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5.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo específico de se compreender a problemática da aspiração histórica do Brasil a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (CSNU) é atingido com uma revisão histórica acerca do tema logo no capítulo dois, onde se analisam também as principais propostas de transformação advindas dos estados ativistas pela reforma do organismo e de elaborações teóricas de outras fontes. Inicialmente neste capítulo é apresentado um apanhado geral acerca da problemática da reforma; em seguida, passa-se a breve análise histórica progressiva sobre a aspiração do Brasil ao CSNU, partindo do início do extrato temporal delineado na metodologia, e as medidas tomadas no sentido de tornar possível e viável atingir este pleito.

O segundo objetivo, de conhecer-se o sistema internacional (SI), no âmbito dos estudos de segurança e defesa, explicitando a sua utilidade como unidade analítica das relações internacionais, é atingido no terceiro capítulo. No item 3.1 faz-se uma análise teórica do SI, e sua inserção e utilidade como unidade analítica no âmbito das teorias das Relações Internacionais, mais especificamente dos estudos de segurança e defesa. Ao passo que no item 3.2, compilamos as visões de cinco diferentes autores de notório saber na área de R.I. sobre como estes classificavam o SI.

No quarto capítulo, atingimos o objetivo de se fazer a caracterização do Sistema Internacional e, em função da posição relativa dos Estados em meio a este, da avaliação da compatibilidade entre o atual dimensionamento estratégico do país e a referida aspiração. Para tal intento estabelecendo também a opção de, neste trabalho, conduzir-se uma classificação polar do Sistema, com base nos pressupostos estabelecidos por Randall Schweller e em função da adaptação que fizemos da Fórmula de Cline, bem como da escala de potências elaborada pelo autor. Gráficos e um mapa também ilustraram os resultados obtidos.

Ainda neste capítulo, procedemos à adaptação da fórmula e então a sua aplicação, da qual resultaram tabelas, gráficos e mapas. Com a adaptação da fórmula, selecionamos também as variáveis que seriam consideradas no cômputo das capacidades estratégicas de

cada Estado. Além de escaloná-las em uma pirâmide de elasticidade, com o objetivo de observar a capacidade do Estado de manter seus níveis de poder ao longo do tempo.

Nas Tabelas, apresentamos o desenvolvimento e aplicação da Fórmula, e em seguida, distribuímos os estados em novas tabelas, sendo estes ranqueados em função das posições relativas que ocupavam em cada uma das variáveis apresentadas. Em seguida, distribuímos os Estados em uma escala de potências previamente elaborada e em função de critérios matemáticos objetivos. Sendo estes classificados de acordo com o índice de poder que obtiveram em nossos cálculos. Após o que elaboraram-se dois gráficos. Em um deles apresentamos o índice de poder, em porcentagem, de cada estado no SI, relativamente ao conjunto de atores estatais que o compõem. No outro fizemos uma comparação entre o índice de poder do somatório de capacidades dos membros do G-4, com relação ao mesmo índice referente às nações do G-5, avaliando-os comparativamente.

Após esta avaliação, constrói-se um mapa parcial do mundo político, em função das relações de poder apresentadas entre os atores. Tal mapa foi elaborado tendo-se por base os estudos de José Luiz Niemeyer dos Santos Filho e Paulo Sérgio de Souza Coelho e serviu para refletir os resultados de nosso estudo.

O objetivo central deste trabalho de conclusão de curso em Relações Internacionais foi a comparação entre o atual dimensionamento estratégico do Brasil, em relação à sua compatibilidade com a aspiração do país a um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O dimensionamento estratégico do país foi avaliado em função do conceito de estratégia estabelecido por Clausewitz. Do qual se demandou a necessidade de quantificar o poder dos atores que atualmente compõem o CSNU, e dos parceiros do Brasil no ativismo pela sua reforma. Tal intento foi atingido ao longo do capítulo quatro. Entendemos, assim como Marx, que algumas questões devem ser compreendidas à luz da história. Esta, para nós, é uma delas. Ao longo do segundo capítulo, compreendemos que o atual dimensionamento do CSNU se deu em função de uma realidade existente no Sistema Internacional pós-segunda- guerra. Entretanto, tal realidade já é hoje muito distante da distribuição de poder no Sistema Internacional Contemporâneo, tal qual nossos estudos demonstraram no capítulo quatro.

Se tal realidade dista do momento atual do SI, por outro lado também se pode observar ao longo do capítulo dois que a instituição do CSNU é, para a opinião do autor, algo conservadora, pelo que o rompimento das barreiras de entrada dependerá certamente da

ampliação relativa do índice de poder do G-4 em relação ao G-5, de conjunturas críticas que possibilitem momentos de ruptura no SI com a ascensão das nações do G-4 e declínio progressivo das do G-5. Ou simplesmente da possibilidade do G-4 de acumular poder relativo o suficiente para forçar as nações do G-5, pelos meios que considerarem possíveis e convenientes, a aceitar o seu pleito.

Nesta instância, o que notamos foi, em primeiro lugar, a realidade do mundo contemporâneo, em uma avaliação com nossa metodologia, só pode ser estabelecida como tripolar. Para os mais detalhistas, quem sabe, uma tripolaridade desequilibrada, já que dois dos três polos detêm no momento uma vantagem muito grande em relação ao terceiro, que pode ser considerado como um polo emergente, ao passo que os outros dois já são polos consolidados.

Os polos consolidados já detêm espaço no órgão de segurança da ONU, ao passo que o terceiro ainda não. O terceiro já obteve de um dos polos consolidados, no caso os EUA, o aceite de seu pleito, todavia, em considerando a posição regional da China, e a capacidade da Índia de opor-se à aspiração desta de consolidar-se como “Hegémona Regional”, é improvável que aquela venha a ceder facilmente qualquer tipo de instância de legitimidade ou espaço de poder para a outra. Aqui não queremos dizer que um polo é incapaz de ascender ao CSNU, haja vistas tomarmos o poder como variável central na caracterização do SI, apenas que um ator, que anteriormente possuía um determinado espaço nas instituições internacionais, a depender de sua envergadura, pode conseguir bloquear ao longo do tempo a ascensão de outro polo aquela institucionalidade. Como no caso da exclusão inicial da URSS da Liga das Nações. Entretanto essa perspectiva é arriscada e pode levar a uma instabilidade ainda maior em um determinado sistema, e a busca de rupturas por um dos polos.

Em meio a esta perspectiva, ainda existem os LGPs, que traçam suas estratégias em meio a um maior ou menor alinhamento em relação a qualquer dos polos. Podendo ainda estes em aliança formar um quarto ou até um quinto polo. Notando-se por aqui um alto nível de competição entre as potências, por espaços de poder. Parafraseando o Dr. Rogério Santos da Costa (em conferência realizada no dia 1º de junho de 2012) horas antes de estas considerações finais serem escritas, tal nível de competição, provavelmente não era visto desde os momentos que antecederam a primeira e a segunda, grandes guerras.

Diante deste panorama, apresentado por nossa análise sistêmica, conseguimos enquadrar o Brasil relativamente a suas capacidades estratégicas no sistema internacional contemporâneo, como um Lesser Great Power.

Dentro de todos os países estudados, notamos que as capacidades do Brasil estão bastante próximas das de Rússia, Alemanha e Japão, enquanto que se distanciam bastante das do polo mais fraco, no caso a Índia, e estão demasiado longínquas das capacidades compartilhadas pelos dois polo mais poderosos, EUA e China. Ainda é possível observar que, adotando-se nossa metodologia, o Brasil já ultrapassa na média ponderada de suas capacidades o poder relativo de Reino Unido e França, estes dois membros do G-5.

Tendo em consideração o acima explanado, poderíamos concluir que, em nossa visão, bem como na visão geral dos atores estudados ao longo desta pesquisa, o CSNU é incompatível com a realidade vigente no Sistema Internacional contemporâneo. Tal conclusão, para o autor, surgindo da exclusão de um dos polos deste órgão e da presença de dois LGPs menores, ao passo que outros três LGPs maiores, e mais o polo supracitado, encontram-se fora do sistema.

Entretanto, não é tão simples, outra observação que fizemos, é que o poder dos LGPs menores que estão no CSNU é amplificado por armas estratégicas de destruição em massa. Sendo que os LGPs que se encontram fora do órgão não compartilham de tais possibilidades, levando este autor a crer que o mais provável é que das aspirações do G-4, o único caso em que haja compatibilidade absoluta entre a conjunção de poder militar, aspectos econômicos, território e população para compor o CSNU é o da Índia. Claramente, trabalhando-se em uma perspectiva realista das Relações Internacionais, onde não há grande confiança nas instituições e a variável central é o poder. A quantificação de quanto o poder de um Estado amplifica-se com tais artefatos pode vir a ser objeto de futuras pesquisas, e a sua inclusão na variável de quantificação de poder certamente aprofundaria a visão sistêmica com resultados mais apurados.

Se adotássemos, todavia, uma perspectiva liberal, com confiança nas instituições internacionais, no peso da opinião pública internacional entre outros jaezes, certamente que a aspiração do Brasil ao CSNU seria legítima e as dimensões e cálculo de poder do país, incendendo sobre variáveis não militares, ao contrário de comprometer suas expectativas, viriam a somá-las. Finalmente, em uma perspectiva marxista, pode-se concluir, quem sabe, que o país poderia somar-se ao órgão caso os poderes dos conglomerados e do capital internacional vissem em tal fato oportunidades para ganhos econômicos.

Maneira geral opta-se por uma visão intermitente entre o Realismo e o Marxismo. Tal visão surge da epígrafe deste trabalho, em afirmações de Donald Rumsfeld de que diplomacia sem poder militar é jogo de retórica, de um lado, e das considerações sistêmicas

econômicas do marxismo, que apontam na internacionalização do capital, e na dicotomia centro-periferia variáveis passíveis de ponderação.

De modo que, em nossa opinião, o CSNU é antes de tudo um arranjo defasado quanto a sua proposta de manutenção da paz e segurança global, do mesmo modo que carece de legitimidade, pois conforma atores cujos índices de poder são reduzidos em relação a atores excluídos de tal instância decisória. A exclusão destes atores, na visão deste autor, ameaça todo o sistema ONU, haja vista a crescente competição sistêmica observada. Por fim, seguindo esta linha de raciocínio, a ameaça maior é justamente a exclusão de um dos polos do Sistema. Quando um polo se vê prejudicado em seus auspícios diplomáticos, a tendência é, na lógica realista, que trace sua estratégia em função de consegui-los de outro modo, o que faz com que, por exemplo, a Índia, após consolidar sua posição polar, exija da ONU o respaldo institucional a tal situação, do contrário, retirando legitimidade à organização. Não custa aqui relembrar o exemplo da Liga das Nações.

Sendo o atual arranjo incompatível com o SI contemporâneo, do que se infere de nossa análise, a aspiração do Brasil pode vir a ser compatível com esta incompatibilidade, em algum momento conjuntural do SI. Em nossa visão, o SI devia ser composto pelos polos de poder mundiais, bem como pelos fiéis da Balança, ou seja, LGPs, que mesmo sem conformar um polo, poderiam fazer a balança de poderes pender para determinado lado.

Seguindo esta lógica, o conselho deveria admitir os polos independentes e até no mínimo o segundo patamar de potências abaixo do patamar dos polos mais elevados, pois estando a este nível, provavelmente, a soma de quaisquer dois Estados poderia conformar uma quarta polaridade. A inclusão de mais um patamar, em não havendo mais de um estado naquele terceiro nível, como se dá neste retrato, deve ser alvo de apreciação, e os maiores entre estes deveriam estar no órgão.

O instituto do veto deveria ser concedido somente aos polos. Um instrumento alternativo, de veto multilateral deveria ser criado, com membros permanentes, sem poder de veto absoluto, mas que poderiam assinar um veto bilateral ou trilateral. Resumindo, o número de estados no quarto patamar que fosse suficiente para formar um polo deveria ser igual ao número de assinaturas de membros permanentes sem direito a veto individual para oferecer um veto coletivo.

O estatuto de veto deve ser ampliado também a uma coligação de países rotatórios. Digamos, se existissem 9 Estados permanentes, 3 deles com poder de veto

absoluto, e outros 6 com veto relativo, os 3 primeiros poderiam vetar individualmente uma resolução, os 6 próximos caso apresentassem o veto em conjunto que incluísse um mínimo de 3 deles.

Ou seja, estabelecer-se-ia uma maioria qualificada de sete votos, sem os quais a resolução não seria aprovada entre os membros permanentes. Existindo ainda 15 estados não permanentes, 10 votos negativos destes, devendo nesta mesma lógica ser suficientes para poder vetar uma resolução. Claro que a ONU ainda assim só seria respeitada enquanto os Estados a respeitassem, mas a democratização da instituição e do CSNU, mais especificamente, poderia recompor os índices de legitimidade perdidos com as ações unilaterais dos EUA que ocorreram na era Bush e pós 11 de setembro (2001).

Como últimas considerações, concluímos que diante de todas essas visões, a legitimidade do Brasil para ascender a membro permanente do CSNU é relativa ao modo como se observa o SI.

Um observador liberal ao ler este estudo concluiria provavelmente que sim, o país pode e deve compor o órgão. Para este, entretanto, provavelmente as decisões no SI deviam se dar de maneira ainda mais democrática. Sua opinião podendo se repetir em relação à proposta do G-4, ou a uma proposta de que as decisões passassem todas pela Assembleia Geral, ou ainda, quem sabe este mesmo observador desejasse uma democracia de governança global, com os votos dando-se em igual peso relativamente à população dos estados.

Na perspectiva realista, a lógica seria simples, parafraseando anúncio da Sukhoi, na promoção de seu caça Su-27 no Brasil102: “Poder é poder, não requer adjetivos!”. O observador realista desejaria que o país obtivesse armas nucleares e reforçasse seus índices na variável militar. Isso faria do país temido e respeitado, e simplesmente ele seria parte do CSNU, por que qualquer decisão tomada sem este seria estúpida, já que ele poderia por seus próprios meios movimentar o cenário internacional de acordo com as sua própria estratégia e necessidade de sobrevivência. Não negociar com tal ator significaria não apenas não ter legitimidade, significaria perder tempo e dinheiro escrevendo resoluções que este e seus aliados rasgariam.

Dentro desta lógica, a única coisa que faltaria ao Brasil para sentar no CSNU, haja vista que ainda não se estabeleceram alianças definitivas, e o peso do país, muito embora bem

102 SUKHOI. Revista Força Aérea, Rio de Janeiro: Action Editora, n. 10 mar./abr. 1998. Rio de Janeiro: Action

menor que o de outros atores, ao somar-se a uma ou outra aliança poderia ser determinante, seria possuir armas estratégicas de destruição em massa que potencializassem sua variável militar, já que é apenas isso que têm a menos em relação a outros LGPs menores, que entretanto sentam em pé de igualdade com as outras potências.

Como sugestão para desenvolvimentos futuros, está o trabalho na quantificação da variável estabelecida por Cline, de determinação nacional. A qual foi excluída por absoluta impossibilidade de coleta de dados, já que dentro do modelo aqui proposto com a distribuição das potências em escala obtida em função do fracionamento progressivo do total do cômputo de poder do SI, precisaríamos dos dados referentes a todos os países, o que não se pode encontrar, nem mesmo em relação aos objetos de estudo. Os estudos conduzidos nesta variável vão entretanto em apêndice ao trabalho e servem para que o pesquisador que esteja lendo este trabalho possa ter algo por onde começar. Este autor, com aguçada curiosidade em relação a conseguir transformar esta variável que grande parte dos colegas consideram extremamente subjetiva em algo mais objetivo, deverá, no seguimento de sua carreira acadêmica aprofundar-se neste tema.

Logicamente a exclusão desta não compromete tal trabalho, haja vista que aquela variável, se pudesse ter sido inserida neste estudo, ocuparia o posto da pirâmide de elasticidade, servindo, na opinião, mais a um retrato momentâneo do SI do que a capacidade dos atores de manterem ou restabelecerem seus índices de poder ao longo do tempo.

Para encerrar, agradecemos a quem tenha lido esta pesquisa, e esperamos que lhe tenha sido útil. Como não podia deixar de ser, um pesquisador deve distanciar-se de seu objeto de estudo, mas após os estudos, em havendo algum debate teórico, é preciso ter a coragem de se posicionar.

Pelo que exponho aqui a minha visão do poder como variável central nas relações internacionais, e minha convicção de que a aspiração do Brasil ao CSNU só será compatível com seu dimensionamento estratégico quando este adquirir a única característica que os membros menores do G-5 detêm e o mesmo não.

As pesquisas deste autor, em sua própria opinião, confirmam a necessidade do Brasil de contar com armas estratégicas de destruição em massa. No mais, continuar fortalecendo sua economia, e estabelecer alianças capazes de futuramente obter ganhos relativos, subindo de potência para média potência em nossa escala.

Então, suas características lhe permitiriam dar o passo seguinte, na expectativa conjuntural da situação que lhe possibilitasse ascender a um polo. Situação complicada, haja vista que teria de basear seu poder sobre as variáveis econômicas e militares. Isso é o que observamos dos EUA, país polar mais semelhante ao Brasil em termos territoriais e demográficos, mesmo culturais.

Entretanto, outras variáveis, como a determinação nacional, são de elevada subjetividade, difícil cálculo, mas têm seu valor. Em nossas inconclusas observações no que tange a esta, conseguimos notar que o país superava todos os demais estados pesquisados.

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