• Nenhum resultado encontrado

Conhecimentos e preparo para o cuidar e para o autocuidado após a

No documento sibelyrabacadiasdacosta (páginas 99-102)

4 DESCRIÇÃO DO CENÁRIO, SUJEITOS E EXPLORAÇÃO DA QUESTÃO DO

5.1 CONSTITUINDO-SE CUIDADOR FAMILIAR

5.1.1 Conhecimentos e preparo para o cuidar e para o autocuidado após a

O estudo de Castro (2009) destacou que, nos prontuários de pacientes que receberam tratamentos complexos, havia assinalada a alta com a condição “melhorada”, deixando o hospital assim que resolvidos os seus problemas agudos, retornando para casa geralmente com graus de dependência, ainda necessitando de cuidados que ficavam sob a responsabilidade da família. Iniciava-se, dessa forma, um processo de mudança na vida do familiar que aos poucos ia se tornando o cuidador principal após a alta. Este se via despreparado para os cuidados no domicílio, precisando, em alguns casos, aprender procedimentos, a fim de instituir uma nova rotina de cuidados assim que deixava o hospital. Retoma-se aqui o conceito de cuidador principal para Oliveira e outros (2006), que é aquele indivíduo que permanece a maior parte do tempo com a pessoa a ser cuidada. Inicialmente, este cuidador sentiu-se despreparado.

Assim, o despreparo do cuidador familiar para o cuidado caracterizou o momento da alta e pode ser compreendido como a falta de conhecimentos ou de

habilidades para realizar os cuidados de que o familiar dependente necessitava, o que pode ser observado através das seguintes falas:

Eu senti despreparada porque, até então, nunca tinha passado por problema assim. E, mesmo eu, às vezes, todo dia vendo, assistindo, como foi feito, como estarei fazendo, mas, até então, eu não tinha prática pra aquilo, eu não tinha treinado pra aquilo. (Lílian)

No início, assim quando a gente soube que ela ia ter alta, foi bem complicado, quando a gente não tinha noção nenhuma de como que ia ser, de como que aspirava, como que cuidava. (Lara)

Não só o despreparo, mas a falta de orientações fornecidas ao cuidador também foi encontrada em situações em que este não recebeu as orientações necessárias pela equipe de saúde para a realização dos cuidados, mostrando que a falta do conhecimento comprometia o cuidado do familiar.

É, a única informação que eu recebi foi que ela tava de alta, que aí..., mas explicação nenhuma assim, se tinha é carro, ou se tinha outras situações. Mas num bate-papo lá com outras pessoas do lado, dentro do hospital, aí eu fiquei sabendo com outras pessoas, que, se você pedir o Samu, eles, eles tem jeito, mas isso, de batendo um papo lá entre os pacientes que já tinha alta lá quando a pessoa ia precisar... Isso nós não tivemos não. Isso também, de repente, por eles achar que a gente tem, tá convivendo com a pessoa, que a gente tem até experiência. De repente nem é culpa deles também. (Wagner)

Esta falta de orientações foi identificada como motivo de sobrecarrega pelo cuidador, considerando o aumento da demanda de tempo e despesas com o cuidado. Assim a orientação por profissionais de saúde, e em especial pelo enfermeiro, se constitui em ferramenta importante nesta fase, de forma a aliviar o cuidador, que está vivenciando angústias por não saber como proceder frente às demandas do familiar dependente de cuidados.

O enfermeiro tem um papel muito importante no momento em que o cuidador familiar está apresentando déficit no autocuidado e precisa passar pelo sistema de apoio-educação. Este sistema de enfermagem, baseado nos sistemas de enfermagem de Dorothea Orem, mostra que o cuidador tem condições de aprender os cuidados a serem realizados, mas necessita do auxílio do enfermeiro ou de outros profissionais para o aprendizado (FOSTER; BENETT, 2000).

Ainda neste mesmo contexto de análise, outro aspecto observado foi o treinamento do cuidador familiar. Este ocorreu ao longo da internação ou no momento da alta, por meio de orientações ou ensino fornecidos por profissionais da equipe de saúde ao cuidador, incluindo os conhecimentos específicos que este precisou adquirir para a realização do cuidado do familiar dependente. As evidências abaixo permitem analisar que, ao receberam as orientações e/ou treinamentos para o cuidado de seu familiar, o cuidador relatou se sentir mais confiante, aliviando-se do estresse inicial, da insegurança, do medo, reduzindo o tempo de execução dos cuidados, favorecendo, desta forma, o autocuidado.

Mas aí o médico foi adiantando e pediu pra que a gente tivesse tipo um minicurso lá no hospital pra poder aprender a aspirar, aprender a cuidar dela... Aí, no começo, a gente ficou meio assustada, eu tinha medo de aspirar, mesmo tendo aprendido no hospital e fazendo no hospital para mim aprender, mesmo quando eu vim pra casa eu tinha medo porque não tinha médico, não tinha enfermeiro, não tinha ninguém por perto. Foi um pouco complicado no começo. Mas depois fui vendo que não era nenhum bicho de sete cabeças. (Lara)

Só agora, depois da alta dela, que ela saiu do CTI e voltando a fazer a diálise no hospital é que eu comecei a treinar pra que eu venha a cuidar dela em casa... Porque a dificuldade pra mim é demais. De eu sair e voltar com ela, levá-la e trazer. Eu não tenho condições de transporte pra ela assim. Então, o máximo que eu esforçar pra eu poder, eu aprender e ser perfeito pra cuidar dela em casa é melhor pra mim e muito pra ela. (Lílian)

O que foi passado que o doutor FC tinha me orientado em relação à alimentação que eu podia fazer pela seringa, que eu tava preocupada como é que eu vou alimentar a mãe pela sonda, como é que eu vou fazer isso, como é que eu vou fazer aquilo. Aí ele me explicou que eu poderia dar uma comida normal pra ela pela sonda, só que num estado mais líquido, coar pra não ter assim nenhum carocinho e administrar pela seringa normalmente. Que eu não precisava me preocupar tanto, era um processo que é fácil ser feito, só tem que ter alguns cuidados. Foi o que o doutor FC tentou me tranquilizar. (Marta)

Os relatos mostraram que, quando o cuidador recebia treinamento, ele conseguia reduzir seu tempo e esforços nos cuidados com o outro, contribuindo para a diminuição do medo, estresse e ansiedade ao executar seu papel, o que favoreceu o autocuidado. O enfermeiro poderá auxiliar o cuidador familiar através de práticas educativas, que são consideradas por Acioli (2008) como parte integrante do cuidado em enfermagem e que devem ser compartilhadas, através de um espaço

para a troca de experiências e de saberes, onde o enfermeiro possa observar a realidade e identificar as necessidades, a fim de avaliar e reorientar sistematicamente o planejamento das ações a serem desenvolvidas.

O estudo mostrou que as orientações e treinamentos realizados pelos enfermeiros, quando aconteciam, não eram realizados de forma sistematizada. Assim, as práticas educativas precisam ser planejadas de forma sistematizadas e individualizadas, de forma a atender a demanda de cada cuidador.

No documento sibelyrabacadiasdacosta (páginas 99-102)