CAPITULO III- ADOLESCÊNCIA E SEXUALIDADE
2 Sexualidade na Adolescência/Juventude
2.1 Conhecimentos dos Adolescentes sobre Sexualidade
Nas últimas décadas os jovens portugueses cresceram num contexto de mudanças profundas em termos de sexualidade. Temos assistido a mudanças no sentido de uma maior valorização social da sexualidade e do erotismo, de uma maior permissividade em relação às expressões e comportamentos sexuais, nomeadamente na aceitação da sexualidade juvenil.
Em Portugal identifica-se ainda um número relevante de comportamentos sexuais de risco como a gravidez na adolescência e infecções sexualmente transmissíveis. Estes problemas têm por base, muitas vezes, uma grande dose de iliteracia em questões básicas ligadas à sexualidade e à vida reprodutiva. (Vilar & Souto, 2008, p.8).
É imperativo munir os adolescentes/jovens de conhecimentos e competências no sentido de viverem a sua sexualidade de uma forma plena, saudável e responsável. Também Lemos (2002) reconhece que “os conhecimentos são, não só cruciais para a adaptação psicológica necessária durante a adolescência, mas também pré-requisitos para um comportamento seguro.” (p.44).
Na literatura encontramos alguma evidência de que as informações que os indivíduos têm sobre sexualidade são susceptíveis de moldar os seus comportamentos, gerando expectativas positivas ou negativas, relativamente a eventuais consequências das suas acções. Como defende Antunes (2007), “o tipo de informação sobre a sexualidade modifica as atitudes sexuais dos sujeitos” (p.164), em contrapartida, e segundo a mesma autora, os sujeitos com menor informação demonstram maior tendência ao sexo utilitário, o que revela a importância da informação no modo de viver a sexualidade.
Conforme a Orientação Técnica Internacional sobre Educação em Sexualidade (Unesco, 2010a), o relatório Global do ONUSIDA 2008 sobre a epidemia de SIDA informou que somente 40% dos jovens entre os 15 e 24 anos possuíam conhecimentos correctos sobre VIH e sua transmissão. Sendo esse conhecimento mais urgente, uma vez que os jovens nessa faixa etária representam 45% de todas as novas infecções pelo VIH.
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Ainda nesta linha de pensamento, deve-se referir que Antunes (2007) demonstra que indivíduos mais escolarizados possuem, por norma, mais informação sobre a sexualidade. Vários estudos revelam que adolescentes com baixa escolaridade iniciam as relações sexuais mais precocemente e que os jovens de menor nível educacional e de menor idade possuem menos conhecimentos sobre métodos contraceptivos (Martins et al., 2006).
Vilar e Ferreira (2009) verificam que menos de metade dos inquiridos revela “bom nível” de conhecimentos, seguido de conhecimentos “aceitáveis” e uma menor percentagem com nível “muito bom”. Identifica-se que as raparigas revelam melhores conhecimentos que os rapazes, pois no nível de “muito bom” 76% são raparigas, já nos dois níveis inferiores “insuficiente” e “mau” sobressaem os rapazes. Quanto às idades verifica-se que os alunos com melhores conhecimentos são os de 17 anos, e os que menos sabem são os de 19 ou mais anos. Importante referir que jovens filhos de pais mais escolarizados, revelam melhores conhecimentos em matéria de educação sexual.
Constataram ainda que os jovens revelam mais conhecimentos nas temáticas “puberdade e adolescência”, “SIDA” e “uso de preservativo”, e conhecimentos deficitários relativamente a potenciais situações de risco de gravidez não desejada, e em questões de sexualidade humana existe uma parte significativa de jovens que ignora aspectos importantes. Os rapazes continuam a associar a homossexualidade a uma actividade “não natural”. Adolescentes e jovens revelam grande falta de informação, nomeadamente sobre métodos contraceptivos e infecções sexualmente transmissíveis (Vilar & Ferreira, 2009). Constataram ainda, que melhores conhecimentos se relacionam com maiores comportamentos preventivos, maior recurso a profissionais e vivências mais positivas da sexualidade.
Antunes (2007) verificou que os filhos de mães com o ensino secundário apresentam valores de maior proximidade atitudinal face ao “planeamento familiar e à educação sexual”.
Monteiro e Raposo (2006) num estudo para avaliar conhecimentos face a VIH/SIDA com alunos do ensino secundário, constataram não existirem carências cognitivas substanciais sobre VIH/SIDA, no entanto os resultados mostraram um desfasamento entre aquilo que os jovens conhecem da doença e o que expressam nos comportamentos sexuais.
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Martins et al. (2006), em São Paulo, concluíram que 95% dos inquiridos conhece algum método contraceptivo, sendo o preservativo e a pílula os mais conhecidos.
Reis e Matos (2007, 2008b), num estudo com estudantes universitários, para avaliar os conhecimentos e atitudes face aos métodos contraceptivos, constataram que a maioria dos participantes não possui muitos conhecimentos sobre métodos contraceptivos, mas apresenta uma atitude positiva face aos mesmos o que revela uma preocupação na prevenção dos riscos. As raparigas revelam mais conhecimentos e mais preocupação quanto à prevenção dos riscos que os rapazes.
Também Ramiro et al (2011), num estudo com adolescentes constata que as raparigas revelam mais conhecimentos, crenças e atitudes positivas face ao VIH do que os rapazes. As raparigas apresentam menos preconceitos que os rapazes.
Segundo o estudo Saúde dos adolescentes Portugueses (Matos et al., 2010a), efectuado em alunos do 6º,8º e 10º ano de escolaridade, conclui-se que cerca de dois terços dos alunos tiveram educação sexual na escola, maioritariamente numa disciplina curricular ou nas áreas curriculares não disciplinares, e a maioria considera-se esclarecido. No entanto há ainda algum desconhecimento no que diz respeito a temas de saúde sexual e reprodutiva e alguma ineficácia pessoal a nível das atitudes (conversar sobre o parceiro sobre o preservativo, e recusar ter relações sem preservativo), havendo também um embaraço sobre a aquisição e porte de preservativos.
O relatório de Saúde Sexual e Reprodutiva dos Estudantes do Ensino Superior (Matos et al.,2011), quanto às fontes de conhecimento da sexualidade, destacam-se os amigos (65,9%), seguido da internet (48,7%), comunicação social (46,7%), o centro de saúde (40,7%) o namorado (39%), os pais (39%) e por último os professores (27,2%) e irmãos (9,8%). As mulheres mais frequentemente obtêm informação no centro de saúde e os homens na internet. A maioria dos jovens sente-se devidamente informadas sobre os temas relacionados com a sexualidade.
Vaz (2011), num estudo com estudantes do ensino secundário, constatou que os inquiridos referem estar esclarecidos/informados sobre sexualidade (93%), apesar de na escola não existir nenhuma disciplina que se refira à sexualidade. Quanto à informação recebida é através dos amigos (29,3%) e da internet (27,7%) e a pessoa a que falou a 1.ª vez de sexualidade foi com os amigos (52,5%).
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A rede de pares constitui-se como um importante recurso de informação pelo que é necessário investir na educação e formação de adolescentes e jovens, para que possam ter poder de decisão no que concerne à sua sexualidade.