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2. O NEOINSTITUCIONALISMO-HISTÓRICO COMO ABORDAGEM PARA

2.8. E STABILIDADE E M UDANÇA NAS P OLÍTICAS P ÚBLICAS NA P ERSPECTIVA DO

2.8.1. Conjunturas Críticas (Critical Junctures)

A literatura que discute as principais questões relacionadas ao estudo das

conjunturas críticas é menos abundante quando comparada a destinada à análise das

trajetórias de dependência e as respostas a essas questões estão emergindo da literatura

mais recente (Capoccia & Kelemen, 2007; Collier & Collier, 1991; Mahoney, 2001;

Mahoney & Thelen, 2010).

Entretanto, os principais textos disponíveis enfatizam que a questão de maior

relevância é compreender uma conjuntura crítica como um momento especial na

história onde há um leque mais amplo de escolhas do que normalmente ocorre ao longo

do desenvolvimento de uma política pública ou uma instituição.

Ao longo do momento que caracteriza uma conjuntura crítica, a trajetória pode

assumir orientações divergentes e as escolhas dos principais atores envolvidos adquirem

maior capacidade de transformação sobre a trajetória precedente da política pública.

Oportunidades e riscos tornam-se amplificados e decisões e escolhas, mesmo as

menores, são cruciais e podem deixar legados difíceis de serem revertidos. A questão

central passa a ser, nesse caso, o peso relativo entre mudanças estruturais (intensidade

de processos econômicos e políticos gerais), a configuração das instituições existentes

(sua orientação, resistência, articulação, etc.) e o papel dos atores principais no processo

político (recursos de poder, estratégia, capacidade de articulação, conteúdo das ideias,

etc.).

Uma das contribuições mais sistemáticas e consistentes para se compreender a

dinâmica de uma conjuntura crítica foi desenvolvida por Collier e Collier (1991) para a

análise comparativa da incorporação dos trabalhadores ao processo político de

modernização e formação dos estados nacionais em oito países da América Latina.

Para Collier e Collier (1991, p. 29), uma conjuntura crítica pode ser definida

como um período de mudanças significativas, que ocorre de diversas formas em países

diferentes (ou outras unidades de análise), do qual se espera que sejam desenvolvidos

legados distintos.

De acordo com eles, três elementos são essenciais nesse conceito: a observação

de que mudanças significativas ocorrem em cada país, a suposição de que essas

mudanças se passam de forma distinta em cada um deles e uma hipótese explicativa

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sobre suas consequências (a qual deve ser submetida aos fatos para comprovar que o

período é realmente uma conjuntura crítica).

A partir desses elementos iniciais os autores constroem uma visão mais ampla e

articulada de todo o processo de ocorrência de uma conjuntura crítica, considerando os

seguintes estágios:

1. As condições antecedentes, que consistem na linha de base

a partir de onde se avalia a evolução de uma conjuntura crítica, ou

seja, são o conjunto de características básicas do fenômeno que se

está estudando antes da conjuntura crítica. Seu contraste com o que se

entende ser o legado da conjuntura crítica permite dimensionar a

intensidade das mudanças promovidas;

2. Clivagem e Crise, que se desenvolvem em sequência a

partir da dinâmica contraditória das relações precedentes. Uma

clivagem pode se desenvolver por um período expressivo, sem

necessariamente gerar uma crise, enquanto essa é pontual e dispara

uma conjuntura crítica;

3. A conjuntura crítica e os três componentes de seu legado

que, em conjunto, consistem no processo de mudança em si, ou de

estabelecimento de inovações que irão definir uma trajetória diferente

da anterior. Os componentes do legado são:

a.

Mecanismos de produção do legado, que consistem em

uma série de intervenções sucessivas que iniciam o legado, já que esse

não se materializa automaticamente;

b.

Mecanismos de reprodução do legado: processos políticos

e institucionais que visam conferir amplitude às mudanças;

c.

A estabilidade do legado, que se materializa na articulação

dos dispositivos que constituem o núcleo de atributos das inovações

implementadas como resultado da conjuntura crítica;

4. Explicações Alternativas de diversos tipos para a hipótese

principal de ocorrência da conjuntura crítica, envolvendo

necessariamente a presença de “causas constantes”, ou seja, a

manutenção de características do regime institucional anterior;

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5. O fim do legado de uma conjuntura crítica, que

inevitavelmente deverá ocorrer em algum momento quando os

principais mecanismos de reprodução perderem a estabilidade.

De acordo com Collier e Collier (1991), a caracterização de uma conjuntura

crítica envolve a identificação da causa da crise que a dispara, o tempo, ou o momento

de ocorrência, assim como as similaridades e as diferenças entre os casos observados

são elementos essenciais.

Isso permite identificar se realmente se trata da mesma conjuntura crítica, que

direção ela assume, quais são suas formas de impacto e quais respostas ela permite. O

tempo é uma variável essencial para a análise da intensidade do impacto e da eficiência

das respostas, sendo, portanto, indispensável, já que se espera que haja diferentes

formas de impacto e de resposta a crise. A escolha inicial de alguns países ou atores

pode mudar significativamente o rumo dos casos posteriores (Gerschenkron, 1962).

A partir de riqueza de questões abordadas pelos autores, é possível destacar três

temas de extrema relevância para a análise de uma conjuntura crítica. A primeira se

refere à extensão do período de conjuntura crítica, que pode variar entre um período

curto de mudança radical até períodos de maior duração, como um ou dois mandatos

governamentais, ou mesmo, mudanças que se estendem ao longo de um ciclo de

políticas.

Essas variações estão relacionadas diretamente com o tipo de mecanismo causal

que as produz: uma revolução pode produzir impactos rápidos enquanto outras

transformações são o resultado da ação duradoura de políticas governamentais. Para os

autores, uma conjuntura crítica caracteriza-se essencialmente pela presença de

momentos fundantes ou pontos de escolha ou pelo desenrolar de um regime de

transição.

O critério essencial para se delimitar metodologicamente o final de uma

conjuntura crítica é o da estabilidade das inovações. À medida que se inicia a

reprodução sustentada de um legado, as mudanças passaram a ser de natureza mais

incremental e estarão no âmbito de uma trajetória dependente.

O segundo aspecto relevante abordado é a intensidade das mudanças promovidas

por uma conjuntura crítica, ou seja, a sua capacidade de produzir descontinuidades e

propor inovações institucionais que fixam uma dinâmica em direção diferente e

empoderam novos atores. Os conceitos de “causas constantes” e “causas históricas” são

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essenciais para se distinguir entre as bases político-institucionais da dinâmica que

operava de maneira já consolidada e inercial e as transformações introduzidas pela

conjuntura crítica (Stinchcombe, 1968).

A intensidade da mudança promovida será proporcional à capacidade simultânea

da conjuntura crítica de desalojar padrões institucionais antigos e instalar novas

configurações. As “causas históricas” ou, a nova configuração de forças políticas,

atinge, em algum momento do tempo, uma expressão suficiente para configurar essa

transição e, daí em diante, o padrão estabelecido se reproduz sem que haja a necessidade

de promover as mesmas mudanças novamente. Portanto, é um duplo desafio que,

mesmo em um limite extremo, como situações de revoluções sociais, não se realiza por

completo, já que sempre há a absorção de algo precedente.

O grau de autonomia da política ao longo da conjuntura crítica representa o

diferencial que tornará possível aprofundar as mudanças e, tão importante quanto,

consolidá-las, evitando riscos de regressão e perda de legitimidade da política. Isso nos

leva a outra questão que é a da dinâmica de reinvenção institucional e estabilização das

mudanças promovidas por uma conjuntura crítica.

Collier e Collier (1991) distinguem entre o processo de conjuntura crítica em si e

a introdução de mecanismos de produção e de reprodução do legado, uma vez que a

conjuntura crítica consiste em um momento de polarização política marcado por

constantes conflitos (ações e reações) e, consequentemente, a solidificação do legado

não ocorre de forma imediata. O prolongamento dessa fase de disputas em torno das

inovações introduzidas representa o período de produção do legado, pois os novos

mecanismos institucionais passam a ser o centro das principais relações políticas

setoriais, se as mudanças forem realmente significativas.

O estabelecimento de novos mecanismos institucionais que regulam a dinâmica

de relações políticas, econômicas, organizacionais e culturais desloca para si a dinâmica

de definição dos rumos da política, a distribuição de prerrogativas e responsabilidades, a

alocação de recursos, entre outros.

Entretanto, os autores advertem que essa é uma fase intermediária e que são

necessários mecanismos de reprodução para fornecer maior estabilidade ao legado, ou

seja, dispositivos que sugerem ou garantem que haja uma expressiva tendência de

permanência e continuidade. Os mecanismos de reprodução podem envolver

dispositivos criados pelas próprias instituições que estabelecem em seu círculo um

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conjunto de grupos de poder e interesses diversificados que procuram desenvolver

estratégias para manter suas posições.

Com a expansão dos estudos histórico-institucionais ao longo das duas últimas

décadas, seus principais conceitos passaram a ser alvo de aprofundamentos e logo

surgiram críticas, autocríticas e a necessidade de aperfeiçoamentos (Pierson, 2004). O

conceito de conjuntura crítica tem merecido atenção especial em virtude de grande parte

da literatura já ter se concentrado nas noções de trajetória dependente, sequência

temporal, retornos crescentes, etc.

As abordagens mais recentes intencionam suprir essa lacuna e oferecer

arcabouços com maior rigor conceitual e metodológico para definir, analisar e comparar

processos de conjuntura crítica. A título de exemplificação, Capoccia e Kelemen (2007)

apresentaram um aprofundamento conceitual e metodológico importante, partindo da

noção de que uma conjuntura crítica se caracteriza por uma situação histórica na qual a

influência de fatores estruturais de natureza econômica, politica, organizacional e

cultural sobre a ação política é expressivamente afrouxada por um período curto de

tempo.

Essa circunstância possui consequências importantes: o leque de escolhas

possíveis à disposição dos atores com poder se amplia significativamente e o impacto de

suas decisões no resultado das políticas públicas é potencialmente mais decisivo, de

forma que eventos contingenciais se tornam fundamentais. Ao introduzir a noção de

relaxamento das condições estruturais, os autores advogam uma noção probabilística à

de conjuntura crítica, o que reforça seu caráter de momento eminentemente político de

decisão, onde a qualidade das lideranças torna-se fundamental.

Os autores abordam mais quatro questões teóricas relevantes, em geral tomadas

como sendo implícitas nas análises de conjunturas críticas, mas que são negligenciadas.

A primeira delas consiste na unidade de análise empregada para o estudo de uma

conjuntura crítica, já que, em geral, os estudos do Neoinstitucionalismo Histórico

tomam como objeto macroprocessos políticos como regimes políticos ou políticas

setoriais, diversas outras instituições como partidos, ministérios, arenas decisórias, entre

outros.

Como a designação de instituição pode ser empregada para níveis diferentes de

análise, desde um elemento intraorganizacional (como um regulamento) até o sistema

político como um todo, pode ser que haja uma conjuntura crítica em algumas

instituições, mas não em outras, o que demanda um cuidado especial com o

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delineamento da unidade de análise, mesmo considerando que as relações

interorganizacionais são um componente essencial dos sistemas políticos.

A segunda questão refere-se ao delineamento mais preciso da extensão de uma

conjuntura crítica e sua relação com o período de legado decorrente. Como definir onde

termina um e se inicia o outro e em que aspecto essa definição influencia o resultado das

políticas?

Os autores afirmam que o período de uma conjuntura crítica em geral é breve

quando comparado com o da trajetória dependente, sendo razoável algo como uma

década em relação há um século, por exemplo. Além disso, quanto mais extensa for

uma conjuntura crítica, maiores serão as possibilidades de que haja o retorno de

restrições estruturais que poderão reduzir o impacto transformador das decisões política.

A terceira questão enfatizada pelos autores refere-se à compreensão de uma

conjuntura crítica como necessariamente um momento de expressivas mudanças, sendo

essa uma associação automática. Uma conjuntura crítica, na visão de Capoccia e

Kelemen (2007), se define pela presença de relaxamento estrutural e elevado grau de

contingência situacional, quadro esse que não necessariamente produz mudanças. Isso

porque a presença de uma conjuntura crítica significa que há maior abertura para tomar

decisões que podem redefinir a configuração de uma instituição, o que não exclui a

possibilidade de se restaurar o status-quo.

Assim, a característica fundamental de uma conjuntura crítica é a formação de

uma conjuntura em que há possibilidades reais de mudanças expressivas (no arcabouço

político, no sistema econômico, no regime de proteção social, etc.) em virtude da

mudança na correlação de forças políticas. Os resultados dessa conjuntura podem ser

muitos, indo desde mudanças expressivas e radicais até mesmo o recrudescimento das

regras atuais. Assim, o essencial de uma conjuntura crítica é a abertura de vias

alternativas com possibilidades iguais de ocorrência, sem que seja possível saber, à

princípio, qual dessa vias predominará.

Finalmente, os autores abordam a negligência das análises de conjuntura crítica

em relação ao tema poder, que deveria ser central para se compreender a natureza e a

direção das decisões que formam o momento inicial de um novo legado institucional.

Na quase totalidade dos casos, os estudos que analisam conjunturas críticas adotam o

argumento típico importado do Neoinstitucionalismo Econômico, segundo o qual

pequenas escolhas ou decisões aleatórias são reforçadas por retornos crescentes e geram

trajetórias dependentes no médio e longo prazo.

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Segundo Capoccia e Kelemen (2007), essa visão simples do processo político de

uma conjuntura crítica precisa ser revista, uma vez que as causas majoritárias nessa fase

não são pequenos eventos aleatórios, mas decisões tomadas por atores poderosos como

lideres de partidos, movimentos sociais e associações empresariais, burocratas, juízes,

congressistas, entre outros, que possuem interesses e projetos bem articulados de poder

(Capoccia & Kelemen, 2007). Assim, conjunturas críticas são momentos em que há

mudanças expressivas na correlação de forças e novos atores emergem (ou atores já

estabelecidos ampliam seu espaço de poder, etc.) e buscam introduzir transformações

nas regras de acesso e exercício do poder de forma a conferir estabilidade ao novo pacto

de poder e projetar seu legado.

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