5 GOVERNANÇA DA INTERNET: O DILEMA DO CONTROLE DAS INFORMAÇÕES NO ESPAÇO DE FLUXOS
5.2 O CONSELHO GESTOR DA INTERNET NO BRASIL E O MARCO CIVIL DA INTERNET: O DECÁLOGO DO CGI.BR E OS PRINCÍPIOS NO MARCO CIVIL
5.2.1 O Decálogo do CGI.br: os limites para regulação
Desde o início, um grande desafio do chamado processo de governança da internet é a integração entre os aspectos técnicos e normativos atinentes à rede. É difícil distinguir entre os dois aspectos, pois as soluções técnicas não são neutras, uma vez que
cada solução/opção técnicas promove determinados interesses, fortalece determinados grupos e, até certo ponto, afeta a vida social, política e econômica. No caso da Internet, por um bom tempo, tanto o aspecto técnico quanto o aspecto normativo eram regulados por apenas um grupo social – a incipiente comunidade da Internet.347
Consciente da importância do tema, já em 1995, o Ministério das Comunicações (MC) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCT) afirmam a necessidade de criação de um Comitê Gestor da Internet no Brasil. A Portaria Interministerial n.o 147, de 31 de maio de 1995, criou o Comitê Gestor da Internet no Brasil
347 KURBALIJA, Jovan. Uma introdução à governança da Internet. Tradução de Carolina Carvalho. São Paulo: Comitê Gestor da Internet do Brasil, 2016. p.34.Disponível em:
<https://www.cgi.br/media/docs/publicacoes/1/CadernoCGIbr_Uma_Introducao_a_Governanca_d a_Internet.pdf>. Acesso em: 10 jun. 2017.
(CGI.br).348 A Instituição tem como metodologia e objetivo "trabalhar em conjunto com a sociedade civil, entidades atuantes na área e com todos os provedores de acesso (gratuitos e pagos) para encontrar mecanismos que possam tornar a Internet brasileira cada vez mais segura".349
Dessa maneira, pode-se afirmar que o CGI.br adota um modelo multissetorial ao congregar diversos setores e reunir sociedade e governo para estabelecer diretrizes e estratégias para o uso da internet no Brasil.350
O trabalho do CGI é bastante abrangente. A importância da sua atuação aparece quando se leva em conta que a internet segue regras próprias com base no tripé de velocidade na propagação das informações, espírito de colaboração planetária e conexões em tempo real. Nesse ambiente de tantas especificidades e tendo em
348 O Decreto n.o 4.829 de 03 de setembro de 2003 definiu suas atribuições.
349 CGI.br. História. Disponível em: <https://www.cgi.br/historicos/#1995>. Acesso em: 25 maio 2017.
350 A história do CGI quase que se confunde com a história da internet no Brasil Apresentam-se, a seguir, alguns fatos marcantes da história da instituição que são relevantes para a história da internet no Brasil. Em 1997, o CGI.br publica as "Regras de Distribuição de Números de IP no Brasil"; em 2000, participa de reunião para articulação sobre a distribuição dos endereços de IP para a América Latina bem como de reunião da ICANN (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers), no Japão; ainda em 2000, lança a Cartilha de Segurança para a Internet. O Decreto 4829 (sobre o modelo de governança da Internet no Brasil) é publicado em setembro de 2003 e institucionaliza o Comitê Gestor da Internet no Brasil e define suas atribuições. Em 2005, a competência para realizar as atividades de registro de nomes de domínio, distribuição de endereços de IPs e sua manutenção na internet é delegada ao NIC.br (o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR foi criado para implementar as decisões e projetos do CGI.br). Em 2006, atinge-se o número de 1 milhão de domínios .br registrados. Em 2007, define-se que os padrões básicos do CGI.br são a inimputabilidade na rede, a neutralidade da rede e o anonimato; em 2009, o decálogo com os princípios de governança da Internet do Brasil é aprovado; a partir de 2009, o CGI participa ativamente nas discussões para elaboração do Marco Civil da Internet; em 2010, abre-se a segunda fase de consultas públicas do Marco Civil; em agosto de 2011 é apresentado, na Câmara dos Deputados, o projeto de lei sobre o Marco Civil da Internet (PL 12965/2014). Em junho de 2013 é publicada a primeira reportagem no Washington Post com as revelações de Edward Snowden sobre o programa de vigilância em massa da NSA nos Estados Unidos ; em 2012, o CGI publica resolução condenando a coleta de dados pela NSA; em 23 de junho de 2014 tem início a vigência do Marco Civil da Internet; em 2015, o CGI lança o primeiro livro da série
"Cadernos CGI.br" com documentos sobre a Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação ocorrida em Genebra (2003) e Túnis (2005). Em março de 2015 o CGI publica nota criticando o bloqueio do aplicativo WhatsApp em todo o território Nacional; em 2015, o CGI.br lança duas notas com críticas a projetos de lei que fragilizam os princípios expostos no Decálogo do CGI.br e no Marco Civil da Internet; em dezembro de 2015, o CGI publica nova nota criticando nova ordem judicial de bloqueio do WhatsApp; em 2016, o CGI publica notas contra projetos de lei que, se aprovados, desconfigurariam o Marco Civil da Internet; em 2017, o CGI lança nota sobre a franquia de dados na modalidade banda larga de acesso à internet criticando a possibilidade de tal limitação. Ao longo dos anos, o CGI.br também organizou fóruns e outros encontros para tratar do tema da Governança da Internet (como o Fórum de Governança da Internet – IGF – no Brasil;
seminários de proteção à privacidade e aos dados pessoais, bem como os Fóruns da Internet) (CGI.br. Sobre o CGI.br. Disponível em: <http://www.cgi.br/sobre/>. Acesso em: 28 maio 2017).
vista o respeito à pluralidade de ideias, o CGI.br é composto por personalidades do setor público, da Academia, da iniciativa privada e do terceiro setor. Tem atuação, em especial, em duas frentes: na administração de endereços da Internet, por intermédio do NIC.br (braço executivo do CGI.br), e na participação e organização de fóruns sobre governança e melhores práticas na rede.351
Importa salientar novamente (como se viu no início deste capítulo) que a palavra governança da internet é diferente da ideia de governança aplicável ao setor público. Governança quando aplicada ao tema da internet significa a capacidade
"das sociedades humanas se dotarem de sistemas de representação, de instituições e processos, de corpos sociais, para elas mesmas se gerirem, em um movimento voluntário".352 Assim, a governança da internet é responsável por preservar a segurança e estabilidade global da rede sem intervir nos padrões internacionais e adotando boas práticas.
A internet está em contínua evolução. Todavia alguns princípios gerais permanecem (são as chamados "invariantes"): a rede é global, pois qualquer endpoint (ponto conectado à rede) pode endereçar mensagens a outro endpoint; a rede deve possuir integridade, ou seja, um endpoint deve receber a informação que lhe foi endereçada em qualquer ponto que esteja conectado; a possibilidade de inovação sem necessidade de permissão é a possibilidade de criação de aplicações para internet sem necessidade de autorização; a abertura da rede foi desenvolvida de maneira que qualquer um possa utilizá-la; também é uma propriedade invariante a acessibilidade da internet que se reflete na garantia da capacidade de interação entre os usuários; a última invariante é o espírito colaborativo da rede, que envolve usuários, comunidade acadêmica, governos, empresas e demais grupos sociais.353
No Brasil, o CGI.br funciona como guardião das práticas da internet no país e possui centros de estudos responsáveis por temas específicos: por exemplo, questões de segurança são atribuições do CERT.br (Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil); o CETIC.br (Centro de Estudos sobre Tecnologias da Informação e da Comunicação) tem por função produzir
351.BR. A governança da Internet no Brasil. In: .br: Publicação do Comitê Gestor da Internet no Brasil. São Paulo: Comitê Gestor da Internet. Ano 1. ed.01. 2009. p.10.
352.BR, loc. cit.
353 PESSERL, Alexandre Ricardo. Preservação da estabilidade, segurança e funcionalidade da rede.
In: LEITE, Glauco Salomão; LEMOS, Ronaldo (Coords.). Marco civil da internet. São Paulo:
Atlas, 2014. p.191-192.
indicadores estatísticos sobre o crescimento da rede; o CEPTRO.br (Centro de Estudos e Pesquisas em Tecnologia de Redes e Operações) executa projetos aprovados pelo CGI.br (por exemplo, o projeto NTP.br, que é a sincronização dos relógios dos computadores com base em fonte confiável).
A lógica de trabalho do CGI.br é trazer o Brasil para o centro dos debates de como a Internet deve ser utilizada em proveito da sociedade.354 Nesse sentido, é central destacar o Decálogo do CGI355, aprovado em 2009. São os seguintes princípios de governança e uso da internet no Brasil:
1. Liberdade, privacidade e direitos humanos
O uso da Internet deve guiar-se pelos princípios de liberdade de expressão, de privacidade do indivíduo e de respeito aos direitos humanos, reconhecendo-os como fundamentais para a preservação de uma sociedade justa e democrática.
2. Governança democrática e colaborativa
A governança da Internet deve ser exercida de forma transparente, multilateral e democrática, com a participação dos vários setores da sociedade, preservando e estimulando o seu caráter de criação coletiva.
3. Universalidade
O acesso à Internet deve ser universal para que ela seja um meio para o desenvolvimento social e humano, contribuindo para a construção de uma sociedade inclusiva e não discriminatória em benefício de todos.
4. Diversidade
A diversidade cultural deve ser respeitada e preservada e sua expressão deve ser estimulada, sem a imposição de crenças, costumes ou valores.
5. Inovação
A governança da Internet deve promover a contínua evolução e ampla difusão de novas tecnologias e modelos de uso e acesso.
6. Neutralidade da rede
Filtragem ou privilégios de tráfego devem respeitar apenas critérios técnicos e éticos, não sendo admissíveis motivos políticos, comerciais, religiosos, culturais, ou qualquer outra forma de discriminação ou favorecimento.
7. Inimputabilidade da rede
O combate a ilícitos na rede deve atingir os responsáveis finais e não os meios de acesso e transporte, sempre preservando os princípios maiores de defesa da liberdade, da privacidade e do respeito aos direitos humanos.
8. Funcionalidade, segurança e estabilidade
A estabilidade, a segurança e a funcionalidade globais da rede devem ser preservadas de forma ativa através de medidas técnicas compatíveis com os padrões internacionais e estímulo ao uso das boas práticas.
354.BR. A governança da Internet no Brasil. In: .br: Publicação do Comitê Gestor da Internet no Brasil. São Paulo: Comitê Gestor da Internet. Ano 1. ed.01. 2009. p.10.
355 Vide sítio do CGI.br (Disponível em: <https://www.cgi.br/principios/>. Acesso em: 10 fev. 2017).
9. Padronização e interoperabilidade
A Internet deve basear-se em padrões abertos que permitam a interoperabilidade e a participação de todos em seu desenvolvimento.
10. Ambiente legal e regulatório
O ambiente legal e regulatório deve preservar a dinâmica da Internet como espaço de colaboração.
Em 2015, o CGI publicou resolução (Resolução CGI.br/RES/2015/013)356 na qual emite recomendações relativas ao ambiente legal e regulatório da internet no Brasil:
O Comitê Gestor da Internet no Brasil decide, em relação ao ambiente legal e normativo relativo à Internet no Brasil, recomendar que ele:
a) Seja pautado pela garantia de proteção aos direitos básicos dos cidadãos tal como expressos na Declaração Universal de Direitos Humanos da ONU, entre eles o direito à privacidade e à liberdade de expressão, cláusulas pétreas na Constituição Federal do Brasil e um dos pilares do Estado Democrático de Direito.
b) Observe e promova o caráter transparente, colaborativo e democrático, com ampla participação de todas as esferas do governo, do setor empresarial, da sociedade civil e da comunidade acadêmica, que pautaram a criação e a adoção da Lei 12.965/2014, inclusive por isso transformando-a em paradigma internacional para a regulação da Internet.
c) Preserve o espírito da Lei 12.965/2014, assegurando os direitos e garantias constitucionais aí inseridas, sobretudo a liberdade da expressão, a inviolabilidade da intimidade e da vida privada, a inviolabilidade e o sigilo do fluxo de suas comunicações pela Internet e de suas comunicações armazenadas, salvo por ordem judicial em estrita observância ao devido processo legal nos termos da Constituição Federal, sob o risco de aumentarem as possibilidades de vazamento, abuso e uso político de dados de terceiros.
d) Preserve, principalmente, o equilíbrio, alcançado com a Lei 12.965/2014, entre: (i) a liberdade de expressão e a proteção à privacidade e aos dados pessoais; (ii) as atividades relacionadas à persecução criminal e o combate a ilícitos na Internet, bem como a própria dinâmica da Internet como espaço de colaboração; (iii) a inimputabilidade dos provedores de conexão por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros; e (iv) a inimputabilidade dos provedores de aplicações por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros, sendo que os provedores de aplicação somente poderão ser responsabilizados civilmente se, após ordem judicial específica, não tomarem as providências no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço, nos termos da Seção III, Capítulo III, da Lei 12.965/2014.
e) Não trate a Internet de forma distinta de outros ambientes de interação social, o que poderia gerar redundâncias ou conflitos desnecessários no âmbito do Direito Penal brasileiro e,
f) Leve em conta a natureza internacional e globalmente distribuída da Internet e seja, assim, estruturado como parte integrante do ecossistema complexo de governança mundial da rede.
356Vide sítio do CGI.br (Disponível em: <http://cgi.br/resolucoes/documento/2015/CGI.br_
Resolucao_2015_013.pdf>. Acesso em: 10 jul. 2017).
Como ator importante nas discussões sobre o Marco Civil da Internet, o CGI.br levou esses princípios para o centro das discussões sobre regulação.
5.2.2 Os princípios do Marco Civil da Internet: especificidades
Em 2013, Edward Snowden revelou que programas de vigilância eram manejados pelos Estados Unidos (a partir das práticas da National Security Agency – NSA) a fim de obter informações confidenciais tanto dentro como fora daquele país (organizações brasileiras como a Petrobras e a Presidência da República foram alvos do governo estadunidense). A resposta a essas práticas foi a recuperação de um projeto de lei pendente de análise há cerca de dois anos na Câmara dos Deputados:
esse projeto de lei regulava o Marco Civil da Internet.357
Cabe salientar que esse projeto de lei surgiu como reação à chamada "Lei Azevedo", projeto que propunha o estabelecimento de ampla legislação criminal para a internet (criminalizando condutas rotineiras na rede – como, por exemplo, a transferência de músicas de aparelhos de mp3 para o computador com pena de reclusão de até quatro anos). Como resposta, houve grande mobilização social, e o exame da Lei Azeredo foi temporariamente suspenso. A questão a ser discutida na esfera pública foi: "qual o tipo de regulação da internet que deve ser feita no país?".358
O objetivo que prevaleceu não foi a construção de uma legislação punitivista, mas a construção para a internet de um sistema de direitos e liberdades, com base na principiologia constitucional. O Ministério da Justiça em conjunto com professores da Fundação Getúlio Vargas, tradicional universidade brasileira, pavimentaram o caminho para a construção de uma plataforma colaborativa dentro da própria rede que viabilizaria o debate e redação do Marco Civil.
Esse debate foi dividido em duas fases: a primeira foi o debate sobre os princípios que regem a rede e, a partir dele, a redação de uma minuta que concretiza esses princípios. A segunda fase foi a discussão dessa minuta na plataforma
357 LEMOS, Ronaldo. O marco civil como símbolo do desejo por inovação no Brasil. In: LEITE, George Salomão Leite; LEMOS, Ronaldo (Coords.). Marco civil da internet. São Paulo: Atlas, 2014. p.3.
358 LEMOS, loc. cit.
colaborativa (entre maio e abril de 2010). Nesse ambiente, cuja principal característica era a transparência, foi construído de forma colaborativa um projeto que se tornaria mais tarde uma lei aplaudida por especialistas de todo o mundo (que daria ensejo, inclusive, à Resolução da ONU que prevê que "os mesmos direitos que as pessoas possuem off-line devem também ser protegidos on-line, incluindo o direito à privacidade").359 Em 24 de agosto de 2011, foi apresentado ao Congresso Nacional, pela Presidenta da República Dilma Rousseff, o Projeto de Lei do Marco Civil. Em vista do exposto,
[...] é possível afirmar que o Marco Civil tenha sido um dos projetos de lei mais amplamente debatidos no país em múltiplas mídias, tendo inaugurado uma nova metodologia de construção legislativa, que pode informar em grande medida os caminhos de uma democracia em uma sociedade cada vez mais digital.360
Além da Constituição, a principiologia do Marco Civil da Internet teve inspiração no Decálogo do CGI.br (apresentado logo acima). A ideia central era o estabelecimento de uma legislação não centrada em aspectos penais, mas em princípios, direitos e garantias ao cidadão. Isso explica o motivo pelo qual alguns autores se referem ao Marco Civil da Internet como a "Constituição da Internet".361 Todavia, há que se refletir sobre o tema:
A nova lei está sendo apelidada de "Constituição da Internet" ou ainda
"Carta dos direitos do século XXI". Estaríamos, então diante do cyberconstitucionalismo? Essa situação é minimamente questionável numa realidade de baixa constitucionalidade brasileira.362
359 LEMOS, Ronaldo. O marco civil como símbolo do desejo por inovação no Brasil. In: LEITE, George Salomão Leite; LEMOS, Ronaldo (Coords.). Marco civil da internet. São Paulo: Atlas, 2014. p.8.
360 Ibid., p.3-7.
361 LEITE, Glauco Salomão. Os princípios expressos nesta lei não excluem outros previstos no ordenamento jurídico pátrio relacionados à matéria ou nos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. In: LEITE, Glauco Salomão; LEMOS, Ronaldo (Coords.). Marco civil da internet. São Paulo: Atlas, 2014. p.241.
362 STRECK, Lenio Luiz. Apontamentos hermenêuticos sobre o marco civil regulatório da internet. In:
LEITE, Glauco Salomão; LEMOS, Ronaldo (Coord.). Marco civil da internet. São Paulo: Atlas, 2014. p.334.
Lenio Streck tem razão ao salientar que, apesar das especificidades da temática da regulação da internet, o Marco Civil deve ter como parâmetro a Constituição Federal de 1988.363
Fato é que a necessidade de um marco regulatório para internet (mesmo diante da inflação legislativa brasileira) tornou-se patente quando a Lei Geral de Telecomunicações (Lei n.o 9.472/97) mostrou-se insuficiente para regular um fenômeno tal diverso das telecomunicações.
Apesar de alguns juristas chamarem atenção sobre a utilização das leis (de forma geral) para manutenção do status quo, e outros chamarem atenção para a fé indiscriminada de que a solução para os problemas sociais estaria na criação de mais e mais regramentos legais, parece que o Marco Civil da Internet tem-se mostrado positivo em um contexto no qual a ubiquidade e descentralização da internet apresentam novas questões quanto a violações de direitos fundamentais no espaço de fluxos (interno e externo aos Estados).364 Todavia, ainda carece de estudos a tensão entre
363 Streck apresenta uma leitura própria da distinção entre princípios e regras – na teoria que batizou de CHD – crítica Hermenêutica do Direito (Vide STRECK, Lenio Luiz. Lições de crítica hermenêutica do direito. 11.ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2013). Neste trabalho, no entanto, o entendimento acerca da diferença entre princípios e regras se assenta na teoria de Robert Alexy. Em outro lugar, a autora do presente trabalho ressalta algumas teses de Robert Alexy em relação ao tema: regras são mandamentos definitivos, e princípios são mandamentos de otimização, na medida em que ordenam que algo seja realizado na máxima medida relativamente às possibilidades reais e jurídicas. O conflito entre regras exige uma cláusula de exceção ou a declaração de invalidade de uma delas. Os princípios são sujeitos à ponderação.
(CAMARA, Edna Torres Felício. Robert Alexy e o argumento de injustiça: teoria, aplicação e debate. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Curitiba, 2013. p.62. Disponível em: <http://acervodigital.ufpr.br/
bitstream/handle/1884/30666/R%20-%20D%20-%20EDNA%20TORRES%20FELICIO%20
CAMARA.pdf?sequence=1>. Acesso em: 10 maio 2017). Sobre o tema são palavras de R. Alexy:
"Regras são normas que, dada a satisfação de condições específicas, comandam, proíbem, permitem ou autorizam definitivamente. Assim, elas podem ser caracterizadas como 'comandos definitivos'.
Direitos baseados em regras são direitos definitivos. Princípios são normas de um tipo completamente diferente. Eles são mandados de otimização [...]. Como tal, são normas que comandam que algo deve ser realizado no mais alto grau possível – real e legalmente. As possibilidades legais, além de serem dependentes de regras, são essencialmente determinadas por meio de princípios opostos, fato que implica que os princípios podem e devem ser sopesados. Direitos baseados em princípios são direitos prima facie" (Tradução livre de: "Rules are norms that, given the satisfaction of specific conditions, definitively command, forbid, permit, or empower. Thus they can be characterized as "definitive commands". Rights based on rule are definitive rights. Principles are norms of a completely different kind. They are commands to optimalize [...]. As such they are norms commanding that something must be realized to the highest degree that is actually and legally possible. The legal possibilities, in addition to being dependent on rules, are essentially determined by means of opposing principles, a fact that implies that principles can and indeed must be balanced. Rights based on principles are prima facie rights"). (ALEXY, Robert. Rights,
Direitos baseados em regras são direitos definitivos. Princípios são normas de um tipo completamente diferente. Eles são mandados de otimização [...]. Como tal, são normas que comandam que algo deve ser realizado no mais alto grau possível – real e legalmente. As possibilidades legais, além de serem dependentes de regras, são essencialmente determinadas por meio de princípios opostos, fato que implica que os princípios podem e devem ser sopesados. Direitos baseados em princípios são direitos prima facie" (Tradução livre de: "Rules are norms that, given the satisfaction of specific conditions, definitively command, forbid, permit, or empower. Thus they can be characterized as "definitive commands". Rights based on rule are definitive rights. Principles are norms of a completely different kind. They are commands to optimalize [...]. As such they are norms commanding that something must be realized to the highest degree that is actually and legally possible. The legal possibilities, in addition to being dependent on rules, are essentially determined by means of opposing principles, a fact that implies that principles can and indeed must be balanced. Rights based on principles are prima facie rights"). (ALEXY, Robert. Rights,