A Comerc é um dos grandes sucessos empresariais do Brasil.
2.
Ímpeto
O jovem de 18 anos desceu na estação Santana do metrô de São Paulo e caminhou pela Rua Alfredo Pujol, até chegar ao quartel de reservistas do Exército para se alistar. Esperou na fila até que chamassem seu nome. Era fim de janeiro de 1984. No dia anterior, 300 mil pessoas estiveram na Praça da Sé, no centro da cidade, clamando por “Diretas Já”. Era o começo do fim da ditadura militar, que se encerraria em março do ano seguinte.
- Cristopher Alexander Vlavianos! - gritou o soldado.
Em poucas semanas, começaria a faculdade de economia na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Mas, na segunda-feira seguinte, lá estava o jovem perfilado a outros tantos, diante de uma bandeira a ser hasteada e cantando o hino do Brasil.
Depois da primeira semana, o comandante do quartel chamou Cristopher para uma conversa privada.
− Seu tio [que era Coronel do Exército] ligou aqui e falou que você entrou na faculdade. Eu vou te liberar – disse o Coronel no comando.
Mas, para a surpresa de todos, o garoto tomou uma decisão diferente. − Eu quero ficar – disse o jovem.
Naquele ano, durante o dia, ele fazia o que lhe mandavam no quartel e estudava economia à noite. Ou melhor, tentava estudar, pois precisou ausentar-se das aulas durante oito semanas para participar de acampamentos do exército e não teve jeito: precisou repetir o primeiro ano do curso.
No próximo ano, sem mais precisar bater continências, Cristopher percebeu que precisava arrumar uma ocupação. Foi bater na porta de uma pequena corretora de mercadorias de Fernando e Pedro Esboriol, irmãos que eram apenas cinco
anos mais velhos do que ele e também estavam no início da carreira. Os irmãos lhe ofereceram um emprego não-remunerado e sem qualquer ajuda de custo. No seu primeiro dia de trabalho, lhe deram um jaleco verde e uma caneta. Em meio a muita gritaria, ganhou a chance de ser auxiliar do pregão da Bolsa de Mercadorias de São Paulo, na Rua Líbero Badaró, no centro paulistano. Sua tarefa era simplesmente anotar as ordens de compra e venda do operador que negociava commodities, como ouro, café e boi.
Ao chegar em casa, o senhor Alexandre, pai de Cristopher, um grego que imigrou para o Brasil e viveu altos e baixos tentando fazer negócios no mercado financeiro, perguntou como havia sido seu primeiro dia de trabalho.
− Deu certo. Arrumei o emprego, mas os caras não podem me pagar nada porque estão começando a empresa.
− Daqui para frente, você está por sua conta – afirmou o seu Alexandre. − Mas eu não recebo nada – protestou o filho.
− Isso é um problema seu.
Quando precisava de dinheiro, seu pai lhe emprestava, mas cobrava juros de banco. A solução foi levar uma vida espartana, enquanto ainda não ganhava nenhum tostão.
Nos três meses em que trabalhou no pregão da bolsa, Cristopher logo percebeu que aquelas pessoas estavam ali há muito tempo e viviam em estado permanente de tensão. Apesar de árdua, a experiência no pregão ensinou algo muito importante: a regra “fechou, está fechado” precisa ser levada à risca nos negócios. Um aperto de mãos ou uma palavra dada valem tanto quanto um documento assinado.
Mas o tempo de pregão durou bem pouco e, logo, o rapaz foi convidado para trabalhar na mesa de operações da corretora. Não era bem uma promoção,
pois salário ele também não receberia. Poderia, contudo, ganhar comissões de negócios que trouxesse para a corretora. Então, passou a montar um fundo com recursos de pessoas que ele conhecia. Fazia operações de hedge de câmbio e, finalmente, começou a ganhar alguma grana. No total, foram dois anos e meio trabalhando com os irmãos.
Até que, em 1987, ele decidiu dar o primeiro passo em direção à autonomia nos negócios: dividir com seu pai um escritório na Rua Três de Dezembro. Nesta sala, no centro de São Paulo, eles inauguraram, “meio juntos, meio separados”, uma corretora de mercadorias – ou, se preferir, a primeira Comerc, um nome criado a partir da junção das primeiras sílabas de cada palavra.
Com a experiência adquirida na mesa de operações, Cristopher começou a negociar títulos. Mas, as práticas de mercado, por vezes calcadas na assimetria de informações entre investidores e operadores, desanimavam o jovem. Ele buscava despontar em um mercado de condições essencialmente transparentes, preceito ético que se propagou ao longo de sua vida empresarial e faz parte da cultura da Comerc Energia nos dias de hoje.
No início dos anos 90, a Comerc – ainda corretora de mercadorias – tinha porte reduzido. A empresa chegou a ter quatro funcionários, mas quem colocava a mão na massa mesmo era Cristopher que, a essas alturas, já havia conseguido terminar a faculdade. Por algum tempo, ele negociou títulos da dívida agrária, até que o governo parou de quitá-los e viraram “moeda podre” no mercado. O próximo negócio que apareceu e que ele conduziu por um bom tempo consistia na antecipação de recebíveis futuros de cartão de crédito junto a agências de turismo.
Naquela época, devido à alta inflação, ninguém no Brasil conseguia comprar nada parcelado, apenas viagens internacionais, que eram fechadas fora do país. Para efetivar algumas operações, Cristopher precisou abrir uma factoring batizada como Comercial Mercantil LTDA. Ali nascia outra Comerc. Mal sabia ele que o caráter multiuso daquela marca seria reiterado alguns anos adiante.