4.1. POTENCIAL HUMANO
4.1.2. Conhecimento sobre o uso dos produtos florestais
O uso dos produtos florestais pelos ribeirinhos pode dar uma boa impressão sobre o grau de conhecimento dos potenciais naturais e técnicos para o manejo florestal. Esse aspecto é importante para o estabelecimento de ações que visem estabelecer o manejo múltiplo florestal, aproveitando a capacidade do ribeirinho em determinar o próprio potencial existente ao redor da comunidade. Devido as diversas formas de utilização, foram categorizados esse conhecimento em produtos florestais madeireiros (PFMs) e produtos florestais não madeireiros (PFNMs).
4.1.2.1. Conhecimento sobre os Produtos Madeireiros (PFMs)
Utilização
A comunidade identificou 21 espécies como fornecedoras de produtos madeireiros dos mais diversos tipos, como flechais, esteios, tábuas, ripas, etc., além de essências florestais que podem ser utilizadas na movelaria, marcenaria e carpintaria (Quadro2).
Quadro 2 – Uso das espécies para fins madeireiros na comunidade do Lontra da Pedreira.
Utilização Espécie* Forma de utilização
Construção
Andiroba Pranchas, esteios, flechais Breu-
branco
Pranchas
Caripé Pranchas
Cinzeiro Pranchas, esteios, flechais Goiabara na Pranchas, esteios Guajará Pranchas Guajará- branco Pranchas
Maúba Pranchas, esteios, flechais
Mututi Esteios
Pau-preto Pranchas, esteios Macacaú ba pranchas, esteios Lenha/ carvão Embaúba Tronco Ingá- preto Tronco Ingá Tronco Ingá- branco Tronco Ingá- folha- grossa Tronco Ingá- xixica Tronco Lacre- branco Tronco Marcenaria/ Movelaria/C arpintaria Macacaú ba Todo o tronco Sumaúma Lâminas/ pranchas
Pau- mulato
Todo o tronco/ pranchas, esteios, flechais Virola Lâminas/pranchas
Como se pode observar, grande parte das espécies mencionadas é voltada, segundo os moradores locais, para a construção civil. Para lenha e carvão, foram mencionadas principalmente as espécies do gênero Inga e espécies heliófilas como a embaúba e o lacre. Para Marcenaria/Movelaria/Carpintaria, foram citadas como preferidas a sumaúma, o pau- mulato, a virola e a macacaúba.
Local de beneficiamento das toras
De acordo com os resultados das entrevistas sobre o conhecimento do local de beneficiamento da madeira ou toras, grande parte dos ribeirinhos entrevistados (70%) apontam que o primeiro traçamento é realizado ainda na mata, envolvendo além dessa operação a separação de flechais, esteios e pranchas. Ainda assim, há ocasiões em que se arrastam as toras da mata até o rio através de estivas, utilizando inclusive para auxílio, a aninga.
A força de trabalho empregada no arraste depende da dimensão do fuste extraído. Segundo relato dos ribeirinhos, para se retirar da mata uma árvore de mais ou menos 45 cm de DAP (Diâmetro à Altura do Peito), são necessários 5 homens.
As pranchas, esteios e flechais podem ser obtidos por meio de motosserra ou machados apesar destes últimos terem seu emprego caído em desuso. A produção diária de peças como esteios, por exemplo, segundo um dos entrevistados pode chegar a 15 esteios traçados por motosserra e 4 por meio de machado.
Uma vez derrubada a árvore, são feitos cortes longitudinais para a eliminação de partes não desejáveis como casca e alburno, gastando-se nesse processo cerca de 10 minutos em média. Após essa etapa, realiza-se o corte dos pranchões (esquadrejamento) e armazenamento destes até a sua posterior utilização. Vale ressaltar que as informações mais detalhadas sobre os primeiros beneficiamentos das toras (força de trabalho, tempo de traçamento) foram obtidas dos poucos habitantes locais que lidam atualmente com essa atividade (3 moradores), pois a grande maioria prefere trabalhar com os cultivos e extrativismo do açaí.
4.1.2.2. Conhecimento sobre os Produtos Não Madeireiros
Utilização
Os resultados mostraram que o conhecimento dos varzeiros sobre o uso de produtos florestais não madeireiros baseia-se em utilizá-los para a alimentação, amarrações, canoa, corantes/resinas, uso medicinal, oleaginosas e defumações, conforme mostra o Quadro 3.
Açaí Andiroba Anuera Verônica Guarumã Ingá
Quadro 3 - Espécies florestais não madeireiras mais abundantes na floresta de várzea do Lontra da Pedreira, com suas respectivas utilizações segundo os ribeirinhos locais.
Utilização Espécie Parte utilizada
Alimentação Açaí Frutos
Bacaba Frutos
Camotim Frutos
Ingá-preto Frutos
Murumuru Frutos
Taperebá Frutos
Amarrações Envira-preta Casca
Canoas Maúba Tronco
Corantes/resinas Andiroba Tronco
Capoteiro Resinas
Curupita Resinas
Breu-branco Resinas
Medicinal Andiroba Sementes
Caxinguba Sementes
Medicinal Embaúba Folhas
Pau-mulato Casca
Pracaxi Sementes
Oleaginosas Andiroba Sementes
Pracaxi Sementes
Defumações Breu-branco Casca
Através de um ranking realizado por meio de pesquisa participativa, foram determinadas as espécies mais importantes dentro da comunidade no que refere a PFNMs. Assim as espécies em ordem crescente mais lembradas foram o açaí, a andiroba, o anuerá, a verônica, o cipó- guarumã e o ingá (Figura 18).
Figura 18 – Ordem hierárquica em importância das espécies fornecedoras de PFNMs na comunidade do Lontra da Pedreira.
Local de beneficiamento de PFNMs
O beneficiamento dos produtos não madeireiros em geral ocorre nas casas dos ribeirinhos. Essa tarefa é quase que exclusivamente realizada pelas mulheres e pelos filhos, como nos exemplos da “debulha” do açaí, do cozimento das sementes da andiroba e do pracaxi (quando coletadas), da organização dos cipós em conjuntos ou “maços” ou mesmo amarrando-os para fabricar cestos, como no caso do cipó-guarumã.
Manejo florestal pelos ribeirinhos
O manejo florestal praticado pela comunidade é bastante rudimentar e resume-se apenas na retirada de madeira de modo tradicional, da obtenção de cipós para remédios caseiros e recentemente da adoção do manejo do açaí.
O manejo do açaí consiste na abertura dos açaizais nativos, para entrada de luz, chegando ao solo, para favorecimento das plântulas de açaí. Contudo, não se estabelece nenhum critério de espaçamento entre as touceiras, muito menos da seleção das estipes que servirão como produtoras de frutos ou palmito e tratos culturais.