1.3 CUIDANDO DO IDOSO
1.3.1 Considerações acerca do cuidar/cuidado
Desde o princípio da vida, para que houvesse manutenção e perpetuação da espécie humana, foi preciso cuidar.
Esse cuidado humano esteve evidente na forma de proteger-se das intempéries da natureza, na provisão de alimentos e água, na defesa do território contra inimigos e animais ferozes, no apoio à pessoas fragilizadas: crianças, parturientes e enfermos. E, não obstante o cuidado ser tão antigo, continua sendo necessário em dias atuais e o será enquanto houver vida no planeta.
Cuidar faz parte da essência humana. É uma atitude tão complexa que transcende o corpo, pois é necessário cuidar da mente, do espírito e do ambiente. Ultrapassa as fases do desenvolvimento humano, pois cuidamos antes do nascimento e após a morte. Perpassa as questões de gênero, raça, cultura e escolaridade. Cuidar transcende o plano patológico, pois se estende também ao homem sadio. Poderíamos dizer ainda que o cuidado é necessário a tudo aquilo que valorizamos: seres animados e inanimados.
A esse respeito o filósofo Boff (1999) comenta que o cuidado existe quando alguém ou algo é importante para quem cuida, fazendo com que se dedique ao objeto ou pessoa apreciada.
Numa abordagem etimológica Rossi (1991) afirma ser o cuidar originado do latim
cogitare, que significa cogitar, imaginar, pensar, meditar, julgar, aplicar a atenção, o
pensamento.
Cuidar é relacionar-se e relacionar-se implica em respeitar o semelhante com suas limitações, preocupar-se com ele, ocupar-se, envolver-se, responsabilizar-se, inquietar-se com o problema do outro.
Erdmann (1998) corrobora com esta visão ao afirmar que o cuidado humano é polifuncional, polivalente e que tem por essência a relação pessoa-pessoa.
A maneira de cuidar sofre influência do contexto sócio-político-econômico-cultural em que se desenvolve. Assim, a substituição da energia humana por máquinas, a partir da Revolução Industrial; a violência gerada pelo crescimento desordenado das cidades; a desigualdade social e a competitividade causada pela globalização tornaram tênue o modo-de- ser-cuidado humano.
Mas, o cuidado resiste de forma diversificada e universal mesmo diante da atual conjuntura social, política e econômica que propicia o egoísmo, a exploração e o domínio das elites.
O cuidado pode ser definido como o ato, a ação, a materialização ou a objetivação do cuidar. É tornar real algo que foi refletido, construído no imaginário – o cuidar.
O cuidar/cuidado é representado pelo senso comum como proporcionar conforto, tocar, proteger, ser paciente, ficar perto, tomar conta, respeitar, fazer para/com o outro (WALDOW, 2001).
A evolução do homem e do cuidado foi simultânea, resultando no surgimento de profissões especializadas em cuidar, como a enfermagem, responsável pela vigilância à saúde nas diversas etapas do desenvolvimento humano.
O cuidado favorece a solidariedade, o exercício da cidadania, aproxima as pessoas, valoriza o ser e o viver. Mesmo quando não há mais possibilidade de prolongar a vida, como no caso de doentes em fase terminal, o cuidar ainda é necessário com a mesma intensidade.
Nesse sentido, Waldow, Lopes e Meyer (1995, p.16) descrevem o cuidar/cuidado como “[...] um esforço em proteger, promover e preservar a humanidade ajudando pessoas a encontrar significado na doença, sofrimento e dor, bem como na existência”.
O cuidado não é pré-determinado, tampouco padronizado. O cuidado é personalizado, de acordo com as necessidades da pessoa num dado momento e com os recursos, material, físico e pessoal disponíveis.
De acordo com Collière (1989, p. 235-236):
Cuidar é um ato individual que prestamos a nós próprios, desde que adquirimos autonomia mas é, igualmente, um ato de reciprocidade que somos levados a prestar a toda a pessoa que, temporária ou definitivamente, tem necessidade de ajuda para assumir as sua necessidades vitais.
O autocuidado é algo aprendido desde a infância, desenvolvido (re)criado e transformado em situação de enfermidade, ou na velhice, quando o potencial para autocuidado tende a decrescer, sendo necessário o apoio de outrem para realizar as atividades básicas da vida diária.
A pessoa que presta cuidados a idosos fragilizados é denominada de cuidador. Observamos que as mulheres têm assumido com maior freqüência o papel de cuidadora.
Em face do novo perfil demográfico e epidemiológico configurado no Brasil, como o crescente número de pessoas idosas e alta prevalência das doenças crônicas, as mulheres têm revelado sua pluralidade enquanto cuidadora. Cuidam da casa, dos filhos, do esposo e dos idosos fragilizados.
Ser cuidador é uma condição aprendida, estimulada em maior ou menor grau por questões de gênero e cultura. Pode estar ainda vinculada a aspectos afetivos, à necessidade atrelada à falta de opção, à imposição, à religiosidade ou à vontade própria.
Para a efetivação do cuidado, o cuidador evoca valores culturais, conhecimentos das ciências humanas e naturais e experiências prévias de cuidado.
A pessoa que presta cuidados deve ser motivada e instrumentalizada para tal. Além desse aspecto, devem ser oferecidas também condições ambientais para o cuidado.
Algumas situações exigem do cuidador uma maior demanda de tempo e esforço físico. É o que acontece, por exemplo, nas atividades desenvolvidas por cuidadores de idosos
seqüelados de AVE ou em fase avançada de demência. Freqüentemente, esses cuidadores recebem pouca ajuda formal e informal, vivendo em prol do idoso seqüelado ou dementado.
Outros cuidam de idosos parcialmente dependentes, auxiliando-os nas Atividades Instrumentais da Vida Diária, conduzindo-os à consulta para avaliar a evolução de doenças crônicas, oferecendo a medicação no horário, preparando as refeições e ajudando-os nos cuidados higiênicos.
Tanto numa condição de dependência total quanto parcial, o cuidador e o idoso crescem mutuamente, pois cuidar implica em troca (SILVA, 1998). Há um feedback de afeto, de desenvolvimento, por amar e ser amado.
Por isso, não podemos classificar o cuidado como mais ou menos importante. Seria mais coerente classificá-lo como mais ou menos desgastante ou estressante, pois todo cuidado tem seu mérito, uma vez que envolve a multidimensionalidade humana.
Por fim, compreendemos que o cuidar/cuidado não pode ser visto separado. O último é resultado do primeiro. Enquanto aquele é uma atitude, este é um ato terapêutico de concretização da ajuda necessária à manutenção da vida, resultante de um interesse e preocupação com o bem-estar do outro.