2 INDÚSTRIA INTENSIVA EM TRABALHO: ENFOQUES TEÓRICOS E
3.6 CONSIDERAÇÕES ACERCA DO EFEITO COMPETITIVIDADE NA
Ao aplicar o método estrutural-diferencial para a análise da trajetória das exportações de calçados, móveis e vestuário dos principais países exportadores dos três setores e do Brasil, foi possível identificar substanciais diferenças entre os resultados do efeito competitividade.
Embora o foco do estudo esteja direcionado ao caso brasileiro, a análise comparativa entre o Brasil e países com melhor desempenho exportador dos setores em questão permite justificar em parte a fraca performance das exportações
8 Paraguai, Estados Unidos e Bolívia estão, respectivamente, na primeira, na segunda e na quarta posição entre os principais compradores do produto brasileiro (SIS, 2016).
9 Segundo SIS (2014), as exportações brasileiras de artigos de vestuário para os Estados Unidos em 2014 aumentaram 9% em relação a 2013. Isso reflete uma possível tendência de aumento do market
brasileiras. Nesse sentido, cabe comparar os resultados do efeito competitividade entre setores e economias selecionadas, uma vez que, como elucida Carvalho (2004), este componente reflete fatores internos do país e as mudanças dinâmicas nas exportações. Como afirmam Canuto e Xavier (1999), o efeito competitividade, mesmo sendo um elemento residual que não aponta os fatores que o definem, torna-se útil por resumir determinantes de naturezas diversas que interferem no desempenho exportador dos países.
As considerações a seguir tomam como base três aspectos. O primeiro se refere a literatura sobre a influência dos fatores críticos da competitividade nos diferentes setores, visto que, como afirma Possas (1999), existe um intenso componente setorial nas vantagens competitivas. O segundo abrange resultados da aplicação do método estrutural-diferencial em outros estudos que relacionam a sofisticação ou diversificação da pauta aos níveis de desenvolvimento econômico dos países. Corroborando este último, o terceiro aspecto envolve noções sobre cadeias globais de valor voltadas ao deslocamento geográfico da produção da indústria intensiva em trabalho. Para facilitar a interpretação, são expostos brevemente alguns tópicos da literatura referentes aos três aspectos, iniciando com a abordagem sobre fatores críticos da competitividade nos diferentes setores sob a temática dos padrões de competição setoriais.
Segundo Ferraz et al. (1995), os fatores setoriais determinantes da competitividade estão diretamente relacionados ao padrão de concorrência predominante em cada indústria. São fatores relacionados aos mercados consumidores, à configuração da indústria e ao regime de incentivos e regulação da concorrência. Em cada setor predomina um conjunto específico de fatores críticos para seu sucesso competitivo, e as regularidades nas formas dominantes de competição formam o padrão de competição setorial.
Pavitt (1984) caracteriza a indústria intensiva em trabalho como consumidora de inovações geradas em outros setores industriais, de modo que são os seus fornecedores de insumos e equipamentos quem detêm o domínio tecnológico sobre este grupo de indústrias. Sob essa perspectiva, Ferraz et al. (1995) elucidam que a indústria intensiva em trabalho é caracterizada pela produção de manufaturados de baixa intensidade tecnológica, destinados ao consumo final, independente do sistema técnico de produção adotado.
O baixo índice de tecnologia pode parecer uma barreira ao desempenho competitivo da indústria intensiva em trabalho, na qual estão incluídos os setores de calçados, móveis e vestuário. No entanto, Ferraz et al. (1995) afirmam que na trajetória de evolução do padrão de concorrência dessa indústria o fator crítico para a sua competitividade se define mais pela eficiência e eficácia da gestão de suas empresas do que propriamente pela geração de inovações.
Os resultados encontrados através do método estrutural-diferencial indicam diferenças de participação do efeito competitividade entre os setores e entre os países. Mesmo apresentando um padrão de concorrência comum, os três setores analisados contemplam características discricionárias entre si e seu desempenho exportador sofre influência de uma série de fatores distintos. São fatores que variam conforme as estratégias adotadas por suas empresas, sua estrutura industrial, seus mercados de atuação, seu sistema regulatório e características específicas (incluindo o grau de desenvolvimento) dos países onde produzem.
Ademais, com base nos resultados da aplicação do método estrutural- diferencial em outras pesquisas e na literatura sobre cadeias globais de valor, é possível considerar que o padrão de concorrência setorial tente a seguir o padrão de especialização das economias.
Estudos apontam a existência de uma forte relação entre o padrão de especialização, o desempenho comercial e o nível de desenvolvimento econômico dos países. A pesquisa de Hausmann, Hwang e Rodrik (2005) revela a tendência de um melhor desempenho econômico nos países com uma pauta exportadora mais sofisticada. Imbs e Wacziarg (2003), ao analisarem o padrão de especialização das economias, observam que a diversificação da pauta é uma estratégia mais vantajosa para os países menos desenvolvidos. Mas a partir de um determinado nível de desenvolvimento (renda per capita próxima a US$ 9 mil) existe uma convergência para a especialização da produção e das exportações. Com base no método estrutural- diferencial, Lima et al. (2015) avaliaram o desempenho exportador do Brasil e das seis economias que mais contribuíram para o crescimento das exportações mundiais entre 2000 e 2011. O resultado do efeito competitividade foi negativo apenas para os países desenvolvidos, cuja pauta exportadora é mais sofisticada. Assim, os autores constatam que o efeito competitividade parece ser influenciado pelo padrão de especialização dos países.
O paradigma das cadeias globais de valor também indica que há uma relação entre o padrão de especialização dos países e seu nível de desenvolvimento econômico. Também aponta a crescente diferença dos padrões de concorrência de um mesmo setor entre países desenvolvidos e emergentes.
A aceleração da integração dos mercados mundiais, a redução das barreiras tarifárias e o crescimento da concorrência internacional, acarretaram em mudanças na organização mundial da produção (CCGI, 2015). Por conseguinte, vem se acentuando a tendência de deslocamento de grande parte produção de calçados, móveis e vestuário dos países desenvolvidos para países emergentes. O principal incentivo para esse deslocamento é a busca por custos reduzidos de produção, especialmente relacionados à mão de obra. Nesse contexto, enquanto as indústrias dos países periféricos vêm competindo internacionalmente e se inserindo nas cadeias globais de valor tendo como vantagem seus custos competitivos, os países desenvolvidos orientam cada vez mais suas atividades industriais nas etapas de produção que empreguem maior sofisticação e valor agregado ao produto (SCOTT, 2006).
Frente à literatura exposta, é possível tecer algumas considerações sobre os resultados da participação do efeito competitividade. Como os setores de calçados, de móveis e de vestuário configuram uma pauta exportadora pouco sofisticada, a tendência é que países com menor grau de desenvolvimento apresentem melhor desempenho exportador nesses setores. Essa tendência ainda se intensifica com o crescimento do deslocamento geográfico da produção dos países desenvolvidos para países emergentes devido às diferenças dos custos de mão de obra.
Para melhor compreensão, a seguir são ilustradas graficamente as parcelas de contribuição do efeito competitividade a todos países selecionados (em ordem decrescente do ranking de exportações), setor por setor.
O Gráfico 19 compara a participação do efeito competitividade na variação das exportações de calçados de cada país. Observa-se que esta fonte contribuiu positivamente apenas para o crescimento das vendas externas dos calçados produzidos na China, no Vietnã e na Indonésia, sendo que nesses dois últimos países a parcela de contribuição foi superior a 50%. Por outro lado, a participação negativa do efeito competitividade foi bastante significativa na variação das exportações da Itália, e ainda mais expressiva no caso do Brasil.
Gráfico 19 – Participação do efeito competitividade na variação das exportações de calçados dos países selecionados – acumulado 2001-2014
Fonte de dados brutos: UN Comtrade.
O Gráfico 20 reúne os resultados do efeito competitividade nas exportações de móveis dos países analisados. De acordo com os dados, somente a China e a Polônia contaram com participação positiva e acima de 40% do efeito competitividade na variação das suas exportações no período. Nos demais países a contribuição deste efeito foi negativa, especialmente substancial nas exportações de móveis dos Estados Unidos (-87,0%), da Itália (-252,1%) e do Brasil (-431,0%).
Gráfico 20 – Participação do efeito competitividade na variação das exportações de móveis dos países selecionados – acumulado 2001-2014
Fonte de dados brutos: UN Comtrade. 25,4% -81,9% 55,6% -1,2% 55,5% -408,9% China Itália Vietnã Alemanha Indonésia Brasil
48,9% -19,4% -252,1% 40,7% -87,0% -431,0% China Alemanha Itália Polônia Estados
No Gráfico 21 abaixo estão reunidos os resultados do efeito competitividade na variação das exportações de vestuário de cada país no acumulado 2001-2014. Como pode ser observado, este efeito se revelou como fonte positiva para o crescimento das exportações da China, da Índia e do Vietnã, contribuindo com magnitude mais elevada nas vendas externas de vestuário deste último país. No caso dos países onde a participação do efeito competitividade nas exportações foi negativa, destaca-se o caso do Brasil, no qual a parcela de contribuição teve a magnitude de - 718,9%.
Gráfico 21 – Participação do efeito competitividade na variação das exportações de vestuário dos países selecionados – acumulado 2001-2014
Fonte de dados brutos: UN Comtrade.
Os resultados expostos nos gráficos acima indicam padrões distintos entre países emergentes, economias desenvolvidas e o caso do Brasil. Entre os principais países exportadores, a participação do efeito competitividade no crescimento das exportações foi positiva apenas no caso dos países emergentes, especialmente os asiáticos, cujos baixos custos de produção constituem fonte de vantagem competitiva e é o fator que motiva o reposicionamento de unidades fabris dos países desenvolvidos para o território asiático. Destaca-se o caso da China, país que, como afirma Scott (2006), vem se expandindo desde o início da década de 1990 como principal centro regional no mundo da indústria intensiva em trabalho, em termos de emprego e produção de baixa tecnologia.
42,3% -30,0% 74,9% 25,8% -19,4% -718,9% China Itália Vietnã India Alemanha Brasil
Já a participação negativa do efeito competitividade nas exportações da Itália, da Alemanha e dos Estados Unidos reforçam os estudos que evidenciam a existência de uma correlação entre padrão de especialização, desempenho exportador e desenvolvimento econômico dos países. Nesse sentido, a tendência é que a pauta de exportações dos países mais desenvolvidos seja mais intensiva em produtos sofisticados (o que não caracteriza o grupo industrial analisado). Ainda assim, esses três países estão entre as principais economias exportadoras dos bens em questão. Isso permite concluir que suas estratégias para esses setores estejam mais direcionadas a competição internacional pela sofisticação do produto do que pela estratégia de preços (o que é o caso de países como China, Vietnã, Indonésia e Índia, onde a mão de obra é mais barata e menos especializada nessas indústrias).
Portanto, parece evidente que o padrão de concorrência da indústria intensiva em trabalho segue o padrão de especialização das economias conforme seu nível de desenvolvimento. Estudos como os de Gorini e Siqueira (1999), Costa e Rocha (2009) e Galinari et al. (2013) mostram que, nos setores de calçados, de móveis e de vestuário, a sofisticação remete a diferenciação e a tecnologia, envolvendo atributos como qualidade, design e marca. Atributos característicos do padrão de concorrência de países como Itália, Alemanha e Estados Unidos.
O bom desempenho desses países no comércio internacional nos setores intensivos em trabalho – opostos ao seu padrão de especialização – é também justificável sob a luz do paradigma das cadeias globais de valor. Esse paradigma contextualiza um novo cenário do comércio mundial, no qual, segundo CCGI (2015), a especialização das nações deve estar mais concentrada nas atividades e funções comerciais do que propriamente no produto.
Nesse sentido, o processo de deslocamento geográfico da produção de calçados, móveis e vestuário foi tornando mais competitivas as indústrias dos países desenvolvidos, trazendo ao mesmo tempo benefícios aos países emergentes. Como elucidam Guidolin et al. (2010), no decorrer desse processo, enquanto a manufatura foi se estabelecendo nos países em desenvolvimento, os países mais desenvolvidos foram se concentrando nas etapas produtivas de maior valor agregado. Etapas como criação, fortalecimento de marca, design, marketing, além da coordenação das cadeias de fornecimento através de empresas varejistas ou detentoras de marcas globais de produtos. Conforme Cruz-Moreira e Fleury (2003), essas são atividades
exercidas por países que atuam como OBM (Original Brand Manufacturer) e global buyers nas cadeias de valor globais.
Guidolin et al. (2010) destacam que as exportações dos países atuantes como OBM e global buyers são superiores à sua própria produção, o que significa que parte dos bens exportados não é produzida internamente. São países que externalizam a manufatura, importam produtos acabados e os reexportam com marca própria. Esse é o caso da Itália e da Alemanha nos setores de calçados e de vestuário. Também é o caso da Alemanha no setor moveleiro, uma vez que suas exportações são superiores à própria produção.
Isso ajuda a justificar a contribuição negativa do efeito competitividade no desempenho exportador desses países, posto que, como elucida Carvalho (2004), este efeito pode estar relacionado à produtividade interna (inferior as exportações). Esse resultado também pode ser justificável sob a relação entre competitividade e produtividade enfatizada por Porter (1999). Segundo o autor, a competitividade de uma nação está impreterivelmente relacionada aos ganhos contínuos de produtividade que ocorrem no sistema produtivo formado por cada um dos setores e empresas pertencentes ao país. Assim, a redução da produção interna reduz a competitividade.
No caso do Brasil, a ampla participação negativa do efeito competitividade no crescimento das exportações dos três setores não pode ser explicada pela mesma lógica aplicada às principais economias exportadoras analisadas. Por apresentar resultados das exportações muito inferiores aos demais países no acumulado 2000- 2014 (inclusive dois dos setores apresentaram queda na variação total das suas exportações), o caso brasileiro merece especial atenção. Nesse sentido, a seguir é apresentada uma análise comparativa entre os resultados da participação dos quatro componentes na variação das exportações brasileiras de calçados, móveis e vestuário.
3.7 ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE OS COMPONENTES DO CRESCIMENTO