2 PELOS CAMINHOS TEÓRICOS
2.2 A S RELAÇÕES DO HOMEM COM A NATUREZA
2.2.2 Conhecimento tradicional e uso dos recursos naturais
A população tradicional se orienta por normas culturais passadas entre gerações para a utilização dos recursos da natureza, de tal forma que não percebe que algumas destas são práticas predatórias. É realmente difícil compreender que as suas atividades, praticadas há tanto tempo, sejam consideradas destruidoras do meio ambiente.
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Em oposição ao conservacionismo, o preservacionismo é definido pelo não-uso dos recursos naturais, por uma “reverência à natureza no sentido da apreciação estética e espiritual da vida selvagem”
(DIEGUES, 2000,
De fato, de acordo com os conceitos ecológicos e de sustentabilidade, a população tradicional nem sempre tem tido um comportamento adequado, preservacionista ao lidar com as questões da natureza, da qual depende diretamente. Isto acontece devido a diversos fatores, seja pela pressão socioeconômica (a necessidade de sobrevivência da família, exposição à ideologia do consumo), pelo avanço tecnológico (o uso incorreto de insumos modernos de produção, incorporado a práticas tradicionais, tais como uso de defensivos ou mecanização), por ignorar os processos ecológicos que ocorrem no ecossistema (a capacidade de suporte, fatores limitantes e outros) e pela impropriedade das políticas públicas (fiscalização insuficiente, falta de programas de conscientização ambiental e de alternativas para substituição de atividades ecologicamente incorretas).
Diante dessas observações, a implantação de áreas de preservação, de reservas e de parques, naturalmente, gera conflitos (até mesmo violentos), que se explicitam em acirrados debates centrados na disputa por dizer e impor o que pode ser “usado” e o que deve ser “preservado”, sobretudo porque muitas vezes são antagônicas as expectativas das populações tradicionais e aquelas das políticas públicas às quais tais populações são submetidas.
O Brasil, a partir de meados dos anos 80, é marcado por um novo modelo de ambientalismo que está mais relacionado às questões sociais - o ecologismo social ou “ambientalismo camponês”51, para o qual “há necessidade de se repensar a função dos
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parques nacionais e das reservas, incluindo aí os interesses e os modos de vida de seus moradores tradicionais” 52 (Diegues, 2000, p.21).
“O desafio que se impõe é afirmar os direitos dos povos tradicionais aos seus saberes sobre a biodiversidade. Isso significa manter um conhecimento complexo sobre os ecossistemas que ajudaram até hoje a preservar” (CASTRO, 2000, p.179).
Neste caso, o papel do Estado e de seus projetos de assentamento deveria se basear numa política de “ajuda às populações para se auto-gerenciar”, que tenha consideração e respeito pela sua cultura. A análise do modo de vida camponês dos assentados pode ser um instrumento importante para a construção de um corpo de conhecimento coletivo e socializado que ajude no diálogo entre um modelo de tutela, que se encontra embutido nas políticas públicas, e as aspirações das populações envolvidas.
Vários estudos têm mostrado como o saber tradicional das famílias ribeirinhas, passado entre gerações, constitui um instrumento fundamental para a conservação da natureza, porque, para essas populações, a sustentabilidade dos recursos naturais é essencial, já que sua sobrevivência define-se muito na relação que é estabelecida com o meio ambiente.
Ellen Woortmann (1997) estudou a produção camponesa de sitiantes e chamou a atenção para a importância do saber tradicional nesse processo. Segundo a autora, esses sitiantes adequavam “as plantas ao solo e não, como na agricultura ‘moderna’, o solo às plantas”. Os sitiantes estabeleciam também uma relação de troca entre “as necessidades da família e a potencialidade de uma terra”. A autora se refere ao saber
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As pesquisas sobre populações tradicionais, sobretudo nas últimas décadas, foram desenvolvidas numa perspectiva interdisciplinar, a partir de uma inter-relação entre as ciências sociais e as ciências naturais, afirma Castro (2000).
fazer do camponês, em relação à atividade do solo, aos animais, à cultura, à criação, à
pesca e à mata, que se constituem em um saber popular local, do qual as populações tradicionais lançam mão no desenvolvimento de suas atividades (WOORTMANN, 1997, p.29-30). Esses saberes se caracterizam pelo conhecer as matas, o rio e a terra e até mesmo mesclando crendices e superstições, ao observar as fases da lua para definição do processo de produção, recorrer às benzedeiras para a melhoria do cultivo da criação e dos instrumentos de uso na roça e aos santos para definir o melhor mês para o plantio, etc.
Diegues (2002) observa que se relacionando com a natureza a população tradicional pode estabelecer formas de manejo que visem a potencializar e a conservar a diversidade ambiental, e que o conhecimento científico tem posto de lado a contribuição que pode advir do saber das populações tradicionais quando afirma:
De um lado, está o saber acumulado das populações tradicionais sobre os ciclos naturais, a reprodução e migração da fauna, a influência da lua nas atividades de corte de madeira, da pesca, sobre os sistemas de manejo dos recursos naturais, as proibições do exercício de atividades em certas áreas ou períodos do ano, tendo em vista a conservação das espécies. De outro lado, está o conhecimento científico, oriundo das ciências exatas, que não apenas desconhece, mas despreza o conhecimento tradicionalmente acumulado (DIEGUES, 2002, p.69).
Aprofundando esta discussão, destacamos o estudo de Candido (1964) para compreendermos a relação que é estabelecida entre as formas de utilização dos recursos naturais e a garantia de sobrevivência, considerando as peculiaridades culturais na apreensão do modo de vida. Assim, “as sociedades se caracterizam, antes de tudo, pela natureza das necessidades de seu grupo, e os recursos de que dispõem para satisfazê-la” (CANDIDO, 1964, p. 23), procurando ajustar-se ao meio e à organização social, definindo-se o modo de utilização dos espaços e dos recursos. Nestes termos, todo o processo de organização sócio-cultural, se configura enquanto
instrumento de ajuste ao meio para viabilizar o equilíbrio entre necessidades e recursos disponíveis.
Devemos compreender que as comunidades tradicionais possuem uma cultura particular, uma lógica econômico-produtiva específica, uma organização social e uma forma de se relacionar peculiares. Portanto, é necessário perceber as realidades distintas em que o conhecimento tradicional é gerado em uma determinada sociedade e, dessa forma, também só deve ser interpretado no contexto desta sociedade, na cultura em que é gerado.
Para finalizar o estudo de elementos que referencia o modo de vida camponês, no que diz respeito à relação homem-natureza, vale ainda lembrar que, todos os compromissos de sustentabilidade ambiental ressaltam que as políticas públicas devem ser emancipatórias, descentralizadas e participativas, em detrimento do caráter assistencialista, no sentido em que permitam que a comunidade tenha condições de dar continuidade, por sua própria conta, às iniciativas implementadas pelo governo. Isso significa dizer que os projetos não devem ter caráter meramente assistencial, portanto, não devem levar soluções prontas para os problemas, acreditando que apenas o saber técnico-científico é capaz de definir o que é melhor para a comunidade. É preciso acreditar que as populações tradicionais “são capazes de serem sujeitos políticos, protagonistas sociais” (FREI BETTO, 2007). Elas apenas precisam de oportunidades de revelar seus talentos.
As políticas assistencialistas, embora sejam necessárias de forma provisória, é uma dos fatores que abre espaço para uma relação de dependência. E até mesmo, a participação dos agricultores nos Conselhos, local por excelência, onde agricultores
deveriam ter voz e vez, muitas vezes, servem apenas para tornar legítimos os interesses de terceiros.
Esta afirmação nos permite compreender que são necessários planejamentos participativos, não enquanto uma prática meramente de caráter técnico, quase sempre estabelecido com configurações de cima para baixo, mas, sobretudo, pela organização e atuação ativa dos envolvidos, e pensados a partir de pressupostos que objetive: recuperar as privações sofridas pelos agricultores de cunho social, econômico (apoio a economia tradicional, aumento das oportunidades), cultural, material (infra-estrutura) e ambiental. Algumas das quais irreparáveis, como marcas simbólicas, destruição do ambiente, rompimento de laços sociais, separação familiar, etc.