Este estudo centrou-se na relação que existe entre os elementos verbais e não-verbais, considerando-os uma imbricação lingüístico-gestual e não como dois elementos que constituem uma dicotomia.
Perseguimos as contribuições de alguns autores que tratam exatamente dessa temática. Nesse sentido, apresentamos as discussões relativas às relações interativas existentes entre o verbal e o não-verbal (RECTOR & TRINTA, 1999; DAVIS, 1979; KERBRAT-ORECCHIONI, 2006); aos gestos que são independentes da fala e a ela relacionados (KNAPP & HALL, 1999).
Quanto à discussão relativa ao signo comunicativo, entendemos que nosso corpo é constituído de sentidos que nos possibilitam perceber as mais diversas formas de signos (verbal, visual, auditivo, tátil, olfativo, gustativo); ao continuum lingüístico-gestual (fala-gesto), entendido como sendo elementos conversacionais que exercem ações complementares nas situações de comunicação em quaisquer interações humanas (SANTOS, 2002, 2004; BRANDÃO, 2005).
Para o sistema classificatório dos gestos (RECTOR & TRINTA, 1985; EKMAN E FRIESAN, apud RECTOR & TRINTA, 1985; KNAPP, apud RECTOR & TRINTA, 1985; HALL, 1977), buscamos subsídios que nos serviram de base para interpretar as ações gestual-referenciais em sala de aula. Quanto aos trabalhos que trataram da temática da relação estabelecida entre os elementos citados, perseguimos: Santos (2005, 2007), Oliveira (2007a, 2007b), Souza (2007), Vieira (2007), Dantas (2007), Dionísio e Hoffnagel (1996). Em relação à noção de referência e referenciação, seguimos: Mondada (2005), Koch (1999, 2005, 2006b), Koch e Elias (2006), Koch e Marcuschi (1998), Bentes e Rio (2005), pelo fato de entendermos que o gesto dêitico tem uma função de identificar objetos-de-discurso. No que tange à noção de dêixis, buscamos fundamentação em Lahud (1979), Dubois et al (1993), Levinson (2007), Anjos (2004).
Para ratificar todo o embasamento teórico que norteou nossa criteriosa investigação, apresentamos os aspectos metodológicos que foram seguidos. Assim, fizemos uma discussão que apresentou dois posicionamentos
epistemológicos dentro do campo das ciências humanas e sociais, quais sejam, o positivismo e o interpretacionismo (MOREIRA, 2002), situando-nos na perspectiva dos estudos interpretacionistas; a pesquisa qualitativa (PRUS apud MOREIRA, 2002; BOGDAN apud TRIVIÑOS, 1987), que foi a adotada nesse trabalho; a constituição do corpus; a tipologia manual, levantada por ocasião da construção do objeto de análise; e a interpretação do dêitico gestual no discurso de sala de aula.
Por ser uma pesquisa de natureza qualitativa que não prioriza a quantidade de vezes em que o objeto investigado aparece, mas sim a interpretação desse objeto, selecionamos oito momentos interativos, entendendo que esses dados eram suficientes como amostragem do fenômeno investigado.
Nosso trabalho conseguiu evidenciar uma variedade de apontares realizados pela informante, ao deflagrar a ação gestual-referencial. Nesse sentido, a tipologia manual ficou assim caracterizada: 1) apontar convencional, 2) apontar com toda a mão, 3) apontar para insistência gestual, 4) apontar com toda a mão e dedos semifletidos; e 5) apontar com objeto entre os dedos (p. 68).
O levantamento da tipologia manual confirmou o que tinha sido comentado por Cavalcante (1994): a ação de apontar revelou-se com diferentes variedades configurativas, ou seja, não apareceu apenas como sendo a extensão do braço e dedo indicador em direção a um determinado objeto. Na página 91, apresentamos uma tabela resumo, contendo os significados das ações gestual-referenciais de cada momento interativo.
Foi possível encontrar também vários significados para essa ação de apontar. Nossa informante deflagrava as ações gestual-referenciais com o intuito de oferecer aos seus interlocutores os objetos que deveriam ser contemplados, nos momentos interativos de sala de aula, tornando sua descrição, segundo Mondada (2005), mais inteligível, permitindo que houvesse o ato de referenciação, ou seja, os objetos eram elaborados e reelaborados na dinâmica do discurso, a cada “lance do jogo” (KOCH, 2006a).
Pelo que observamos, as variações gestuais do apontar aconteceram, evidenciando que as ações gestual-referenciais puderam ser analisadas como um meio comunicativo, construídas em negociação entre os interlocutores
discursivos no ambiente de sala de aula. A dinâmica estabelecida entre os parceiros interativos foi auxiliada por meio da ação gestual-referencial, uma vez que, através dela, a professora conseguiu chamar a atenção dos alunos; centralizar os olhares dos estudantes para um determinado objeto; figurar a informação que estava desenhada no quadro-negro; destacar certa informação do tópico discursivo; ratificar a fala da professora; ilustrar, enfatizar e acentuar a explicação; guiar o raciocínio dos alunos, dentre outros significados.
O gesto de apontar funcionou não somente como um meio comunicativo que permitiu a interação entre os interlocutores de sala de aula, mas também como uma ação gestual-referencial que estabeleceu a negociação do sentido, permitindo construção de conhecimento, uma vez que a professora, em vários momentos, deflagrou a ação com o intuito de atrair a atenção dos alunos, destacando as informações centrais dos tópicos abordados.
A discussão da ação gestual-referencial desenvolvida nesta dissertação possibilitou uma leitura do gesto de apontar num processo de interação no discurso de sala de aula do ensino fundamental, numa escola pública da cidade de Maceió-AL. A perspectiva aqui adotada foi a de considerar essa ação como sendo co-construída através da negociação entre os parceiros discursivos, ao longo do tempo (CAVALCANTE, 1994). Foi adotada também a idéia de referenciação, uma vez que tomamos como elemento analítico os gestos dêiticos, que construíram objetos-de-discurso, servindo como um meio que possibilitou o processo de construção de sentido.
Como já foi dito durante o percorrer do trabalho, o recorte analítico se deu por questões de tempo, uma vez que seria impraticável observar todos os fenômenos não-verbais que aparecem no corpus numa dissertação de mestrado. Por isso, debruçamo-nos apenas nas ações gestual-referenciais que se encaixam dentro dos estudos da cinésica, mas sabemos da importância de se investigar outros fenômenos não-verbais no discurso de sala de aula como, por exemplo, os fenômenos paralingüísticos e proxêmicos. Assim, esta dissertação abre caminhos para futuras pesquisas que queiram se dedicar ao trabalho com a linguagem não-verbal e verbal.