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6.1 DESCRIÇÃO DOS RESULTADOS CONFORME O

6.1.8 Consequências: Identificando a circularidade

6.1.8.1 Entendendo os significados do cuidado “do nós”/“de nós” O cuidado “do nós” refere-se a um assunto novo, um assunto de certa forma polêmico e contraditório. Conforme os entrevistados, o cuidado “do nós” refere-se um grupo de pessoas/de profissionais, envolvendo os auxiliares e técnicos de enfermagem, as enfermeiras, os médicos, as nutricionistas, entre outros que interagem em uma mesma unidade de trabalho. Em uma visão mais ampla, o cuidado “do nós”

refere-se ao cuidado do todo, de todos os sujeitos/profissionais que pertencem à instituição em questão, incluindo os pacientes e os acompanhantes/familiares dos pacientes, até outros sujeitos de relações dos profissionais fora do ambiente de trabalho. A abrangência desse cuidado se amplia ainda mais, e remete ao cuidado do universo, do meio ambiente, de outras estruturas organizacionais, de sociedades, de múltiplas pessoas.

Todavia, lembram alguns entrevistados, que não se pode esquecer que o cuidado “do nós” inclui o eu no nós, de modo que esse eu é parte ativa do processo de cuidado, levando a pensar/questionar como eu me cuido como profissional/trabalhador/sujeito, como eu cuido e como nos cuidamos como grupo/equipe de trabalho. Aqui, percebe-se que o cuidado também tem conotação de um cuidado “de nós”, que se relaciona ao modo como cuidamos “de nós” mesmos e também ao cuidado de um grupo de iguais, de uma equipe específica de trabalho, de um grupo de amigos ou membros de uma família. O cuidado “de nós”, para os participantes, da a sensação de um cuidado mais inclusivo dentro de um micro espaço, nas relações mais sutis, de mais intimidade, de maior proximidade, no local de trabalho, assim como na vida familiar e pessoal; e o cuidado “do nós” envolve um macro espaço, um universo de relações e interações cuidativas.

Neste sentido, o cuidado “do nós”/“de nós” aponta para o cuidado “de nós” mesmos (do próprio eu), das relações entre os profissionais, destes com os pacientes, com a família do paciente e também as relações do profissional fora do seu ambiente de trabalho com seus amigos e familiares. O cuidado “do nós”/“de nós” significa estar atento conosco mesmos, significa antes de cuidar dos outros, realizar o cuidado “de nós” próprios (de si), remete à capacidade ou condição de olhar para nós próprios também como cuidadores, e estar atentos a esse cuidado, mental e físico, que é o que vai nos permitir continuar cuidando do outro. Assim, cuidando “de nós” próprios (de si) se estará em condições melhores de cuidar do outro, uma condição necessária para acontecer o cuidado “do nós”.

Sob este prisma, o cuidado “do nós” e “de nós” são intrínsecos, um ligado ao outro. O cuidado “do nós” remete ao cuidado, inclusive, de todo um mundo, e como eu pertenço a esse mundo; se há um cuidado do mundo, logo também há o cuidado “de nós”, de si, do sujeito. Ao acontecer o cuidado “do nós”, acontece também o cuidado “de nós”. Tanto no cuidado “do nós” quanto no cuidado “de nós”, o sujeito sente- se incluído, ambos envolvem o coletivo, o grupo, o conjunto de pessoas, o conjunto de seres humanos. O cuidado “de nós” faz parte do cuidado

“do nós”, faz parte das relações interpessoais, sendo o cuidado “do nós”, sobretudo, cuidar das relações múltiplas, as quais são baseadas em questões objetivas e práticas, mas também são intermediárias pela subjetividade de cada um.

6.1.8.2 Cuidando e sentindo o cuidado na sua circularidade processual Compreende-se que o cuidado do outro implica antes a realização do cuidado de si mesmo pelo profissional. No entanto, cuidar do outro, pelas trocas advindas da interação estabelecida com esse outro, remete ao cuidado de si do profissional como ser de cuidado. Revela-se, assim, a valorização e importância do cuidado de si pelos profissionais antes e enquanto cuidam do outro, cujo cuidado precisa ser contínuo/constante/ininterrupto.

Identifica-se que, ao tempo em que cuidam de si e do outro, os profissionais sentem o cuidado advindo das múltiplas interações constituídas no espaço/ambiente de trabalho e de cuidado, com vários outros, sejam eles pacientes, familiares, os próprios pares ou demais profissionais que integram e circulam no mesmo espaço/ambiente. Assim, enquanto transmitem, recebem cuidado, cuidam e sentem-se cuidados na circularidade processual do cuidado de si e do outro.

Para o cuidado de si e consequente cuidado do outro, de outros, informam os participantes como, principalmente importantes, o sono e o repouso adequados, a hidratação e a alimentação adequadas, a prática de lazer, a prática de atividade física, a prática espiritual, a adequada postura corporal durante execução de atividades laborais, a socialização e o estar com amigos e familiares. Ainda, é considerado cuidado evitar o estresse e o excesso de trabalho, respeitar os próprios limites, organizar e conciliar os compromissos da vida pessoal e profissional, dispensar um tempo para si mesmo, entre outros.

Percebendo-se cuidado, o profissional cuida do outro, de outros, ajudando, escutando, valorizando, preocupando-se e atendendo às necessidades desse(s) outro(s). Condições essas que geram satisfação aos profissionais, coadjuvantes para o bem estar desse(s) outro(s). Todavia, há dias em que se recebe mais cuidado do que se dá, e há dias em que se é mais cuidado do que se cuida ou que se cuida mais do que se é cuidado, sendo importante a circularidade do cuidado para que um se sinta cuidado enquanto cuida do outro, de outros, e, portanto, aconteça o cuidado de si, do outro, de outros, e “do nós” na circularidade dos processos de cuidar e de ser cuidado.

6.1.8.3 Sentindo o cuidado processar junto da família e de amigos A família ocupa lugar de destaque no processo de cuidado dos profissionais de saúde e de enfermagem, cujos valores apreendidos no corpo da família são trazidos para as relações constituídas com outras pessoas. A família é a estrutura que fortalece os profissionais para os enfrentamentos necessários que surgem no processo de viver, seja na vida pessoal, seja na vida profissional.

Na circularidade dos processos de cuidar e ser cuidado, a família é cuidada e cuidadora. Visando o cuidado da família, os profissionais atentam para o trabalho no hospital não interferir nas relações com o cônjuge e com os filhos. Uma tarefa árdua, pois os reflexos do ambiente de trabalho no ambiente doméstico nem sempre são possíveis de evitar, talvez apenas minimizar.

Atividades simples de lazer, o estar junto de amigos, e principalmente da família, são especialmente valorizadas para o profissional sentir o cuidado “do nós” se processar. O cuidado “do nós” acontece em múltiplas dimensões, mas a dimensão que inter-relaciona a família e os amigos, por remeter à pessoas com fortes vínculos afetivos, se destaca.

6.1.8.4 Processando o cuidado “do nós” pela enfermagem

Profissionais da saúde percebem o profissional da enfermagem como um “guardião do paciente”, em razão de que, segundo os entrevistados, esse profissional realiza o cuidado integral, permanece por mais tempo e possui maior envolvimento com os pacientes. É apontado que o enfermeiro, além das suas atribuições profissionais competentes, também atua, informalmente, nos campos da psicologia e da assistência social em prol do cuidado dos pacientes, dos seus pares e da sua unidade de trabalho. Para somar, participa reflexivamente de discussões coletivas para a tomada de decisões relativas à sua unidade de trabalho e seus ocupantes, bem como de discussões voltadas ao aperfeiçoamento de processos relativos à instituição hospitalar.

Os profissionais da saúde valorizam o saber e o fazer dos enfermeiros por entenderem como contributos importantes na formação de estudantes em saúde, como na formação dos residentes de medicina, por exemplo. Todavia, é considerado que enquanto alguns profissionais da enfermagem/enfermeiros são dedicados e comprometidos com o cuidado, buscando aperfeiçoar seus conhecimentos e práticas, outros

cumprem o que está prescrito e exercitam minimamente o raciocínio reflexivo.

Identifica-se no conteúdo analisado ser o enfermeiro o profissional que interliga os pacientes aos múltiplos profissionais de saúde (médico, psicóloga, assistente social, fonoaudióloga) que transitam no espaço de cuidado, e ao mesmo tempo tenta aproveitar o espaço multiprofissional para ele seja também interdisciplinar. O enfermeiro é o profissional que contata os profissionais das diferentes áreas e serviços para que pacientes e familiares tenham o devido acesso aos serviços, articulando e convergindo as múltiplas competências disciplinares para o cuidado em sua totalidade. Assim, esse profissional é articulador, facilitador, organizador, gerenciador dos cuidados de enfermagem e de saúde na tríade usuário, profissional, instituição, além de ser responsável por si e por sua equipe de trabalho.

Por permanecer em tempo integral na unidade de cuidados, ser diretamente responsável pelo paciente e comumente atuar conjuntamente com outras profissões da saúde no cuidado dos pacientes, os profissionais de saúde consideram que a enfermagem é a profissão da área da saúde com mais possibilidade e mais próxima do cuidado “do nós” do que outras profissões. Ter a visão do todo e da complexidade que permeia o ambiente e as pessoas é uma característica fundamental do profissional que cuida “do nós”, uma característica atribuída ao enfermeiro/profissional de enfermagem.

Além de o profissional de enfermagem atuar nos processos saúde-doença, no cuidado dos pacientes na instituição hospitalar, ele também atua no cuidado de familiares e pessoas de suas relações no ambiente doméstico. Sendo assim, a atuação em saúde ultrapassa os limites da profissão, representa a beneficência e o altruísmo no cuidado de múltiplas pessoas.

O reconhecimento pelo empenho, pelas mudanças e melhorias na assistência e novas tecnologias de cuidado implantadas por meio de estudos e pesquisas é um anseio de um grupo de profissionais que busca ser qualificadamente diferenciado na atuação e no cuidado de enfermagem, cuja qualidade do cuidado é lapidada sem cessar visando atingir o todo – o cuidado “do nós”. Em outro ponto de vista, os enfermeiros afirmam a busca pela qualificação profissional consoante à competitividade instalada no cenário da profissão.