Nesta parte, será desenvolvida uma discussão sobre a estruturação das relações de dominação de classe na sociedade brasileira, na qual as formas de controle social, coerção e consenso foram sendo combinadas de diferentes maneiras. O Estado, como já abordado anteriormente, é uma estrutura que ao mesmo tempo decorre e sustenta uma sociedade dividida em classes sociais e deve cumprir um papel fundamental na garantia legal e coercitiva de um determinado modo de produção. Serão trazidos alguns aspectos mais gerais que envolvem a vinculação da industrialização e da urbanização às novas formas de manifestação do conflito de classe, já que foge aos objetivos apresentar um retrospecto histórico sobre os processos de transformações na economia brasileira. Nesse sentido, a discussão visa identificar o papel da segurança pública, na expressão genérica da coerção estatal, como força propulsora e garantidora do ordenador social e do aprofundamento do capitalismo. Cabe então identificar o processo de desenvolvimento do capitalismo tardio que trouxe consigo “questões sociais” as quais exigiram do Estado uma intervenção. Conforme os interesses das classes dominantes, que por intermédio de seus intelectuais orgânicos são disseminados pela sociedade, o Estado se apresenta, principal ou exclusivamente, “como um espaço de negócios, interesses, operações, transações. Daí o predomínio das formas autoritárias de poder, mais ou menos congênitas e
intermitentes, endêmicas e recorrentes, com as quais se alimentam as mais diversas formas de violência” (IANNI, 2004, p. 212).
Nesse sentido, na tentativa de conter os problemas sociais que derivam de massas de pessoas desempregadas, ou trabalhadores potencialmente revoltosos em razão da precariedade das condições de trabalho, as respostas que se seguem são “a policialização da sociedade, a segurança elevada ao valor maior, o pedido de transformar as forças armadas em polícia urbana, uma guerra civil mal disfarçada” (OLIVEIRA, 2003, p. 13). Cabe levar em conta a tradição patrimonialista, enquanto uma estrutura burocratizada de dominação que se vale da coerção para administrar recursos públicos, que se confundem com a propriedade privada do administrador74. Essa promíscua relação entre o público e o privado se reflete na mais direta
instrumentalização do poder coercitivo do Estado para garantir interesses privados de determinados grupos dominantes.
Inicialmente, é necessário observar que ao invés de a Proclamação da Independência ter produzido uma nação livre e integrada, “o crescimento econômico, associado à expansão interna do capitalismo e a industrialização, não fez outra coisa senão manter sua posição dependente em relação ao exterior” (FERNANDES, 2008a, p. 152). Essa peculiaridade do processo de desenvolvimento do Brasil produz consequências culturais profundas. Isso ocorre em razão de as relações materiais de produção serem capazes de influenciar as formas sociais e, portanto, configurar crenças e valores. Assim, o capitalismo de tipo dependente que vigorou no Brasil originou uma burguesia associada aos polos centrais do capitalismo que mira a modernização do capitalismo, mas reproduz uma condição de subalternidade e de profundas desigualdades sociais dentro de um padrão autocrático burguês (MAZZEO, 1997).
A opção teórica que orienta a leitura do processo transição para o capitalismo ocorrido no Brasil está ancorada na contribuição de Florestan Fernandes (1979ª). Ele observa que existem duas linhas de desenvolvimento no Brasil que, mesmo independentes, intercruzam-se e marcam profundamente tanto a cultura quanto as estruturas econômica e política do país. Uma dessas linhas se origina com a própria colonização e está atrelada à estrutura econômica na fase do capitalismo comercial. Ela é marcada por uma autonomização política e econômica na qual Florestan identifica a transformação que envolve o “senhor agrário”, que de uma figura marginal passa a um sujeito de transações econômicas. Esse grupo consegue tanto perpetuar os
74Para uma abordagem da tradição patrimonialista, com direta influência weberiana, ver Holanda (1995) e Faoro (1973).
seus privilégios econômicos anteriores quanto aproveitar as oportunidades novas, surgidas com a reorganização econômica de uma Nação emergente (FERNANDES, 1979a).
A outra linha de desenvolvimento originou-se do fenômeno da autonomização política e resulta na configuração política orientada por modelos institucionais tomados da civilização ocidental moderna. Novos e exóticos valores e crenças passam a se combinar com outros, tradicionais e enraizados. Esse é o contexto histórico que marca a discussão feita anteriormente sobre a cultura política. A dependência do capitalismo brasileiro não se reflete exclusivamente na esfera econômica. A razão disso é que o capitalismo não pode ser resumido a uma dada ordem econômica. Sua materialização deve contar uma reorganização intelectual, moral e política. Só assim é possível entender a hegemonia do capital. Os países de economias centrais exerceram, para além de um domínio político e econômico, uma direção na formulação das subjetividades. Fernandes (1979a, p. 81) dirá que “os ideais absorvidos gravitam em torno da reprodução interna da ordem econômica das ‘nações avançadas’, que exerciam hegemonia econômica, cultural, política e diplomática sobre o País”. O desenvolvimento do Brasil ocorre em meio à tensão permanente entre valores e crenças originalmente liberais e democráticas e os limites estruturais que se manifestam em modalidades brutais e desiguais de exploração e acumulação de capital (IANNI, 1988). Ou seja, o lugar subalterno que o país ocupa na divisão internacional do trabalho dificulta sua emancipação e industrialização75 . Essas linhas de
desenvolvimento, em seu conjunto de consequências, fizeram com que os grupos dominantes, com seus intelectuais orgânicos, fossem capazes de realizar parcialmente a socialização de valores democráticos. Isso justamente em razão de que o autoritarismo e a coerção permaneceram como recursos usuais de conservação de estruturas sociais desiguais. Ou ainda, nas palavras de Fernandes (1979a, p. 82), “realizavam o ‘espírito burguês’ com certa desenvoltura, mas nem por isso com inteira plenitude, pois se viam tolhidos por nexos de
75 No que se refere às continuidades do colonialismo que alcançam a contemporaneidade, vale notar alguns
exemplos. Na economia, ainda não foram totalmente superadas as atividades econômicas vinculadas a monocultura, exportação de commodities, extrema exploração da força de trabalho, o que cria, até os dias atuais, situações análogas ao trabalho escravo. Do ponto de vista político, ainda persistem práticas patrimonialistas, reprodução de relações de dependência do tipo assistencialista, estruturas verticalizadas de poder que restringem e temem a participação popular, o compadrio na política, dentre outros. Culturalmente, vê-se a propagação de uma cultura autoritária, que prima por privilégios em vez de direitos, discriminatória do ponto de vista étnico e de classe etc. Acerca disso, Florestan Fernandes (1976, p. 266) diz que foram “os privilégios – e não os elementos dinâmicos do ‘espírito do capitalista’ – que cimentaram essa espécie de solidariedade de rapina, que não iria desfazer-se enquanto não fosse superada a crise do poder burguês e restabelecida a plena eficácia da dominação burguesa”. Esses traços já foram detalhados e aprofundados por diversos autores a partir de perspectivas teóricas muito distintas (FAORO, 1973; HOLANDA, 1995; IANNI, 1988; MOISÉS, 1995; GORENDER, 1988; FERNANDES, 1976; 2008; BAQUERO, 2008).
dependência econômicos, morais ou políticos que punham por terra qualquer iniciativa de maior alcance”.
A explicação da desigualdade aqui adotada não está relacionada às teorias da modernização76 que estabelecem uma relação inversamente direta entre modernização e
desigualdade. Desse modo, a desigualdade social não se deve a um baixo ou incompleto nível de modernização das forças produtivas. Conforme Francisco de Oliveira (2013, p. 10),
[...] não foi ausência de crescimento capitalista o que explica a profunda desigualdade: pelo contrário, o intenso crescimento durante um século talvez esteja, paradoxalmente, entre suas causas mais importantes. Sob as tenazes do excepcional crescimento, combinado com a herança escravista e a poderosa coerção estatal, o estatuto da força de trabalho rebaixado para tutela estatal produziu a extorsão da plus-valia mais avantajada e uma distribuição da renda que se iguala à dos mais pobres países da África, onde “capitalismo” é somente força de expressão.
A estrutura escravocrata brasileira foi capaz de assegurar, por muito tempo, uma dada organização social que privilegiasse certos interesses completamente incompatíveis com as crenças e os valores liberais do capitalismo que internacionalmente se estabelecia. Dessa forma, no Brasil, a revolução burguesa foi distinta da de países em que esta se deu de forma completa e profunda. Marx e Engels (2005, p. 42) descrevem esse processo em certos países europeus da seguinte maneira:
Onde quer que tenha conquistado o poder, a burguesia destruiu as relações feudais, patriarcais e idílicas. Rasgou todos os complexos e variados laços que prendiam o homem feudal a seus “superiores naturais”, para só deixar subsistir, de homem para homem, o laço do frio interesse, as duras exigências do “pagamento à vista” […]. Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca; substituiu as numerosas liberdades, conquistadas duramente, por uma única liberdade sem escrúpulos: a do comércio. Em uma palavra, em lugar da exploração dissimulada por ilusões religiosas e políticas, a burguesia colocou uma exploração aberta, direta, despudorada e brutal.
No caso do Brasil, essa burguesia, que paulatinamente se torna hegemônica, é resultado de uma metamorfose sofrida pelas elites coronelistas e escravocratas. O transformismo – no sentido gramsciano – ocorrido conjugou formas arcaicas de exploração e dominação com as acima descritas por Marx e Engels, bem como preservou, na forma
76Como observa Cardoso (2005, p. 4), as teorias de modernização, “em lugar de discutir o desenvolvimento de um conjunto de regiões ou de nações ‘atrasadas’, o objeto da análise passa a ser ‘a’ sociedade, toda e qualquer sociedade, em qualquer tempo e lugar, atribuindo à história da sociedade assim pensada as mesmas características do evolucionismo e do determinismo em que a teoria do subdesenvolvimento se calcava […]. Cabe supor, no entanto, que sua importância decorre sobretudo do significado político de que a modernização se revestiu ao se propor enquanto ideologia e enquanto engenharia social a serviço da identidade nacional, do governo norte- americano e do capital em expansão”.
contemporânea, crenças e valores arcaicos. Florestan Fernandes (1976) entende que a substituição da relação de trabalho escravista pelo trabalho assalariado “livre” esteve longe de representar a substituição de uma mentalidade espoliadora das elites econômicas. Conforme afirma, “guardadas as proporções, o trabalho livre se configura (como ocorreu com o trabalho escravo), do modo mais cínico e brutal, como puro instrumento de espoliação econômica e de acumulação tão intensiva quanto possível de capital” (FERNANDES, 1976, p. 197). Decorre daí que a democracia enquanto valor jamais foi capaz de se fazer totalmente aderente na sociedade (CASTRO, 2014; BAQUERO; CASTRO; RANINCHESKI, 2016; MOISÉS, 1995). No mesmo sentido, é possível trazer o que diz Fernandes (2008a, p. 104) acerca da gênese da atual estrutura de classe brasileira. Segundo ele,
[...] é impossível introduzir as “regras democráticas”, como se diz, se algumas classes aceitam a ordem social competitiva apenas onde ela favorece a continuidade de perturbadoras desigualdades sociais e a rejeitam onde admite pressões corretivas, fundadas no uso legítimo da competição e do conflito nas relações de poder entre as.
Dessa forma, a classe dominante brasileira, em um dado momento, rompe com a metrópole portuguesa, mas é incapaz de romper todo um legado colonial que marca a economia, a política e a cultura. De maneiras diferentes, essa situação tende a afastar o povo do cenário político decisório, seja pela falta de confiança, seja pela inexistência ou precariedade dos mecanismos de participação popular, ou ainda pela criminalização da própria participação política, por exemplo, dos movimentos sociais (BRUZIGUESSI; BEZERRA, 2010). A noção do que posteriormente será chamado de cidadania, pós-abolição, passa a ser construída a partir dos núcleos de poder, que ainda tinham a figura do ex-senhor de escravo como central. A sociedade passa a conceber a cidadania a partir dos interesses dessa elite representados pelo Estado. Isso faz com que a direção intelectual e moral dada por estes funde a noção de uma “cidadania como privilégio de classe, fazendo-a ser uma concessão da classe dominante às demais classes sociais, a qual lhes pode ser retirada quando os dominantes assim o decidirem” (CHAUÍ, 2009, p. 59). Moldando e conferindo os contornos legais a uma sociedade de classes marcada por injustiças sociais, o direito, ao ser privilégio para uns e concessão para outros, reflete a força das instituições. No caso brasileiro, vale observar que a instituição que se manteve ativa no Brasil por mais de 300 anos foi a escravidão. Certamente, ficaram marcas profundas, e uma delas está evidente na constituição do perfil étnico do inimigo interno. Nesse sentido, vale sublinhar o que afirma Souza (2017) sobre a metamorfose que o medo das elites sofreu. O antigo receio da “rebelião negra” se transformou e foi substituído pela
[...] definição do negro como “inimigo da ordem”. Sendo a “ordem” percebida já no seu sentido moderno de significar decoro, respeito à propriedade e segurança. Vem daí, portanto, o uso sistemático da polícia como forma de intimidação, repressão e humilhação dos setores mais pobres da população (SOUZA, 2017, p. 81).
Por certo, esta “elite do atraso” a que se refere Souza não pode ser interpretada como homogênea. Ela foi obrigada, ao longo da história, a se adaptar aos diversos processos de acomodação do poder e às mudanças econômicas. Mas permaneceu exitosa na capacidade de direcionar intelectual e moralmente amplos setores da sociedade. Trata-se de uma recomposição da estrutura do poder político econômico, sem, contudo, incorrer em rupturas e garantindo a continuidade das relações de dominação por outras vias. Um recurso teórico que permite compreender esse processo é o transformismo político77, conceito desenvolvido por Gramsci e
usado diversas vezes nos Cadernos do Cárcere. Designa o comportamento político identificado na política italiana a partir de 1848, originalmente utilizado por Gramsci para interpretação do período do Risorgimento italiano e, posteriormente, para o entendimento da realidade política a qual vivenciou. Trata-se de uma situação em que representantes políticos socialistas com posições radicais, e muitos advindos de partidos de oposição, migram dessa posição, em conjunto ou individualmente, de modo “molecular”, no dizer de Gramsci, para um nacionalismo. Buscando uma posição mais conveniente, e menos orgânica, esse movimento transformista acabou por contribui com a reprodução do status quo e retrocessos políticos que deram espaço para o surgimento do fascismo (GRAMSCI, 1999c).
Decorre daí a elaboração de uma sempre mais larga classe dirigente, com a “absorção gradual, mas contínua, e obtida com métodos diversos na sua eficácia, dos elementos ativos saídos dos grupos aliados e também dos adversários, que pareciam irreconciliavelmente inimigos” (GRAMSCI, 1974, p. 74). Desse cenário político descrito por Gramsci da Itália nos meados do século XIX, pode-se encontrar semelhanças na formação da(s) classe(s) dominante(s) no período de transição do Brasil pré-republicano para uma estrutura de poder republicana. A condensação do Brasil arcaico com o moderno, tão bem analisada por Florestan Fernandes, pode ser interpretada como o resultado de uma bem-sucedida revolução passiva e
77 Aparentemente, Gramsci vai construir o conceito de transformismo a partir da discussão de Lenin sobre as vias
de desenvolvimento do capitalismo, as quais identifica como sendo três. A clássica, que tende a ilustrar com os processos ocorridos na França e na Inglaterra; a dos Estados Unidos; e a via prussiana. Nesta, Lenin observa que a burguesia apresentou um comportamento que Gramsci denominaria de transformista. A nobreza junker, conforme avalia Lenin, vai, segundo ele, metamorfoseando-se em burguesia e, paulatinamente, vai constituindo e consolidando seu poder a partir do campo dentro de uma nova estrutura econômica, contribuindo com a industrialização do país. Mas o faz oprimindo os trabalhadores e reprimindo violentamente suas manifestações de descontentamento. Essa via se caracteriza “pela acomodação das exigências da burguesia ascendente com os interesses remanescentes do regime servil” (LENIN, 2011b, p. 51).
de um transformismo que concentrou novas e velhas classes dominantes78, em oposição àqueles
que representavam tanto a fonte de exploração do trabalho de onde se originou o capital quanto uma potencial ameaça à estabilidade política e econômica. Conforme define Gramsci (1974), a supremacia de um grupo social manifesta-se de duas maneiras, como “domínio” e como “direção intelectual e moral”. Longe de representar um tipo ideal weberiano de controle, essas duas formas de controle interagem dialeticamente e se manifestam de modo historicamente contextualizadas. É assim que “um grupo social é dominante dos grupos adversários que tende a ‘liquidar’ ou a submeter também com a força armada, e é dirigente dos grupos afins e aliados” (GRAMSCI, 1974, p. 79). O processo de “emburguesamento” das antigas elites coloniais e sua subsequente associação dependente e subalternizada ao capital internacional foi apenas uma manifestação desse processo. Outra manifestação está na permanente repressão constantemente atualizada das
[...] estruturas de dominação política e apropriação econômica que revelam singularidades e implicam em “estruturas de dominação política e apropriação” econômica específicas, produção e reprodução de excedentes, técnicas de administração e violência, etnicismos e racismos, sem esquecer os contrapontos tempo e espaço próprios para cada configuração (IANNI, 2004, p. 139).
Nessas situações, a ideia de transformismo de Gramsci permite observar com maior atenção que o vínculo dos intelectuais aos grupos sociais se dá de forma pragmática; as utopias e as ideologias deixam de ter tanto poder, e o resultado é a articulação de adversários que pareciam irreconciliavelmente inimigos (GRAMSCI, 1974).“En este sentido la dirección política se convirtió en un aspecto de la función de dominio” (GRAMSCI, 1999e, p. 387). Portanto, o transformismo pressupõe uma atividade hegemônica mesmo antes da ida ao poder e não deve contar apenas com a força material que o poder confere para exercer a direção eficaz (GRAMSCI, 1999e). Os vínculos dos intelectuais orgânicos aos grupos sociais estão mais ligados a princípios paternalistas e formalistas do que a ideologias. Algo que, grosso modo, pode ser identificado com o que se entende por reformismo. Esse comportamento político, de fundo autoritário, pode ser identificado nos processos de acomodação de poder em que as elites brasileiras foram envolvidas. Sem profundas rupturas, o que se deu foi uma transição de estruturas de poder, porém conservando elementos do passado. Tal processo permite uma
78 Naturalmente, não é possível supor que tal movimento de metamorfose sofrido pelas antigas elites coloniais e
suas relações com a incipiente burguesia industrial foi pacifico. Os conflitos de interesses entre grupos dominantes marcaram, e ainda marcam, a história política brasileira. Uma ideia das tensões mais ou menos violentas desses grupos pode ser vista em diversos autores, tais como Fernandes (1976; 1979b; 2008); Ianni (2004) e Gorender (1986).
dependência recíproca que Ianni (2004, p. 173) identifica entre “vendedores e compradores de força de trabalho, proprietários de meios de produção e trabalhadores, envolvendo sempre diversidades e desigualdades, hierarquias e estruturas de dominação, formas de apropriação e de alienação”. Sobre esse processo se assenta a legitimidade da violência exercida pelo Estado e supostamente posta em prática para garantir a coesão e a ordem necessárias à sociedade. Isso vale para todos os períodos da história do Brasil.
O fim da estrutura escravocrata se explica tanto pela incompatibilidade do trabalho escravo com o nascente modo de produção capitalista quanto por crescentes pressões interna e externa. As tensões que levaram ao fim do período escravocrata e ao início do capitalismo são descritas por Florestan Fernandes não como uma revolução burguesa, mas sim como uma “revolução dentro da ordem”, ou seja, uma forma “que permitisse atender e superar aquelas tensões preservando a ordem senhorial” (FERNANDES, 1976, p. 167). Em referência ao fenômeno em questão, faz-se referência ao romance O Leopardo de 1860, escrito por Giuseppe Tomasi de Lampedusa (2017), na parte em que este diz: “é necessário mudar para poder manter tudo como está”; essa é a dinâmica política central do transformismo.
Vale ressaltar que na transição para o capitalismo o Estado, com todas as suas instituições – e aqui interessam aquelas articuladas ao provimento da segurança e ordem –, é influenciado pelas relações de força entre os grupos sociais ou, dito em outras palavras: o poder legítimo do Estado não é exercido conforme uma harmonia funcionalista, mas sim por intermédio de lutas entre classes antagônicas (THERBORN, 1982). A tradição autoritária da burguesia brasileira transparece, entre outras maneiras, nos inúmeros golpes de Estado79. Os
diversos eventos em que, diante de uma polarização política, o caminho para sua superação não foi a via institucional, mas a violação das regras constitucionais. É nesse cenário que a cultura
79 A título de exemplos, em 1840 ocorreu o Golpe da Maioridade; em 1889, o Golpe da República; em seguida, o
Golpe de 1930, que colocou Getúlio no poder; o Golpe de 1945 depôs Getúlio do poder; e, enfim, o Golpe de 1964. Mais recentemente, há uma discussão sobre se a deposição da presidente Dilma Rousseff não teria sido outro golpe. Há uma tradição autoritária que marca a cultura política e compromete o desenvolvimento de crenças e valores