DO VALE DO ITAPOCU
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A formação industrial da Região de estudo ocorreu no início do século XX, porém com pouca expressividade tanto local, quanto estadual, no período descrito por Silva (2006), para a história econômica de Santa Catarina, como de gênese industrial. A expressividade tanto local, quanto nacional, somente ocorreu no período seguinte, pós II Guerra Mundial – descrito por Silva (2006) como período de crescimento na forma Bola de Neve e por Goularti Filho (2002) como de integração e consolidação da indústria Catarinense – quando do surgimento de indústrias como Marisol, Malwee, Elian e Lunender. Neste momento, o fortalecimento da indústria local levou ao desenvolvimento regional de outros setores econômicos, principalmente os de prestação de serviços para a crescente industrialização local. Porém, a partir dos anos 1990, devido às práticas neoliberais implementadas no país, foi necessário, para manutenção da representatividade nacional das indústrias, o início do processo de reestruturação, visto aqui, principalmente, através das políticas de terceirização.
Tais políticas, utilizadas pelas empresas, provém de técnicas utilizadas para a internacionalização de grandes empresas nacionais. Porém, como a necessidade naquele momento, era fortalecer o seu mercado nacional, aplicaram tais estratégias, descritas por Chesnais (1996) em sua obra que trata da mundialização do capital. Estas foram essenciais para as grandes empresas conseguirem concorrer com a maciça entrada de produtos estrangeiros no mercado nacional.
Dentre estas estratégias, as mais notáveis, para o caso das empresas do Vale do Rio Itapocu, em nível crescente de importância, são: a) a formação de grupos empresariais, com a atuação nas mais diversas áreas da economia; b) a fusão com outras empresas e aquisição de novas marcas para aumentar o público consumidor; e c) a terceirização da produção como um todo.
A primeira estratégia, que diz respeito à formação de grupos empresariais e a diversificação das áreas de atuação, na região aparece com mais ênfase na atuação no varejo. Neste caso, os investimentos do setor industrial no setor de comércio evitam a transferência de mais valia para outros grupos capitalistas, fazendo com que o capitalista industrial consiga absorver mais lucro do que antes. A segunda estratégia, que diz respeito à fusão entre empresas e principalmente a
aquisição de novas marcas, aumenta a área de abrangência e o mercado consumidor de seus produtos.
Já a última estratégia, que diz respeito a transferência de produção através da terceirização, a mais importante e mais observada na região, leva a diminuição dos custos na produção pela redução absoluta de investimentos das empresas em maquinário e manutenção, sendo que este fica totalmente a cargo das empresas terceirizadas, assim como os implementos para costura e encargos sociais. Os encargos sociais, porém, muitas vezes nem existem nas empresas terceirizadas, devido, à informalidade das relações trabalhistas existentes nestes locais, ocorrendo uma grande intensificação do que Silva descreve em 2004 como divisão espacial interna do trabalho. A produção “sem gordura de pessoal”, descrita por Chesnais (1996), explica a necessidade de terceirizar a produção.
A mão de obra existente na região é proveniente da expropriação do campo que ocorreu pós Revolução Verde, sendo que, na maior parte dos casos, os trabalhadores já residiam em cidades pois já haviam passado por um processo de êxodo rural. Esta população, que vivia, normalmente, na periferia das pequenas cidades dos estados do Paraná e de Santa Catarina foi atraída para a região do Vale do Rio Itapocu através das promessas de emprego e renda e das condições de vida que lhes eram oferecidas em um momento de ápice da indústria regional.
Em alguns casos, esta mão de obra atraída para a região, se instalou em áreas rurais, formando o que Silva (1997; 2004) descreve como operários-colonos, porém em um contexto mais contemporâneo do que o apresentado pelo autor. Estes operários-colonos acabam por conciliar as atividades no meio rural, com a atuação na indústria têxtil, ou na prestação de serviços para a indústria têxtil, sendo que na maior parte dos casos, parte da família trabalha no setor primário e parte no setor secundário. Em outros casos a mão de obra atraída se instala nas periferias regionais, porém sem ligação com a atividade rural formado o exército de reserva.
Porém, devido às crises do sistema capitalista, esta mão de obra, tanto a ligada à atividade rural, quanto a que não estava ligada à esta atividade, porém que atuavam, inicialmente, diretamente na indústria têxtil ou eletro metal mecânica fica ociosa e aumenta o já formado “exército de reserva” descrito por Marx. É este “exército de reserva” que vai atuar nas chamadas facções para garantir a sobrevivência de suas
famílias nas cidades onde eles se instalaram. Assim, de forma a garantir a sobrevivência, estes indivíduos se colocam, devido à falta de opção local, na informalidade. Desta forma, o contexto geral da região acaba por gerar problemas sociais, ligados à ocupação de áreas impróprias para residir, desemprego estrutural, falta de equipamentos públicos de saúde, assistência social, educação e lazer.
Podemos diferenciar, então, a classe burguesa atuante no setor têxtil e confeccionista em duas classes: a) os burgueses proprietários de grandes empresas: que exploram o proletariado indiretamente no caso da terceirização da produção; e b) os burgueses proprietários de pequenas empresas: que exploram o proletariado diretamente, são aqueles que prestam serviço para as grandes empresas, mas que possuem o maquinário e exploram a mão de obra formal de costureiras, ou seja, os proprietários das facções.
Já a classe proletária da região, atuante na facção, em três subclasses: a) proletários exploradores: são aqueles que prestam serviço para as grandes empresas, que usam maquinário alugado e exploram a mão de obra formal de costureiras, ou seja, os proprietários das facções; b) proletários explorados: são aqueles que vendem a sua força de trabalho formalmente, com horário e salário fixos, com direitos e deveres garantidos em Leis Federais, ou seja, os funcionários da facção; e c) subproletários: são aqueles subcontratados pelas facções, informais, que prestam serviço em suas casas, ou seja, as costureiras a domicílio. Há, ainda, as costureiras que possuem maquinário próprio e que prestam serviços, de maneira autônoma, para grandes empresas e facções, estas não podem ser classificadas como proletários nem como burgueses, mas sim um grupo a parte da classificação proposta pela análise aqui proposta. Todos estas subclasses de proletários podem ser entendidas como subalternos, conforme classificação de Gramsci de 1934. Acima desta classe proletária, a classe Burguesa, esta sim possuidora de todos os meios de produção, que exploram a mão de obra de todas as faixas dos proletários, que vendem a sua força de trabalho como única forma de subsistência, já classificada anteriormente.
Os burgueses proprietários de grandes empresas são os que, no processo de formação sócio espacial da região, acumularam capital e abriram as empresas, ou seja, são os provenientes do processo de diferenciação social da região, compostos por descendentes de imigrantes europeus que se instalaram na região. Os burgueses proprietários das pequenas empresas são os que se retiram da classe
proletária e criam empresas que normalmente prestam serviços à outras empresas maiores ou menores. Este grupo é de formação diversa, dos descendentes de migrantes europeus que se instalaram na região e que, no processo inicial de diferenciação de classe, se posicionaram como proletários, e dos migrantes que vêm para a região para suprir as necessidades de mão de obra existentes na região a partir do processo de industrialização.
Os proletários exploradores são aqueles que em um dado momento se afastam das atividades laborais na indústria têxtil e que alugam ou emprestam máquinas de costura e exploram mão de obra para a terceirização das atividades das grandes empresas. Os proletários explorados são aqueles que vendem a sua mão de obra de forma legalizada. Estes atuam nas facções ou nas grandes empresas, podendo ser utilizados de forma direta ou indireta na produção. Já os subproletários são aqueles que atuam sem a legalização de sua atividade, em casa ou em facções, com maquinário emprestado ou alugado. Outra classe é aquele em que se enquadram os indivíduos que possuem maquinário próprio, porém não exploram a mão de obra de terceiros, mas somente atuam prestando, eles mesmos, serviços para as facções e grandes empresas. Nos quatro casos, os grupos são formados principalmente por mulheres que buscam a atividade como uma forma de cuidar da casa e da família e ao mesmo tempo aumentar a renda domiciliar. Tais proletários são provenientes do processo migratório inicial da região, bem como do processo de migração da segunda metade do século XX. Quanto a exploração da mão de obra proletária, ela ocorre de maneira progressiva. Ora, quanto mais afastado do capitalista está o proletário, mais ele foi explorado e menos ele recebeu pela venda de sua força de trabalho. Esta valor obtido por esta venda de força de trabalho dos subproletários, base da cadeia produtiva, é absorvido primeiramente e em menor valor pelos proletários explorados, posteriormente pelos proletários exploradores e finalmente pelos burgueses, crescendo gradativamente para cada classe que o valor passa. No sistema que está posto na região do Vale do Rio Itapocu, as facções compreendem papel fundamental no processo de circulação da mercadoria, pois, a partir delas, as grandes empresas conseguem atingir uma alta produtividade através de mão de obra barata e sem a responsabilidade previdenciária e social. Somente com a ação destas facções é que a produção atinge níveis elevados e confere à grande empresa a possibilidade de atingir o mercado nacional como um todo.
Porém, para que esta produtividade seja elevada, há a exploração da mão de obra feminina, sem as devidas condições de salário e salubridade.
Cabe, ainda, a reflexão acerca da classe operária. Esta classe, no caso específico do objeto de estudo, as trabalhadoras terceirizadas, somente conseguirá atingir condições favoráveis de trabalho e reconhecimento, a partir do momento em que se reconhecerem como classe e assim, se unirem, a exemplo do que Gramsci define em 1934 como solução para a condição da classe subalterna. Enquanto forem tratadas como iniciativas empreendedoras, isoladas entre si, não conseguirão lutar para traçar um caminho de mudanças sociais de classe. Estas costureiras necessitam entender a sua posição na cadeia produtiva têxtil e o tamanho de sua responsabilidade no sistema de circulação das mercadorias. Assim, e somente assim, poderão alcançar o respeito aos seus direitos e o real reconhecimento de seu trabalho, pela importância que ele possui no Modelo de Sistema Capitalista instaurado na região de estudo. Estão incluídos nesta necessidade as ações integradas dos sindicatos que defendem as classes trabalhadoras, sendo que somente assim pode-se extinguir a falsa ideia de empreendedorismo que o processo de terceirização passa para aqueles que prestam serviço de forma explorada, diminuindo, consequentemente, a alienação destes prestadores de serviços.
Assim como Lucáks (1981) trata em sua obra, a burguesia somente consegue ser o motor das revoluções porque ela se reconhece como classe e, como tal, atua de forma conjunta. Da mesma forma, o proletariado, no caso, as costureiras, necessita conhecer a si mesmo como classe para aí sim conseguir ser o motor das revoluções e atingir os objetivos comuns à classe.
Observa-se, na região a formação de uma nova divisão regional do trabalho, ou uma divisão interna do trabalho, compreendendo tanto as facções, quanto as costureiras que prestam serviço para estas facções. Sendo que tanto a primeiras quanto as segundas estão em posição de prestadoras de serviços, direta ou indiretamente, para a grande indústria têxtil. Desta forma, o que se vê é uma empresa produtora de roupas, que não possui, em seu quadro de funcionários, nenhuma costureira.
Desta forma, as empresas, que possuem costureiras, mas que contam com sede pequena, quando há aumento de demanda, terceiriza a sua produção, quando não há muita demanda, fica somente com a produção da sede, podendo ser este um sina de flexibilidade da indústria
frente às oscilações do sistema capitalista. Assim, pode aumentar a produção sem aumentar a sede. Ainda se exime de toda e qualquer responsabilidade trabalhista acerca dos trabalhadores que ficam sem trabalhar em momentos de baixa produção.
O que se observa é que quanto menor a empresa de roupas, menos exigências ela faz, tanto em relação à qualidade do produto, quanto em relação à legalização das costureiras. Sendo que quanto maior a empresa, maior também é a exigência da legalidade das suas prestadoras de serviço. Porém, em ambos os casos, não há, hoje, forma de controle desta produção “quarterizada”, devendo-se, então, buscar solução para esta problemática estrutural da região.