, creditada a Piso, e a segunda, de nome Historiae Rerum Naturalium Brasiliae, creditada a Marcgraf.
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natureza brasileira até o princípio do século XIX45. Ainda que a produção de conhecimento sobre o território brasileiro – seja com maior ou menor intensidade, empreendida pela Coroa, Igreja, grupos privados ou ação individual - tenha ocorrido de maneira incessante durante todo o período de colonização, nenhuma obra produzida até então se assemelhou ao trabalho holandês.
Apenas no último quartel do século XVIII, como resultado da série de expedições científicas patrocinadas pela Coroa em seus domínios imperiais ultramarinos, que Portugal encabeçaria um trabalho com semelhante relevância científica.Entre tais expedições, se destaca a Viagem Filosófica pelas Capitanias do
Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá empreendida por Alexandre Rodrigues
Ferreira (1756-1815). Naturalista formado pela Universidade de Coimbra, Rodrigues Ferreira trabalhava no Real Museu da Ajuda quando, no intuito de dinamizar a exploração econômica dos bens naturais existentes na Colônia, foi convidado por Domenico Vandelli46 (1735-1816) a capitanear a expedição ao Brasil. Sua viagem foi em grande parte realizada por via fluvial através da porção amazônica do Brasil, percorrendo os rios Amazonas, Negro, Branco, Madeira, Mamoré e Guaporé entre 1783 e 1792 (Pataca 2006, 251). Ao longo da expedição, Rodrigues Ferreira remeteu a Lisboa grande quantidade animais, plantas, cartas geográficas, objetos de interesse etnológicos, imagens, descrições da fauna, flora e população das regiões que percorreu.
Ainda que compilados posteriormente em obras diversas, os espólios da expedição remetidos à Portugal não foram completamente publicados, visto que parte considerável do conteúdo foi extraviada ou perdida por conta da invasão e
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A partir do século XIX, tendo em vista a emergência da nova botânica e zoologia, assim como pela vinda da Coroa portuguesa ao Rio de Janeiro, o Brasil assiste um crescimento significativo do número de expedições estrangeiras em seu território. Entre eles, se destaca a expedição de Johann Baptist von Spix (1781-1826) e Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868), que classificaram milhares de espécies da fauna e flora do Brasil. A expedição foi levada a cabo no seio da posteriormente conhecida como Missão Artística Austriaco-Alemã, em que uma série de cientistas e artistas acompanharam a princesa Leopolina (1797-1826), futura esposa do imperador D. Pedro I (1798- 1834), ao Brasil com o intuito de registrar e catalogar a natureza local. Para maiores informações, consultar A nova Atlantida de Spix e Martius: Natureza e civilizacao na Viagem pelo Brasil, 1817-1820 de Karen Macknow Lisboa.
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Domenico Agostino Vandelli foi um naturalista italiano que ocupou um papel fundamental no desenvolvimento da História Natural e química em Portugal. Contratado pela Coroa nos fins do século XVIII, Vandelli foi um dos fundadores e primeiro diretor do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, lente de História Natural e Química na mesma universidade, criador do Jardim Botânico do Palácio do Monteiro-Mor e um dos criadores do Jardim Botânico da Ajuda.
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ocupação francesa em Portugal no início do século XIX. No decurso da ocupação, o naturalista Étienne Geoffroy Saint-Hilaire (1772-1844) esteve no país e enviou a Paris parte dos materiais da expedição de Rodrigues Ferreira, além de demais objetos de interesse natural encontrados nos Museus, Jardins Botânicos e Institutos de Portugal. Para evitar a pilhagem das coleções, vários objetos foram enviados para coleções privadas ou ainda intencionalmente escondidos, o que constitui, até os dias atuais, um entrave persistente para a identificação e reunião do patrimônio natural relacionado à expedição de Rodrigues Ferreira (Santos 2001, 180-181). Por conseguinte, não é motivo de surpresa que existam até os dias de hoje uma variedade de materiais naturais e etnográficos da expedição a serem redescobertos. Como exemplo, em 2010, durante um levantamento das coleções pertencentes à Universidade de Coimbra, foram encontrados vários exemplares de peixes do Brasil conservados em cartão, no formato de herbário, e classificados por Rodrigues Ferreira a partir do sistema de Lineu (Casaleiro et al 2011). Desiludido por ver sua obra desaparecer, o ínfimo reconhecimento adquirido e pelos louros de seu trabalho ser literalmente apoderado por Saint-Hilaire47, Rodrigues Ferreira morreu misantropo, alcoólatra e “acometido de fatal melancolia” (Nava 2004, 168).
Ainda que em vida Alexandre Rodrigues Ferreira não tenha recebido os méritos relativos ao valor científico de seu trabalho, sua importância para à História Natural Luso-brasileira é inegável, sendo um dos naturalistas mais importantes do iluminismo português. Sua expedição pelos rincões da Colônia proporcionou o contato com uma série de plantas, animais e culturas que até então eram completamente desconhecidas dos europeus. No que toca exclusivamente as plantas, tanto as espécies descritas como as remetidas para Portugal, existe um interesse latente do autor em sublinhar as propriedades medicinais das espécies que estudou. Como pode ser visto nos diários da Viagem Filosófica publicados pela
Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais no final do século XIX, o
conhecimento sobre as plantas medicinais estava diretamente relacionado à identificação das plantas utilizadas nas práticas de cura das populações nativas.
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Um dos primeiros naturalistas a acusarem a usurpação do material de Rodrigues Ferreira por Saint- Hilaire foi o naturalista Emílio Goeldi. Em pesquisa de 1895, Goeldi apontou que pelo menos 19 espécies de macacos vindos do Brasil por meio do trabalho do naturalista português foram classificados em Paris por Saint-Hilaire sem qualquer referência a Rodrigues Ferreira e seu trabalho anterior de identificação e classificação de tais animais (Santos 2001, 180).
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Escreveu Rodrigues Ferreira que os habitantes do Brasil que exerciam profissões de cura, ainda que não possuíssem ensino acadêmico e “talvez sem saberem lêr, possuem as virtudes das plantas, caracterisam todas e cada uma das enfermidades, e, para alguma d’ellas têm uma herva occulta, e um segredo pratico, que os empiricos do paiz o entendem” (Ferreira 1888, 147). O conhecimento europeu assim estava fortemente dependente dos saberes e usos tradicionais das populações nativas brasileiras.
Figura 5. Ilustração de um índio da etnia mura inalando paricá (Ferreira, 1971, prancha 21). O parícá era uma substância produzida a partir dos frutos da árvore de mesmo nome, inalada
como parte do repertório médico-religioso indígena e descrito por Alexandre Rodrigues Ferreira como um dos narcóticos à semelhança de como era consumido o tabaco (Raminelli
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O interesse em reconhecer as propriedades medicinais das plantas brasileiras estava diretamente ligado ao entendimento iluminista de comercialmente melhor explorar os recursos naturais da Colônia, como anteriormente dito. Reconhecer na flora brasileira uma planta medicinal anteriormente incógnita, para além de sua importância científica, também significava abrir uma nova fonte de lucro à Coroa. Todavia, ainda que seja relevante o trabalho de reconhecimento da natureza brasílica levantado no seio da expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira, tal condição não representou inauguração de um novo pensamento sobre a natureza colonial. Antes, a compreensão sobre as potencialidades coloniais advém de um período anterior a Rodrigues Ferreira.
António Nunes Ribeiro Sanches foi um dos autores que melhor sintetizou a necessidade da Coroa em empreender um esforço para reconhecer as plantas medicinais do Brasil. Em sua até pouco tempo inédita48 carta intitulada
Apontamentos para descobrir na America Portugueza a aquellas producçoes naturaes que pode enriquecer a Medicina, e o Commercio, Ribeiro Sanches
argumenta como o pouco conhecimento sobre a natureza do Brasil era um entrave tanto para o desenvolvimento científico como para o comércio ultramarino. Devido à importância que tal documento apresenta ao longo do estudo, além do caráter inédito que o manuscrito possui, ele se se encontra integralmente transcrito no Anexo 2 da presente pesquisa. Datada de 2 de Outubro de 1763 e escrita em Paris, a carta não apresenta a assinatura do médico ao longo de suas páginas, mas a leitura do conteúdo evidencia sua autoria. Em dado excerto, Ribeiro Sanches aponta que “nas Cartas que escrevi sobre a educação da Mocidade, como tãobem no methodo para aprender, e ensinar a Medecina” (Sanches 1763, 6r), o desenvolvimento científico português esteve quase que exclusivamente dependente dos intelectuais educados no exterior. Em contraposição ao presente documento,
Cartas sobre a Educação da Mocidade assim como Método para Aprender e Estudar a Medicina são obras de Ribeiro Sanches trabalhadas exaustivamente pela
historiografia. Em ambas, e assim como em Apontamentos para descobrir na
America Portugueza, Ribeiro Sanches sublinha a necessidade da coroa em
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Após a conclusão da primeira versão do presente estudo, o tratado foi publicado por Gisele C. Conceição na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos com o título Evidences of the circulation of natural philosophical knowledge about Brazil in a 1763 manuscript by António Nunes Ribeiro Sanche.
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reorganizar as bases institucionais e educacionais do ensino no país, condição essa que foi incorporada no cerne das reformas instituídas por Marques de Pombal na segunda metade do século XVIII.
O documento de 11 fólios está exclusivamente orientado a ressaltar como o bom aproveitamento das plantas brasileiras seria relevante tanto para a medicina como para o comércio ultramarino. Nele, o médico aponta que a verdadeira riqueza do Brasil, em detrimento do ouro e outros metais precisos, que na metade do século XVIII ainda eram o principal pilar econômico da Colônia, estava na verdade nas plantas que cresciam nos campos e florestas do país. O desenvolvimento da agricultura e conhecimento das drogas naturais do Brasil “são as maiores riquezas com que podia utilizar a minha Patria” (Sanches 1763, 1r). No entanto, além de mal aproveitada, tal riqueza estava oculta e impedida de ser utilizada pelo Coroa devido ao mais completo desconhecimento sobre os gêneros naturais existentes na Colônia. “Parece que até gora não se avaliou a quelle dominio se não para dominar os gentios e tirar outro das suas minas; não considerando por riqueza a quella que provem da agricultura” (Sanches 1763, 4r).
Para tanto, Ribeiro Sanches defendeu a necessidade de uma posição mais assertiva da Coroa sobre o assunto, criando instituições capazes de coordenar a exploração e reconhecimento das riquezas naturais do Brasil. Em sua opinião, o estabelecimento de um Colégio de Medicina na Capital deveria ser a principal medida, visto que a ausência de tal instituição era a razão pela qual “estão desconhecidas as producçoens necessarias ás boticas, e a muitas artes, não somente a aquellas que nascem no Reino, mas tãobem nas conquistas, e nas Colonias” (Sanches 1763, 5r). O mesmo argumento foi defendido de maneira mais alongada em Apontamentos para estabelecer hum Tribunal & Colégio de Medicina, texto de 1761 onde Ribeiro Sanches também salienta a urgência em instituir um Colégio de Medicina capaz de normatizar a prática médica em todo Império, desde a educação de físicos, cirurgiões e boticários, até a fiscalização em suas práticas profissionais. Todavia, ainda que em muitas passagens ambos os textos apresentem semelhanças nos seus respectivos conteúdos, além de Apontamentos para
descobrir na America Portugueza ser mais sucinto, suas páginas possuem um
enfoque maior nas questões relativas ao reconhecimento e aproveitamento da natureza brasílica.
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Para Ribeiro Sanches, o Colégio de Medicina a ser instituído, além de seu papel no ensino médico, também deveria servir como centro de identificação e análise das plantas enviadas da Colônia portuguesa na América. Através do trabalho de médicos e botânicos experientes, as plantas seriam analisadas de forma a melhor identificar sua utilidade e preparo farmacológico. Por conseguinte, o Colégio deveria estar diretamente associado a uma rede de médicos e botânicos enviados para Colônia, “homens introduzidos e doutrinados não só na Physica Geral, mais ainda na economia dos Estados” (Sanches 1763, 6v) para assim estarem suficientemente qualificados para identificar, colher e enviar as plantas medicinais brasileiras para o Colégio de maneira satisfatória. Sobre as características dos profissionais enviados para a Colônia, sublinha Ribeiro Sanches que eles deveriam ser
“sinco ou seis Estudantes de Medicina de idade de desoito até vinte um annos, dotados de genio e engenho, saos e robustos, capazes de trabalho corporal e de animo (o officio de Boticario e de Naturalista, ou como nós dizemos, de Herbolario, he para caminhar por montes e serras, exposto a todos os temporaes, e a muitos perigos) a aprender a Botanica, e a Historia Natural em primeiro logar; e em segundo, a aquella Astronomia Pratica do fazer huma Carta Geographica, tomar as alturas, marcar as longitudes, conhecimentos necessários no exercicio da Historia Natural nos Climas e nas Serras ignoradas, ou pouco conhecidas” (Sanches 1763, 6v).
Nesse quesito, é interessante perceber como o projeto de Ribeiro Sanches defendido no tratado, ainda que provavelmente não tenha sido utilizado pela Coroa na elaboração das Viagens Filosóficas, se assemelhou de sobremaneira a forma como elas ocorreram. Os conhecimentos notáveis de Alexandre Rodrigues Ferreira no estudo de solos, fauna e flora do Brasil foram preponderantes para que Vandelli, que anteriormente havia nomeado o jovem estudante como demonstrador das aulas de História Natural na Universidade de Coimbra, o indicasse para estar à frente da expedição científica ao Brasil (Carvalho 1987, 98). Entretanto, mesmo com sua experiência de campo e tendo passado seus primeiros catorze anos de vida na Colônia, o estranhamento do naturalista frente aos perigos e obstáculos da natureza brasílica foi motivo de queixas em uma carta remetida ao Abade Corrêa da Serra. Assinada em 2 de Fevereiro de 1784, Rodrigues Ferreira relatou que “a quem quizer ouvir, e lêr notícias do purgatório português: já me incharão as pernas, já aqueci
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bem com 4 febres, já me morderão a seu gosto os mosquitos carapaná, pium e Miroim, e o mais he, q dizem os pachorrentos, q isto ainda não he nada” (apud Pataca 2006, 254). Não sem razão Ribeiro Sanches frisou a necessidade de jovens “saos e robustos” capazes de enfrentar os perigos inerentes à jornada.
Uma vez as plantas remetidas a Portugal, e estas por fim analisadas pelo Colégio de Medicina, era necessário então comunicar a comunidade médica sobre as características terapêuticas de tais plantas. Assim, a rede inicialmente proposta por Ribeiro Sanches, que ligaria os naturalistas no Brasil ao Colégio de Medicina em Portugal, seria expandido em uma rede maior, com suas pontas tecida entre Portugal e o restante das nações europeias, para que as propriedades medicinais das plantas fossem dadas a “conhecer por escritos públicos não só a todo o Reino, mas tãobem aos Estrangeiros” (Sanches 1763, 9r). A necessidade de que as plantas brasileiras “fossem mandados a Inglaterra, Hollanda e França para serem conhecidas” (Sanches 1763, 9v) se justificava pela forma que o texto de Ribeiro Sanches se articula. As páginas de Apontamentos para descobrir na America
Portugueza possuem uma clara direção no sentido de que reconhecer a natureza
medicinal do Brasil, ainda que seja positivo para o desenvolvimento da medicina, representaria um aumento significativo nos lucros comerciais da Coroa. Enviar as plantas, de maneira que elas fossem conhecidas pelos médicos europeus, tinha a clara intenção de criar um mercado consumidor de tais gêneros.
Ponto central do texto, a até então inaptidão do processo colonizatório em promover as plantas brasileiras, segundo Ribeiro Sanches era a principal razão de Portugal perder o protagonismo tanto nas descobertas científicas da natureza brasílica como no comércio ultramarino das drogas americanas. Por esse motivo que, mesmo sendo a principal nação europeia a ocupar o território colonial, foram os holandeses e não os portugueses que publicaram a até então obra mais importante sobre a natureza do território brasileiro, a anteriormente citada Historia Naturalis
Brasiliae. Em sua carta, Ribeiro Sanches pontua que no curto espaço de tempo que