1. PRIMEIRAS CONCEPÇÕES SOBRE O CÂNCER
1.1. CONSIDERAÇÕES ACERCA DA PSICO – ONCOLOGIA
1.1. CONSIDERAÇÕES ACERCA DA PSICO – ONCOLOGIA
Segundo Carvalho (2019) desde 1980 a atenção ao paciente com câncer vem obtendo maior visibilidade. A partir daí, dentre outros profissionais, os psicólogos,
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começaram a ganhar espaço nos grupos multidisciplinares e a produzir trabalhos científicos.
A partir de meados do século passado, os inúmeros achados científicos e o grande avanço tecnológico levaram a um aumento significativo da complexidade dos tratamentos oncológicos; ao mesmo tempo, observou-se um ganho de sobrevida dos pacientes, fazendo com que o câncer, em muitos casos, seja considerado uma doença crônica. Esses fatos levantaram a necessidade de que outras especialidades participassem do tratamento oncológico – daí a importância de somar outros especialistas à equipe médica e, com isso, aumentar mais a complexidade dos tratamentos. (CARVALHO et al, 2019, p. 9)
Segundo Santos (2005, n.p.) já era possível perceber a existência de unidades psiquiátricas e uma maior atenção às questões de saúde mental nos hospitais a partir de 1902, mas somente a partir da década de 1970 que “equipes formadas por psicólogos e psiquiatras passaram a ser requisitadas pelos oncologistas, com o objetivo de auxiliar na informação do diagnóstico de câncer ao paciente e sua família”.
O Enfrente – Instituto de Psico-oncologia (2019) fala que o início das práticas psico-oncologicas aconteceu no Memorial Sloan Kettering, um centro médico de Nova Iorque nos Estados Unidos. Por conseguinte, esse instituto ressalta que no ano de 1990 a psico-oncologia foi definida pela psiquiatra Jimmie Coker Holland como:
[...] uma subespecialidade da Oncologia, que procura estudar as duas dimensões psicológicas presentes no diagnóstico do câncer: 1) o impacto do câncer no funcionamento emocional do paciente, sua família e profissionais de saúde envolvidos em seu tratamento; 2) o papel das variáveis psicológicas e comportamentais na incidência e na sobrevivência ao câncer. (ENFRENTE, 2019 apud HOLLAND, 1990).
Segundo Santos (2005, n.p.) a psico-oncologia no Brasil iniciou seus trabalhos em clínicas particulares. E, “embora seja uma área de atuação multidisciplinar, em nosso país ela tem sido desenvolvida principalmente por psicólogos”.
Hoje em média há 146 profissionais com a Certificação de Distinção de Conhecimento pela Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia – SBPO5, na área da psico-oncologia. (VEIT e CARVALHO, 2010, p. 503)
5 Criada em 1994 com o objetivo de congregar profissionais e estudantes da área de saúde e áreas afins à Psico-Oncologia. Disponível em: < http://sbpo.org.br/sobre/> Acesso em: 11 set, 2020.
Em 2008, a Portaria 3.535/98 do Ministério da Saúde determinou a presença obrigatória de profissionais especialistas em Psicologia Clínica nos centros de atendimento de oncologia cadastrados no SUS. Em consequência, diversos setores de Oncologia de Centros Médicos, Clínicas e Hospitais de todo o Brasil – públicos ou privados – passaram a incluir profissionais devidamente instrumentalizados para atendimento às questões que permeiam a realidade do câncer. (VEIT e CARVALHO, 2010, p. 503).
Aguiar (2019) explica que o desenvolvimento da psico-oncologia se intensificou através da interação entre a oncologia e a psicologia da saúde, cujo crescimento está relacionado ao maior conhecimento acerca do câncer.
O corpo teórico e prático da Psico-oncologia se constituiu assim que ressaltada a importância do modelo biopsicossocial para a compreensão da etiologia do câncer e seus processos, e as suas consequências físicas e psíquicas. (TEIXEIRA e PIRES, apud CARVALHO, 2010).
Segundo Carvalho (2002, n.p.) de acordo com Gimenes (1994) a psico-oncologia também pode ser definida como “a área de interface entre a Psicologia e a Oncologia e utiliza conhecimento educacional, profissional e metodológico proveniente da Psicologia da Saúde para aplicá-lo”: na assistência ao paciente e a sua família, implicados na prevenção, no tratamento e na reabilitação do doente; nas pesquisas e estudos acerca da compreensão dos casos; e na organização de serviços oncológicos que visem ao atendimento integral do paciente.
É possível descrever a psico-oncologia como um campo interdisciplinar da saúde que estuda a influência de fatores psicológicos sobre o desenvolvimento, o tratamento e a reabilitação de pacientes com câncer.
Entre os principais objetivos da psico-oncologia está a identificação de variáveis psicossociais e contextos ambientais em que a intervenção psicológica possa auxiliar o processo de enfrentamento da doença, incluindo quaisquer situações potencialmente estressantes a que pacientes e familiares são submetidos. (COSTA JUNIOR, 2001, n.p.).
Liberatto (2015) explica que a psico-oncologia é uma relação entre todos os setores que necessitam de atenção psicossocial relacionada a oncologia. Abrange áreas como a psicologia, medicina, fonoaudiologia, enfermagem, fisioterapia, psiquiatria, assistência social, pedagogia, assistência espiritual e outras relacionadas, a fim de, cuidar dos envolvidos nessa demanda. Direta ou indiretamente, pacientes, familiares, amigos, cuidadores ou profissionais da saúde lidam com o enfretamento do câncer e necessitam ser amparados nesse momento.
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Visto isso, esses profissionais tem como objetivo alcançar uma melhor qualidade de vida para os envolvidos. Aguiar (apud PESSINI e BERTACHINI, 2019, p.15) afirma que “o cuidar humanizado implica, por parte do cuidador, a compreensão do significado da vida, a capacidade de perceber e compreender a si e ao outro situado no mundo e sujeito de sua própria história”.
Entretanto, Aguiar (2019, p. 19) reitera que a “qualidade de vida é um constructo multidimensional que envolve a avaliação subjetiva dos domínios da vida que são importantes para determinada pessoa”, sendo extremamente importante se atentar acerca da singularidade de cada sujeito.
Já a Organização Mundial da Saúde – OMS define qualidade de vida como “a percepção do indivíduo de sua inserção na vida, no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”. Aguiar (2019) ainda ressalta que para o suporte psico-oncológico ter êxito é necessário lembrar desses cuidados para alcançar um vínculo afetivo, tomando atenção para os aspectos culturais, religiosos e afins do grupo social a que o paciente pertence.
Assim sendo, a comunicação aparece como fundamental no trabalho do psico-oncologista, é a partir dela que se transmite os sentimentos, a fala, o toque, os gestos e a escuta. Caponero (2019, p. 36) diz que antes mesmo do contato entre familiares e sobreviventes de oncologia e áreas correlatadas, considerando as diferentes etapas do desenvolvimento humano (infância, adolescência e vida adulta);
b) Formação e atuação da equipe de saúde, focalizando as relações interprofissionais e as dimensões institucionais em uma perspectiva interdisciplinar;
e) Qualidade de vida para todos os envolvidos;
f) Repercussões nas equipes de saúde;
g) Reações parentais durante as diferentes fases da doença (diagnóstico, tratamento, recidiva, sobrevivência, morte);
h) Qualidade da recuperação e da reabilitação do paciente e de seus familiares;
i) Sobrevivência em oncologia;
j) Cuidados paliativos;
k) Síndrome de burnout 6 e fadiga por compaixão;
l) Escolaridade. (AGUIAR, 2019, p. 21-22).
O paciente oncológico é conduzido a lidar com as incertezas e viver com esperança. “Na medida em que haja foco nas peculiaridades e nas especificidades da pessoa doente e do entorno familiar e social, o enfrentamento do câncer pode ser mais eficaz. Há benefícios para todos, incluindo as equipes de saúde.” (RUMEN et al, 2019, p. 33).
Preocupações com enfermidades orgânicas são existentes desde muito tempo. Na antiguidade as doenças eram atribuídas a espíritos do mal, punição divina ou forças da natureza desequilibradas. E enquanto a medicina se desenvolvia através do tratamento dos xamãs com a utilização de ervas, deuses eram invocados, exorcismos realizados e a cura, geralmente, atribuída a um milagre. Nesta época, pouco se conhecia sobre qualquer coisa. (BARBOSA e FRANCISCO, 2007, n.p.)
Apesar dos inúmeros avanços da medicina nas últimas décadas em relação ao câncer e ao tratamento da doença, ao descobrir um diagnóstico positivo para o câncer, automaticamente esse ainda é assimilado a dor, a desfiguração, perdas e principalmente à morte pela maioria das pessoas.
A percepção das vivências da morte e do morrer tem sofrido transformações ao longo do tempo histórico, acompanhando as transformações da sociedade no que diz respeito às atitudes diante da morte, evoluindo desde uma experiência tranquila – e até mesmo desejada – na Idade Média para uma possibilidade impregnada de angústia, temor e aflição, que deve ser evitada
6 Distúrbio emocional caracterizado pelo esgotamento profissional, muita exaustão, estresse e esgotamento resultante de extrema competitividade ou responsabilidade em um trabalho desgastante.
Disponível em: <https://saude.gov.br/saude-de-a-z/saude-mental/sindrome-de-burnout> Acesso em:
24 set, 2020.