POLÍTICAS.
2.1 CONJUNTURA POLÍTICA E COTIDIANO PRISIONAL: UMA REFLEXÃO PRELIMINAR.
A pretensão desde capítulo é demonstrar como a Casa de Detenção esteve envolta aos acontecimentos e conflitos políticos ensejados antes, durante e imediatamente após a Revolução de 1930 na cidade do Recife. Nesse sentido, investigaremos em que medida podemos falar de um impacto daquela conjuntura de transformações políticas nas diversas formas de viver na prisão recifense. Os dados coligidos a partir das fontes primárias nos permitem sustentar que aqueles acontecimentos concorreram para engendrar, em parte significativa dos detentos comuns, uma crescente expectativa de obter melhorias no cotidiano da prisão. Esse entendimento estava atrelado, ainda que de forma bastante difusa, à intensa campanha de crítica aos estabelecimentos prisionais de Pernambuco ensejada pelos correligionários da Aliança Liberal na cidade do Recife.
A Casa de Detenção foi inaugurada em 1855, embora, suas obras só tenham sido finalizadas plenamente em 1867. Poucas províncias puderam construir as modernas prisões durante o Império e aquelas que conseguiram jactavam-se pelo feito. Neste contexto, as prisões ainda não eram instituições que envergonhavam o governo, longe disso, a inserção no mundo civilizado passava, necessariamente, pelo ingresso na modernidade penal, cuja pedra angular era a reforma penitenciária no mundo Ocidental.
Diferente de outras prisões, também construídas nos Oitocentos, a Casa de Detenção do Recife estava localizada no centro da cidade e não por mera coincidência. Na época de sua construção o terreno escolhido para a edificação estava situado na “margem direita do Capibaribe, um pouco acima da ponte da Boa Vista, por trás da rua da Concórdia em um terreno da marinha”.132 Tratava-se de um alagado, o que viria a dilatar sensivelmente o valor alçado e,
além disso, convertia-se num verdadeiro desafio para a Repartição de Obras Públicas.
Inaugurado em 1855 o Raio Norte, põem-se em funcionamento a Casa de Detenção e rapidamente passa a figurar como um orgulhoso título no rol dos “palácios de Chumbos da Veneza Americana” que tanto envaidecia a elite local.
Alguns fatores explicam sua localização. Primeiro, por ser idealizada como uma instituição voltada exclusivamente para a detenção de criminosos – não correcional - deveria ficar perto das instituições da justiça para que os presos pudessem se apresentar periodicamente e, assim, se inteirar do andamento de seus respectivos processos nas instituições judiciais; segundo, era um sinal evidente do nível de civilização e modernidade auferida pela capital de Pernambuco, portanto, deveria ser ostentada como um dos “melhoramentos modernos” símbolos do progresso; terceiro, deveria sempre reiterar aos sujeitos desviantes os riscos que incorriam ao enveredar pela carreira criminosa.133 Como sugeriu Maia, a Casa de Detenção era “imponente, com sua forma em cruz às margens do Capibaribe, devia imprimir um temor e um aviso àqueles que julgassem poder fugir ao domínio da Justiça sem quitar devidamente suas dívidas”134
Independente das razões que podem ser mobilizadas para explicar sua localização, o fato é que essa realidade não tardou a fomentar diversas interações entre os habitantes da cidade e a Casa de Detenção. A prisão estava na margem direita do Capibaribe, no bairro de Santo Antônio, em meio às ebulições do centro. Essa não é, absolutamente, uma informação acessória. A intensa contiguidade com as dinâmicas da cidade e a rápida reverberação que os fenômenos externos alcançavam no interior da prisão foram, em diferentes conjunturas, fatores importantes para a configuração da penitenciária. Deste modo, não reputamos que essa prisão possa ser analisada com profundidade se adotarmos integralmente o paradigma que sustenta que o cotidiano prisional é um “mundo à parte”, capaz de extirpar os vínculos e as múltiplas conexões que aproximavam essa instituição do cotidiano da cidade.135 Sabemos, a partir das formulações de Philippe Combessie, que o perímetro externo imediato das instituições prisionais é um
133 O engenheiro Mamede Ferreira explicava que nas suas projeções a instituição teria finalidades de uma Casa de Detenção, mas sabemos que prática funcionou desde sua inauguração, simultaneamente, como uma instituição também com finalidades correcionais. Segundo ele: “Cada uma dessas prisões tem forma muito particular muito diferente uma da outra [...] não convém de maneira nenhuma que as prisões de detenção sejam colocadas fora da cidade: as prisões de detenção tem que ser colocadas no centro da cidade, o mais próximo possível dos tribunais porque os homens contidos nestas casas tem por vezes que ir aos tribunais não só para presenciarem a formação de seu processo como para se defenderem na ocasião de serem julgados, as prisões penitenciárias ao contrário não convém que sejam dentro da cidade, devem ser construídas fora da cidade devem ser colocadas por assim dizer nos arrebaldes e isto por muitas razões. Para satisfazer as regras de higiene, estabelecer um bom sistema de ventilação [...] devem haver oficinas e estas não se poderão estabelecer dentro da cidade. Diario de Pernambuco. 06.07.1848
134 MAIA, Clarissa Nunes. Op. cit. 2001, p.189.
135 Para uma analise destas conexões entre cidade e prisão no Recife oitocentista confira: BRITTO, Aurélio de Moura. Op.cit.
componente significativo na conformação de sua dinâmica interna. Essa perspectiva de análise dar a ver que um conjunto de relações sociais são marcadas pela presença da prisão em dado espaço e podem, em troca, marcar o seu funcionamento alterando as normas institucionais e moldando o cotidiano.136 De certo modo, é plausível pensarmos que “a vida cotidiana carcerária se reproduz dentro e fora dos muros da prisão. Como num jogo de espelhos, aspectos do mundo exterior se reproduzem no interior das unidades prisionais e questões próprias da vida carcerária se refletem fora das prisões”.137
Em 1930, a Casa de Detenção do Recife já era septuagenária e havia se enraizado no cotidiano da cidade. Aquela era uma prisão marcada por intensos fluxos e, não raro, as mais variadas informações rapidamente chegavam aos presos. Por outro lado, tensões vivenciadas no interior da prisão sempre eram noticiadas pelos jornais ávidos pela exploração política, ainda que a ênfase conferida a esses episódios estivesse relacionada com a notoriedade dos agentes envolvidos.
O principal argumento mobilizado quando se efetivou a desativação da instituição sublinhava a inconveniência de sua localização no centro comercial da capital, em flagrante imersão com as dinâmicas urbanas. Vale frisar que a mesma prisão que em 1857 era apresentada sob o mote da modernidade – listada como um “monumento penitenciário dos tempos modernos” - representava nos idos de 1973 um “espetáculo quase circense”.138 Entendemos que
essa foi uma das características que tornava bastante singular aquela prisão e que nos força a repensar alguns modelos explicativos predominantes na historiografia das prisões, sobretudo,
136 COMBESSIE, Philippe. “The Sensitive Perimeter of a Prison. A Key to Understanding the Durability of the Penal Institution”. In: V. RUGGIERO (et al). The New European Criminology, Londres e Nova Iorque. Routledge, 1998.
137 ARRUDA, Raimundo Ferreira de. Geografia do Cárcere: Territorialidades na vida cotidiana carcerária no sistema prisional de Pernambuco. (Tese de Doutorado), São Paulo, USP, 2014, p.103.
138 Em 1857 um articulista do Diario de Pernambuco assim descrevia a percepção social que causava a Casa de Detenção do Recife: “quase todos os estrangeiros que por aqui passam visitam este monumento penitenciário dos tempos modernos, cujo asseio, ordem e regularidade são documentos eloqüentes da atividade, zelo e inteligência do respectivo administrador (...) aqueles que lá entram por um tempo mais considerável, quando saem levam para o meio da sociedade outros hábitos de moralidade, um ofício de que tiram meios de subsistência e o amor ao trabalho”. Cf. MELLO, José Antônio Gonçalves de. Op cit. p. 832. Já em 1973, publicava outro articulista no mesmo periódico: “O presídio da Capital não mais se localizará no centro da cidade, transferindo- se para a periferia. [...] Com o decorrer dos anos, e por força mesmo de circunstâncias as mais diversas, sobretudo as relativas ao crescimento demográfico do Recife, a Casa de Detenção foi evidenciando ser demasiado acanhar e tomando vulto a inconveniência e sua localização em pleno centro urbano. De mais a mais, sua existência configurava o espetáculo quase circense: as grades, os prisioneiros, a rede elétrica da segurança, os guardas armados, em pleno centro da cidade, espetáculo visto diariamente por milhares que chegam das cidades circunvizinhas ou do interior, pelo povo em geral, das ruas, dos escritórios, das lojas, dos ônibus. Diario de Pernambuco, Recife, 16/03/1973, p. 9 apud CÔRTES, Joana Santos Rolemberg. Dossiê Itamaracá: Cotidiano e resistência dos presos políticos da Penitenciária Barreto Campelo, na Ilha de Itamaracá-PE (1973-1979). São Paulo, Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2012, p.28.
aqueles que se caracterizam pela ênfase excessiva nas dinâmicas internas da prisão, apartando- as da sociedade na qual estão inseridas.
Portanto, nesse capítulo estaremos particularmente atentos a investigar se e como os presos interpretaram aqueles conflitos ensejados no Recife a partir de 1930 e de que maneira aqueles eventos correlacionavam-se com as ações de contestação no âmbito prisional. Importa- nos investigar como os presos, especialmente os de “direito comum”, interpretaram a dinâmica política do extramuros e se tais leituras puderam impactar no seu cotidiano.
Não devemos explicar às dinâmicas internas da prisão, exclusivamente, do ponto de vista regulamentar e sugerir a existência de um microcosmo, em tudo indiferente e autônomo do mundo de extramuros. Como argumenta de modo perspicaz Manuela Ivone P. Cunha, esse entendimento da prisão como uma realidade intervalar tem se constituído uma espinha dorsal das reflexões e tem orientado o modo de olhar o problema da reclusão, portanto, constituindo- se em uma verdadeira unidade de análise pela qual a maior parte dos pesquisadores tem examinado a prisão. Subjacente a essa perspectiva nota-se uma insistente negligencia com a possibilidade de forças exteriores e experiências sociais anteriores dos presos contribuírem para o estabelecimento das configurações cotidianas que caracterizam a instituição. Não se trata de adotar a percepção - igualmente frágil - segundo a qual o cotidiano carcerário é um mero reflexo, portanto, moldado pelas dinâmicas de fora da penitenciária. Jamais devemos nos esquecer que a prisão é, por definição, voltada para extirpar a mobilidade e vínculos com o mundo exterior e, por isso, os muros da instituição são bastante tangíveis para os encarcerados. Ainda assim, é prudente ampliarmos nossa grade de leitura e perceber a dinâmica do encarceramento para além do perímetro sensível da prisão.
Entendemos que é preciso investir na complexidade analítica e rejeitar perspectivas simplistas para que possamos avançar no entendimento das redes e dinâmicas que entrecruzam e conectam os dois lados do muro prisional, e isso não será possível se descartarmos, a priori, as influências do “mundo de fora” nas dinâmicas internas da prisão. Para Cunha essa “noção- paradigma” da prisão como um hiato social acabou por produzir nos trabalhos historiográficos um “ângulo morto onde se foram acumulando escondidas, ou despercebidas, realidades que, pela sua natureza, escapavam a uma categoria assim constituída”.139
É essa perspectiva que o presente trabalho adota para mirar a Casa de Detenção enquanto um espaço de fluxos de ideias e informações, sendo estes, possivelmente, capazes de influir no cotidiano prisional. Já Erving Goffmam salientava a importância do debate sobre a
139 CUNHA, Manuela Ivone. As organizações enquanto unidade de observação e análise: o caso da prisão. In:
permeabilidade das instituições de controle, ou seja, o grau em que os padrões sociais e culturais anteriores à reclusão conseguem ser mantidos no interior da instituição e influenciam diretamente a conformação do ordenamento prisional e pode ter consequências variáveis para seu funcionamento interno e sua coesão.140
Além disso, nossas indagações estão ancoradas no entendimento de que os detentos comuns foram sujeitos capazes de interpretar e agir em consonância com a realidade política circundante e aproveitar os momentos em que recrudesceram as porosidades institucionais e intercâmbios com o mundo adjacente para pressionar e redefinir as hierarquias que caracterizavam a vida na prisão recifense.
Sabemos que a organização de ações de contestação política no interior das prisões encontra-se ligadas à capacidade de repercussão pública. A existência de “aliados” ou circunstâncias externas favoráveis é, como demonstrou o historiador Pedro Olmo Oliver, um fator importantíssimo para abastecer as ações internas dos presos e concorrem para condicionar a eclosão desses fenômenos.141 Essa é a mesma percepção sustentada por Michel Foucault para quem muitas rebeliões deflagradas no sistema penitenciário francês, ao longo do século XX, só podem ser explicadas se tivermos em conta o ressurgimento de uma ligação política entre o lado de dentro e fora do mundo da prisão.142
É plausível conceber que as prisões estão conectadas de modo profundo e abstruso às dinâmicas e conjunturas políticas do seu entorno e que a existência de movimentos políticos externos à prisão pode trazer implicações significativas para seu funcionamento efetivo. Entretanto, correlacionar a conjuntura política externa e o cotidiano do mundo carcerário sem enveredar em esquematismos não é uma tarefa simples, sobretudo, quando nos reportamos aos contextos de ruptura da ordem ou transição política. Alguns autores - ainda minoritários é bem verdade - têm sublinhado a proficuidade deste viés analítico e estudado as diversas maneiras
140 GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Editora Perspectiva, 1961.
141 OLIVER OLMO, Pedro. “La acion colectiva em las prisiones y el cambio social. Los presos comunes como sujeitos históricos”. Proyeto de Investigacion inserto em La Propuesta académica e investigadora, inédita, Departamento de História da Universidad de Castilla-La Mancha (UCLM), 2005.
142 Segundo ele “foi exatamente uma sucessão de fenômenos - politização no interior das prisões graças aos maoístas e, anteriormente, aos argelinos, e politização do problema da prisão no exterior delas cristalizou uma certa situação. Em seguida à campanha conduzida pelo GIP, o governo, pela primeira vez na história, concedeu aos detentos o direito de ler os jornais, jornais que, até julho de 1971, não eram autorizados a penetrar nas prisões. [...] Nesse exato momento, uma mudança muito importante se produziu nas prisões francesas: os detentos tomaram consciência de que os meios de luta individuais ou semi-individuais - uma fuga a dois, a três, ou mais- não eram os bons meios, e que se o movimento do s detentos queria alcançar uma dimensão política, ele devia, em primeiro lugar, ser um movimento realmente coletivo que incluísse uma prisão inteira e, em segundo lugar, apelar à opinião pública que, os detentos o sabiam, começava a se interessar pelo problema.” Cf. FOUCAULT, Michel. Estratégia, Poder-saber”. Ditos e Escritos. Vol. IV. Rio de Janeiro: Forense universitária, 2006, pp.62-63.
pelas quais o cotidiano dos presos pode ser afetado pelas conjunturas de acirramento nas lutas políticas externas.
De um modo geral, as conjunturas em que recrudescem as lutas políticas pela hegemonia e gerência do aparato estatal podem alterar substantivamente a percepção social sobre a prisão e os presos, por outro lado, também pode transformar a leitura dos presos sobre as suas estratégias cotidianas – práticas e discursivas – para resistir ao processo de prisionização e auferir ganhos concretos. São múltiplas as formas com que a conjuntura de radicalização política pode interagir com o aparato prisional ao longo do tempo.
A generalização da prisão, enquanto pena de privação da liberdade e punição por excelência no mundo Ocidental, esteve imbricada a momentos dramáticos de ruptura social e abalos na ordem do Antigo Regime, na medida em que é um dos “subprodutos” da Revolução Francesa.143 Para Michelle de Perrot essa gênese deve ser considerada como um desdobramento daqueles eventos, destarte, ao “inventar a liberdade, a Revolução gera simultaneamente o seu contrário”.144 E não seria mais que um truísmo lembrar que a Queda da Bastilha é revestida de
toda uma tradição simbólica que consolidou, no mundo Ocidental, a imagem daquela prisão como espelho refletor do mal e materialização da tirania. Porém, devemos ressaltar que, ironicamente, foi no exato momento em que sua utilização na contenção de adversários políticos arrefecia e que os índices de “embastilhamento” decaiam abruptamente que aquela prisão emerge no discurso dos insurgentes de Paris como um lugar por excelência da opressão monárquica.145 Essa sensível alteração da percepção social da prisão era inversamente proporcional à realidade carcerária.
143 Michel Foucault nos mostra como naqueles anos ao lado da prisão ocorria uma persistência das práticas supliciantes típicas do Antigo Regime. Por isso, não se trata de uma transição rápida e necessária entre a prisão e os espetáculos públicos da punição. Segundo Foucault: “Tudo isto torna bem irregular o processo evolutivo que se desenvolveu na virada do século XVIII ao XIX. A isto tudo acresce que, embora se tenha alcançado o essencial da transmutação por volta de 1840, embora os mecanismos punitivos tenham adotado novo tipo de funcionamento, o processo assim mesmo está longe de ter chegado ao fim. A redução do suplício é uma tendência com raízes na grande transformação de 1760- 1840, mas que não chegou ao termo. E podemos dizer que a prática da tortura se fixou por muito tempo — e ainda continua — no sistema penal francês. A guilhotina, a máquina das mortes rápidas e discretas, marcou, na França, nova ética da morte legal. Mas a Revolução logo a revestiu de um grandioso rito teatral. Durante anos, deu espetáculos.” FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes, 2012, pp.19-20.
144 PERROT, Michelle. Op cit, p.238.
145 Quando a multidão conseguiu apoderar-se da fortaleza “para muitos, em seu idealismo, a preocupação primeira foi a de libertar as vitimas que estariam a ferros, nos calabouços daquele bastião do absolutismo. Encontraram apenas sete criminosos [...]. Dissipada a embriaguez da vitória vieram a tona o nome dos prisioneiros e os motivos pelos quais estavam na Bastilha. Soube-se então que dois deles eram doentes mentais: o primeiro, Tavanier, o ancião de longas barbas brancas que tanto comovera a todos fora segregado na Bastilha como cumplice de Damiens, o fanático que atentará contra a vida de Luís XV e que fora esquartejado, na praça de Grève; o segundo o conde de Whyte de Mallevile, que devia estar no hospício de Charenton, mas fora recolhido na Bastilha por privilegio, a pedido de sua família. O terceiro o conde de Solanges encontrava-se na Bastilha desde 1784, transferido da prisão de Vincennes cumprindo pena por odiosos crimes sexuais. E finalmente, os quatro
Como nos lembra o historiador Guy Chaussinand-Nogaret esse entendimento da Bastilha como um lugar do autoritarismo estava muito mais relacionada com a conjuntura política vivenciada fora do mundo da prisão do que propriamente com o seu cotidiano, pois, na medida em que “a autoridade que aprisionava perdia sua legitimidade, os prisioneiros tornavam-se vítimas ou mártires perseguidos pela vingança e tirania: só podiam ser inocentes e seus sofrimentos se tornavam pois insuportáveis”.146 Deste modo, sabemos que a imagem da prisão de uma dada época pode ser alterada fundamentalmente sem que seu funcionamento cotidiano tenha experimentado qualquer mudança substancial.
Por outro lado, muitos choques políticos de proporções consideráveis demonstraram-se incapazes de alterar as normas que regem o sistema carcerário e obtiveram efeitos discretos nas diretrizes que norteavam a gestão institucional. Philippe Artières salienta que muitos momentos intensos de ruptura política na maioria das vezes têm implicações lentas, aleatórias ou pouco significativas nas regras que balizam a administração prisional. 147 A prisão, portanto, tem demonstrado uma peculiar capacidade de reprodução institucional na medida em que conseguiu atravessar diversas conjunturas de crises, rupturas e transformação políticas sem que tenha sido visceralmente contestada como instituição basilar para o funcionamento dos aparatos da justiça criminal.
Imprescindível neste ponto é a reflexão de Pierre Lascoumes que estudou acuradamente as possíveis correlações entre rupturas políticas e as diretrizes que regem o sistema penitenciário. A partir do escrutínio e comparação de diferentes realidades nacionais, o autor indicou uma incrível inércia do funcionamento cotidiano das prisões mesmo quando, ao nível