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Concomitante aos primórdios do processo de industrialização da América Latina e acompanhando um profícuo movimento global de financiamento de C&T pelo Estado, ocorre no Brasil, em 1951, a criação de sua primeira agência de fomento ao desenvolvimento científico e tecnológico, a saber, o então denominado Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) ora Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e

101 Tecnológico)29. A busca por implantação de um órgão de fomento à C&T no país remonta aos primórdios dos anos 1920 quando membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC) atentos ao acelerado desenvolvimento tecnológico pós Primeira Guerra Mundial, reivindicavam maior participação do estado brasileiro no desenvolvimento da ciência e tecnologia30.

Agência vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e Comunicações (MCTIC)31, o CNPq antecedeu, inclusive, a formação deste atual órgão central do sistema de ciência, tecnologia e inovação brasileiro. O órgão ocupava até 1985 – ano de criação do ministério em tela – a posição de dirigente do setorial de ciência e tecnologia no país. Atualmente, o MCTIC é responsável pela coordenação central de todas as Unidades de Pesquisa, Empresas Públicas e Conselhos do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação32.

Tendo em vista o esboço do panorama das ciências sociais no Brasil, ressalta-se a prática inexistência de Unidade de Pesquisa direcionada às Ciências Sociais no âmbito do MCTIC. Em que pese sua participação marginal ou incremental em algumas poucas unidades de Pesquisa – como, por exemplo, Instituto Nacional do Semi-árido (INSA), Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (MAMIRAUÁ) e Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) – as Ciências Sociais no Brasil não possuem nenhuma unidade de pesquisa própria no âmbito das instituições do órgão central do setorial de CT&I. Esta grave realidade possui importante valia para a análise estratégica dos horizontes das Ciências Sociais no Brasil que buscaremos esboçar nos apontamentos conclusivos desta tese.

29 De acordo com o Art. 1º da Lei nº. 1.310, de 15 de janeiro de 1951 o CNPq possuía como “finalidade

promover e estimular o desenvolvimento da investigação científica e tecnológica em qualquer domínio do conhecimento” (BRASIL, 1951a). Ressalte-se que o CNPq antecedeu e exerceu o papel de órgão central do nascente Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia até a criação, somente em 1985, do atual

Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

30 Para aprofundamento acerca deste período histórico e da construção da ciência no Brasil ver

FERNANDES (1990, p. 23-114).

31 Sob protestos da comunidade científica brasileira, o Presidente Michel Temer [2016-] comandou,

lastreado pela justificativa de enxugamento da máquina pública federal, em 2016, a fusão do antigo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com o Ministério das Comunicações (MC) dando origem ao atual Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

32

Ver listagem dos Institutos de Pesquisa e Empresas Públicas sob responsabilidade do MCTIC em

102 Ademais, o deslocamento do CNPq para uma posição quase subsidiária na CT&I do país possui reflexos deveras importantes para suas ações e diretrizes; pontos que serão oportunamente analisados na seção 4 intitulada Panorama do desenvolvimento da interdisciplinaridade em ciências nas AFCTI da América Latina.

Atualmente, o Conselho se direciona fortemente ao desenvolvimento científico e tecnológico - e subsidiariamente a formação de recursos humanos de alto nível – se constituindo na maior agência de fomento à pesquisa no país. No tocante ao seu desenho macro-institucional observa-se sua divisão em 4 (quatro) diretorias33, a saber:

i) Diretoria de Cooperação Institucional (DCOI);

ii) Diretoria de Gestão e Tecnologia da Informação (DGTI);

iii) Diretoria de Ciências Agrárias, Biológicas e da Saúde (DABS); e, por fim, iv) Diretoria de Engenharias, Ciências Exatas, Humanas e Sociais (DEHS).

Nesta última, reside a Coordenação Geral de Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas (CGCHS) responsável maior pelo fomento da área de Ciências Sociais no país. Portanto, erige-se como o lócus institucional principal da investigação no contexto desta pesquisa. Observa-se que o órgão, em linhas gerais, possui uma divisão acentuadamente disciplinar em seus Programas Básicos de Pesquisa com os devidos rebatimentos na tabela do conhecimento do órgão e no desenho das chamadas e ações da área.

Para o Manual de Frascati (OCDE, 2013, p. 99), a

pesquisa básica consiste em trabalhos experimentais ou teóricos realizados principalmente com o objetivo de adquirir novos conhecimentos sobre os fundamentos dos fenômenos e fatos observáveis, sem considerar uma determinada aplicação ou um uso particular.

Neste sentido, em uma primeira aproximação observa-se que o CNPq pratica o fomento científico a partir de amplas chamadas públicas direcionadas ao financiamento individual dos projetos de pesquisa apresentados. Para tanto, ao longo de sua atuação institucional, constituiu 49 (quarenta e nove) Comitês de Assessoramento (CA’s),

103 compostos por titulares e suplentes, indicados pelas respectivas comunidades científicas e tecnológicas disciplinares, com o intuito de realizar “avaliação de mérito” das propostas de apoio à pesquisa e de formação de recursos humanos em suas respectivas áreas de atuação acadêmica34.

Portanto, observa-se, desde já, que o fomento básico desenvolvido pelo órgão se destaca, em linhas gerais, por seu caráter marcadamente disciplinar. Na área das Ciências Sociais incumbe ao Comitê de Assessoramento em Ciências Sociais (CA-CS) a responsabilidade pela seleção e julgamento das propostas advindas das áreas de Antropologia, Arqueologia, Ciência Política, Direito, Relações Internacionais e Sociologia. No que tange às propostas de caráter inter e multidisciplinar o órgão não possui, na área de ciências sociais, nenhum desenho institucional para atendimento destas demandas, tratando-se de agência fortemente atrelada a compromissos de matiz disciplinar, hierárquico e, obviamente, meritocrático.

Importa destacar a ausência de qualquer desenho institucional no CNPq para processamento das propostas de cunho interdisciplinar não somente na área de Ciências Sociais como também nas demais áreas do conhecimento da Grande Área de Ciências Humanas35. Portanto, a entrada de todos os projetos nas tradicionais Chamadas Públicas do órgão – Chamada Universal (CNPq, 2016a), Chamada Bolsa Produtividade (CNPq, 2017a), Chamada em Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas (CNPq, 2015) – correm nos tradicionais fluxos disciplinares, ou seja, o pesquisador insere a sua proposta previamente na área em que julga adequada ou conveniente.

No capítulo 3 deste trabalho, desenvolveremos com profundidade o contexto atual da denominada Tabela do Conhecimento, no CNPq e na CAPES, que regula as divisões disciplinares, exerce papel fundamental na divisão dos comitês assessores e consequentemente na distribuição dos recursos destes órgãos.

34 Ver lista completa dos CA’s em Anexo A.

35 Neste quadro, observamos a exceção do Comitê de Divulgação Científica (CA-DC) que possui uma

proposta de pesquisa e formação interdisciplinar por natureza. Para aprofundamento acerca das características desta área ver Nascimento (2011).

104 A continuação, na subseção seguinte avançamos na caracterização da agência irmã do CNPq (CAPES), sobretudo, em suas particularidades que importam para a contextualização do fomento interdisciplinar em ciências sociais no Brasil. Observa-se, desde já, que grande parte das implicações desta contextualização alcançam não somente as áreas das ciências sociais, mas também todas as áreas do conhecimento científico fomentadas por estas agências. Avancemos.