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CONSEQÜÊNCIAS POLÍTICAS DO NOVO PROGRAMA

No documento Gramsci e o novo programa (páginas 173-200)

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Capítulo VIII

A relação do Gramsci dos Cadernos com as posições Stalin

Alguns autores, como Femia, por exemplo, defendem que as posições de Gramsci “estão muito distantes do stalinismo no que diz respeito à participação popular e à liberdade de discussão”. 551 No entanto, a relação de Gramsci com o stalinismo não é algo simples, mas, ao contrário, trata-se de algo extremamente contraditório.

Há, de fato, algumas passagens e mesmo alguns conceitos expostos nos Cadernos que servem como uma crítica à estrutura do Estado soviético e às posições da III Internacional da época de Stalin. Um desses trechos é comentado por Ferri, que considera a diferenciação feita por Gramsci entre a noção de “centralismo democrático” e “centralismo orgânico” (ou burocrático) como uma forma, ainda que disfarçada, para criticar o autoritarismo e a relação entre o partido e o Estado soviético da época de Stalin. 552

Zangheri, por sua vez, observa que Gramsci teria feito, também de forma velada, outra crítica ao stalinismo, ao afirmar que a relação entre a teoria e a prática tinha assumido um resíduo de mecanicismo, pelo fato da teoria ter passado a ser considerada, na década de 30, como um complemento ou um acessório da prática. Zangheri se refere à passagem na qual Gramsci afirma, entre 1932 e 1933, que

nos mais recentes desenvolvimentos da filosofia da práxis, o aprofundamento do conceito de unidade entre a teoria e a prática permanece ainda numa fase inicial: subsistem ainda resíduos de mecanicismo, já que se fala da teoria como “complemento” e “acessório” da prática, da teoria como serva da prática. 553

551 FEMIA, Op. cit., p. 190.

552 FERRI, “Centralismo”. In: CHIAROMONTE (Org.), Op. cit., pp. 78-79. 553

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Zangheri comenta que Gramsci estaria assim criticando o economicismo e o pragmatismo presente na interpretação do marxismo feita pela II e pela III Internacional.

554

De acordo com Zangheri, Gramsci considerava que o caminho correto seria formar na URSS um bloco histórico, 555 cuja forma é o consenso, a unidade entre a estrutura (trabalhadores) e a superestrutura (Estado operário), entre a prática (trabalhadores) e a teoria (dirigentes do Estado operário e do partido), entre a força material (trabalhadores) e a ideologia (Estado operário). 556

Já Tortorella considera que Gramsci se diferencia do stalinismo justamente por ter uma concepção de “ditadura do proletariado” oposta ao tipo tirânico, a uma ditadura do partido, marca registrada de Stalin. Para Tortorella, Gramsci se distinguiu de forma radical da interpretação feita pela III Internacional stalinista a respeito das obras de Marx e de Lênin. 557

Coutinho observa, nessa mesma direção, que a crítica ao que Gramsci chama de “estatolatria” estava endereçada claramente ao regime stalinista. 558 De fato, Gramsci distingue o autogoverno - que seria um governo próprio da sociedade civil – daquele governo dos funcionários – próprio de uma estrita sociedade política, distanciada da sociedade civil. 559 Assim, a “estatolatria” criticada por Gramsci estaria ligada ao “governo dos funcionários”. 560 Segundo Gramsci, seria um erro transformar o governo dos funcionários em fonte de fanatismo teórico ou concebê-lo como algo perpétuo. Ao contrário, Gramsci considera que esse governo deveria ser criticado, deveria ser feito de tudo para que a vida estatal viesse a se tornar “espontânea”. 561 De fato, esse trecho pode

554 ZANGHERI, “Bloco histórico”. In: CHIAROMONTE (Org.). Op. cit., p. 69. 555

Idem, ibidem. p. 68. Zangheri comenta que é comum a noção de “bloco histórico” ser confundida com a de “bloco social”, isto é, um bloco de alianças.

556 Diferentemente de Gramsci, Trotsky considerava, nessa época, que não havia a menor possibilidade de

consenso entre as massas trabalhadoras russas e a burocracia que dominava o Estado soviético. Para o dirigente bolchevique, a situação somente poderia ser resolvida em prol dos trabalhadores caso estes fizessem uma revolução política na URSS, ou seja, caso derrubassem a direção política do país e a substituíssem por um legítimo governo operário e camponês, um governo dos sovietes, aproveitando as bases sociais já conquistadas pela Revolução de Outubro.

557

TORTORELLA, “Egemonia”. In: CHIAROMONTE (Org.), Op. cit., p. 93.

558 COUTINHO, Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. Op. cit., p. 264. 559 GRAMSCI, Cadernos do cárcere, Op. cit., vol. 3, p. 279. Quaderni, p. 1020. 560 Idem, ibidem.

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ser considerado como uma crítica, ainda que indireta, ao regime stalinista da URSS e uma defesa do governo dos Sovietes contra o domínio da burocracia.

A crítica ao regime ditatorial de governo da URSS pode também ser encontrado em um trecho do Caderno 7, escrito entre 1930 e 1931, no qual Gramsci levanta os problemas gerados pela constituição de um partido único. Gramsci defende uma forma mais democrática, na qual a hegemonia seria necessariamente conquistada pelo partido mais forte. Ao invés de uma luta de facção, que representa, segundo ele, uma “força armada que segue as leis militares exclusivistas [...] e procura destruir fisicamente o adversário”, 562 Gramsci defendia um equilíbrio entre partidos num todo orgânico com a hegemonia do partido mais forte. 563 Apesar de Gramsci não se referir diretamente ao regime dirigido por Stalin, parece clara a semelhança entre aquele regime e a caracterização de “facção” feita pelo marxista sardo como sendo uma força militar preparada para combater os adversários, tanto internos quanto externos ao partido.

Outro trecho dos Cadernos no qual Gramsci parece criticar a forma da ditadura assumida na URSS na era Stalin é aquele onde ele defende um “sistema hegemônico”:

no sistema hegemônico existe democracia entre o grupo dirigente e os grupos dirigidos na medida em que o desenvolvimento da economia e, por conseguinte, a legislação que expressa este desenvolvimento, favorecem a passagem molecular dos grupos dirigidos para o grupo dirigente. 564

Numa sociedade socialista o “sistema hegemônico” significaria a mais ampla democracia entre todas as classes que se opõem à burguesia e, sobretudo, entre o proletariado. Seguindo essas posições de Gramsci, Del Roio avança na crítica ao stalinismo, considerando-o como uma das formas de revolução passiva, ao lado do americanismo e do fascismo. A revolução socialista defendida por Gramsci significaria, para o autor, desorganizar e derrotar todas essas formas de revolução passiva, inclusive o stalinismo. 565

562 Idem, ibidem, p. 269. Quaderni, p. 926. 563 Idem, ibidem.

564 Idem, ibidem, p. 287. Quaderni, p. 1056. 565

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No entanto, como afirmamos no início deste capítulo, as relações de Gramsci com o stalinismo estão longe de ser simples. Vários autores consideram que Gramsci ficou do lado de Stalin nas questões essenciais, como na discussão que contrapõe a noção de socialismo em um só país à teoria da revolução permanente. 566

Losurdo observa que Gramsci considerava que havia uma dose de mecanicismo na crítica feita por Trotsky à idéia de que seria possível construir o socialismo em um só país. 567 Losurdo concorda e afirma ainda que criticar o socialismo em um só país significa “partir do pressuposto que a maturidade econômica determina imediatamente a maturidade política do processo revolucionário”. 568

Pensamos, ao contrário de Gramsci e de Losurdo, que a crítica à idéia de que é possível construir o socialismo em um só país parte do pressuposto de que a revolução mundial é um processo único, embora seja um processo desigual e combinado. Isso significa dizer que, apesar da maturidade política desigual de cada país para revolução socialista, as condições econômicas já estão maduras para a revolução desde meados do século XIX, de acordo com Marx e Engels. 569 Nesse sentido, Trotsky, que foi o principal crítico da idéia do socialismo em um só país, afirmou, no III Congresso da Internacional Comunista, que não havia uma relação automática entre crise econômica e movimento revolucionário da classe operária, mas somente uma dialética recíproca, 570 pois é evidente que mesmo que ocorra uma crise econômica, se as condições subjetivas (existência de um partido revolucionário e de uma classe operária experientes) não estiverem maduras, essa crise não desencadeará numa revolução. No entanto, esse descompasso entre as condições

566 FIORI, Vita di Antonio Gramsci. Roma: Laterza, 1976, p. 248. COUTINHO, Gramsci: um estudo sobre

seu pensamento político. Op. cit., p. 136. Vide GRAMSCI, Cadernos do cárcere, Op. cit., vol. 3, pp. 314-315. Quaderni, pp. 1728-1730.

567 LOSURDO, Antonio Gramsci: dal liberalismo al “comunismo critico”. Roma: Gamberetti, 1997, p. 144. 568 Idem, ibidem.

569 Se até o primeiro quarto do século XIX o capitalismo tinha sido responsável por desenvolver as forças

produtivas, a partir das primeiras crises econômicas ocorridas na década de 30 daquele século o modo de produção capitalista havia passado a bloquear esse desenvolvimento. Isso colocava a possibilidade e a necessidade objetivas da superação do capitalismo, possibilidade e necessidade que se mantêm até hoje. Cfe. MARX & ENGELS, Manifesto comunista. Op. cit., pp. 44-45.

570

Cfe. PAGGI, Op. cit., p. 7. Assim como Trotsky, Gramsci também considerava a inexistência de uma correlação direta entre uma crise econômica e o processo revolucionário. Ele diz: “pode-se excluir que as crises econômicas, por si sós, produzam eventos fundamentais; apenas podem criar um terreno mais favorável à difusão de certos modos de pensar, de propor e resolver as questões que dizem respeito a todo o ulterior desenvolvimento da vida estatal”. Quaderni, p. 1587.

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econômicas e as condições políticas não obriga-nos, como pensa Losurdo, a defender a idéia do socialismo em um só país, pois a revolução mundial não é um processo exatamente simultâneo em todos os países, mas desigual, um processo que pode acontecer no decorrer de toda uma época histórica. Essa desigualdade das condições políticas para a revolução em cada país, que determina seus diferentes momentos históricos, não implica numa independência da revolução em cada um deles, ou melhor, não significa que seja possível consolidar o socialismo em um só país. Assim como, do ponto de vista econômico, há, para Marx e Engels, uma “interdependência universal das nações”, 571 poderíamos dizer que, do ponto de vista político, do ponto de vista da revolução socialista, há também uma interdependência universal. Isso significa dizer que a manutenção da revolução em cada país, depois da vitória, depende, mesmo que em graus variados, da revolução nos outros países. Aliás, é a interdependência econômica que produz a interdependência política. Assim, segundo Marx e Engels, a revolução socialista só podia ser concebida como um processo combinado a escala mundial. É nesse sentido que eles afirmam:

Embora os operários alemães não possam alcançar o poder nem ver realizados os seus interesses de classe sem terem passado integralmente por um prolongado período de desenvolvimento revolucionário, podem pelo menos ter a certeza de que, desta vez, o primeiro ato do drama revolucionário que se avizinha coincidirá com o triunfo direto da sua própria classe na França, o qual contribuirá para acelerá-lo consideravelmente [...] Seu grito de guerra há de ser: a revolução permanente. 572

Portanto, não há, como afirma Losurdo, qualquer sinal de mecanicismo na crítica à idéia de construir o socialismo em um só país, mas, ao contrário, o que há é uma retomada da dialética marxista contida na noção de revolução permanente.

Há ainda outra posição de Gramsci que demonstra uma proximidade com o stalinismo. Gramsci afirma que um período de “estatolatria” seria necessário e até oportuno, numa situação na qual não havia sido possível criar previamente uma sociedade

571 MARX & ENGELS, Manifesto comunista. Op. cit., p. 43. 572

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civil e uma vida estatal independente. 573 A existência da burocracia soviética era justificada por Gramsci como uma conseqüência do atraso da sociedade russa.

Trotsky, que vivenciou por dentro todo o processo de constituição do Estado soviético, caracterizou de forma mais determinada as causas do surgimento e desenvolvimento da burocracia soviética. Para o dirigente bolchevique, durante as duras condições enfrentadas durante a guerra civil, o Estado soviético era atacado tanto da direita, representada pelas principais forças do capitalismo mundial, quanto da ultra-esquerda, representada pela sublevação dos marinheiros na base naval da cidade Kronstadt, no Golfo da Finlândia, que exigiam sovietes livres e a realização de uma assembléia constituinte. Com o fim de manter o poder, o X Congresso do PC(b)R se viu obrigado a recorrer à proibição de facções. Segundo Trotsky, nesse momento, devido à força das circunstâncias, o regime político do Estado passou a se confundir com a vida interna do partido dirigente, o Partido Bolchevique. Trotsky adverte, no entanto, que “a interdição de facções era concebida [por Lênin] como medida excepcional, a cair em desuso logo após as primeiras melhorias da situação”. 574 Trotsky observa que o Comitê Central mostrava-se extremamente preocupado com a aplicação da nova lei e, sobretudo, desejoso de não abafar a vida interna do partido. Trotsky comenta também que “em 1922, quando Lênin teve a sua saúde momentaneamente melhorada, assustou-se com o crescimento ameaçador da burocracia e preparou uma ofensiva contra a fração de Stalin”. 575

Como se vê, a burocracia soviética não era, para Lênin, somente uma conseqüência do atraso do povo russo. Já em 1922, portanto, numa época em que a burocracia estava, por assim dizer, num estado germinal, Lênin atacava-a afirmando que

a cultura dos nossos dirigentes comunistas responsáveis é mais baixa do que aquela dos vencidos, aquela da antiga camarilha do czar. Não nos falta poder. O Partido Comunista tem suficiente poder. O que falta é cultura na camada de comunistas que cumprem funções de direção. Eles não sabem

573

GRAMSCI, Cadernos do cárcere, Op. cit., vol. 3, p. 280. Quaderni, p. 1020. Nesse trecho, as referências à sociedade medieval e aos governos absolutistas podem ter sido utilizadas por Gramsci como um recurso para driblar a censura. Suas considerações parecem ter como meta o apoio ao governo soviético.

574 TROTSKY, A revolução traída. São Paulo: Global, 1980, p. 70. 575

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dirigir. Para aprender é necessário estudar com afinco, o que nossa gente não faz. 576

E conclui Lênin: “É uma observação muito desagradável, ou pelo menos não muito agradável, mas que considero necessária, pois atualmente este é o nó do problema. Considero que esta é a lição política do ano passado, e em torno disto será a luta em 1922”.

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Lênin nunca mais pôde tomar a palavra nos congressos do partido. Um segundo ataque, e depois a morte, não lhe deram a possibilidade de lançar as suas forças contra as da burocracia. 578

Depois dessa descrição das preocupações de Lênin e de Trotsky em torno do processo de constituição da burocracia no Estado soviético, cabe questionar se é correto afirmar, como faz Gramsci, que a burocracia era necessária e até oportuna na URSS, se é correto afirmar que a burocracia era realmente uma conseqüência inevitável do atraso do povo russo, uma “iniciação [...] à vida social autônoma e à criação de uma sociedade civil que não foi possível historicamente criar antes da elevação à vida estatal independente”. 579 Essa afirmação de Gramsci equivale a dizer que a revolução socialista nos países atrasados deveria passar necessariamente por uma etapa burocrática, mesmo que transitória. Seria o mesmo que admitir que as conquistas das revoluções nos países atrasados fossem necessariamente apropriadas, ainda que temporariamente, por uma casta burocrática.

Mais do que uma decorrência do atraso russo, o domínio da burocracia foi, segundo Lênin, conseqüência do atraso cultural, da mentalidade tacanha e pequeno- burguesa da direção do partido e que, por isso, não correspondia à enorme responsabilidade de conduzir a transição ao socialismo. É evidente que Gramsci não tinha acesso as informações a respeito da situação do Partido Bolchevique com a mesma facilidade de Lênin e de Trotsky, mas é também inegável que as suas posições serviram como uma certa blindagem da burocracia stalinista. Considerando o grande respeito internacional

576

LÊNIN, “XI Congreso del PC(b)R”. In: Obras completas. Op. cit., tomo XXXVI, p. 257. Citado por TROTSKY, A revolução traída. Op. cit., pp. 72-73.

577 Idem, ibidem.

578 TROTSKY, A revolução traída. Op. cit., p. 70. 579

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conquistado por Gramsci, suas posições adquiriram e adquirem até hoje uma importância que não pode ser negligenciada.

Anderson identifica essa dubiedade das posições de Gramsci em relação ao stalinismo como um dos traços característicos daquilo que ficou conhecido como marxismo ocidental. Para o autor, “o stalinismo nunca foi totalmente aceito pelos teóricos do marxismo ocidental, mas tampouco foi por eles combatido ativamente”. 580 De fato, vimos que para Gramsci o trotskismo não era uma opção. Nesse sentido, afirma Anderson:

quaisquer que fossem as atitudes dos diferentes pensadores [do marxismo ocidental] em relação ao comunismo oficial, todos se igualavam na opinião de que não havia fora da esfera deste outra realidade ou meio para uma ação socialista efetiva. Foi isso que interpôs um universo político entre o marxismo ocidental e o trabalho de Trotsky. 581

Gramsci se situaria, assim, num espaço político ocupado por aqueles que, como Lukács e outros, levantaram críticas ao regime stalinista sem, no entanto, romper com ele.

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Na disputa fundamental entre Stalin e Trotsky, na disputa entre construir o socialismo em um só país ou realizar uma revolução permanente mundial, Gramsci ficou ao lado de Stalin.

Mas como afirma Buey, não é possível caracterizar Gramsci como um stalinista, nem como um trotskista, nem como um bukharinista. 583 O gramscismo representaria, acima de tudo, uma alternativa ao trotskismo. Nesse sentido, Dias observa que no interior de uma batalha anti-dogmática, a utilização de Gramsci, Lukács e Sartre como instrumentos privilegiados nos campos da filosofia, da estética e da sociologia da cultura, permitiu, em

580 ANDERSON, Considerações sobre o marxismo ocidental. Op. cit., p. 127.

581 Idem, ibidem, pp. 136-137. Segundo Anderson, o que diferenciava Gramsci dos demais autores incluídos

nessa tradição é que “ele entendia a autonomia e a eficácia das superestruturas culturais como um problema

político que deveria ser explicitamente teorizado como tal, ou seja, no que diz respeito ao papel que tinha na

manutenção ou subversão da ordem social”. Idem, ibidem, p. 111.

582 Uma discussão sobre a contraditória relação de Lukács com o stalinismo pode ser encontrada nas seguintes

obras: MÉSZÁROS, Para além do capital. Rumo a uma teoria da transição. São Paulo: Boitempo, 2002, p. 477; NETTO, Georg Lukács: um exílio na pós-modernidade. In: LESSA, & PINASSI, Lukács e a atualidade

do marxismo. São Paulo: Boitempo, 2002, p. 81; SLAUGHTER, Marxismo, ideologia e literatura. Rio de

Janeiro: Zahar, 1983, p. 108. Todos citados em DILLENBURG, Op. cit., pp. 92-93.

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última instância, legitimar o stalinismo. 584 Gramsci seria assim uma alternativa intermediária a todos aqueles que não se identificam com o trotskismo e possuem críticas pontuais ao stalinismo.

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Capítulo IX

A interpretação de Gramsci a respeito da América

Desde 1917, Gramsci já considerava a América do Norte mais evoluída do que a Inglaterra. Uma das razões dessa vantagem comparativa estava ligada ao fato de que na América “os anglo-saxões começaram a partir do estágio a que chegara a Inglaterra depois de uma longa evolução”. 585 Meses depois, em julho de 1918, Gramsci reafirma a superioridade dos Estados Unidos: “os Estados Unidos [...] são a grande força da história moderna do mundo”. 586

À primeira vista, Gramsci parece ter compreendido o caráter atrasado da Rússia e mesmo da Europa em relação à América. Ao mesmo tempo em que falava da inércia e da passividade do povo russo, tratava a América como um solo virgem, que contém “forças implícitas em sua natureza”. 587 Gramsci compara a América com a “velha Europa, onde existe toda uma série de freios (morais, intelectuais, políticos, econômicos, incorporados em determinados grupos da população, relíquias dos regimes passados que não querem

585 GRAMSCI, Escritos políticos, Op, cit., vol. 1, p. 129.

586 GRAMSCI, “Le opere e i giorni”. In: CAPRIOGLIO et alii, Scritti (1915-1921), 1976, p. 73. Citado por

CARACCIOLO, “Gramsci e la storia del suo tempo”. In: Politica e storia in Gramsci. Op. cit., p. 58.

587 GRAMSCI, Cadernos do cárcere, Op. cit., vol. 2, p. 27. Quaderni, p. 1525. Benoit comenta que a noção

de atraso está ligada à potencialidade de desenvolver as forças produtivas, o que, evidentemente, confere à escassez ou à abundância dos recursos naturais um papel determinante na caracterização de cada país. Benoit cita um trecho escrito por Trotsky no qual o dirigente bolchevique relaciona o atraso da Rússia com suas inóspitas condições naturais: “a população da gigantesca planície com seu clima rigoroso, exposta ao vento

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