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1.4. Conhecimento e tempo em The Problems of Philosophy

1.4.3. Conhecimento de verdades

Além do conhecimento das coisas, o qual Russell divide em familiaridade e por descrição, como vimos; há, também, conhecimento de verdades e este é dividido em: conhecimento intuitivo e derivado.

Nesse tipo de conhecimento surge um problema não encontrado no conhecimento das coisas: o erro. Quanto mais próximo da dimensão física, a saber, dos dados dos sentidos, mais certeza uma realidade se apresenta. Quando um conhecimento passa de familiaridade, para descrição e, por fim, para conhecimento de verdades mais dubitável um fato ou um dado se torna. Assim, entendemos que o conhecimento é suscetível de graus, indo da certeza, à probabilidade, à dúvida e ao erro. Conhecimento de verdades está mais próxima da dúvida e do erro que familiaridade, pois pode ser ambíguo e impreciso e isso não ocorre na percepção da experiência sensível. Além disso, considerando a dimensão temporal, conhecimento de verdades está mais distante do presente. Encontramos em Russell uma supremacia do presente, em sua fase inicial, como estamos defendendo nessa pesquisa. Isso ocorre mesmo quando Russell trata do conhecimento por familiaridade com o passado.

40 Do original: [...] if we are to obtain a description which we know to be applicable, we shall be compelled, at

some point, to bring in a reference to a particular with we are acquainted. Such reference is involved in any mention of past, present, and future (as opposed to define dates), or of here and there, or of what others have told us

1.4.3.1. Conhecimento intuitivo

De acordo com Russell (1976, p. 111-3), o conhecimento intuitivo está relacionado às nossas crenças e ao princípio indutivo. Se buscarmos incessantemente as razões de nossas crenças, tentando retroceder ao ponto inicial que as originaram, há um momento no qual essa busca se esgota. Na investigação das razões de nossas crenças podemos regressar até o princípio indutivo, não é possível ir além disso. Os princípios lógicos, gerais e, até mesmo, alguns princípios da ética são evidentes e nada se pode deduzir para além deles. Eles são chamados por Russell de verdades evidentes.

Devemos lembrar que, como vimos, tais princípios são considerados por Russell como conhecimento a priori, estão fora do tempo, são autoevidentes e conhecidos por familiaridade por meio dos universais. É por isso que se tentarmos encontrar as razões de nossas crenças cotidianas ao retroceder no tempo, podemos no máximo chegar ao a priori.

A evidência das verdades é a característica fundamental do que Russell chama de conhecimento intuitivo. É também o grau de evidência que vai garantir a confiabilidade epistêmica. Quanto mais distante no tempo em relação ao presente, menos confiabilidade o conhecimento tem, pois é impreciso e aumenta as possibilidades de engano.

Assim há no conhecimento intuito, segundo Russell (1976, p. 113-4), juízos intuitivos41. Desses juízos ressaltamos os juízos da memória, pois deles dependem o nosso conhecimento do passado.

Dessa forma, conhecer o passado pode ser ou por familiaridade, a qual está muito próxima do presente, como vimos; ou por conhecimento intuitivo que ocorre da seguinte maneira: temos uma imagem presente de uma recordação passada, comparamos essa imagem com o fato ocorrido e a fidelidade daquilo que somos capazes de lembrar em relação ao fato ocorrido depende da intensidade vivida e da proximidade no tempo. Eventos mais recentes são mais vívidos e confiáveis, eventos mais distantes o oposto. Dessa forma, o conhecimento intuitivo está associado às crenças e sua confiabilidade depende do quão próxima ao fato está. De acordo com Baldwin, referente ao conhecimento intuitivo “Russell implies that we are not dealing here with beliefs that can be derived from strongly self-evident knowledge by

41 Grosso modo, juízo é uma operação mental que relaciona conceitos, afirmando-os ou negando-os. O juízo é

expresso por uma proposição oral ou escrita. Russell divide os juízos no conhecimento intuitivo em juízos de percepção, os quais podem ser subdividos em juízos da percepção intuitivo (que diz respeito à mera existência) e juízos da percepção nos quais os dados dos sentidos estabelecem relações entre si. Não vamos tratar desses juízos porque o que nos é importante nessa investigação são os juízos da memória por tratar sobre o tempo.

acquaintance; nonetheless, these are beliefs which have a sufficiently high degree of self- evident, or credibility, from them to count (as long as they are true) as knowledge themselves” (2003, p. 429).A crença, no conhecimento intuitivo, leva à memória e esta deve ser próxima ao presente para que haja menos imprecisão. Encontramos, mais uma vez, o presente colocado num pedestal epistemológico no qual só é garantido aquilo que lhe está mais evidente. Segundo Baldwin (2003, p. 429), Russell introduz a ideia de conhecimento intuitivo com característica de um grau de imprecisão, não sendo a evidência tão absoluta como no conhecimento por familiaridade e, por isso, alguma dúvida é possível.

Essa ideia da gradação da evidência e da confiabilidade da memória é mais profunda em AM. No entanto, é importante observar o aparecimento dessa tese desde o início dos trabalhos de Russell. As consequências de colocar a epistemologia à sua proximidade no tempo trarão para a filosofia de Russell em AM uma postura cética, como veremos no segundo capítulo.

1.4.3.2. Conhecimento derivado

Do conhecimento de verdades há, também, o conhecimento derivado. Por meio de princípios dedutivos42 chegamos às verdades evidentes. Russell o define do seguinte modo:

“Conhecimento derivado é o que é validamente deduzido de premissas conhecidas intuitivamente” (1976, p. 133, grifo do autor, tradução nossa)43. Em outras palavras, o

conhecimento derivado é deduzido das verdades evidentes do conhecimento intuitivo.

No conhecimento derivado dependemos do conhecimento intuitivo e podemos alcançá-lo por meio da dedução e da reflexão. Os dois tipos de conhecimento de verdades partem da probabilidade – ou nos termos de Russell, da opinião provável – para se chegar ao conhecimento.

Russell não trata diretamente do assunto do tempo quando explicita sobre o conhecimento derivado, mas podemos fazer algumas associações e deduções. Estamos apresentando no decorrer desse capítulo a importância que o presente tem na filosofia de Russell em sua fase anterior a 1920. Vimos que, no conhecimento por familiaridade e por descrição, o presente tem um papel fundamental naquilo que constitui a própria epistemologia. Já no conhecimento de verdades, tanto intuitivo como derivado, o futuro e o passado assumem o

42 Método segundo o qual de premissas verdadeiras só pode haver conclusão verdadeira. Não é válido um

argumento que chegue à conclusão falsa de premissas verdadeiras, ou uma conclusão verdadeira de premissas falsas.

papel central. Primeiramente temos contato com as coisas por meio dos dados do sentido. Se quisermos ampliar nosso conhecimento, a saber, sobre o passado mais distante, sobre o futuro, sobre como os fatos do mundo se organizam e se relacionam no tempo, é necessário fazer inferências a partir dos dados dos sentidos. Isso é possível graças ao conhecimento de verdades se fundamentar no princípio indutivo e, com isso, temos um conhecimento provável.

A probabilidade é tanto para uma crença da vida cotidiana – como por exemplo, “Acredito que José ama Maria”, como para questões das leis gerais – como por exemplo, “Depois da noite segue-se o dia”. Nas leis gerais há a crença de que certos fatos ocorrerão em decorrência de já terem sempre acontecido do mesmo modo em situações passadas. Como vimos no tópico sobre a causalidade, as crenças causais são associadas ao princípio indutivo. Desse modo, nosso conhecimento do futuro depende de nosso conhecimento do passado. Assim como o conhecimento derivado depende do conhecimento intuitivo. Futuro e passado são relações temporais, as quais são responsáveis pela nossa formação de conhecimento de verdades. É a partir de tais relações temporais acima especificadas que encontraremos a ideia de conhecimento, erro, precisão e imprecisão.

É importante frisar que as colocações de Russell sobre o futuro são escassas em sua filosofia, partindo, principalmente da ideia de indução e da formulação de leis gerais, os quais, dependem de sua repetição no passado. O futuro é sempre uma probabilidade, então não é possível falar em conhecimento por familiaridade do futuro, porque é algo que ainda não existe. Dessa forma, o futuro está relacionado com o conhecimento de verdades. Por meio de nossa experiência passada é possível propor, por indução, princípios gerais e, assim, fazer inferências futuras. Com base nesses princípios gerais adquirimos crenças de que certas situações ocorrerão, por exemplo, que do relâmpago segue-se o trovão (RUSSELL, 1976, p. 60-1)

Em que ponto a repetição de ocorrências passadas garante uma confiabilidade que elas continuarão a ocorrer no futuro? Segundo Russell (1976) a repetição é a causa – no sentido de generalizações empíricas, como vimos - de que uma série de eventos continua a ocorrer, de modo que, fazemos associações e formamos expectativas de ocorrências, que podem estar suscetíveis ao erro. Do fato de que algo ocorreu várias vezes cria-se a expectativa que ela sempre ocorrerá. A probabilidade oferece uma espécie de crença devido à ocorrência de eventos terem se repetido com frequência em conjunto, contudo o futuro sempre será uma probabilidade, nunca uma certeza. Não é possível provar pela experiência a indução, mas é possível se crer sem nenhuma hesitação na sua ocorrência futura.

Tempo, crença e causa formam o tripé da epistemologia tanto na fase inicial de Russell como, também, em AM, como veremos no segundo capítulo.

Como saber se uma crença pode ser conhecimento? Pelo grau de evidência se obtém a confiabilidade das verdades e, enfim, o conhecimento. Vimos anteriormente que a distância no tempo e a vivacidade da experiência determinam a evidência. Por um lado, há o presente como gerador da evidência, por outro lado, há o futuro como possibilidade dos fatos e o passado como repetição de ocorrências formando leis gerais. É a indução a razão da dúvida e da possibilidade do erro. Isso é presente no conhecimento de verdades – derivado ou intuitivo -, tanto para o tempo passado na busca de regularidades e fatos anteriores; quanto no tempo futuro, na expectativa e na probabilidade.