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CONSIDERAÇÕES ADICIONAIS ACERCA DA JOINT VENTURE

CAPÍTULO 2- ESTRUTURA E DINÂMICA CONTRATUAL

3. JOINT VENTURE SOCIETÁRIA X JOINT VENTURE CONTRATUAL

3.3 CONSIDERAÇÕES ADICIONAIS ACERCA DA JOINT VENTURE

Em primeiro lugar, é interessante aqui se ter uma visão ampla da estrutura que comporta esse modelo de empresa comum. Na incorporated joint venture, existe um ente societário distinto das empresas fundadoras, acoplado em meio ao sistema de contratos característico da joint venture, o qual consiste no complexo contratual ilustrado acima na figura de Maristella Basso, formado pelo acordo-base e seus contratos-satélites.

Vale dizer que esse complexo contratual formado por acordo-base, ente-societário e contratos-satélites, é pensado logo ao momento de negociação das bases da joint venture, de modo a se criar certa harmonia entre cada uma das partes desse sistema, o qual ainda é composto em uma perspectiva mais ampliada pelas figuras das empresas fundadoras.

Diante deste complexo de relações acima exposto, surge uma discussão no âmbito da joint venture societária acerca do grau de relevância do ente societário em meio a esse conglomerado contratual.

De acordo com o pensamento exarado por Silva Morais97, quando as co-ventures optam por adotar como forma negocial uma incorporated joint venture, o ente societário que ali é constituído passa a se tornar o centro efetivo do funcionamento da empresa comum.

Em outra direção, Lima Pinheiro 98relata que o ente coletivo possui um alcance muito limitado dentro do contrato de cooperação de uma joint venture societária. Para este autor, frequentemente a base societária adotada apresenta um papel puramente instrumental, secundário ou até mesmo marginal em meio a todo o complexo contratual da joint venture.

97 SILVA MORAIS, Luis, Empresas Comuns (Joint Ventures), no Direito Comunitário da Concorrência, p.222

98 PINHEIRO, Luís de Lima. Contrato de empreendimento comum (joint venture) em direito internacional privado. Almedina: Coimbra, 2003.p. 79- 83

74 Neste sentido, importa mais ao funcionamento das joint ventures as relações entre as empresas fundadoras que se encontram externas à sociedade constituída.

Compartilhando dessa mesma posição, Luiz Olavo Baptista em seu trabalho “Les associations d'entreprises(joint ventures) dans le commerce international” destaca:

Très fréquemment, la joit venture existe sans société commune, ou celle-ci n‟y joue q‟un role secondaire, ou encore n‟est elle créée qu‟a une phase donnée du déroulement des accords. La choix entre

“corporatejoint venture” dote d‟une entité commune et “non-corporate joint venture” reposant sur d‟autres procédés, par exemple des participations croisées ou des accords purement contractuels, depend souvent de considerations extra-juridiques, nottament fiscales ou psychologique(…)”99.

Na intenção de validar sua posição, Lima Pinheiro cita uma gama de casos solucionados por meio da arbitragem, que segundo ele refletem este aspecto marginal do ente societário dentro da joint venture. Silva Morais, por sua vez, alega que o espectro de casos analisados por aquele autor foi por demais restrito, não representando, portanto, a realidade de dinâmica das incorporated joint ventures.

Tendo em vista estes dois modos de se enxergar a sociedade inserida no meio do complexo contratual de uma incorporated joint venture, faz-se pertinente a este passo se tecer alguns breves comentários.

De início, é de se reconhecer que uma sociedade posta em meio ao sistema contratual de uma joint venture pode sim possuir um alcance “limitado”, já que existem relações

99 SILVA MORAIS, Luis, Empresas Comuns (Joint Ventures), no Direito Comunitário da Concorrência, p.222, rodapé Apud BAPTISTA, Luiz e DURAND-BARTHEZ; “Les associations d'entreprises(joint ventures) dans le commerce international”, p.49 “Fequentemente, a joint venture existe sem empresa conjunta, ou esta só possui um papel secundário, ou ainda é criada somente para uma fase determinada de desenvolvimento de acordos. A escolha entre uma corporate joint venture, possuidora de uma entidade comum, e uma joint venture contratual, depende, sobre outras coisas de considerações extra-jurídicas, principalmente de caráter fiscal ou psicológico”(Tradução Livre)

75 externas à ela que prezam por uma concertação global do negócio empreendido, que buscam coordenar as vontades e interesses das empresas fundadoras.

Todavia, é válido relatar que essa “limitação” em nada impede que o ente societário constituído no meio do sistema contratual acabe por se tornar o centro de funcionamento de determinada joint venture. Muito dependerá do grau de limitação que as co-ventures queiram dar ao ente societário.

Deste modo, entende-se aqui ser pouco frutífera esta discussão acerca da limitação do ente societário dentro de uma incorporated joint venture, ao menos do modo como tal discussão é posta por Lima Pinheiro e Silva Morais.

Os referidos autores emprestam um caráter constante à sociedade conjunta dentro da joint venture, ao mesmo tempo em que os dois reconhecem que o que cada um deles defende não ocorre de forma obrigatória em toda e qualquer joint venture. Pergunta-se então, por que querer considerar regra o que reconhecidamente não o é?

A ausência de um espectro observacional satisfatório é um obstáculo que permeia todas as discussões existentes no universo das joint ventures, impedindo, em várias oportunidades, diversos pesquisadores de fecharem uma posição coerente acerca de determinados debates.

Nessa discussão que ora se coloca, sobre o alcance da sociedade dentro do joint venture, além de os dois autores em suas abordagens reconhecerem que nenhuma dessas posições são sempre obrigatoriamente observadas, existe mais um obstáculo importante à tentativa de generalização de qualquer uma das teses defendidas, qual seja, o fato de o debate acima apresentado girar em torno de tipos societários.

Ora, sabe-se que existem inúmeras formas societárias pelo mundo, mesmo na Europa, onde o debate entre esses dois autores se coloca na maior parte do tempo, existem diversos tipos societários em diferentes países. Até mesmo se o debate se colocasse no âmbito de um único país, enfrentaria sérios problemas, posto que mesmo em um único país existem diversas formas societárias, como é no caso do Brasil, com as limitadas, S.A`s, Sociedades em Conta de Participação, em comandita simples e etc, as quais possuem características e dinâmicas distintas em maior ou menor grau, a depender dos tipos que se compare.

76 Como então se faz possível intentar mapear a uniformização de um determinado comportamento, se os objetos observados, produtores de tais comportamentos, podem ser bastante distintos?

Entende-se aqui que não se faz pertinente, ante os obstáculos expostos, tentar generalizar o alcance das sociedades conjuntas em meio ao sistema contratual das incorporated joint ventures.

Relevante somente saber que a depender de uma série de fatores, a sociedade eleita pelos co-ventures poderá funcionar como mero instrumento complementar do complexo da empresa comum, ou como centro efetivo de funcionamento desta. Dentre estes fatores, é de se ressaltar a vontade das empresas-mãe, o tipo societário escolhido, o sistema jurídico ao qual a empresa comum estará submetida, bem como as necessidades e características do negócio conjunto a ser perseguido.

Saber que essas duas possibilidades são tangíveis a este tipo de joint venture, e que não há, portanto, uma tendência de atuação do ente societário em meio ao complexo contratual da joint venture, posto que tal tendência não se faz minimamente comprovável, pelos motivos que acima restaram expostos, é de relevante importância à hora de uma análise devida, seja do Direito Contratual, Societário ou Concorrencial, pelos órgãos fiscalizadores competentes. Uma pré-concepção errada de uma tendência não comprovável pode guiar tais análises ao erro desde o início da observação.

Dito isto, é de se ressaltar ainda três aspectos típicos dos contratos de sociedade que são também perceptíveis na empresa comum do tipo corporated, tal como ressalta Maristela Basso100:

a) a entrada com que os participantes contribuem para possibilitar a execução em comum do projeto ou operação;

b) a repartição dos lucros ou prejuízos;

c) o interesse comum dos participantes de que a associação atinja seus objetivos, em razão do qual exercem ou controlam a gestão do empreendimento;

100 BASSO, Maristela . Joint ventures: manual prático das associações empresariais.. 4ª. ed. Porto Alegre:

Livraria do Advogado Ed., 2002, p.44

77 Basso atenta ainda que, no âmbito desta categoria de joint venture, faz-se importante ter em conta ao momento de seu planejamento:101

a) o modelo legal de sociedade que será adotado, as contribuições a que se obrigam os sócios e os direitos de participação que caberão a cada um; b) preferência para adquirir participação do sócio que pretender transferi-la a terceiros; c) direito de voto nas deliberações sociais – se o contrato não é entre dois empresários com igual participação –proteção dos sócios minoritários contra modificações na sociedade por deliberação da maioria; d) a composição e atribuições dos órgãos de administração e mecanismos que assegurem a cada sócio representação nesses órgõas e poder de escolher um ou alguns administradores; e e) política de distribuição de lucros.

Apropriado ressaltar ainda, tal como abordado foi por Le Pera102, e como anteriormente já se foi abordado em outras oportunidades, que a escolha por uma corporate joint venture:

depende de vários fatores, principalmente a natureza do projeto e as características da legislação aplicável a essa sociedade. Se o projeto requer um investimento significativo em bens de ativo fixo (plantas, equipamentos) cuja a amortização deverá ocorrer de maneira mais ou menos linear, no curso de um período prolongado, a criação de uma sociedade ad hoc não é somente aconselhável, mas, em alguns casos, provavelmente necessária.

Ante o exposto, percebe-se que um contrato de joint venture societária requer atenção a várias e importantes questões, as quais devem ser previamente discutidas nas negociações de planejamento pelas empresas fundadoras, a fim de que a probabilidade de conflito futuro entre estas seja minimizada.103

101 BASSO, Maristela . Joint ventures: manual prático das associações empresariais.. 4ª. ed. Porto Alegre:

Livraria do Advogado Ed., 2002, p.45

102 Le Pera(1984, p.84) apud BASSO, Maristela . Joint ventures: manual prático das associações empresariais..

4ª. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado Ed., 2002, p.45

103 BAKAJ, Giovanna; Joint Ventures Internacionais: da Estrutura à Função; 2013

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