PARTE II – O PINTOR MANEIRISTA DIOGO TEIXEIRA E A SUA OBRA
5. A OBRA
5.2. Pinturas em estudo
5.2.3. Conjunto do Mosteiro de Arouca
Arouca possui uma localização privilegiada e insere-se num território extremamente rico em termos de recursos naturais, o que desde cedo fomentou a fixação populacional, nomeadamente daqueles que se dedicavam à vida religiosa. O mosteiro de Arouca foi edificado no tempo da Reconquista e fez parte de uma política de consolidação de ocupação de territórios conquistados aos muçulmanos. A vida monástica passou por diversas fases e, apesar de não se conhecer com exatidão a sua data de fundação, sabe-se que se situa entre os anos 915 e 925.
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A época de maior destaque na vida do mosteiro verificou-se durante a estadia de D. Mafalda, filha de D. Sancho I e D. Dulce e que, após ver o seu casamento com D. Henrique I de Castela cancelado, ingressou na vida religiosa. A princesa foi boa administradora, tendo o mosteiro realizado «de 1218 a 1256 quatro compras
e sete permutas, para além de ser contemplado com 13 legados». Cumpriu
igualmente um papel fundamental na reforma da vivência conventual, tendo-a passado para a regra de Cister. D. Mafalda ganhou fama de santidade quando, em 1616, ao ser aberto o seu sepulcro, o seu corpo foi encontrado pelo bispo de Lamego quase incorrupto. A partir daí iniciou-se o processo de beatificação que durou até 1792 (PINHO [et al.]: 2003, 15).
O período que abrange o fim do séc. XV e o séc. XVI constituiu, igualmente, uma época de grande prosperidade para o mosteiro, graças a D. Leonor Coutinho, filha dos Condes de Marialva e, sobretudo, D. Melícia de Melo, que levaram a cabo obras de construção nos edifícios, enriqueceram-nos de novas alfaias e adornaram os altares (PINHO [et al.]: 2003, 33), ações das quais pode fazer parte a encomenda a Diogo Teixeira.
A história arquitetónica do mosteiro não é fácil de traçar, visto existirem poucas informações e registos sobre a mesma. Pensa-se que a primeira construção corresponderia a um pequeno templo moçárabe e que posteriormente este tenha dado origem a uma construção românica, ampliada depois na época gótica. Essa construção gótica deveria possuir três naves, cabeceira tripla e ocuparia o espaço um pouco a norte da primitiva, com a mesma implantação do atual coro. Em finais do século XVII iniciaram-se as obras que acabaram por dar origem à construção que conhecemos atualmente, registando-se algumas notas relativas a esse processo, nomeadamente a inauguração da igreja a 21 de Outubro de 1718, a transladação do túmulo de Santa Mafalda para o novo altar a 20 do mesmo mês e a execução do altar-mor em 1723.
Em 1725, um grande incêndio destruiu o sector velho do mosteiro, conseguindo salvar-se a igreja. As reconstruções não permitem ajuizar acerca da zona atingida por este incêndio (GONÇALVES: 1991, 34,35).
105 O mosteiro apresenta-se hoje como um corpo retangular central, orientado no sentido norte-sul, do qual se desenvolvem outros dois retângulos, mais estreitos e alongados, que formam o conjunto da igreja e coro a nordeste e o celeiro a sudoeste (Figura 16). No corpo central, abre-se o claustro e para norte deste, o pátio norte. Para sul do claustro, surge um outro pátio, de maiores dimensões, designado dos Comuns, que é limitado a sul pela ala de Mafra e a norte pelo corpo transversal interior em que se encontra o refeitório. Em frente à ala poente, abre-se o terreiro da Rainha D. Mafalda, que é limitado a sul pelo Celeiro e a oriente pela Casa dos Padres, atualmente Biblioteca Municipal (PINHO [et al.]: 2003, 40,41).
Figura 16: Vista aérea do Mosteiro de Arouca.
Fonte: aminhaagenda.aroucaonline.com [em linha]. [Consult. 11 Janeiro 2016] Disponível em http://aminhaagenda.aroucaonline.com/2009/09/04/4-de-
setembro-de-2009-arouca-vista-de-cima/img_3298/
Figura 17: Entrada do Museu de Arte Sacra de Arouca.
Fonte: recriacao.cm-arouca.pt [em linha]. [Consult. 11 Janeiro 2016] Disponível em http://recriacao.cm-arouca.pt/?page_id=100]
Após a morte da última monja em 1886, o governo determinou que os objetos mais interessantes do mosteiro seriam levados para Lisboa e Aveiro, situação que não agradou à população local, que se manifestou contra, lutando pela permanência do património na sua vila, mesmo sob ameaça das armas. Efetivamente cumpriu-se a vontade do povo, que conseguiu conservar as peças na sua vila (PINHO [et al.]: 2003, 57). Este património artístico, assim como a igreja o claustro e outros espaços ficaram sobre a alçada de uma corporação local, a Real Irmandade da Rainha Santa Isabel (GONÇALVES: 1991, 35).
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Em 1934 iniciaram-se os trabalhos para a criação do museu, apoiados pela Câmara Municipal e pela Real Irmandade. Contudo, a 19 de Outubro de 1935, um incêndio destruiu quase integralmente duas alas do antigo cenóbio e esteve prestes a devastar o espólio artístico e documental que lhe pertence, o que não aconteceu, mais uma vez, devido à ação dos populares. Os trabalhos de reconstrução e adaptação à função museológica, que foram retomados depois deste episódio, tiveram o apoio do Estado e dotaram Arouca de um relevante Museu de Arte Sacra (PINHO [et al.]: 2003, 57) (Figura 17).
Este espaço possui um variado acervo artístico que pertenceu quase na totalidade à comunidade religiosa, composto por objetos litúrgicos, ourivesaria, pintura, escultura, livros, mobiliário, entre outros.
Do património pictórico, faz parte este conjunto retabular, atribuído a Diogo Teixeira e realizado, provavelmente, para o retábulo do templo existente na igreja do Mosteiro antes da reconstrução do século XVIII. Este conjunto é composto por seis pinturas – Ascensão, Incredulidade de São Tomé, Pentecostes, Padre
Eterno, São Sebastião, Santa Luzia e Santa Bárbara (predela), Santa Escolástica, Santa Eufémia e São Mauro (predela) – e foi atribuído a Diogo Teixeira por
Adriano de Gusmão, em 1954 (GUSMÃO: 1954). Esta atribuição teve como ponto de partida uma nota existente no Arquivo Histórico da Misericórdia do Porto, divulgada pelo historiador Artur de Magalhães Basto, que dá conta do regresso de Diogo Teixeira à cidade invicta em 1597, vindo de Arouca: “It. En doze de junho
deu Manoel Cerveira per mandado do provedor a Estêvão Freire trezentos e nouenta rs que despendeo per su mandado em duas galinhas e em dez arratéis de vaqua e um frasquo de vinho e em duas esponjas que tudo se deu a Diogo Teixeira no dia em que chegou de Arouqua a concertar os paineis de D. Lopo de Almeida, e assinou com o provedor. Pantaleão da Rocha Rebello o escrevi”
(BASTO: 1931, 18).
Quando Adriano de Gusmão se deslocou ao Museu de Arte Sacra, que funciona no antigo mosteiro desde 1933, encontrou as seis pinturas referidas acima. As características que apresentavam, como a “qualidade do desenho (…) a
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elegância do nu de Cristo, na Incredulidade de São Tomé e, até o seu particular e reservado sentimento da cor”, levaram o historiador de arte a atribuir este
conjunto (sem grandes dúvidas) à mão do pintor maneirista Diogo Teixeira. Balizou a sua execução entre 1596 e 1598 e afirmou inclusivamente que estas tábuas “são das melhores desse mestre lisboeta!” (GUSMÃO: 2004, 310).
Vítor Serrão corrobora esta datação, que considera concordante com a evolução do estilo do artista e trabalho “quase em exclusividade (dos seus) pincéis” (SERRÃO: 1993a, 56).
Este conjunto de seis pinturas foi ampliado após este historiador de arte identificar mais dois painéis – São Miguel Arcanjo e São Domingos de Gusmão – aquando de uma intervenção de restauro realizada no Instituto José de Figueiredo numa pintura procedente de Arouca que, em 1976, se mostrou ser afinal a união de duas tábuas distintas. Para Vítor Serrão, estes dois painéis pertencem ao mesmo conjunto retabular quinhentista (SERRÃO: 1993a, 59).
Com esta descoberta, o historiador de arte admite que o retábulo de Arouca se encontra praticamente completo, podendo faltar eventualmente uma das tábuas da predela e avança para uma possível organização deste, apresentada na Figura 18.
Trata-se de um retábulo que se desenvolve em ático, dois corpos, três tramos e predela, sendo que no ático surge o Padre Eterno, encimando todo o conjunto; os dois corpos formam o conjunto central do retábulo, com as pinturas com os temas da Ascensão, Incredulidade de São Tomé e Pentecostes e, por fim, os painéis intitulados Santa Escolástica, Santa Eufémia e São Mauro e, São Sebastião,
Santa Luzia e Santa Bárbara, que pertencem ao nível inferior do conjunto, que
corresponderia à predela. Estas seis primeiras pinturas encontram-se expostas individualmente numa sala do Museu de Arte Sacra dedicada exclusivamente a este pintor, situada na ala norte do edifício, onde outrora funcionou o próprio mosteiro (Figura 19 e Figura 20) enquanto as restantes duas se encontram noutra sala do cenóbio, de acesso restrito, pelo que o seu estudo não foi contemplado neste trabalho.
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Figura 18: Esquema hipotético da distribuição dos painéis no retábulo.
Fot. Luís Bravo Teixeira. © Nuno Correia
Figura 19: Sala do pintor Diogo Teixeira no
Museu de arte sacra de Arouca.
Figura 20: Sala do pintor Diogo Teixeira no Museu de arte sacra de Arouca.
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