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1 A NATUREZA AMAZÔNICA NA POLÍTICA DE VALORIZAÇÃO ECONÔMICA (1955-1959)

1.1 Conquistar e dominar: o discurso do rio Amazonas

As premissas do planejamento da Amazônia na perspectiva da promoção do desenvolvimento foram anunciadas no discurso proferido por Getúlio Vargas no Teatro Amazonas, em Manaus, em 10 de outubro de 1940, prestigiado por lideranças políticas e representantes do empresariado regional. Neste pronunciamento, emblematicamente alcunhado “Discurso do rio Amazonas”, o chefe de Estado comparava a extensão territorial da região à dimensão dos seus problemas e informava que sua presença devia-se à necessidade de ver e observar, in loco, as condições de realização do plano de reerguimento da Amazônia. “Nada nos deterá nesta arrancada que é, no século XX, a mais alta tarefa do homem civilizado: conquistar e dominar os vales das grandes torrentes equatoriais, transformando a

63 Brasil. Constituição da República Federativa do Brasil (1946). Presidência da República: Rio de Janeiro, 1946. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao46.htm>. Acesso em: 13 fev. 2012.

sua fôrça cega e a sua fertilidade extraordinária em energia disciplinada”. 64 Com estas palavras Vargas expressava o caráter imperativo e inexorável do processo de “conquista e domínio” da Amazônia, a ser alicerçado na exploração racional de seus elementos naturais, sob a égide da ação estatal. O presidente prometia aos seus espectadores amazônidas: “o vosso ingresso definitivo no campo econômico da Nação, como fator de prosperidade e de energia criativa vai ser feito sem demora”. 65 A integração econômica da Amazônia ao restante do país era expressa, portanto, como uma das preocupações fundamentais do Estado brasileiro. 66

As percepções de Vargas sobre a Amazônia, expressas em seu pronunciamento, revelavam uma perspectiva otimista acerca das possibilidades de crescimento e prosperidade da região, com a ressalva de que as “realizações empíricas” que norteavam a agricultura e a atividade extrativa precisavam transformar-se em exploração racional. “O que a natureza oferece é uma dádiva magnífica a exigir o trato e o cultivo da mão do homem”. 67 A natureza amazônica, de acordo com o pensamento varguista, demandava a ação efetiva do aparelho estatal, de modo a orientar a utilização de seus componentes, de acordo com parâmetros técnicos.

Por conseguinte, para promover o progresso da região fazia-se 'mister' atuar sobre o modo de vida regional, visando a introdução da disciplina e racionalidade técnica com vistas à qualificação da sociedade amazônica para as políticas preconizadas pelo Estado face à promoção do desenvolvimento econômico. Segundo Vargas, o seringueiro, nômade por força da própria atividade, assim como “os naturais que permaneceram às margens dos rios, com a sua atividade limitada à caça, à pesca e à lavoura de vazante para consumo doméstico” não poderiam constituir os “elementos capitais do progresso da terra”. O presidente reiterava que naquela conjuntura, o esforço humano, para ser socialmente útil, precisaria concentrar técnica e disciplina. 68

64 VARGAS, op. cit., 1968b, p. 10-11. 65 Idem, p. 10.

66Em trabalho recente sobre a exploração da borracha brasileira no contexto do Estado Novo, o historiador Seth

Garfield apresentou uma análise geopolítica, cultural e ambiental do processo de expansão da fronteira nacional e da consolidação da ocupação física e simbólica da região amazônica empreendido pelo governo Vargas. O autor identificou, nas práticas sociais e nas disputas de poder envolvendo o controle e a exploração da hevea, a produção de diversos significados para a Amazônia. Em que pese a força do Estado, sobretudo no que se refere à alocação de recursos financeiros e implantação de serviços, esta “invenção da Amazônia” como um imperativo nacional, envolveu engenheiros, geógrafos, sanitaristas, migrantes, agrônomos, escritores etc. (GARFIELD, 2014).

67 Idem, p. 09. 68 Idem, p. 10.

Este pensamento reflete uma avaliação que considera a Amazônia como um espaço historicamente desprovido de técnica e de racionalidade, embora rico em recursos naturais, e marcado pelo "vazio e dispersão demográficos". O discurso de Getúlio expressa esta perspectiva, de resto reiterada diversas vezes em pronunciamentos de governos posteriores. A persistência desse pensar a Amazônia norteou, em grande medida, as ações estatais na região na segunda metade do novecentos. Esta perspectiva desconsidera que as populações locais, cuja apropriação e uso dos componentes do ambiente segue uma racionalidade própria, distinta da racionalidade econômica de produção, circulação e consumo de mercadorias vigente, seguem critérios técnicos outros, em consonância com suas experiências empíricas cotidianas de observação e utilização da natureza.

Para promover o progresso da Amazônia, de acordo com Vargas, “o nomadismo do seringueiro e a instabilidade econômica dos povoadores ribeirinhos” deveriam dar lugar a núcleos de cultura agrária, nos quais “o colono nacional, recebendo gratuitamente terra desbravada, saneada e loteada, se fixe e estabeleça a família com saúde e conforto”. Sob essa ótica, o “espaço imenso e despovoado” era considerado o principal inimigo do progresso. A colonização, medida fundamental à atuação estatal na região, especialmente a partir dos anos 1950, implicava, portanto, no adensamento demográfico, como uma forma de concentrar as ações do Estado.

De certo modo, o “Discurso do Rio Amazonas” já anunciava a premissa das políticas públicas a serem formuladas para a Amazônia nas décadas seguintes: a apropriação dos componentes da natureza amazônica para fins de desenvolvimento econômico por meio de políticas e práticas agrícolas, industriais, energéticas, florestais e viárias. E apontava os problemas e as ações propostas para neles intervir. Ao afirmar que “a nós, povo jovem, impõe-se a enorme responsabilidade de civilizar e povoar milhões de quilômetros quadrados” Vargas procurava demonstrar que o soerguimento da região representava uma “questão” nacional, que requeria a participação e o empenho do conjunto do país.

Considerando que as percepções sobre a região exprimiam a necessidade de fomentar alternativas sociais e econômicas novas, o debate foi encaminhado ao Congresso Nacional, que após discutir e definir os objetivos, os procedimentos e as ações a serem realizadas, incluíram a proposta como Princípio Constitucional. Tal medida significou uma mudança de atitude governamental, legal e política a ser obedecida por todos: governos, políticos, população, judiciário etc.

A Assembleia Constituinte converteu, desse modo, a intenção de se estabelecer uma política estatal de longo prazo na Amazônia em imperativo legal, expresso no Artigo 199º da

Carta Magna promulgada em 1946. Neste artigo, o texto constitucional estabelecia que: “Na execução do plano de valorização econômica da Amazônia, a União aplicará, durante, pelo menos, vinte anos consecutivos, quantia não inferior a três por cento da sua renda tributária”. E seu parágrafo único definia que “Os Estados e os Territórios da região, bem como os respectivos Municípios, reservarão para o mesmo fim, anualmente, três por cento das suas rendas tributárias. Os recursos de que trata este parágrafo serão aplicados por intermédio do Governo federal”.

O preceito constitucional, no entanto, requeria a elaboração de uma lei complementar que regulasse a sua aplicação. Por conseguinte, a institucionalização do Plano de Valorização Econômica da Amazônia como uma política econômica do estado brasileiro, desde sua formulação até a execução efetiva, demandou uma série de operações. Em decorrência do dispositivo constitucional de 1946, a Câmara dos Deputados criou uma Comissão Especial do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, com o objetivo de discutir a regulamentação do plano. Considerando que, ao assumir o governo, em 1951, tal regulamentação ainda não havia sido concretizada, o presidente Getúlio Vargas defendia a premência dessa tarefa, considerando a necessidade de enfrentar os problemas da região.

Em sua Mensagem ao Congresso Nacional pronunciada na abertura da sessão legislativa de 1951, Vargas salientava o seu empenho em empreender o quanto antes o Plano de Valorização Econômica da Amazônia, face à realidade regional.

A Amazônia constitui um dos problemas regionais brasileiros que exigem mais séria atenção do poder público. Estão ali representados cêrca de dois terços da extensão territorial do País, reservas florestais e outras riquezas naturais ponderáveis ao lado de uma população que o censo de 1950 estimou em menos de dois milhões de indivíduos – fenômeno que ressalta não se concentrar naquela região o potencial humano indispensável à sua mobilização econômica. A realidade amazônica tem sido o extrativismo florestal, com tôdas as suas consequências. Extraem-se da floresta alguns produtos que encontram colocação imediata. Todavia, como a heterogeneidade da floresta tropical dispersa o vegetal procurado pela fabulosa extensão do vale, a população acompanha a espécie solicitada, e se dispersa também. Na selva, cada família deve bastar-se a si própria e a divisão do trabalho torna-se impossível. Nenhum esfôrço ponderável pôde, em consequência, ser feito até agora pela educação ou pela saúde dessas populações rarefeitas. Por outro lado, a diluição da população impede uma agricultura estável, pois a atividade agrícola é eminentemente social. E com isso criam-se condições penosas de vida e de saúde para as populações extrativistas. É preciso vencer essa etapa de pioneirismo, de desregramento, dominar o meio agressivo e nêle estabelecer, firmemente, através da execução de uma política realística, sua definitiva integração aos quadros permanentes da civilização nacional. [...] Por isso, mobilizando as conquistas da melhor técnica, pensa o Govêrno enfrentar os problemas da Amazônia, para assegurar-lhes soluções corretas e oportunas. 69

69 VARGAS, Getúlio. Mensagem ao Congresso Nacional (apresentada pelo Presidente da República por ocasião da abertura da sessão legislativa de 1951). Rio de Janeiro, 1951, p. 172-173. Disponível em: <http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/ex-presidentes/getulio-vargas/mensagens-

As premissas anunciadas no Discurso do Rio Amazonas, uma década antes, encontram- se novamente presentes no pronunciamento governamental, embora em um nível mais detalhado. O presidente deixou claro que a região amazônica deveria ter um tratamento prioritário e diferenciado por parte do governo, à altura dos seus “problemas”. Problemas estes consubstanciados, segundo a fala governamental, na dispersão demográfica ensejada pela atividade extrativa, obstando quaisquer esforços de atuação estatal, em especial a aplicação de políticas públicas de saúde e educação.

O pronunciamento de Vargas apresentou a Amazônia como um espaço potencialmente rico em recursos naturais, embora desprovido de capital humano qualificado para mobilizar estes recursos em prol do desenvolvimento regional. Por este motivo, cabia ao Estado, imbuído de uma racionalidade técnica, a tarefa de fomentar este processo, produzindo alternativas econômicas e sociais para a Amazônia e conduzindo a integração da região à economia nacional. Vargas enfatizava que o plano não poderia ser uma simples lei, mas sim obra técnica, cujo planejamento exigiria conhecimento técnico e especializado.

As percepções sobre a região, expressas na mensagem presidencial, revelavam, desse modo, a necessidade de um conjunto de medidas centralizadas e racionais a nortear a política de valorização econômica da Amazônia. Para operacionalizar esse processo, o Estado brasileiro estabeleceu o planejamento regional, através do qual a técnica seria colocada a serviço do desenvolvimento.

A temática do planejamento regional foi explicitamente abordada por Vargas em sua Mensagem ao Congresso Nacional de 1951.

No quadro especial de um imenso território como o do Brasil, as relações entre o homem e o meio ambiente assumem aspectos variados, exigem métodos diversos de adaptação, de conquista e de conservação em cada unidade geográfica, em cada província climática, em cada setor regional.

A medida que se adensam os grupamentos humanos e se alarga a ocupação territorial, definem-se áreas e características singulares, a exigir métodos peculiares de vida e a sugerir esforços coordenados no esquema de planos regionais. [...] Nas áreas sêcas do Nordeste, na planície aluvial da Amazônia, nos alagados da Baixada Fluminense, como no quadro de várias de nossas bacias hidrográficas, já se enunciam os temas básicos de planejamentos regionais, indispensáveis à coordenação de esforços que permitirá um desenvolvimento satisfatório dessas regiões. 70

De acordo com a mensagem presidencial as singularidades geográficas e econômicas de determinadas áreas do país, como o Nordeste, marcado pelas secas e a Amazônia, presidenciais/mensagem-apresentada-na-abertura-da-sessao-legislativa-1951/view>. Acesso em: 20.02.2013.

historicamente assinalada por um conjunto de desafios, requeriam a ação planejadora do estado no sentido de reduzir os desequilíbrios regionais e promover o desenvolvimento destas regiões. O planejamento regional impunha-se, pois, como uma ferramenta política de abordagem dos problemas existentes. O Estado ocuparia um papel central na operacionalização deste processo:

[...] Cabe ao Govêrno da União a tarefa de comandar a realização dêsses planos de desenvolvimento regional que abrangem áreas de vários Estados. Cabe a êle mobilizar recursos que permitam enfrentar os problemas centrais e de maior amplitude, coordenando seus esforços com os estaduais e municipais, numa política de incentivo à iniciativa privada, de catálise e ativação de processos naturais de fixação humana e progresso econômico e social. 71

O Plano de Valorização Econômica da Amazônia implicava uma concepção de planejamento baseado na definição de temas, objetivos e a busca de cooperação técnica entre as várias esferas de governo, conforme explicitado por Vargas naquele pronunciamento:

A evolução da técnica moderna de planejamentos regionais nos aponta diretrizes essenciais do método de trabalho a ser empregado: a definição clara de temas centrais de planejamento, a eleição de objetivos básicos, em tôrno dos quais venham a girar outros aspectos da vida regional, a coordenação de esforços, a cooperação dos vários níveis de atividades governamentais e a indispensável participação do povo, na persecução dêsses objetivos. 72

Considerando essa concepção de planejamento, a Amazônia tornou-se objeto da primeira grande experiência de planejamento regional na segunda metade do século XX, consubstanciada no Plano de Valorização Econômica. Em consonância com as premissas da mensagem presidencial de 1951, e indo ao encontro dos trabalhos da Comissão Parlamentar de Valorização Econômica da Amazônia, voltados para a criação de uma lei complementar, que regulasse a aplicação do Artigo 199 da Carta Magna, em agosto daquele ano Vargas determinou um levantamento da situação e das necessidades da Amazônia.