• Nenhum resultado encontrado

2 REVISÃO DE LITERATURA

2.4 OBESIDADE

2.4.2 Consequências e comorbidades da obesidade

lugar, e a obesidade passou a ocupar o segundo lugar, ultrapassando o diabetes mellitus tipo 1 (CDC, 2011; CDC, 2014).

Nos países desenvolvidos as prevalências de sobrepeso e obesidade infantil cresceram de forma bastante expressiva. Em 1980, 16,9% dos meninos e 16,2% das meninas estavam acima do peso (sobrepeso e obesidade); em 2013 esses números aumentaram para 23,8% e 22,6%, respectivamente. Nos países em desenvolvimento, as prevalências também aumentaram de 8,1% em 1980 para 12,9% em 2013, entre os meninos, e de 8,4% para 13,4%, no mesmo período, entre as meninas (NG et al., 2014).

Nos Estados Unidos, nos últimos 30 anos, a obesidade mais que dobrou em crianças de 6 a 11 anos e quadriplicou em adolescentes, passando de sete para 18% e de cinco para 21% respectivamente, sendo considerada a doença nutricional mais prevalente nesta população. Em 2012, mais de um terço de crianças e adolescentes estavam com sobrepeso ou obesidade (NCHS, 2012; OGDEN et al., 2014; CDC, 2014).

No Brasil, ao se comparar o estado nutricional de meninos entre 5 a 9 anos de idade observa-se que entre 1974-75 (ENDEF) e 1989 (PNSN) houve um aumento de 10,9% para 15% nos índices de excesso de peso (sobrepeso e obesidade), e em 2008-09 esse número aumentou para 34,8%, representando um aumento de 3,5 vezes entre o ENDEF e a POF. Em relação ao sexo feminino, esta mudança foi ainda maior, uma vez que os índices de excesso de peso passaram de 8,6% em 1974-75 para 11,9% em 1989, e posteriormente para 32% em 2008-09, representando um aumento de quatro vezes entre o ENDEF e a POF. A prevalência de obesidade também aumentou entre os meninos, passando de 2,9% para 4,1% e depois para 16,6%, e entre as meninas de 1,8% para 2,4% e depois para 11,8% (IBGE, 2010b).

2.4.2 Consequências e comorbidades da obesidade

A obesidade, por ser considerada simultaneamente uma doença e um fator de risco para outras doenças, está associada à piora na qualidade de vida e ao aumento nos índices de mortalidade, em virtude das comorbidades provocadas pelo excesso de peso (SILVA; MAIA, 2013). Estudos epidemiológicos indicam que os indivíduos obesos procuram mais os serviços de saúde do que os indivíduos não

obesos. Estima-se que os gastos do governo americano com a obesidade no ano de 2008 atingiram 147 bilhões de dólares. O gasto anual em saúde pelo indivíduo obeso é 42% maior em comparação com o indivíduo de peso normal (FINKELSTEIN et al., 2009).

O conhecido estudo realizado na cidade de Bogalusa comprovou que a obesidade durante a infância e adolescência é determinante de vários fatores de risco para doença cardiovascular, como dislipidemia, aterosclerose, hipertensão arterial e hipertrofia do ventrículo esquerdo. As doenças cardiovasculares são consideradas as principais causas de morte entre homens e mulheres no Brasil e vêm aumentando a sua frequência em diversos outros países (FREEDMAN et al., 1999; MANSUR; FAVARATO, 2012). O excesso de peso na infância pode gerar também repercussões metabólicas como diabetes mellitus tipo 2, síndrome metabólica, alterações hepáticas, como a esteatose hepática não alcoólica, problemas ortopédicos, distúrbios pulmonares, como a apneia obstrutiva do sono e a exacerbação da asma, além das consequências emocionais como depressão e pior qualidade de vida (DANIELS et al., 2005; ACCIOLY; LACERDA; AQUINO, 2009).

Essas comorbidades, até alguns anos atrás mais evidentes em adultos, já estão sendo observadas em faixas etárias mais jovens, devido ao crescente aumento da prevalência e da gravidade da obesidade em crianças e adolescentes (STYNE, 2001).

O sobrepeso está associado à hipertensão arterial tanto em adultos quanto em crianças. No estudo de Bogalusa, pode-se observar que o aumento consistente do IMC esteve associado aos valores mais elevados da PA (FREEDMAN et al., 1999).

A síndrome metabólica, definida como uma associação de situações clínicas que incluem hipertensão arterial, dislipidemias, alterações do metabolismo da glicose e obesidade, principalmente na região abdominal (NCEP, 2002), representa um fator de risco para o desenvolvimento das doenças cardiovasculares, que podem começar a se manifestar durante a infância e permanecer durante a idade adulta. A prevalência da síndrome metabólica aumenta com a gravidade da obesidade e já atinge cerca de 50% dos jovens obesos graves. Foi observado que cada meia unidade a mais no IMC (convertido para escore Z) aumenta em 50% o risco de síndrome metabólica em crianças e adolescentes acima do peso (WEISS et al., 2004). Estes dados confirmam

que o fator de risco mais importante para o desenvolvimento da síndrome metabólica na infância/adolescência é o aumento do IMC (DANIELS et al., 2005).

Entretanto, segundo Dietz (1998), as maiores consequências da obesidade infantil são as psicossociais, uma vez que estar acima do peso numa sociedade que valoriza a aparência física e o corpo ideal leva a criança obesa a se tornar alvo de discriminações.

A relação entre sobrepeso, obesidade e problemas sociais já vem sendo estudada há bastante tempo. Maddox et al., em 1968, afirmaram que o indivíduo obeso tende a atrair rejeição e efeitos negativos pelo simples fato de ser obeso, e que estes indivíduos tendem a ser estigmatizados como responsáveis pela sua própria condição, sendo taxados de preguiçosos e relaxados (MADDOX; BACK;

LIEDERMAN, 1968).

Um estudo realizado em três colégios da rede estadual do Rio de Janeiro teve como objetivo verificar a percepção dos professores em relação aos problemas enfrentados pelos alunos obesos no ambiente escolar. Foi observado que o preconceito, que se manifesta na forma de apelidos, xingamentos, chacota e perseguições que, por sua vez, levam a problemas de convivência como a exclusão, solidão, discriminação e não aceitação pelo grupo, além da timidez e da baixa autoestima, é o principal problema enfrentado pelos alunos que estão acima do peso, sendo considerados vítimas de bullying (COSTA; SOUZA; OLIVEIRA, 2012).

As consequências psicossociais podem tanto resultar da obesidade como contribuir para ela (DIETZ, 1998). No estudo de Pine et al. crianças de 6 a 17 anos foram acompanhadas durante 15 anos, com o objetivo de relacionar o ganho de peso subsequente à depressão. Foi observado que as crianças diagnosticadas com depressão apresentaram IMC maior na vida adulta quando comparadas aos que não sofreram de depressão na juventude. Foi também demonstrado que o maior tempo de duração da depressão, entre a infância e a fase adulta, esteve associado a valores mais elevados no IMC (PINE et al., 2001).

Quanto mais grave é a obesidade infantil, maior é chance da manutenção desta condição na vida adulta e, juntamente, suas comorbidades. Estima-se que 30%

das crianças obesas se tornam adultos obesos. Essas crianças apresentam risco maior, de duas a seis vezes, de manter a obesidade na vida adulta, quando comparadas a

uma criança não obesa. Estima-se também que 50% dos adultos obesos foram obesos na infância e na adolescência (ACCIOLY; LACERDA; AQUINO, 2009).