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6 A CIÊNCIA DA RELIGIÃO COMO DISCIPLINA REFERENCIAL

6.1 A Ciência da Religião no singular

6.1.1.1 Considerações acerca da nomenclatura e do objeto

As primeiras protoideias (pré-ideias) como conceitos científicos da Ciência da Religião que a configuraram de forma ativa na sua história ganharam notoriedade no século XIX, sob a nomenclatura Science of Religion, no original, e Religionswissenschaft, em alemão, comumente usada por seus pais fundadores (Müller, 1867; 1870; Chantepie de la Saussaye, 1891; Tiele, 1897)

Em seus condicionamentos histórico-sociais, a Religionswissenschaft assumiu outras nomenclaturas correspondentes no cenário anglófono, como History of Religions, Comparative Religion(s), (Scientific) Study of Religion(s), Religious Stdudies (Pye, 2001, p.

16), decorrente da forma como os estudos acadêmicos sobre humanos eram entendidos entre

os coletivos de pensamento desse contexto, para o qual o termo “Science” era próprio e exclusivo das Ciências Naturais (Costa, 2019, p. 30).

Dessa forma, a concepção expressa na gênese da nomenclatura da disciplina pelo seu coletivo de pensamento a nomeou como Science of Religion, em inglês e Religionswissenschaft, em alemão, mesmo diante dos condicionamentos dos círculos exotéricos, das massas, do trânsito intercoletivo, a elite internacional do componente curricular se manteve estável e ativa nesse sentido, a exemplo de muitos de seus clássicos e obras mais contemporâneas traduzidas para o português como Ciência da Religião no singular (Müller [1870] 1882]; [1899] 2020a, [1882] 2020b; Tiele, 1897; 2018; Wach, [1924] 1988;

2018; Greschat, 2005; Usarski, 2006; Hock, 2010).

Outras traduções para o português a nomearam como História das Religiões (History of Religions) (Chantepie de la Saussaye, 1940; Farias Brito, 2006), assim como na análise de Carvalho (2017), na fundação da primeira cátedra do componente curricular em Genebra e nos seus eventos internacionais (Eliade, 1992; Usarski, 2006a; 2013). A nomenclatura Religiões Comparadas (Comparative Religion(s)) aparece na tradução da obra de Terrin (2003) como mais uma referência a disciplina (Costa, 2019).

Grande parte desse coletivo de pensamento tem suas obras em inglês e enfrenta dificuldades quando da tradução da nomenclatura da disciplina dentro dos círculos lusófonos, por isso a nomenclatura alemã Religionswissenschaft tem servido para rechaçar esse equívoco (Pye, 2001; 2011; Costa, 2019).

Sobre as protoideias e conceitos do objeto da disciplina, a religião, apesar das impressões e conexões na sua forma de pensá-la e tratá-la, motivada pela atmosfera social produzida na história, para esse coletivo de pensamento as motivações pessoais e confessionais, apologética e teleológicas não fazem parte da sua agenda científica. Para exemplificar melhor, tomaremos dois conceitos de religião dentro desse coletivo de pensamento, sendo o primeiro dado pelo alemão Greschat (2005):

A perspectiva dos cientistas da religião quanto ao seu objeto difere da de observadores casuais quanto do olhar profissional de outros cientistas. É semelhante a uma paisagem vista pelos olhos de um camponês – olhos que são diferentes dos de um caçador, ambientalista ou andarilho. E o objeto “religião”? é possível circunscreve-lo em três frases, conforme os cientistas da religião percebem-no:

1. vêem o objeto “religião” como uma totalidade;

2. reconhecem que essa totalidade apresenta-se de maneira quádrupla;

3. observam que essa realidade está viva e que, portanto, não para de se transformar (Greschat, 2005, p. 23-24).

Para esse coletivo, bem mais que um conceito ou uma definição sobre religião, destaca-se à forma de ver e à percepção na apreensão desse objeto em sua totalidade que se

manifesta sob quatro perspectivas, ou seja, como comunidade; como sistema de atos; como conjunto de doutrinas ou como sedimentação de experiências, produzida pela atmosfera compartilhada por essa comunidade ao mesmo tempo que justifica o estilo de pensamento desse coletivo.

Essa apreensão, própria para o estudo desse objeto, aproxima-se da Ciência da Educação (Pedagogia), como referenciado na seção anterior, pois a

Religião como totalidade torna-se um divisor de águas entre cientistas da religião e outros cientistas que se ocupam apenas esporadicamente da religião. Esses relacionam um aspecto religioso à totalidade da disciplina em que são especialistas:

às leis, por exemplo, à psique, à arte e assim por diante. Diferentemente, cientistas da religião, mesmo que se dediquem a pesquisa detalhadas, não perdem de vista a totalidade da religião estudada (Greschat, 2005, p. 24).

A religião como totalidade supera as contribuições parciais de suas subdisciplinas auxiliares, que apenas situam suas análises à aspectos de suas disciplinas que se relacionam à religião, uma vez que ela não se constitui como seus objetos primários como é para o cientista da religião:

Em outras palavras, o cientista da religião é apenas um especialista capaz de associar suas investigações especiais à religião como totalidade. Se ele se referisse à sociedade, tornar-se-ia um sociólogo amador; se se referisse à política, seria um cientista político amador, e assim por diante (Greschat, 2005, p. 24).

A segunda contribuição do conceito de religião muito aceito dentro desse coletivo de pensamento é a do holandês Hanegraaff (2017), que apresenta sua definição tríplice a partir de perspectivas histórico-empíricas e sistemáticas da religião “a despeito da história”, com base na definição de religião nos autores Emile Durkheim, Clifford Geertz, Melford Spiro, J.

Milton Yinger e Jan Platvoet e a definição de sagrado nos autores Rudolf Otto, Mircea Eliade, Lynda Sexson e Gregory Bateson), considerando as demandas emergentes para essa definição

“apesar da história moderna”, ou seja, que considere a descontinuidade histórica provocada pela modernidade na sociedade, destaca:

Para o bem ou para o mal, portanto, precisamos nos atirar à sorte com a alternativa lógica: apesar das dificuldades óbvias, uma definição de “religião” precisa simplesmente dar espaço a uma análise em profundidade de como as tradições religiosas históricas são transformadas em novos contextos – até mesmo uma radicalmente nova, como a sociedade secular –, e/ou como a “religião” pode emergir em novas formas, mesmo sem depender de tradições anteriores. Tal definição possibilitará não apenas a pesquisa comparativa e sistemática, mas também a pesquisa histórica: ela permite uma percepção adequada da continuidade e descontinuidade histórica (Hanegraaff, 2017, p. 238).

Hanegraaff (2017) destaca como as mudanças provocadas com o advento da modernidade trouxeram consequências ainda mais desafiadoras para essa definição diante da configuração social que se instalava na sociedade moderna, com a secularização, processo

pela qual a religião aos poucos vai perdendo seu papel sócio-político de importância e centralidade na sociedade, como referência para seu funcionamento e organização.

Esse processo não baniu o religioso da religião, ou seja, a sua referência metaempírica tão comum no tecido social no período pré/não-moderno ou pré/não-secular, mas permitiu avançar numa definição que pudesse também dar conta dessa referência acrescida da referência da cultura moderna ou secular, logo:

A solução satisfatória exige, no entanto, que a definição assuma uma forma tríplice:

uma definição geral, inclusiva, de “religião”, seguida por uma subdivisão dupla.

Além de “religião”, precisamos definir “religiões” (sing. “uma religião”), bem como uma terceira categoria, que proponho referir como “espiritualidades” (sing. “uma espiritualidade”) (Hanegraaff, 2017, p. 238).

A tríplice definição de Hanegraaff (2017), destaca uma definição geral e inclusiva de

“religião” e uma subdivisão dupla, para assim dar conta das referências religiosas e da cultura secular, ou seja, como um sistema simbólico incorporados a uma instituição social (“religiões”: sing. “uma religião”) e como uma prática humana interpretada individualmente (“espiritualidades”: sing. “uma espiritualidade), com base nas definições dos autores citados, chegando assim as seguintes definições:

Religião = qualquer sistema simbólico que influencie as ações humanas, fornecendo possibilidades para manter contato ritualisticamente entre o mundo cotidiano e um quadro metaempírico mais geral de significados.

[...].

Uma religião = um sistema simbólico, incorporado em uma instituição social, que influencie as ações humanas, oferecendo possibilidades para manter contato ritualisticamente entre o mundo cotidiano e um quadro metaempírico mais geral de significados.

[...].

Uma espiritualidade = qualquer prática humana que mantenha o contato entre o mundo cotidiano e um quadro metaempírico mais geral de significados por meio da manipulação individual dos sistemas simbólicos (Hanegraaff, 2017, p. 238).

Compartilhando, de certa forma e em certa medida, do tráfego intracoletivo com Greschat (2005), Hanegraaff (2017) desenvolve uma definição de totalidade/abrangência da religião, considerando suas nuances histórico-sociais e culturais, respeita sua dinâmica e flexibilidade de adaptação aos diferentes contextos de manifestação, concluindo que:

É precisamente a flexibilidade dessa definição tríplice, como uma ferramenta analítica, o que considero como seu maior trunfo para uma abordagem sistemática e histórica combinada na ciência da religião. O conceito abrangente de “religião”

garante uma medida suficiente de continuidade para tornar possível uma análise de

“suas” transformações históricas e formas de manifestação. Ao mesmo tempo, os conceitos de “religiões” e “espiritualidades” tornam possível obter um controle sistemático sobre as descontinuidades da história, inclusive entre sociedades pré/não seculares e seculares (Hanegraaff, 2017, p. 240-241).

Dessa forma, é possível destacar que existe um esforço coordenado e compartilhado por esse coletivo no sentido de demarcar a ideia tanto da nomenclatura da disciplina, quanto

de seu objeto num estilo de pensamento próprio desse coletivo, diante dos condicionamentos no pensamento histórico-sociais sob os quais os vínculos e representações do estudo da religião, quase que exclusivamente cristã, na sua gênese estavam restritos ao coletivo da Teologia e da filosofia da religião, numa atmosfera confessional e normativa religiosa, onde a mudança nesse estilo de pensamento iniciada pela Ciência da Religião, apesar de demonstrar uma amadurecimento histórico-social em virtude de seu estilo de pensamento, fruto do seu tempo, em relação há épocas anteriores, as ideias passadas persistem.

6.1.1.2 Coletivo de pensamento e estilo de pensamento da Ciência da Religião