2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.2 Linguagem e leitura: relações teóricas e propostas de trabalho
2.2.2 Conhecimentos prévios X Processo de leitura
[...] um discurso não é delimitado à maneira de um terreno, nem é desmontado como uma máquina. Constitui-se em signo de alguma coisa, para alguém, em um contexto de signos e de experiências.
Dominique Maingueneau20 [...] um fator imprescindível a todo tipo de comunicação: o acionamento do conhecimento prévio, que permite a antecipação de conteúdos e a formulação de hipóteses sobre os fatos e acontecimentos relatados.
Angela M. S. Corrêa e Tânia Reis Cunha21 20 MAINGUENEAU, D. 1997. p. 34.
21 CORRÊA, Angela M. S.; CUNHA, Tânia Reis. Trabalhando a leitura em sala de aula. In: PAULIUKONIS, Maria Aparecida L.; SANTOS, Leonor W. dos. (Orgs.). 2006. pp. 81-82.
A partir da convergência das palavras acima citadas, percebe-se a relevância de um fator pré-existente ao momento da comunicação para a efetivação do processo em si, seja em forma de experiências adquiridas ou construídas, conforme as palavras do analista do discurso francês, seja como conhecimentos prévios, de acordo com o postulado pelas linguistas brasileiras.
Além desses pesquisadores, existem outros que, em seus trabalhos, elucidam a relevância do uso desse fator pré-existente, anterior ao processo de comunicação.
Na visão de Charaudeau (2003), pesquisador que pertence à corrente francesa da Análise do Discurso, a comunicação é um processo discursivo contínuo, nada hermético, que está em constante mutação, semelhante a uma encenação, com o envolvimento de personagens, chamados de 'parceiros', que atuam conforme as regras de um contrato pré-estabelecido, marcado por restrições impostas em decorrência de uma situação comunicativa, lançando mão de estratégias linguísticas e discursivas, a fim de produzirem efeitos de persuasão ou sedução uns sobre os outros. Para sua eficácia, é necessário que cada um desses 'parceiros' utilize seus conhecimentos linguístico, discursivo e de mundo, adquiridos ao longo da vida, visando à construção de hipóteses quanto a sua própria imagem, bem como à imagem de seu interlocutor, criando, assim, novos personagens, fictícios, com identidades linguageiras, que também participam do processo de encenação discursiva.
Dessa forma, ao se tecer hipóteses, construir imagens, antecipar e prever respostas, lança- se mão desse fator anterior, os conhecimentos prévios, o que evidencia sua relevância para que seja realizada de forma discursiva, a contento, a comunicação, e, por extensão, a leitura, enquanto manifestação da linguagem.
No tocante ao tema, Maingueneau (1997, p. 34), outro analista do discurso da linha francesa, afirma que “[...] a 'encenação' não é uma máscara do 'real', mas uma de suas formas, estando este real investido pelo discurso.”
Suas considerações sobre a encenação vão ao encontro dos postulados de Charaudeau (op. cit.), confirmando seu caráter discursivo e destacando sua simbiose com o real. Além disso,
suas pesquisas deixam latente a dependência social dos sujeitos enunciadores envolvidos no processo, posto que suas identidades sofrem influência do meio sócio-histórico e cultural no qual estão inseridos.
Esse pesquisador tece ainda algumas considerações sobre o contrato de comunicação, afirmando que, para seu estabelecimento, é necessário que os indivíduos possuam um determinado nível de conhecimento comum, no tocante às práticas sociais que os envolvem, além de compartilharem o conhecimento linguístico necessário à representação dessas práticas, o que, a exemplo das considerações de Charaudeau (2003), também evidencia a relevância de um fator pré-existente ao momento da comunicação, os conhecimentos prévios, para o estabelecimento de todo e qualquer processo comunicativo, incluindo-se, aqui, o processo de leitura.
Existem outros pesquisadores que também fazem referência aos conhecimentos prévios no processo de comunicação.
Com vistas a dar mais subsídios à relevância do uso dos conhecimentos prévios durante o processo de leitura, são elencadas, a seguir, algumas das considerações de dois pesquisadores da linha inglesa da Análise do Discurso, Brown e Yule (1993).
O trabalho dos pesquisadores ingleses, em alguns pontos, está em concordância com as considerações da linha francesa da Análise do Discurso. Em nosso trabalho, são elencados somente alguns dos que evidenciam a relevância dos conhecimentos prévios ao processo comunicativo.
Em primeiro lugar, ao falarem de pressuposição, afirmam ser importante para o processo de interpretação o papel do contexto, incluindo, dessa forma, o conhecimento comum compartilhado entre os indivíduos envolvidos, bem como o conhecimento de mundo, empírico de cada um.
Ao postularem sobre inferências, deixam clara a importância do conhecimento discursivo compartilhado para que haja prosseguimento do processo comunicativo.
comunicativos', que, ordenados pelas regras impostas por um contrato comunicativo, compõem o discurso. Tais atos são orientados, entre outros fatores, pela ativação dos conhecimentos prévios dos indivíduos envolvidos no processo, oriundos de experiências e de discursos anteriores.
O contrato, a exemplo do postulado pela linha francesa da Análise do Discurso, está inserido numa situação comunicativa que estabelece restrições para todo o processo. No entanto, fica evidente que a interpretação do discurso, estando diretamente na dependência individual e coletiva do que já se sabe, pode acarretar a construção de significados inesperados pelos sujeitos enunciadores, o que reforça o caráter de continuidade e ineditismo do processo discursivo.
Uma vez que, a partir das considerações supracitadas se evidencia a importância do uso dos conhecimentos comum, de mundo, e discursivo para que se dê a comunicação, fica latente, também para os estudiosos da linha inglesa da Análise do Discurso, a relevância dos conhecimentos prévios, posto que abarca os anteriores.
A seguir, buscando ampliar o escopo de ocorrências do uso do conhecimento prévio, elencamos alguns dos postulados da Estética da Recepção, outra corrente teórica que também elucida sua relevância para a leitura, a partir das considerações de pesquisadores como Jauss (1978) e Vincent Jouve (2002).
Se a leitura tem um impacto no leitor, é porque ela relaciona o universo do sujeito com o do texto. O leitor, ao reagir positiva ou negativamente a essa experiência, sai dela inevitavelmente transformado. [...] O leitor só pode “fazer falar” um texto, isto é, concretizar numa significação atual o sentido potencial da obra, desde que insira seu pré-entendimento do mundo e da vida no espaço de referência literário envolvido pelo texto. Esse pré-entendimento do leitor inclui as expectativas concretas que correspondem ao horizonte de seus interesses, desejos, necessidades e experiências tais quais são determinados pela sociedade e classe à qual pertence como também pela sua história individual. (JAUSS, 1978, p. 259)
De acordo com as palavras de Jauss (op. cit.), fica clara a importância do papel dos conhecimentos prévios no processo de leitura, posto que, segundo a perspectiva defendida, a construção do sentido somente se concretiza a partir da inclusão desses pré-conhecimentos no
universo textual.
Em suas pesquisas, Jouve (2002, p. 19) afirma ser o texto um jogo que elucida um “saber mínimo que o leitor deve possuir se quiser prosseguir a leitura.” É com base nessa assertiva que, aqui, evidencia-se a relevância dos conhecimentos prévios para o processo de leitura, uma vez que sem esse saber mínimo, sem esse conhecimento pré-existente, não existe leitura. Para uma melhor compreensão dessa afirmação, analisamos outras assertivas, postuladas pelo mesmo pesquisador.
Primeiramente, ao apresentar a leitura como um processo de antecipação, estruturação e interpretação de signos, o linguista deixa implícita a necessidade de haver conhecimentos prévios no tocante à língua em si e ao sistema de signos que, orientados por regras estruturais e discursivas, permitem que o texto exista fisicamente. Se o leitor não compartilhar do mesmo sistema linguístico verificado no texto, será praticamente impossível a construção de qualquer sentido, o que acarretará a ausência do processo de interpretação, ausência da leitura.
Dessa forma, fica clara a necessidade, a relevância do uso do conhecimento linguístico pré-existente para o processo de leitura.
Além desse conhecimento, Jouve (op. cit) afirma existir outro tipo, chamado de 'afetivo', que, a exemplo do anterior, facilita a construção do(s) sentido(s) e a interpretação no processo de leitura. Tal conhecimento poderia atrelar-se ao conhecimento discursivo, postulado pelos analistas do discurso, uma vez que se relaciona com a experiência estética do leitor. No tocante a esse último conhecimento, o pesquisador afirma ser este importante para que a leitura se concretize enquanto processo argumentativo, ou seja, enquanto construção de sentidos, uma vez que, ao (re)conhecer as características discursivas presentes em um texto, o leitor assume ou não “[...] para si próprio a argumentação desenvolvida [...]”, construindo expectativas e realizando antecipações e inferências antes e durante o processo de leitura. Com base nas assertivas analisadas até o momento, percebem-se relevantes para o processo de leitura os conhecimentos linguístico e discursivo que, somados ao conhecimento compartilhado de mundo, conforme o exposto nesta Dissertação, constituem os chamados
conhecimentos prévios.
No tocante à terceira categoria que consta da trilogia constitutiva dos conhecimentos prévios, a saber, o conhecimento de mundo, Jouve (op. cit.) afirma estar presente no processo de leitura, uma vez que os contextos sócio-histórico e cultural dos indivíduos envolvidos, leitor e autor, influenciam na construção do(s) sentido(s) e que a interpretação está igualmente amparada e dependente do conhecimento compartilhado desses contextos, o conhecimento de mundo.
Dessa forma, estando a leitura e a construção de sentidos diretamente dependentes dos conhecimentos linguístico, discursivo e de mundo, mais uma vez, fica evidente a importância dos conhecimentos prévios para o processo de leitura.
Em se tratando de um trabalho que visa à formação de leitores críticos e auto-suficientes, abordamos, a seguir, alguns dos principais problemas e propostas de solução para o trabalho de formação de leitores.