Apesar de alguns avanços e inúmeras tentativas de acordos para regulamentação, ainda há pontos discordantes e falta de consenso entre os países para que seja efetivamente firmado acordo comum entre os países. Primeiramente, há divergências na própria terminologia de uma IG que, como salienta Dias (2005), ao contrário de outras categorias de direitos de propriedade intelectual, como patentes ou marcas, não existe uma definição genérica e globalmente aceita de IGs.
Segundo o WIPO29, a IG é um signo usado para bens que têm origem geográfica específica e possuem qualidades ou reputação que está relacionada a um local de origem. Mais comumente, a IG consiste no nome de um local de origem do bem. Produtos agrícolas típicos têm qualidades que derivam de seus locais de produção e são influenciados por fatores específicos locais, como o clima e o solo.
Uma apelação de origem é um tipo especial de indicação geográfica, usado em produtos que têm uma qualidade específica, que é, exclusiva ou essencialmente, devido ao ambiente geográfico no qual é produzido. O conceito de indicação geográfica abrange a apelação de origem na concepção da WIPO.
Por sua vez, na concepção da UE, segundo o regulamento CEE 2081/92, há dois tipos de indicação de origem. A primeira é a Indicação Geográfica e a segunda é a Denominação de Origem:
a) denominación de origen: el nombre de una región, de un lugar determinado o, en casos excepcionales, de un país, que sirve para designar un producto agrícola o un producto alimenticio:
– originario de dicha región, de dicho lugar determinado o de dicho país,
y
– cuya calidad o características se deban fundamental o exclusivamente al medio geográfico con sus factores naturales y humanos, y cuya producción, transformación y elaboración se realicen en la zona geográfica delimitada;
b) indicación geográfica: el nombre de una región, de un lugar determinado o, en casos e excepcionales, de un país, que sirve para designar un producto agrícola o un producto alimenticio: – originario de dicha región, de dicho lugar determinado o de dicho país,
y
– que posea una cualidad determinada, una reputación u otra característica que pueda atribuirse a dicho origen geográfico, y cuya producción y/o transformación y/o elaboración se realicen en la zona geográfica delimitada (Regulamento CEE 2081/92, grifo nosso)
Dessa forma, percebe-se a diferença tanto na nomenclatura como também no sentido que é dado à terminologia nas definições propostas pela WIPO e também pela União Européia. Apesar dessas diferenças, as duas definições apresentam algumas características comuns, principalmente no que se refere à divisão em dois grandes grupos que correspondem à influência do ambiente natural nas características do produto e outra que corresponde à reputação considerada no mercado atribuída a uma determinada localidade.
De forma geral, a IG aponta para um local específico ou região de produção que determina as qualidades características do produto que é dele originado. O importante é que o produto tenha qualidades que dependam do local de produção, com uma ligação específica entre o produto e seu ambiente original de produção.
Outras características compõem as duas terminologias. Krucken-Pereira (2001) ressalta que a legislação na Europa faz uma distinção entre as seguintes categorias:
a) indicação de procedência – foco na região. É nome geográfico de um país, cidade, região ou uma localidade de seu território que se tornou conhecido como centro de produção, fabricação ou extração de determinado produto ou prestação de determinado serviço;
b) denominação de origem – foco no produto/serviço. É o nome geográfico de um país, cidade, região ou uma localidade de seu território, que designe produto ou serviço cujas qualidades ou características se devam, exclusiva ou essencialmente, ao meio geográfico, incluindo fatores naturais e humanos. É interessante observar que as indicações de origem controlada (AOC, DOC, AOP) são controladas por um órgão público que, além de estabelecer os critérios de qualidade para os produtos, também tem um papel fiscalizador dos procedimentos, embora os controles sejam de responsabilidade dos próprios produtores locais que são, geralmente, organizados em associações, cooperativas e sindicatos.
DIAS (2005) aponta, ainda, algumas diferenças de utilização entre o DOP e as IGPs na Europa. Segundo a autora:
enquanto um produto com DOP é inteiramente fabricado na sua região de origem, desde a produção da sua matéria-prima ao fabrico do produto final, sendo que sua qualidade é inteiramente garantida pelo território e o saber-fazer da região, um produto com IGP corresponde a uma zona delimitada, mas é suficiente que uma das etapas da sua produção tenha lugar na região que lhe dá o nome. O saber- fazer, neste caso garante a sua tipicidade, mas a sua qualidade está, em termos comparativos, menos fortemente associada ao território.
Esta concepção abre espaço para a discussão, principalmente no caso do café, para o qual, em alguns países, como os EUA, há quem defenda que o registro da Indicação Geográfica seja feito no local onde foi produzido o blend. Dessa forma, asseguraria às empresas dos países mais industrializados se apropriarem das IGs, mesmo sem produção agrícola.
Outra divergência pode ser percebida entre a definição da IG no âmbito do TRIPS daquela que foi definida no Acordo de Lisboa. Para Dias (2005), enquanto o Acordo TRIPS associa a indicação geográfica a um bem, o Acordo de Lisboa associa a denominação de origem a um produto. Assim, signos que não são nomes geográficos (emblemas ou símbolos regionais) não estão considerados no Acordo de Lisboa, mas podem ser vistos como uma indicação geográfica no Acordo TRIPS.
Quadro resumo das especificidades de IG e DO Denominação de origem, segundo a definição da proposta no Acordo de Lisboa
Indicação Geográfica, segundo a definição proposta pelo Acordo TRIPS DO refere-se, necessariamente, a nomes
geográficos de um país, região ou localidade (ex. Porto)
IG refere-se a qualquer indicação que aponte para determinado país, região ou localidade (ex. Torre Eiffel, Taj Mahal, Estátua da Liberdade, etc.)
DO considera os fatores naturais e
humanos IG utiliza um conceito de origem geográfica mais genérico DO apenas contempla nomes geográficos DO contempla também símbolos além de
nomes geográficos Fonte: DIAS (2005), adaptado de Escudero, 2001.
Para Correa (apud LOCATELLI, 2006 pg 6)30, as condutas proibidas, no que tange às indicações geográficas em geral, estão sujeitas a determinados testes, como a enganosidade e a existência de práticas comerciais desleais. Por outro lado, em relação aos vinhos, são aplicáveis, independente da demonstração de quaisquer efeitos adversos sobre o público ou acerca da concorrência. LOCATELLI (1996) observa, ainda, que o TRIPS adota, assim, dois sistemas distintos de proteção às indicações geográficas, sendo este um dos aspectos mais polêmicos das negociações multilaterais no contexto da OMC. Enquanto os países europeus buscam a extensão da proteção dada aos vinhos e destilados a todas as demais indicações geográficas, alguns outros países, com menor tradição no reconhecimento das indicações, resistem a esta ampliação.
De fato, alguns países encaram esta proteção adicional como uma discriminação contra todos os outros produtos, além de vinhos e bebidas espirituosas, o que conduziu à discussão da extensão da proteção para todos os tipos de produtos, como arroz, seda, chá ou café. Nesse sentido, como menciona DIAS (2005), a União Européia propôs um registro global único de proteção de nomes geográficos para todos os produtos, proposta essa apoiada igualmente por um grupo de países emergentes e em desenvolvimento (é o caso de Bulgária, República Tcheca, República Dominicana, Estônia, Honduras, Islândia, Quênia, Látvia, Liechetenstein, Nicarágua, Polônia, Sri Lanka, Eslovênia, Suíça e Turquia). Também Índia, Cuba, Egito, Indonésia e Paquistão apresentaram uma proposta comum, defendendo a extensão do artigo 23 para outros produtos além de vinhos e bebidas espirituosas, como forma de favorecer os interesses exportadores de produtos, como arroz Basmati e chá Darjeeling (Índia), Ceylon tea (Sri Lanka), charutos (Cuba), arroz jasmim (Tailândia) e iogurte (Bulgária).
DIAS (2005) ressalta que o artigo 22.4 do acordo TRIPS proíbe o uso de indicações geográficas que, embora literalmente verdadeiras no que diz respeito ao território em que o bem é originado, possam induzir a erro os consumidores. Mas, a
autora questiona sobre como aplicar esta legislação em casos em que emigrantes de um império se estabelecem numa colônia em uma região que apelidam com mesmo nome da metrópole? Nesse caso, não seria legítimo utilizar a mesma indicação para os mesmos bens, na medida em que o know-how foi também ele transferido? Por este motivo, é discutível que o uso de designações geográficas para colocar nomes da Europa seja uma “usurpação” de cultura européia. A autora argumenta ainda que
Historicamente, a colonização e a emigração dos séculos XVII, XVIII e XIX potenciaram a deslocação de milhões de europeus para as então colônias européias. Em muitos casos, os emigrantes foram inclusivamente encorajados ativamente a implantar a sua cultura no Mundo Novo. Mais tarde, essas colônias ficaram independentes. Ressalte-se, ainda, que o conceito de propriedade intelectual a que hoje nos referimos não existia então. Nesse sentido, o conceito de roubo ou de usurpação desleal é impróprio neste contexto, como também no contexto de recursos genéticos (Dias, 2005).