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Conhecimentos textuais gatilho no trato com a diversidade interpretativa dos

2.2 A COMPREENSÃO TEXTUAL NA PERSPECTIVA DA SOCIOCOGNIÇÃO

2.2.2 Conhecimentos textuais gatilho no trato com a diversidade interpretativa dos

Por se considerar que existe uma atividade pautada nas práticas sociais, dadas as configurações e estruturas partilhadas, entendemos que há uma aproximação dos

conhecimentos socialmente distribuídos e que refletem, em alguma instância, as construções textualmente elaboradas, já que a comunicação humana é atravessada pelos textos, e nada é dito de forma desconectada ou desarticulada; consideramos, portanto, todo o mecanismo que faz da língua uma realidade simbólica, amparada em níveis que a estruturam.

A leitura ou o contato com os textos apontam para a existência e visitação a outros repertórios linguísticos que em intercâmbios possibilitam, a partir dos conhecimentos arquivados, o entrelaçamento com muitas outras memórias textuais, bem como geram a visualização de características comuns entre essas “unidades”, o reconhecimento de temáticas, constituindo uma espécie de atuação dialogal através de ambientes que revelam coexistências e aproximações, considerando, para tanto, a participação e envolvimento dos interlocutores.

Ao se reconhecer as pluralidades textuais e suas repercussões na vida da sociedade, torna- se possível atuar da maneira mais adequada comunicativamente, mas não só, pois tais materialidades colaboram tanto na criação de expectativas como na recepção da diversidade de textos. Além disso, constroem-se vínculos entre a língua e a própria cultura nos “rituais” da vida cotidiana, o que acaba por revelar uma relação direta entre a própria natureza do homem, suas elaborações sociais, a multiplicação dos conhecimentos e a sua identificação enquanto sujeito que emprega significações, já que “não há um a priori nem um centro regulador da significação, mas ela é produto das interações sociais no interior de uma cultura e da história” (MARCUSCHI, 2002, p.60).

É possível dizer que, considerando este enquadre, há certa coordenação nas atividades verbais processadas ao se perceber como ações são compartilhadas textualmente; uma dentre tantas possibilidades, é o comentário online, tão comumente presente em sites de rede social, como o Facebook. Ações como essas orientam a comunicação, pois estabelecem laços com outras atuações textuais anteriormente praticadas e reconhecidas, considerando, para tanto, modelos estruturados discursivamente, encontrando apoio no já projetado em meio social, inclusive, no que diz respeito aos propósitos comunicativos. Esses constructos auxiliam e favorecem as construções significativas, pois algo de reconhecível direciona as elaborações (BAZERMAN, 2011b) dentro de espaços nos quais se transita, dando contornos às percepções individualizadas, mas possibilitando nas esferas de construções linguísticas, a existência de forças que são estabilizadoras e que apoiam as “reproduções” de significações.

O envolvimento e o trabalho do leitor/ouvinte sobre uma quantidade diversa de textos, aos quais ele está publicamente exposto e passam a ser “visivelmente” percebidos dentro dos empreendimentos discursivos, permitem e facilitam intercâmbios e processos de socialização, orientam a agência e propiciam investidas oportunas no quadro interpretativo, bem como na (re)configuração de propósito(s) comunicativo(s) intencionado(s), e faz repercutir os aspectos culturais, sociais e políticos, gerando novas experiências, capacitando os interlocutores, mas também sensibilizando os seres de linguagem, de uma forma tal que “cada prática representacional traz dinâmicas sociais encaixadas e consequências para a maneira como vivemos” (BAZERMAN, 2011a, p.161), mobilizando existências, fundando não só o conhecimento humano, mas também capacitando ou habilitando uma ordem discursiva.

A integração entre diversos conjuntos textuais que compõem os quadros discursivos humanos não só possibilita a configuração de unidades comunicativas, mas também assegura vínculos entre aquilo que é sabido e construído textualmente; assim, os conteúdos ganham representatividade em mundos mentais, que carregam em essência perspectivas globais, apoiando-se em outros conhecimentos, via texto, e /ou ainda a eles remetem (BAZERMAN, 2011b).

O mundo, que é estruturado textualmente, atua como pano de fundo na constituição de sentido(s), já que em alguma medida refletem experiências humanas prévias, auxiliam no preenchimento de certas lacunas, em possibilidades de identificações, de um modo tal que, como sugere Duran (2009, p.9), “o texto apresenta e propõe ao leitor um universo”, apontando, por certo, a um contexto que é socioculturalmente assegurado, que emerge a cada momento de interlocução, mas também é perpassado por um arcabouço cultural difundido de indivíduo para indivíduo.

Somos, pela constituição humana e vários dos aspectos que a envolve, seres fundamentados em relações semiotizadas e amparados por uma cognição que possibilita acumular conhecimentos e experiências; desfrutamos de memória privilegiada e reconhecemos os outros como seres dotados de intenção (TOMASELLO, 2003), o que direciona potencialmente a maneira como configuramos nossas ações, quer na elaboração dos próprios “produtos” de interação quer nas perspectivas a serem assumidas na condição de interlocutores (BAZERMAN, 2011a), o que garante meios e práticas, dentro dos interesses e

atribuições dadas a uma postagem, por exemplo, e orienta para aspectos característicos de uma comunidade.

Os movimentos conjuntamente produzidos auxiliam no trato ou na maneira como conceitos, instruções e aprendizados podem ser solidificados, mas também estruturam as habilidades avaliativas em relação à elaboração e à recepção dos enunciados construídos (MACHADO, 2005), pois além de criarem efeitos complexos propagados no seio das comunidades, viabilizam a geração de novas e variadas situações que propiciam o desenvolvimento de uma pluralidade de reações, relações e sentidos, inclusive, valorativas, como podem ser percebidas nos comentários publicados e nas proposições indiciadas.

No âmbito dessas construções, a partir de direcionamentos possíveis, entre o reconhecido e processado, entre ditos e não-ditos, nas relações entre dado e pressuposto (MARCUSCHI, 2008), mas também em decorrência das experiências, dos saberes acumulados e de um repertório um tanto individualizado, todavia, configurado na zona de contato com a coletividade, torna-se válido fazer um parêntese para dar espaço à construção de inferências no processamento textual para a construção de sentido(s).