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1. REFLEXÕES ACERCA DA CRISE DE PARADIGMAS POLÍTICOS

1.3. Aspectos básicos da estruturação do Estado e da economia no

1.3.1. Considerações acerca dos projetos econômicos do Brasil: da

A primeira metade do século XX foi marcada por duas grandes guerras mundiais intercaladas pela grande depressão dos anos de 1930 cujo estopim foi crise econômica de 1929 e, na segunda metade do século com a independência de países dos Continentes Africano e Asiático além de regimes políticos ditatoriais em países da América Latina. Apesar de ainda não se falar de globalização20, os efeitos se

fizeram sentir por quase todo o planeta e o Brasil não escapou às influências das guerras e da crise.

A Grande Depressão nos anos de 1930 teve papel decisivo na transformação do modelo político e econômico brasileiro com o fim da chamada “política do café com leite” e, conseqüentemente, com a derrocada do “modelo agro-exportador” que, desde os anos de 1920, prenunciava as dificuldades com que a sociedade brasileira se depararia na década seguinte. A Revolução de 1930 caracterizou-se, portanto, pela desestruturação das chamadas oligarquias regionais e pelo fortalecimento do poder central.

Num ensaio denominado “Para uma Economia Política do Estado Brasileiro”, Fiori (1995. p.141) aponta que “a partir dos anos 30 e até os 50, se bem que as oligarquias não tenham sido efetivamente desmantelas, o poder central do Estado foi completamente reorganizado”21.

20 Concordamos com Anthony Giddens (2002) que assinala que a globalização é

política, tecnológica e cultural, tanto quanto econômica. Foi influenciada acima de tudo por desenvolvimentos nos sistemas de comunicação que remontam apenas ao final da década de 1960.

21 Para Frigotto (2000, p. 36) a revolução de 30, embora explicite mudanças e reformas

Justifica seu ponto de vista conforme segue:

Refez-se a Constituição do país, redefiniram-se os códigos e as regras econômicas, e formou-se nova burocracia especializada e meritocrática capaz de controlar as funções macroeconômicas e normatizar as principais áreas da produção nacional. Estava terminada a ‘República Velha’ (1889-1830) e se consolidava, entre as elites brasileiras, o apoio a um projeto nacional que teve no Estado o grande organizador da sociedade e da economia do país. Nasceu ali o ‘modelo desenvolvimentista’ responsável, sobretudo depois de 1950, pela industrialização brasileira (FIORI, 1995, p. 141).

A industrialização brasileira foi possível com a criação, pelo governo brasileiro, do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), da Petrobrás e da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), imprescindíveis para o modelo nacional-desenvolvimentista. Foi a “criação do arcabouço institucional básico [...] para alavancar [...] a modernidade industrial” (FIORI, 1995. p. 101), cuja base de sustentação fora formada pelo “tripé” capital estatal, capital privado nacional e capital internacional. Portanto, o papel do Estado neste processo é que possibilitou a alavancagem industrial. Assim, temos que na “Nova República” inicia-se a “Revolução Industrial Brasileira” cuja característica era de Substituição das Importações.

A partir de 1956, com o Plano de Metas que privilegiou o setor industrial, dá-se a “fase da internacionalização da indústria brasileira” e, conforme Fiori (1995), nos anos 50 o Estado brasileiro assume plenamente o ideário do desenvolvimento industrializante.

efetivamente uma ruptura com as velhas oligarquias. A elite industrial que se forjou nos anos 20 e após 30 é frágil e dependente das oligarquias agrárias.

Para Gabriel Cohn, citado por Costa & Mello,

A política econômica adotada por Juscelino baseava-se na realização de investimentos diretos, quase sempre precedidos de intensa emissão monetária, e na abertura ao capital estrangeiro. Tal estratégia econômica resultou na expansão e consolidação de um capitalismo extremamente dependente [...]. O controle externo sobre os mais importantes pólos industriais atingia altas proporções no início da atual década [1960], com tendência a crescer. Na indústria automobilística, de cigarros, eletricidade, variava entre 80% e 90%, na indústria farmacêutica e na mecânica, era da ordem de 70%, por exemplo (1999. p. 341).

Embora consideremos a diversificação da industrialização, extremamente significativa do ponto de vista da instalação de multinacionais no Brasil, o que as informações acima revelam é o elevado grau de dependência do desenvolvimento industrial brasileiro em relação aos países capitalistas do “primeiro mundo” ou do norte.

No início da década de 1960, após as “forças ocultas” terem levado Jânio Quadros à renúncia, seu vice João Goulart, levou adiante a política econômica nacionalista22 mesmo com o descontentamento de

setores da burguesia rural e urbana, de empresários nacionais e internacionais e setores populares. O descontentamento também atingira setores militares que, em 31 de março de 1964, depuseram o então presidente. “As razões do golpe de 1964 devem-se, dentre outras,

22 “O Ministério do Planejamento e da Coordenação Econômica, cujo titular era Celso

Furtado, partiu para a execução do chamado Plano Trienal. Elaborado no período parlamentarista, pretendia combater a inflação e realizar o desenvolvimento econômico, particularmente no setor industrial. Esse plano, entretanto, entrava em contradição com a política de mobilização popular em apoio ao governo, pois exigia grande austeridade” (COSTA & MELLO, 1999. p. 344).

ao esgotamento do modelo de substituição das importações” (COSTA & MELLO,1999. p. 352/353).

Com a instauração do regime militar, que perdurará até 1985, implementa-se:

Uma profunda reorganização institucional da política econômica, do sistema fiscal e financeiro e de administração pública [...] mantendo e aprofundando o modelo desenvolvimentista de industrialização cada vez mais solidamente sustentado pelo que se chamou ‘tripé’ econômico – o Estado associado aos capitais privados nacionais e internacionais (COSTA & MELLO, 1999. p. 141).

Podemos dizer, portanto, que qualquer tipo de ameaça ao desenvolvimento econômico industrializante teria de ser extirpada. A ameaça comunista vinda do Leste Europeu “pairava” nas mentes dos grandes líderes políticos e econômicos do Ocidente que julgavam ser preciso encontrar mecanismos que impedissem a “contaminação” do resto do mundo. Parte das estratégias adotadas foram as Alianças Militares na Europa, idealizadas pelo governo norte-americano visando impedir a União Soviética de expandir sua área de influência.

Dessa maneira, não é de se estranhar o elevado nível de influência e de sustentação dada pelos Estados Unidos aos militares quando do golpe de Estado em 1964 visando, dentre outros, a contenção dos ideais socialistas no Brasil que ameaçavam os interesses hegemônicos nacionais e internacionais, tanto que as primeiras medidas tomadas pelo marechal Castelo Branco após o golpe foi o fechamento de entidades estudantis e civis e intervenção nos sindicatos.

No governo do general Geisel (1974–1979), elaborou-se o II Plano Nacional de Desenvolvimento, destinado à consecução da industrialização pesada iniciada durante o nacional desenvolvimentismo. Porém este governo também se caracterizou pelo chamado fim do milagre brasileiro. Além disto, “esse governo representou o último esforço integrado e ambicioso de política estatal, e Geisel foi o último dos desenvolvimentistas, navegando contra a maré ideológica e econômica internacional” (FIORI, 1993. p.102).

Mais uma vez os “fenômenos da globalização” se faziam sentir com mais intensidade. A crise econômica internacional dos anos de 1970 quando houve duas grandes crises energéticas (em 1973 e 1978), o aumento das taxas de juros internacionais e a desaceleração da economia internacional tiveram papel crucial na crise brasileira dos anos de 1980. Com isso o ideal desenvolvimentista é colocado em xeque. O nacional desenvolvimentismo brasileiro teve inúmeras implicações para a sociedade. Ainda nas palavras de Fiori:

Após quase 50 anos de intervenção pública [...] o Estado criou uma ampla e complexa institucionalidade [...] o Estado brasileiro acabou montando burocracias econômicas competentes na Gestão de suas agências, bancos e empresas. Do ponto de vista social e econômico, essa modernização produziu extrema desigualdade [...] em contradição com o proposto nos anos 50 ... (FIORI, 1993. p. 102).

É inegável a nova configuração econômica e industrial do Estado brasileiro após a abertura do país ao capital internacional para a instalação de diferentes tipos de indústrias na segunda metade do século XX. Também é inegável que a produção de tamanha riqueza não foi destinada de forma eqüitativa aos que a produziram. Por isso a

referência às palavras de Fiori nos parece oportuna neste momento da reflexão, considerando as implicações de tal configuração na estruturação da sociedade brasileira em geral e no sistema educacional em específico.

Isto posto, apontaremos na seqüência fatos internos que tiveram grande peso na transição do modelo ditatorial ao regime democrático de direito.