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Conjuntura internacional e o Estado na década de 1990

A globalização materializada pela onda de internacionalização econômica dos anos 1970/90 não é um fenômeno original ou único. É um movimento regular na trajetória do capitalismo, desde o século XV, que “entre 1870 e 1914, igual ou maior intensidade do que

agora nos anos 1990” (FIORI, 1997:143). Ainda segundo este autor (2004:42), a

globalização:

foi brilhante e primeiramente identificada por Marx, ao descrever processo histórico de expansão das economias européias, até a constituição do sistema econômico mundial e capitalista: movida pela necessidade de novos mercados, a burguesia invadiria todo o globo. Necessitaria estabelecer-se em toda parte, exploraria em toda parte, criaria vínculos em toda parte. [...] (MARX [1848], 1953: 24).

O desdobramento da citação acima parece mais evidente com o surgimento da grande indústria a partir do início século XIX, pois aparece um instrumento capaz de materializar a tendência do capitalismo à expansão contínua, o que na prática se traduzirá na necessidade de ampliação do mercado mundial. Esse instrumento, conhecido como globalização, se manifesta por meio da afirmação e predomínio dos países pioneiros no processo de industrialização. As transformações do capitalismo buscando a expansão contínua têm origem em uma característica fundamental desse sistema, qual seja, o movimento da taxa geral de lucro, que sofre influência da globalização e dos ciclos econômicos. Nessa perspectiva, a globalização é considerada endógena ao capitalismo, ou seja, própria da sua natureza, composta de contrações, rupturas e relações mútuas, empiricamente ela reflete as flutuações da taxa geral de lucro, as quais motivam os capitais a ampliarem os mercados e a ocuparem novas regiões e territórios (BALACO et al, 2004). “A tendência a criar [e ampliar]

o mercado mundial está diretamente inscrita na idéia mesma de capital. Cada limite aparece

como uma barreira a ser superada” (MARX, 1857:8 apud GARLIPP, 2001:5).

Assim, quando ocorre redução da taxa de lucro nas economias nacionais, os capitais se deslocam no espaço, entre regiões em um mesmo país ou entre países. Desse modo, no capitalismo, produção, realização do excedente e acumulação do capital estão a um só tempo, logicamente relacionadas entre si, também se articulam de acordo com ritmos, volumes e proporções desiguais no tempo e no espaço (MARX, 1986).

Embora nos anos 1990 a palavra ‘globalização’ tenha se transformado em modismo, ela não apresenta um conceito fechado, pois em virtude de sua complexidade, possui uma variada gama de abordagens e definições. “A globalização é o resultado da

multiplicação e intensificação das relações entre os agentes econômicos situados nos mais

diferentes pontos do espaço mundial” (MARTINS, 1996:01).

Na mesma linha, Souza (2000) conceitua globalização como a expansão das relações capitalistas de produção e a formação de grandes empresas transnacionais, integradas nos mais diversos pontos do planeta através do sistema de troca, com uma divisão do trabalho em escala internacional e também a integração progressiva do sistema financeiro.

A globalização é um fenômeno que pode ser definido como “intensificação das

relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e

vice-versa” (GIDDENS, 1991:69). Esses movimentos são dialéticos, onde processos que

ocorrem num local numa direção podem ter conseqüências muito diferenciadas e em direção oposta em outro local muito distante.

Sendo assim, o conceito de globalização envolve uma dupla face, de um lado uma generalização mundial das atividades de natureza política, social e econômica, de outro, traz uma maior intensificação na interação e interconexão entre sociedades e Estados que formam a comunidade internacional. Nesse sentido, ocorrem mudanças nas relações internas do Estado com o cidadão, bem como nas relações externas, ou seja, entre Estados no contexto internacional. A globalização não é resultado exclusivo das forças de mercado, pois existem decisões políticas fundamentais, tomadas pelos governos de países centrais, que determinam os seus rumos, conforme a conveniência desses países. Assim, ela é ao mesmo tempo, resultado de fatores políticos e econômicos.

Apesar de ser considerado um fenômeno recente por algumas abordagens, a globalização ganha velocidade e intensidade notáveis a partir dos anos 1970 com o colapso do sistema de Bretton Woods, a crise do petróleo, a diplomacia americana do dólar forte e a internacionalização dos mercados financeiros. O desenvolvimento da tecnologia da informação e dos transportes é outro fator que influenciou decisivamente a globalização, pois reduziu as limitações da distância e do tempo na organização e na interação social, notadamente na década de 1990 (HIRST e THOMPSON, 1998). Outro fator importante é a ampliação e consolidação de organizações internacionais multilaterais que trouxeram à tona a discussão sobre a soberania do Estado-nação. Esta discussão está relacionada ao conceito de globalização, bem como às suas críticas, pois inclui padrões de interdependência não apenas entre agentes econômicos, mas também entre atores políticos.

Nos anos 1980, é um fato importante para o processo de globalização o fim da Guerra Fria, simbolizada pela queda do muro de Berlim em 1989, pois provocaram mudanças

profundas no sistema internacional, haja vista a desintegração da bipolaridade de domínio político-militar (Estados Unidos e União Soviética). Essa mudança trouxe incertezas quanto às novas regras e também quanto ao equilíbrio na relação entre Estados dentro da nova ordem internacional. Entretanto, estava claro que os Estados Unidos tornariam-se o país hegemônico, embora no final dos anos 1980 não fosse possível avaliar o tamanho dessa hegemonia. Além disso, as organizações internacionais ganharam maior importância, assim como as iniciativas de cooperação entre os países, entre elas os processos de integração regional (Mariano, 2007). Nesta conjuntura, é possível identificar o estabelecimento de relações multipolares, a predominância de tendências políticas e econômicas liberais, a ampliação das relações de mercado e o processo de consolidação de blocos regionais, liderado pela União Européia (SOUZA, 2000).

O termo globalização gera intenso debate quanto ao seu significado e suas características centrais. Entretanto, existem alguns consensos e um deles refere-se ao fato de que, apesar de ser um fenômeno mundial, seus impactos são locais e regionais, gerando mudanças de diferentes formas e intensidades. Como resultado, dentro dessas novas condições, mudanças significativas ocorrem no comportamento e atribuições do Estado- nação.

3.3.1 O Estado no contexto de globalização e neoliberalismo

Neste cenário globalizado, o Estado-Nação ganha novos contornos e os conceitos de soberania e legitimidade adquirem novos significados, uma vez que o Estado perde parte da capacidade de responder isoladamente aos desafios do sistema internacional, assim como a aumenta a dificuldade de manejar suas políticas internas. A globalização influência diretamente o processo de regionalização intra e entre países, pois “transforma o contexto e as

condições da interação e da organização social, levando a um novo ordenamento das

relações entre território e espaço socioeconômico e político” (MARIANO, 2007:124). Sendo

assim, cabe ao Estado criar mecanismos de controle dos efeitos da globalização sobre a sociedade e a economia. O aumento da importância e da quantidade de organizações multilaterais internacionais e transnacionais, governamentais e não-governamentais, demanda novos comportamentos por parte dos Estados, no que se refere à sua capacidade de produzir decisões políticas.

Dentro dessa lógica, os Estados passam a operar com poder limitado frente à expansão das forças transnacionais e assim, os governos ficam com reduzida capacidade de controle sobre os contatos entre as sociedades, os quais impulsionam essas relações transfronteiriças. Os Estados atuam simultaneamente na arena doméstica e na internacional. Assim, é preciso considerar que as estratégias de uma devem levar em conta as da outra, e que toda atuação estatal internacional envolve um processo de negociação com os atores externos e outro com os internos. Dentro dessa perspectiva, as relações externas de um país tornam-se muito mais dinâmicas e complexas porque supõem um diálogo constante em duas frentes e a acomodação permanente dos interesses. Entretanto, mesmo diante da “sacralização” do mercado e das restrições à possibilidade de intervir na atividade econômica, o Estado e as instituições nacionais ainda exercem influência significativa na economia local, pois:

[...] o Estado tem o papel de fonte de legitimidade para transferir poder ou sancionar novos poderes ‘acima’ou ‘abaixo’ dele: acima, através de acordos entre os Estados para estabelecer e cumprir as formas de governabilidade internacional; abaixo, por meio da ordenação constitucional dentro de seu próprio território da relação de poder e autoridade entre governos centrais, regionais e locais e, também, os governos privados publicamente reconhecidos pela sociedade civil (HIRST e THOMPSON, 1998:295). Essa conjuntura não é diferente para os países da América Latina. Por um lado, eles têm a preocupação de superar sua posição de marginalização política, assim como buscam uma inserção bem-sucedida no mundo globalizado, atendendo às diversas pressões e demandas provenientes da sociedade e seus grupos organizados. De modo geral, os países latino-americanos seguiram, respeitando suas especificidades, estratégias comuns:

na esfera política optaram pela democratização dos regimes; na econômica, adotaram um receituário neoliberal, marcado por um novo papel para o Estado e pela liberalização econômica; e no âmbito internacional, impulsionar projetos de integração regional. Esta não é apenas um processo de redução tarifária entre nações ou um mecanismo de inserção comercial num mundo globalizado, mas sim um aspecto dessa nova configuração do Estado (MARIANO, 2007:125).

A adoção dessas estratégias comuns, não foi deliberada, pois cada país procurou estabelecer uma agenda dentro de sua própria realidade. Essa “coincidência” explica-se pelo fato das políticas adotadas terem sido impostas de fora para dentro, por grandes instituições financeiras internacionais, como Fundo Monetário internacional (FMI) e o Banco Mundial. Entretanto, influenciaram também o contexto interno da região e sua posição dentro do sistema internacional. As posições assumidas pelos Estados latino-americanos se aproximaram porque, mais do que estratégias de inserção econômica num mundo globalizado, fazem parte de um processo de redefinição do papel do Estado dentro dessa nova realidade.

Nesse sentido, em conformação com os preceitos neoliberais globalizantes, pressupõe “um senso comum” de que trata-se de um processo universal, progressivo e

homogêneo. Sendo assim, a função do Estado é redirecionada para a condução de uma inserção eficiente num mundo globalizado, em que o processo de globalização é comum e atinge a todos os países igualmente. Os países latino-americanos, além da inserção tardia ao ideário neoliberal, estavam com um elevado endividamento externo e inflação alta e, nessa situação, os seus governos ao aceitarem tais políticas, praticamente ficaram impossibilitados de implementar qualquer política pública, seja ela monetária, fiscal, industrial ou social ativas (FIORI, 1997).

Desse modo, a instabilidade que atinge a América Latina em virtude do ajustamento liberal conjugado com o processo de globalização, origina-se parcialmente no exterior, notadamente pelas decisões de investimentos, influenciadas pesadamente pela política econômica adotadas nos países industrializados. Em outras palavras, os fatores que ameaçam a estabilidade dos países latino-americanos, parecem em boa medida virem de fora de suas fronteiras e de seus controles. Além disso, a progressiva “impotência” do Estado diante dessa situação constitui um motivo de instabilidade. Assim, os países são afetados de forma irrestrita, embora varie o grau e a intensidade, mesmo seguindo o receituário neoliberal. Neste sentido, o ajustamento passivo aos pressupostos do Consenso de Washington na década de 1990 tem intensificado o avanço da globalização, em função da adoção simultânea de abertura, desregulação e estabilização monetária ancoradas na abundante liquidez internacional deste final de século.

Considerando que esse ideário atribui à intervenção estatal os problemas da economia, uma vez que esta perturba o funcionamento eficiente do mercado, pode-se dizer que ao se retirar ou restringir tal intervenção, os problemas passam a ter origem na própria solução. Nessa perspectiva, a globalização não é um processo isento de contradições. Seus impactos são diferenciados, e as alternativas abertas a cada país dependem das opções feitas pelas suas forças sociais e políticas internas, coordenadas por seus estados nacionais. “Independente da opção feita pelo país, ainda é função intransferível do Estado manter os

laços materiais e éticos entre classes e regiões cada vez mais desiguais entre si” (FIORI,

1997:238). Um exemplo dessa desigualdade é distribuição do investimento estrangeiro produtivo nos países em desenvolvimento, pois os capitais privados concentram-se nos locais que possuem vantagens de escala, com maior riqueza e densidade econômica. Este movimento acaba estimulando, a “dessolidarização” econômica interna de cada espaço nacional, o que pode conduzir a uma fragmentação econômico-territorial dos países, acirrando, as competições intra e interestatais pelos novos investimentos, levando as guerras fiscais, desregulações e privatizações desmedidas.

Os problemas resultantes das medidas políticas liberalizantes afetam, antes de tudo, os salários, mas logo em seguida as políticas sociais, uma vez que a gestão deve honrar os compromissos da dívida pública, e, o estímulo às exportações é necessário, pois é a parte dinâmica de um novo modelo econômico cujas palavras mágicas são exatamente estabilidade monetária, equilíbrio fiscal e competitividade global. Este novo modelo foi o fundamento principal dos planos de estabilização na América Latina, incluindo o Brasil. Assim, após um sucesso inicial destes, houve aumento do desemprego, desaceleração do crescimento e o aumento exponencial da dívida pública, apesar da diminuição dos gastos com os salários e com as políticas sociais (FIORI, 1997).