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6 INTERPRETANDO OS RESULTADOS SOB A LUZ DO MÉTODO

6.4 CONJECTURAS A RESPEITO DO COMPORTAMENTO ARGUMENTATIVO DOS

Observou-se reiteradamente, ao longo da presente dissertação, que, dentre as propostas metodológicas de Gustavo Just, aquela a ser adotada seria a cartográfica – e não a analítica. Isso significa que o trabalho se propôs a investigar a distribuição dos argumentos desenvolvidos no voto de cada ministro, dentre as camadas discursivas previamente estabelecidas, particularmente a 2ª e a 3ª, isto é, os modelos interpretativos e os argumentos não codificados juridicamente.

Dessa maneira, após um longo capítulo a esse respeito, foram elaboradas tabelas, a fim de sintetizar os resultados obtidos e, mais do que isso, enxergá-los sob três perspectivas: a individual, a global e a “por posicionamento decisório”. Finalmente, utilizou-se esses dados para o fornecimento de respostas a questões preestabelecidas. Mesmo nessa última etapa, o método cartográfico não foi extrapolado. As perguntas tiveram como objetivo simplesmente a melhor compreensão do material obtido a respeito da distribuição de argumentos de cada ministro – em suma, do seu modus argumentandi (de maneira individual, global e por bloco). Assim, não se procurou questionar as razões, interesses, motivações por trás de cada argumento, bem como as repercussões visadas e afastadas pelos ministros, nem tampouco se procedeu a uma investigação crítica a esse respeito, o que (aí sim) caracterizaria o uso do método analítico. Qualquer que seja o método adotado, porém, a fim de ser fiel à proposta de pesquisa de Just, deve-se enxergá-lo sob a ótica da retórica da objetividade. Isso significa que os argumentos apresentados pelos ministros sempre têm como finalidade a transmissão de um saber, isto é, de um juízo de conhecimento, e não de um juízo valorativo (ou volitivo), ou seja, de um querer. Nesse sentido, mesmo quando um ministro abre uma concessão, ao admitir um certo grau de discricionariedade em sua decisão, ainda assim ele tenta convencer as partes, os demais ministros e a sociedade em geral a respeito de sua racionalidade e, até certo ponto, objetividade.

Não se pode negar, contudo, que, ainda que observada em qualquer um dos dois métodos propostos, é no analítico que a retórica da objetividade se revela com mais força, na medida em que se busca razões, pretensões e interesses dos ministros, ocultos sob o véu da retórica. Nesse subcapítulo final, serão tecidos alguns comentários a esse respeito, aproximando-se assim do método analítico, sem, contudo, nele imergir, uma vez que nada será concluído, afirmado, mas apenas sugerido, suposto, conjecturado. Na realidade, busca-se aqui o incentivo a possíveis trabalhos futuros e não o estabelecimento de conclusões, já que as questões do presente trabalho já foram respondidas nos subcapítulos anteriores.

Uma reflexão muito interessante recai sobre o questionamento das razões por trás do maior uso da analogia como argumento principal. Nesse sentido, por que vários ministros (inclusive o Relator) utilizaram a analogia como principal e o sopesamento de princípios como eventual?

Pode-se supor que a alegação do conflito aparente, isto é, da ausência de direito à vida de um dos lados da balança, em razão da analogia com a morte encefálica, seja mais aceitável pelo público em geral do que o entendimento de que a vida (ainda que inviável) pode ser afastada e derrotada no caso concreto. Consequentemente, esse último argumento foi, pelo entendimento mais frequente (de ao menos 4 dos 8 ministros favoráveis), rebaixado ao patamar de argumento eventual.

Como se observa, não se trata de um raciocínio infalível. Dois ministros (Joaquim Barbosa e Luiz Fux) se valeram da ponderação de princípios como argumento principal. Gilmar Mendes, por sua vez, descartou os dois e pautou seu voto pelo argumento histórico-evolutivo, além de ter sido aparentemente o ministro que mais se valeu de um discurso ativista, pregando a imagem do Supremo como legislador positivo. Celso de Mello, em menor grau, também apresentou algumas passagens de cunho ativista em seu voto. Nesse sentido, todas essas ressalvas mostram que a suposição acima colocada não é, de modo algum, uma regra sólida. Apesar disso, ela se mostra um ponto de partida certamente interessante para um trabalho futuro.

Nesse contexto, muito significativa é também a expressão “antecipação terapêutica do parto” ou “interrupção de gravidez de feto anencéfalo”. Como foi mostrado no capítulo 4, essas expressões foram utilizadas diversas vezes pelos ministros, sobretudo (mas não exclusivamente) por aqueles 4 acima referidos, que se valeram da analogia como argumento principal. Esse uso, por certo, não é meramente despretensioso, na medida em que apresenta

razões simbólicas bastante marcantes para a sua recorrência. Isso porque a utilização do termo “aborto” impõe uma carga argumentativa bem maior para aquele que deseja votar em sentido favorável, além de dificultar o uso do argumento analógico. Por outro lado, para os ministros contrários, a menção ao “aborto” se mostra mais do que propícia.

Novamente, porém, essa observação não se traduz em uma regra infalível. Como comentado no capítulo 4, o uso do termo “aborto” (ou mesmo o expresso afastamento das expressões referidas no início do parágrafo) foi observado por 3 dos ministros favoráveis: Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes. Nesse sentido, mais uma vez se indaga sobre quais comportamentos argumentativos seriam adotados pelos ministros do Supremo se algum dia eles vierem a se posicionar (sobretudo por meio de uma decisão com efeito vinculante e eficácia

erga omnes) a respeito do aborto em geral, isto é, de feto viável. Por ora, contudo, observe-se

apenas que a suposição apresentada, ainda que longe de ser incontestável, apresenta-se igualmente como semente viável para uma pesquisa futura.

Outra sugestão de trabalho pode incidir sobre os motivos pelos quais os ministros que votaram em sentido negativo rejeitaram os métodos pós-positivistas. Desse modo, pode-se iniciar questionando de que maneira esses últimos se mostraram indesejáveis para uma argumentação que defende a manutenção do entendimento jurisprudencial corrente e a “discrição judicial” (em oposição à expressão “ativismo judicial”).

Por fim, no que concerne à 3ª camada, pode-se refletir a respeito das razões por trás da imensa predominância dos argumentos técnico-científicos no acórdão como um todo. Nesse sentido, uma hipótese válida é a de que o seu caráter racional parece transmitir uma maior credibilidade às partes, aos demais ministros e ao público em geral se comparado a outros tipos de argumentos extrajurídicos. Trata-se justamente de sua importância em termos de retórica da objetividade. Por outro lado, ministros - favoráveis e contrários – valeram-se desses argumentos. Seria então a flexibilidade outro de seus atrativos argumentativos? Pode-se certamente utilizar também essa questão como ponto de partida para um trabalho acadêmico.