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III. RESULTADOS

3.1 VIVÊNCIAS DAS MULHERES EM SITUAÇÃO

3.2.1 Conhecimentos acerca da legislação e da Norma

Para desvelarmos as concepções e a atuação dos profissionais frente às situações de abortamento, fez-se necessário reconhecer seus conhecimentos acerca da legislação brasileira e da Norma Técnica de Atenção Humanizada ao abortamento (NTAHA).

Quando indagados acerca dos preceitos legais que regulam o aborto no Brasil e a existência de possibilidades para a interrupção da gravidez, em geral, os profissionais assinalaram com acerto que a lei permite o aborto, quando a gestação é decorrente de estupro

“nos casos de estupro, né, e quando põe em risco a saúde da mãe, né...só... e tão tentando...é ...conseguir quando tem a má formação...mas legalmente são só esses dois...essas duas indicações, né(M1)

“Só em caso de estupro e risco de vida da mulher...” (M2)

“Olha, o que eu tenho conhecimento é de que no caso de estupro e má formação...” (E2)

“Em caso de estupro e encefalia [sic], quando a criança não tem condições nenhuma de sobreviver após o parto, né..” (AE4)

“O aborto é legal só nas condições de estupro , né...”(E1)

O aborto terapêutico, necessário para salvar a vida da gestante, não foi referido por três entrevistadas. Por outro lado, a maioria dos profissionais de enfermagem acredita que a legislação não penaliza o aborto quando o feto é acometido de malformações graves, tais como anencefalia22.

Interessante notar que AE1 e AE2 balizam seus conhecimentos pela aplicação prática da lei, materializada na implantação do Programa de Aborto Legal naquele hospital, interrompido em 2010, conforme mencionado anteriormente. Contudo, as entrevistadas não associam a estruturação do referido programa à legislação, tampouco à normatização do Ministério da Saúde que preconiza a organização dos serviços para esse tipo de atendimento23

“ O que eu tive conhecimento pelo tempo que eu to aqui né, é sobre o aborto legal, de estupro e má formação de feto, permissão mesmo a gente sabe que não existe, mas no serviço público, eu cheguei a participar de vários casos de cuidado das pacientes que tinham permissão, né, que era o aborto legal que a gente tinha aqui”(AE1)

22 Convém lembrar que, à época da pesquisa, a liberação do aborto nos casos de fetos

anencéfalos ainda não havia sido aprovada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o que ocorreria somente em abril de 2012.

23 Referimo-nos aqui à Norma Técnica de Prevenção e tratamento dos agravos resultantes

da violência sexual contra mulheres e adolescentes, que orienta as ações a serem efetivadas pelo serviço para a interrupção da gestação, nos marcos da legislação atual.

“Bom, aqui no hospital eles fazem o aborto legal, que são quando o juiz determina, que seriam os casos de estupro, né, de violência sexual ou quando é anomalia e quando tem, oferece algum risco a saúde da mãe. Aqui normalmente eles fazem mais quando é questão normalmente de estupro e de malformação, né, que é o mais procurado...mas eu não sei te dizer assim como é que isso tá na lei, entendeu” (AE2)

“ Eu sei que é permitido nos casos de estupro e quando é má formação, aí nesse caso elas fazem processo e ganha autorização do juiz ou quando a mãe tem uma doença que possa colocar em risco a vida dela, então também faz esse processo e o juiz autoriza a interromper a gestação” (AE3)

As auxiliares de enfermagem entendem que, nas situações em que o hospital realizava a interrupção da gravidez, houve autorização judicial, inclusive nos casos de estupro. A despeito de, à época da coleta de dados, ser necessária autorização judicial nos casos de malformação fetal, as afirmações das profissionais revelam o insuficiente conhecimento acerca do direito da mulher em ter garantido o acesso aos serviços de saúde para interromper a gravidez nas circunstâncias permitidas, sem a necessidade de recorrer aos trâmites burocráticos judiciais.

Em geral, as falas dos profissionais entrevistados corroboram o que foi apontado no estudo de BENUTE et al (2012). Os autores constatarampouco conhecimento dos profissionais em relação à legislação. No entanto, apontam proporção superior de desconhecimento entre profissionais de enfermagem, se comparado ao conhecimento autorreferido por ginecologistas e obstetras.

A despeito de, em geral, os entrevistados terem mencionado, com acerto, as circunstâncias em que a interrupção do aborto é consentida pela

lei, constatamos desconhecimento no que tange ao acesso da mulher para realização do procedimento no serviço de saúde. Tal contradição pode estar associada, dentre outros fatores, à deficiência na sensibilização de profissionais quanto aos instrumentos jurídico-normativos que norteiam o atendimento ao abortamento.

Nesse sentido, no que tange à NTAHA, quando indagados se conheciam a referida Norma Técnica, e se já houve capacitação dos profissionais acerca do tema no hospital, profissionais foram unânimes ao afirmarem

“Não tenho conhecimento de nada não, até o momento não. Aqui ainda não teve nenhuma capacitação”.(AE1)

“Não...eu não conheço... aqui nunca me falaram nada...”(E2)

“Não conheço não...o que eu tenho de capacitação é sobre violência sexual, mas não foi aqui nesse hospital...agora essa Norma eu ainda não tive conhecimento (M1)

Os entrevistados desconhecem a NTAHA e revelam não terem participado de capacitação sobre a temática. Mais uma vez, algumas profissionais da enfermagem se remeteram ao Programa de Aborto Legal, sugerindo que a apropriação dessas informações restringiu-se à equipe que atuava nesse Programa

“Não, não me recordo...eu tive doente, fiquei quase dois anos afastada, pode ter ocorrido nesse período, né, mas assim essa norma que você ta falando eu nunca vi não... Agora assim, a

equipe que trabalha com o aborto legal, eles devem ter todo este material, inclusive eles acompanham a paciente, que é um grupo que é treinado e que conhece todo esse serviço na integra, né, porque tem varias etapas para chegar no final, aí fica realmente no critério deles, isso no caso do aborto legal” (E1)

“Olha, eu não conheço, não ouvi falar não...capacitação pra gente nunca teve não, mas deve ter alguma coisa sobre o aborto legal, não desses outros abortos que chega na porta...do aborto legal, que vem encaminhado , aquela coisa toda planejada, né, agora desses aborto de porta não, capacitação de atendimento, essas coisas nunca teve não, pra nós, não” (AE 3)

Por outro lado, AE2 e M2 referem o parto humanizado, aludindo à política de humanização da assistência ao parto, assunto mais frequentemente abordado, segundo esses profissionais

“Não, o que se fala de vez em quando aqui é que a gente ia ter a parte do parto humanizado, mas sobre aborto não...pelo menos eu não conheço” (AE2)

“Não conheço...não ouvi falar...nada de capacitação, de humanização, com aborto não...com parto é que tem mais divulgação, né (M2)

Acrescenta-se, ainda, o que aponta AE4 ao referir que o problema do aborto, embora esteja presente cotidianamente nos atendimentos, não é uma questão debatida entre profissionais, dada a controvérsia do tema

“Não...não conheço isso não...eu não passei por capacitação nenhuma, não...na verdade ninguém fala muito sobre aborto não, só o tal do aborto legal que as meninas [enfermagem] mais antigas que falam... é um assunto que faz parte da nossa rotina aqui, mas a gente nem entra nessa polêmica(AE4)

Os discursos coincidem com os dados revelados por SANTOS e REFFATI (2006) que, em estudo em uma maternidade-escola na região Sul do município, constataram o desconhecimento da NTAHA, declarado pelos médicos residentes entrevistados.

Nesse sentido, observa-se a fragilidade no que tange à educação continuada de profissionais para a qualificação do atendimento à mulher em situação de abortamento. Somada à escassa abordagem do tema na formação acadêmica dos profissionais de saúde (SOARES, 2003; VILELLA, 2008), constatam-se falhas, sobretudo, por parte do gestor de saúde, na discussão do marco legal e da disseminação da NTAHA, no sentido de promover a reflexão acerca dos aspectos éticos, legais e jurídicos da questão do aborto.