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CONSELHOS: DO MACRO PARA O MICRO – UM DOS INSTRUMENTOS DE AUTONOMIA

3 A ESCOLA PÚBLICA MUNICIPAL E SUA FUNÇÃO SOCIAL

3.2 CONSELHOS: DO MACRO PARA O MICRO – UM DOS INSTRUMENTOS DE AUTONOMIA

Historicamente os Conselhos surgiram há quase três milhões de anos, com o povo hebreu. Conforme MEC/SEB (2004, p.13) “A bíblia registra que a prudência aconselhara Moisés a reunir 70 “anciãos ou sábios” para ajudá-lo no governo de seu povo, dando origem ao Sinédrio, o “Conselho de Anciãos” do povo hebreu. Mas, a origem dos Conselhos se confunde com a história da política e da democracia. A institucionalização da vida humana gregária, desde os seus primórdios foi sendo estabelecida por meio de mecanismos de deliberação coletiva e os Conselhos, em forma de organização representativa do poder político na cidade-Estado ganharam sua máxima expressão na Comuna Italiana e posteriormente na Comuna de -Paris, a partir do século X.

Na primeira metade do século XX, os conselhos de operários, os conselhos de fábrica e os conselhos dos delegados dos operários exerciam a democracia direta e/ou

representativa como estratégia para resolver as tensões e conflitos resultantes dos diferentes interesses,... eram a voz das classes que constituíam as comunidades locais, ou na fábrica da era industrial. MEC/SEB (2004, p.15-16).

No Brasil, com o advento da república “a gestão da coisa pública” continuou fortemente marcada por uma concepção patrimonalista de Estado, a qual instituía o Estado como autoridade. Essa concepção tornava o Estado burocrático, pois as deliberações eram feitas com base na obediência à vontade superior por pessoas de saber erudito, letrados. Nesta ótica, os conselhos exerciam um papel de mediadores entre a sociedade e o governo, ou seja, representavam o contraditório social. Ainda conforme MEC/SEB (2004, p.16):

o saber popular não oferecia utilidade à gestão da “coisa popular”, uma vez que esta pertencia aos “donos do poder”, que se serviam dos “donos do saber” para administrá-la em proveito de ambas as categorias.

Santos Filho (1998) levando em consideração Hanna Arendt afirma que a criação dos conselhos como órgão de ação e de participação direta de cidadãos nos assuntos públicos foi uma das invenções humanas mais criativas. Os conselhos, no Brasil, foram Apêndices formais de repressão dos movimentos associativos populares na década de 1980 e que passaram a reivindicar a participação na gestão escolar. A escola no papel de instituição social deve incorporar em sua estrutura e na sua prática pedagógica a participação cidadã, ensinando aos educandos que a participação constitui “a viga- mestra da construção da cidadania” Santos Filho (1998, p. 70). Vale ressaltar que a escola e a família estão inseridas no mundo da vida e sua burocratização enquadra-se em um processo mais amplo. É um processo marcado pela diversidade, pelo confronto de idéias e argumentos. Almeida conceitua CE, considerando:

os canais de comunicação, desregulamentando e desburocratizando o processo pedagógico, para que os sujeitos, de forma livre, possam relacionar-se mediante um compromisso assumido por todos os envolvidos no processo educacional por meios de ações concretas e articuladas, com vistas a firmar acordos de entendimento.

Para tal ato ser implementado, o CE foi um dos mecanismos que passou a ser entendido como um Apêndice de mudança cultural, produzindo impactos positivos sobre a cultura política. Almeida (2000, p. 56) exemplifica que:

experiências com a implementação do Conselho Escolar, datam de 1983, em Minas Gerais, antecedendo a aprovação da Constituição Brasileira de 1988. As políticas de excessiva centralização vão cedendo lugar ao forte movimento de descentralização e de busca de autonomia e gestão colegiada, uma decorrência do grau de organização conquistado pela sociedade civil, o que vai permitir ganhos no processo participativo de planejamento em gestão de políticas, influenciando nas propostas de gestão educacional e da própria escola.

Silva e colaboradores (2003) delineiam que os CE estavam atrelados aos MS da década de 70. A partir de 1986 passaram a ter a função deliberativa, ou seja, de decidir após discussões ou exame minucioso do aspecto que iria contribuir para o amadurecimento da escola. Com a promulgação da CF de 1988, o CE passa a ter suporte legal nos artigos:

• 1º, parágrafo único: “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

• 3º, inciso III: “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”.

• 205 expressa que: a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. O parágrafo único mencionado chama a atenção para a questão da participação nos processos decisórios, assim como o inciso dá respaldo a abertura para os Conselhos obterem na escola o direito a participação e a autonomia.

Ferreira (1999, p. 27) enfatiza que:

o C.E. é, contemporaneamente, entendido como um instrumento de mudança cultural e política, quando há efetiva participação

dos sujeitos falando, criticando, dialogando e dando sugestões. Dessa forma, constroem novos saberes, visões e percepções sobre si mesmos, escola, sociedade, enfim, sobre o "mundo" no qual estão inseridos. Eles têm direitos que devem ser respeitados e assistidos, assim como deveres que dever ser cumpridos.

Já na LDB nº. 9394/96, no artigo 3º, inciso VIII “gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino”, os mecanismos vão se instalando para que efetivamente a gestão os mecanismos vão se instalando para que efetivamente a gestão burocrática, autoritária/verticalizada seja substituída por ações emancipadoras. Para tal, vale ressaltar que o artigo 14, inciso II da mesma LDB, destaca o papel da “participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes” e que os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: parágrafo I “participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto político pedagógico da escola”; parágrafo II “participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes”.

3.2.1 Conselho de âmbito federal (Brasil)

E o Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em janeiro de 2001 tem expressado em um dos seus objetivos a democratização da gestão do ensino público nos estabelecimentos oficiais, e uma de suas metas foi a criação de CE nas escolas da Educação Básica. Para tal, em 2004 o Ministério da Educação, através da Secretaria de Educação Básica, lançou o Programa Nacional de Fortalecimento dos Conselhos Escolares que visa desenvolver ações de fomento à implantação e ao fortalecimento de CE nas escolas públicas de Educação Básica. Além deste objetivo geral, o Programa ainda contempla outros objetivos como: ampliar a participação das comunidades escolar e local na gestão administrativa, financeira e pedagógica das escolas públicas; apoiar a implantação e o fortalecimento de CE; instituir em regime de colaboração com os sistemas de ensino, políticas de implantação e fortalecimento de CE; estimular a integração entre os CE; apoiar os CE na construção coletiva de um projeto educacional no âmbito da escola, em consonância com o processo de democratização da sociedade e,

promover a cultura de monitoramento e avaliação no âmbito das escolas, para a garantia da qualidade da educação.

Para operacionalizar a implantação dos CE, o Ministério da Educação (MEC) disponibiliza via secretarias de educação materiais instrucionais, constituído de 05 cadernos impressos. As temáticas abordadas, conforme MEC/SEB (2004) são as seguintes:

1. Conselhos Escolares: democratização da escola e construção da cidadania.