A mudança são encontro de mundos que se movem (Ericson Pires)
Não foram poucas as mudanças por mim presenciadas, ao longo de sete anos em contato com a roda de samba. Termino a dissertação em meio das maiores transformações dentro do grupo Botequim, momento em que Ênio Bernardes e Daniela Amoroso saem do grupo e Pedro Abib vai fazer o pós-doutorado na França. À frente do grupo, ficam Roberto Ribeiro e o percussionista Everton Marco. As rodas de samba, atualmente, passaram a acontecer nas quartas-feiras e, aos poucos, os atuais integrantes vão se reestruturando para voltarem a realizar as rodas de sexta. Por serem muito recentes as saídas e a ausência de alguns integrantes do grupo não tive tempo de analisá-las. Mas, são ironias do destino que nos atravessam no fim de uma escrita para desestruturar algumas certezas efêmeras que aparentávamos ter. Isso me faz pensar como um trabalho é, de fato, algo sempre inacabável e que, assim, esperamos que venham outros para continuar aquilo que demos início.
Por outro lado, aqui e acolá, ouço notícias de rodas de samba sendo realizadas por outros grupos de pessoas e isso me traz felicidade. São os filhos de um movimento que busquei relatar, na dissertação, e instaurou novos redutos de samba em Salvador e lembrou- nos de que aqui existiram e existem ainda sambistas renomados, uma Velha Guarda baiana. Inclusive, a pesquisadora que aqui escreve vem buscando realizar rodas em outros bairros da cidade e, hoje, orgulha-se de fazer parte de um coletivo que trouxe para o carnaval soteropolitano um bloco de samba, o De Hoje a Oito, que sai no Santo Antônio Além do Carmo, em circuito alternativo. Bloco que é também fruto dos encontros gerados pelas rodas de samba, organizadas pelo Botequim. Concluir aqui é como está dito, no título, é dizer que o samba não pode parar o que, já está garantido, não vai mais acontecer.
Como vimos, as rodas de samba descritas surgem a partir do agrupamento de pessoas que se reúnem para celebrarem a vida comum, tecendo trocas sociais e simbólicas, instituindo regras, espaços e tempos, um jogo ritualístico e festivo, assumindo um jeito de viver, de
cantar, tocar, dançar e vestir-se, e organizando-se de maneira própria e para si próprias. Não é apenas o gênero musical “samba” que agrega as pessoas em torno da roda, mas a possibilidade de reconstruir uma ligação identitária.
Pretensões, na escrita de um trabalho, temos muitas. No meu caso, vão além de um registro que considero também importante. Mas, a maior delas está para mim relacionada aos futuros educadores e ao futuro dos estudos em educação. Venho, atualmente, me filiando, através de redes digitais, aos movimentos que pensam em uma sociedade sem escolas. Heresia? Não tanto. Utopia, talvez. Mundo a fora, estão sendo relatadas experiências de educação domiciliar e de desescolarização. Nós, pedagogos, não podemos estar à parte de tais discussões. Que o presente trabalho sensibilize os olhares daqueles que acreditam que a educação é um domínio privativo das instituições e que somente, dentro da academia, pensa- se sobre ensino e aprendizagem.
Creio que os extensos depoimentos trazidos, ao longo de toda a dissertação, demonstram que o processo educativo e as reflexões sobre ele podem ser elaborados no dia a dia com pessoas não graduadas, nem pós-graduadas, porque qualquer um pode conceituar, interpretar as experiências que vivencia, construindo teorizações e saberes, às vezes, muito mais vinculados à vida do que aqueles que construímos dentro de salas de aula.
A roda de samba é, apenas, um entre tantos espaços onde são tecidas relações de aprendizagem em que os saberes são construídos e compartilhados para vivermos juntos. Aliás, como já foi dito, aprender é uma característica intrínseca a existência humana. A prenhez educativa só acontece verdadeiramente, inclusive, quando não jogamos fora o que é considerado dejeto no universo escolar: as histórias de vida, a diversidade cultural, a alteridade; quando, enquanto sujeitos da experiência, deixamo-nos ser invadidos por paixões, emoções e padecimentos; quando nos abrimos ao outro, ao mundo e a nós mesmos.
Trabalhar intensamente com as interpretações, frutos de interações subjetivas entre pesquisadora e pesquisados, foi de um grande aprendizado na minha itinerância teórico- metodológica. Em determinadas horas, lembrava-me de um texto de James Clifford, a
autoridade etnográfica, que discute variadas formas de escrita antropológica e, assim, sentia-
me autorizada a usar muitos depoimentos que colhi durante as entrevistas, definindo, assim, mais uma escolha metodológica. O mergulho no processo de significação dos bambas da pesquisa foi, eu diria, a parte mais rica da pesquisa. Era como se tudo o que eu desejava dizer estivesse em cada fala, em cada gesto de onde tirei as minhas categorias de análise e toda a
inspiração para finalizar a escrita dissertativa. A escrita é feita de encontros. E, aqui, isso é inquestionável. Vejamos o que os bambas esperam da presente pesquisa:
Eu fico tentando saber, né, como é que vocês fazem esse negócio, defende umas parada que é muito, como eu vi hoje, frenética, né? Você com o negócio da desocupação e tal (Roberto refere-se à pesquisa de Francine), num sei o quê. Eu falo o quê? "Porra, velho, cês vão defender uma parada que é importante prum meio e tal, pra uma coisa, mas num sai da academia não, é? É aprovado, massa. E ai? Mas, essa porra alguém tem que saber, tem que ir, né, pra algum lugar, pra tá lá, né? E alguém se sensibilizar com isso também. "Porra, você escreveu sobre isso aqui. Massa! Eu vou correr atrás disso, né, pra poder..." - Mas, eu acho importantíssimo, véio. (Roberto Ribeiro).
E Paula Oliveira:
Eu só... O que eu quero falar eu acabei já falando antes, que é agradecer muito pelo seu trabalho, né? Que isso abra as portas e os ouvidos de muitas pessoas, que às vezes vê e acha de uma forma, como eu ouço falar muito que certas pessoas, que eu julgo hipócritas, né, faça mal do samba, não quer que ouça samba. Isso não existe! O samba é cultura, o samba traz coisas boas, né? E gostaria que eles, essas pessoas pudessem conhecer o seu trabalho e ouvir um pouquinho o que é o samba, porque pensa que samba é coisa de maloqueiro, de pessoas que num têm nada na cabeça, que num trabalha, que num se dedica, que num quer conhecer, num quer melhorar. Num é nada disso. Todos trabalham, todos têm suas profissões, temos nossas ideias, queremos crescer, lutamos pra isso. E o samba é um aprendizado, né? Num é chegar lá e fazer, como nós falamos, de qualquer jeito. Exige um estudo, uma dedicação, como qualquer outro trabalho. Merecemos o nosso respeito, né, por nos dedicarmos e fazer esse trabalho também. (Paula Oliveira).
Despeço-me, na conclusão da dissertação, da roda de samba enquanto o contexto das minhas futuras pesquisas, até porque, agora, preciso vivenciá-la como uma cidadã despretensiosa. Mas, jamais abdicarei por lutar, não como artista, mas como pedagoga, por uma educação que origine agrupamentos humanos que organizam espaços onde o saber esteja atrelado ao modo de viver de uma cultura, fazendo sentido e trazendo grandes contribuições para a vida.
Assim, diante de tudo isso, vos digo que não existem palavras que possam explicar o meu encantamento diante das experiências rememoradas, diante dos encontros subjetivos com os informantes da pesquisa, diante da roda de samba. Se o olhar é um ato interpretativo e se interpreto, apenas, o que me toca, não poderiam ser outras as experiências aqui descritas e
analisadas, mas apenas as que acabaram por me transformar e transformar as minhas próprias concepções de educação. Educação que acredito ser um processo polissêmico, inerente à vida humana, à cultura e que jamais deve abdicar do prazer e da alegria de viver em coletividade. Deixo abaixo algumas sensações que me foram relatadas, vivenciadas ao final de uma roda de samba:
Pô, tem dia que, quando a roda termina, parece que tá começando alguma coisa assim. Termina cheia de, cheia de energia, cheia de vontade de conversar, cheia de vontade de trocar, de dar risada. A maioria das vezes é assim. É muito difíicil acabar uma roda que cê tá "Ai, num aguento mais!", porque tem essa retroalimentação, assim, o tempo todo. [...] É, sempre essa, cheio de alguma coisa que aconteceu ali. É uma sensação gostosa, quando acaba a roda. Gostosa mesmo! (Daniela Amoroso)
"Ai, acabou?!". Geralmente era essa. "Eu quero mais!"- Geralmente é isso, querendo mais. (Francine Cavalcanti)
De um trabalho terminado, bem feito, de alegria passada. Eu sinto como tivesse lavado a minha alma, como se eu tivesse pronta pra enfrentar os problemas da semana seguinte e esperar a próxima roda. Assim que eu me sinto. (Paula Oliveira)
Que, ao final da dissertação, os leitores tenham sensações de “quero mais”; “de uma alegria passada”; “cheios de vontade de conversar”. E que, sobretudo, sintam-se inspirados para trazer para dentro dos cursos de formação de educadores a riqueza do saber cotidiano e lembrá-los de que a vida e os agrupamentos humanos são quem de fato nos ensinam e nos educam para sermos mais sonhadores, desejosos e solidários.
REFERÊNCIAS
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APÊNDICE A - Roteiro para entrevistas com os bambas da pesquisa
I. IDENTIFICAÇÃO 1. Nome completo 2. Profissão 3. Idade 4. NaturalidadeII. QUESTÕES NORTEADORAS DA ENTREVISTA
1. Você poderia falar um pouco sobre a sua história de vida, sobre as razões que te levaram à roda de samba?
2. Você poderia falar sobre a sua trajetória na roda de samba, mais especificamente em relação às rodas do Botequim?
3. Como você define uma roda de samba? Quais as principais características de uma roda de samba?
4. De quais formas uma pessoa pode participar da roda de samba?
5. Que tipos de dificuldades você encontrou para entrar na roda de samba? Estas dificuldades ainda permanecem?
6. Qual o significado da roda de samba pra você?
7. O que é mais importante e marcante, pra você, nas rodas de samba?
9. Certa vez, eu ouvi de alguém que as rodas seriam o verdadeiro espaço de formação do sambista. Você concorda com isso? Por quê?
10. Você poderia citar e comentar alguma de suas canções preferidas?
11. Teria como você diferenciar as rodas de acordo com o lugar onde elas acontecem?
12. Você prefere (ou se identifica mais com) algum lugar especificamente? Por quê?
13. O que é necessário para dar início à roda de samba?
14. Você poderia descrever a dinâmica da roda de samba?
15. É possível falar sobre a existência de regras ou de determinados códigos próprios das rodas de samba? Quais seriam eles?
16. O que define o fim de uma roda de samba?
17. Quais as sensações que você tem quando a roda termina?
18. Fala-se muito da “energia da roda”, como também se fala do “clima da roda”, né? O que seria, pra você, essa energia e esse clima? E o que, pra você, interfere na “energia” e no “clima” de uma roda de samba?
19. O que significa, pra você, o malandro e a malandragem?
20. Você se recorda de algum momento importante vivido durante uma roda de samba ou de algum momento importante que foi decorrente das rodas? Momentos vividos com pessoas que você conheceu nas rodas, por exemplo.
21. Qual a diferença, pra vocês, entre a “comunidade” e a “diretoria” do samba? De onde é que você acha que vieram estas definições e por que elas foram e continuam sendo utilizadas no universo do samba?
22. Você poderia citar alguns outros termos específicos do universo da roda?
23. Você percebe mudanças nas rodas ao longo dos últimos anos? Quais seriam, pra você, as principais mudanças?
24. Você percebe mudanças nas pessoas que frequentaram e frequentam as rodas com o passar do tempo? Você pode citar algum exemplo, se quiser.
25. E, em você, quais foram as principais mudanças que ocorreram? Dá para traçar um antes e um depois das rodas de samba na sua vida? Por quê?
26. O que é que você pensa em relação a uma pesquisa sobre a roda de samba em educação?
27. Você gostaria de falar mais alguma coisa que não foi perguntada e/ou dita aqui? Como foi pra você a entrevista?
APÊNDICE B – Entrevista com Roberto Ribeiro
Data da entrevista: 14 de março de 2013
Pesquisadora/ entrevistadora: Maíra Valente de Souza (M) Entrevistado: Roberto Ribeiro (R)
Maíra: Nome?
Roberto: Roberto Ribeiro dos Santos
M: Profissão
R: Profissão, o samba. Música, sambista. Mas, também trabalho com projetos industriais. Tenho duas labutas
M: Idade
R: Agora, nesse momento, 31 anos
M: Cê é daqui de Salvador, né?
R: Eu sou, Graças a Deus
M: Nasceu? Nascido e criado?
R: É
M: Certo, vamos lá. As três primeiras perguntas você já falou, a gente já conversou sobre isso. É... Quais são pra você as principais características de uma roda de samba?
R: Principais características... É, energia positiva, é a comunhão pelo samba, quando o samba é o nome maior a ser zelado ali, é, pra não fugir do contexto, que têm umas rodas de samba
que é meio estranha. Daqui a pouco toca até sertanejo. É, alegria, a dança, né? A dança, a paquera, né, os amores também, né? Paquera é uma coisa, amor é outra. Né? Acho que é isso.
M: As principais características?
R: É. E, se num tivesse alegria e se num tiver a vontade de tá ali pelo samba, né, se num dançar, se num... O samba não acontece. Precisa dessa troca, né? Aquela troca de você... Primeiro cê tá com a energia e você atrás de fazer o samba, né? Você emana essa energia, as pessoas tão ali sambando, tão ali junto com você, ali, trocando dessa forma, cantando. Se num tiver o canto também, o samba não vai, né? É algo importante, tem que ir cantar. Uma roda de samba que todo mundo num sabe cantar, tanto quem conduz, quanto quem tá ali apreciando, fica meio xôxa, né? Porque a galera cantando é muito importante. A roda de samba sem o canto, sem o coro forte, é muito igrejinha, né, fica muito ouvindo só o samba. Num dança.
M: E como é que você definiria uma roda de samba, Roberto?