CAPÍTULO 2 A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR-BNCC: O ENSINO
2.1 Considerações acerca da Base Nacional Comum Curricular-BNCC como
Na história das políticas educacionais contemporâneas, inclui-se a BNCC como uma matéria conceitual que normatiza-se em leis nacionais, em que a instituição escolar tem demonstrado ser um instrumento auxiliar ao alinhamento à lógica do mercado nacional e internacional, operando em readaptações profissionais ao mundo do trabalho, privilegiando os conhecimentos ao plano profissional relacionando com aspectos do que seria o conceito de cidadania, a exemplo do disposto na última versão da BNCC (2018a). Para Peroni et al. (2019), nesta exposição houve uma inflexão dos conceitos presentes entre a primeira versão e a que foi aprovada pelo CNE em 2017 incluindo ao conceito de base nacional comum ao de base nacional curricular comum; envolvendo a própria concepção que norteia a base.
A tramitação que ocorreu a partir de 201446 (BRASIL, 2018a) com distintas problematizações a respeito de uma base nacional comum e suas três versões; contou numa primeira fase com a participação47 de professores e
46Cabe observarmos que os interesses privados conduzidos pelo Movimento pela Base,
coordenado pela Fundação Lemann, por meio do Lemann Center, vinculado à Universidade de Stanfort-USA, buscou especialistas, ligados ao Comum Core americano, segundo Peroni et al. (2019) para revisar a primeira e segunda versões da base.
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especialistas de universidades. A segunda versão (BRASIL, 2016a, 2018a) do documento da BNCC (2016) foi disponibilizada e submetida à discussão48. Os debates oficiais foram restritos a formações de representações estabelecidas, nas
relações com o acirramento das disputas teórico-práticas entre os setores público e privado.
A BNCC tem definições em seu texto (2017a, 2018a) que identificamos como a indicação de termos técnicos organizacionais a um padrão de educação a ser constituído, socialmente, dentro do contexto escolar. Tal contexto estrutural da BNCC construiu-se, de acordo com o Ministério da Educação-MEC,49 baseado em linhas gerais, na adequação a novos níveis de excelência em ensino e qualidade funcional, para capacitação e adaptação aos novos modelos de materialização da atual fase do capital nacional e internacional, bem como a conhecimentos prévios científicos, tecnológicos, culturais e humanos estabelecidos neste contexto histórico. Para Peroni et al. (2019, p.19), a proposta da terceira versão, “diferente
das anteriores, já excluía o Ensino Médio e trazia uma ruptura com a ideia de educação básica” e que a aprovação de uma política pública de forma antidemocrática, sem transparência e sem ampla discussão com a sociedade brasileira, “revela o modus operandi” dos sujeitos individuais e coletivos que fazem parte, tanto de instituições consideradas públicas, quanto privadas. A BNCC50 define em termos técnicos organizacionais um padrão de educação a ser
48Pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação-Undime e pelo Conselho Nacional
de Secretários de Educação-Consed, em resposta ao Comitê Gestor do MEC para receber as sugestões dos seminários.
49O CNE promoveu uma audiência em cada uma das cinco regiões do Brasil de junho a setembro
de 2017, da qual participaram entidades, professores e interessados. De setembro a dezembro de 2017, a base nacional comum curricular tramitou no CNE de forma não transparente e foi aprovada desconsiderando a construção já produzida pelas instituições educacionais comprometidas com a educação pública de qualidade social e sob forte resistência de três conselheiras, representantes de entidades nacionais, que votaram contra a BNCC, Peroni et al. (2019), assim como diversas instituições e associações de docentes e pesquisadores manifestaram sua oposição a BNCC.
50A instituição do Comitê Gestor do Ministério da Educação-MEC (Portaria 790/2016 - BRASIL,
2016), contemplou apenas integrantes das secretarias do Ministério, que foram os responsáveis pelas definições e diretrizes que deram diretrizes que deram origem à terceira versão a partir das revisões de integrantes internacionais, como The Curriculum Foundation, instituição inglesa, Accara, instituição australiana e Phill Daro e Susan Pimentel que atuaram no Comonn Core americano, além de Sheila Byrd Carmichael, que assinam a avaliação da BNCC (LEMANN CENTER, 2016 apud Peroni, 2019)
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constituído socialmente dentro do contexto escolar. Tal contexto estrutural da BNCC, nas definições legais, em sugestão, apresentadas a partir do documento BNCC, Ministério da Educcação-MEC:51
A inserção dos termos de igualdade, diversidade e equidade na BNCC, como em documentos oficiais, não descarta a educação alinhada com o modelo de capital incorporado socialmente, e não define a extinção da desigualdade social; pela ideologia, a inversão da realidade histórica se dá ao invés de representá-la racionalmente. (MARX; ENGELS, 1989). A possibilidade de uma política estatal, por meio da BNCC, organizada hierarquicamente, vir a ser um instrumento para novos currículos para a educação escolar nacional brasileira, dá margem para que sistemas regionais de ensino sejam articulados em um projeto de educação, estabelecido no plano da concepção neoliberal. A Base Nacional Comum Curricular-BNCC, (BRASIL, 2014a, 2015a, 2016a, 2017a, 2018a), ao sentido político da Educação Básica, associamos a políticas curriculares com sentidos hegemônicos e distintas políticas como explica Macedo (2014, p.1536- 1537). Em meio ao texto geral sobre diversidade, a mediação está em conformidade com um modelo de sociedade conservador, a exemplo, a supressão das discussões de gênero, identidade e sexualidade no plano obrigatório.
Em análises sobre o avanço do totalitarismo no final do século e o ensino na globalização, Santos, (1998, p.7-8), ponderava sobre o discurso
51O CNE promoveu uma audiência em cada uma das cinco regiões do Brasil de junho a setembro
de 2017, da qual participaram entidades, professores e interessados. De setembro a dezembro de 2017, a base nacional comum curricular tramitou no CNE que para Peroni et al. (2019) de forma não transparente e foi aprovada desconsiderando a construção já produzida pelas instituições educacionais comprometidas com a educação pública de qualidade social e sob forte resistência de três conselheiras, representantes de entidades nacionais, que votaram contra a BNCC, assim como diversas instituições e associações de docentes e pesquisadores manifestaram sua oposição a BNCC.
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homogeneizador estatal, quando se diz: “[...] penso assim, se você pensa diferente, você está contra a nação”; já o desejável “[...] papel pedagógico dos homens de governo é substituído por um discurso autoritário, que frequentemente vai buscar fundamento na chamada globalização.” [...] A globalização “perversa” atual, apresentada como um “caminho único”, quando, na realidade é apenas “uma maneira de fazer a história,” que Santos reiterava na obra “Território e Sociedade” (2000e) a extinção do debate por uma prática política da convivência coletiva, como uma técnica absoluta desse lugar, sem a discussão e o enfrentamento político, cultural, moral, religioso, apontando indícios de uma lógica global a tendência mundial do pensamento único.
As relações estabelecidas em planos legais, representam a participação do setor privado fornecendo subsídios para a formulação e incentivo à implementação da BNCC, por meio de produção de materiais didáticos, assessorias e sistema de avaliação, influenciando a apropriação da escola à gestão de competências, adotando práticas comuns ao mercado, como relação a investimento financeiro. Sob a intensificação da concepção de Estado Neoliberal, as definições de educação escolar atestam a necessidade de outra formação de professores e o ensino como commodities, traduz na aprendizagem um produto de mercado, em que a flexibilização das reformas curriculares são exemplo de adaptação à menção dos termos competências e habilidades na definição dos conhecimentos a serem trabalhados, em que a avaliação é instrumento a ser valorizado como central ao ensino. A ausência do aprofundamento sobre a discussão a respeito de Ciência, como concepção, direcionando-as incorporadas em áreas temáticas, em que a valorização de áreas de conhecimento como Português e Matemática correspondem às exigências das avaliações internacionais.