• Nenhum resultado encontrado

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No documento Download/Open (páginas 116-121)

Nessa caminhada de tempos difíceis e percas de direitos conquistados, precisamos desbarbarizar através de uma educação que nos emancipa e humaniza. Ao caracterizar essas duas modalidades da Educação Inclusiva em uma parte da região sul da Amazônia Paraense é voltar o olhar para essa educação com mais crítica, com responsabilidade sobre o processo histórico de transformação social. Alguém como sujeito histórico, que não deseja só passar pela vida, mas que deseja viver essa vida comprometida com a realidade social.

É importante ressaltar que a Educação Especial no Brasil tem caráter pragmatista, comportamental, com viés americano, de treinamento, sem crítica social alguma, mas pelo contrário é de adaptação ao meio. Entendo que cada vez mais precisamos nos posicionar e mostrar que há dentro da Educação Especial, muitas questões pelas quais nós temos que nos assumir politicamente, como bem ressalta Paulo Freire ao afirmar: “A educação é ato político”.

Com este estudo foi possível investigar e caracterizar como se organiza e se desenvolve a Educação Especial numa escola do campo em um dos maiores projetos de assentamentos da reforma agrária do sul da Amazônia Paraense. Os resultados obtidos nessa dissertação nos levam a considerar que a educação da pessoa com deficiência em assentamentos do município Conceição do Araguaia/PA, ainda é bastante silenciado, tema ainda tímido nas discussões dos gestores/diretores e, por conseguinte na comunidade escolar. Os dados do censo escolar revelam um universo de estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação estudando nas escolas do Campo do município.

Os dados do Censo populacional de 2010 apontam que 16,28% da população com deficiência vivem no campo, essa proporção é praticamente a mesma de pessoas que também residem em áreas rurais. Os microdados do Censo Escolar apontam a existência do público- alvo da Educação Especial em área e/ou distritos rurais, como também localidades diferenciadas do campo (terras indígenas, áreas remanescentes de quilombos, assentamentos).

Nossos resultados apontaram que a Educação Especial em assentamentos do município de Conceição do Araguaia-PA se realiza em condições precárias e, por conseguinte, há uma invisibilidade deste público, considerando que até o ano de 2016 nenhuma das escolas do campo oferecia o AEE para o público-alvo da Educação Especial. Considerando a Política de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL,2008) que prevê o atendimento para esse público na classe comum do ensino

regular, e a oferta do AEE, no contraturno e de modo complementar e suplementar nos espaços denominados salas de recursos multifuncionais (SRMs).

Algumas escolas municipais da zona urbana ofertam esse tipo de atendimento. A Educação Especial na zona rural não acontece, como se o privilégio dessa modalidade de ensino fosse somente para os moradores da cidade, resultando em um esquecimento cruel e irresponsável de descaso. Se as pesquisas em Educação Especial apontam os desafios nas escolas localizadas em áreas urbanas, estas se intensificam muito mais nas populações do campo.

Estes estudantes vivem em uma dupla exclusão, são excluídos porque são trabalhadores do campo, tendo todo um histórico de conflitos e marginalização, por não ter uma reforma agrária justa, ausência de políticas públicas de incentivo para fixação do homem no campo, com condições reais dignas de vida. As pessoas com deficiência que vivem nessas famílias têm sobreposto essa marginalização da condição da deficiência que fica mais acentuada não só pelo preconceito, mas pela ausência de saúde, de habitação, de transporte adequado e de escolarização.

Durante o período de pesquisa em nossas visitas a diversas comunidades rurais do município Conceição do Araguaia/PA, podemos verificar uma pauperização de muitas famílias, onde uma grande parcela de famílias que possuem algum deficiente, vive do benefício de prestação continuada. Um quadro assustador de realidade campesina conceicionense/araguaiana. Os desafios que a pessoa com deficiência encontra na zona urbana são imensos, o descaso e as mazelas são agravadas ainda mais nas populações do campo, principalmente pelo acirramento das contradições que a luta no campo traz.

Uma constatação dessa realidade se refere à mobilidade urbana das pessoas com deficiência que vivem no campo, alunos cadeirantes que não tem transporte adaptado para leva-los até a escola, considerando que muitos desses alunos percorrem distâncias longínquas, professores que nunca tiveram cursos de capacitação para atuar com o público-alvo da Educação Especial, ausência de salas e de profissionais para atuar no AEE, justificado pelos gestores como falta de espaços.

Vivemos um período de desmontes das Políticas públicas de nucleação e fechamento de escolas do campo e, consequentemente, os espaços do AEE ficam comprometidos. Enfim, as barreiras que encontramos na Educação Especial nas escolas da cidade, se agravam nas escolas do campo, por todo cenário de conflitos e descaso da história do campo brasileiro.

Ao nos assumir politicamente por uma educação contra a barbárie e por uma educação que nos emancipe e nos humanize, precisamos nos questionar: Qual tipo de Educação Especial queremos no campo e na cidade? Uma Educação Especial no campo que considere as peculiaridades dos alunos com necessidades específicas que vivem e estudam no campo com uma formação humana e emancipadora. Esse é o debate que precisamos aprofundar, considerando que este tipo de discussão ainda está em construção tendo em vista a ausência de pesquisas nesta interface na região Amazônica e principalmente no sul e sudeste paraense.

Ao analisar as produções científicas da Educação Especial, entendemos que há uma imensa dívida com as populações do campo, devido ao silêncio histórico nas produções acadêmicas. Os indicadores sociais da Amazônia Paraense revelam a existência de um contingente grande de pessoas com deficiência que vivem no campo; da existência cada vez maior de alunos público-alvo da Educação Especial que vivem no campo e estão de alguma forma chegando nas escolas, sejam filhos de trabalhadores rurais, que estão localizados nas áreas remanescente de quilombo, das comunidades indígenas, projetos de assentamentos.

Esse público existe, são cadastrados, eles vivem, eles têm direito a uma vida digna e o direito universal de todos à educação. É necessário garantir a matrícula desses alunos, a acessibilidade e a permanência na escola, com a oferta de transporte escolar adaptado e

acessível, oferta de AEE nas escolas do campo. Todos esses direitos articulados por um projeto maior de justiça social para as populações do campo.

Nesse sentido, ao escolhermos a Escola Municipal Vinte de Abril, lócus deste estudo, localizada numa das maiores áreas de assentamento do sul do Pará nos permitiu compreender como ocorre a interface dessas duas modalidades da Educação Inclusiva e nos oportuniza a refletir e debater que tipo de Educação Especial queremos para as populações do campo.

Nessa perspectiva retomamos nossos objetivos e questões de estudo, seguem nossas considerações finais.

Levando em conta a implementação das Políticas públicas de Educação Especial no âmbito da Educação Inclusiva e sua interface com/na Educação do Campo, em uma escola pública municipal de Conceição do Araguaia/PA, com experiência da inclusão de alunos público-alvo da Educação Especial, é possível afirmar:

1. É um debate de articulação recente, encontramos nos dispositivos legais e pesquisas que tratam dessa relação em fase de construção, portanto ainda necessária de estudos que possam subsidiar ações que fortaleçam essa interface;

2. Nos dados oficiais do governo como o Censo Escolar foi verificado que o público-alvo da Educação Especial está cadastrado e verificado in-loco que estão presentes em escolas campesinas localizadas em assentamentos da reforma agrária no município de Conceição do Araguaia;

3. Até o ano de 2016, nenhuma das escolas do campo do município de Conceição do Araguaia/PA possuíam a SRM com a oferta do AEE, conseqüentemente um grupo invisibilizado perante a gestão pública municipal;

4. No ano de 2017 houve abertura da SRM com a oferta do AEE na escola, conseqüentemente o início dos serviços de Educação Especial. Entretanto, não é ofertado no contraturno o AEE como é estabelecido pelas Políticas de Educação Especial, justificado pela escola que os alunos moram distantes e não há transporte suficiente para atender todos os alunos que necessitam participar na SRM;

5. A estrutura da SRM está distante da realidade do que apontam os documentos oficiais para constituição dessa sala, faltam equipamentos, mobiliários, materiais didáticos e pedagógicos que possam subsidiar o trabalho do professor na sala;

Acerca da caracterização do Projeto Político-Pedagógico da Escola Municipal Vinte de Abril em relação às demandas por/de Educação Inclusiva de estudantes público-alvo da Educação Especial:

1. Durante um ano de pesquisa e visitas a escola não tive acesso ao documento, todas as vezes que foi solicitado me informaram que estava em construção. Foi perguntando durante as conversas e entrevistas aos sujeitos de estudo sobre a construção do documento que afirmaram desconhecer que

haja propostas de ações para os estudantes público-alvo da Educação Especial.

No que se refere às concepções dos professores da Escola Municipal Vinte de Abril sobre a experiência de inclusão de estudantes público-alvo da Educação Especial, foram identificados:

1. Que é um público que tem aumentado na escola, fruto do aumento do número de matrículas da Educação Especial em todo território nacional;

2. Que há resistências de alguns professores sobre a inclusão desse público na escola, que acreditam não estar preparado/capacitado para receber os alunos com necessidades específicas;

3. Um desconhecimento sobre a Política Nacional na perspectiva Inclusiva (Brasil, 2008) e, consequentemente, sobre o espaço das SRM e suas ações no AEE;

4. Que ainda não se estabeleceram relações de ensino colaborativo entre o professor da sala regular e o professor do AEE.

Por fim, sobre os desafios da Escola Municipal Vinte de Abril frente à proposta da inclusão de estudantes público-alvo da Educação Especial, afirmamos:

1. Que é muito recente a construção de ações político-pedagógica para a inclusão de alunos com necessidades específicas, que é necessário que esse debate esteja presente dos documentos oficias da escola como o PPP e nas ações dos profissionais que estão na escola;

2. Ampliação da SRM com suporte, equipamentos, materiais didáticos e divulgação sobre as ações do AEE e sua importância perante a comunidade estudantil;

3. Construção de ações que fortaleçam o Ensino Especial na escola com formação continuada e cursos de capacitação que auxiliem o professor no ensino com os estudantes com necessidades específicas;

4. Que é necessário melhorar a acessibilidade física da parte mais antiga da escola, principalmente onde funciona o AEE, adaptar as portas para cadeirantes e construir rampas de acesso;

5. Reivindicar um ônibus escolar adaptado junto a Prefeitura Municipal para transporte de alunos cadeirantes;

6. Construir coletivamente o Projeto Político Pedagógico no sentido que haja a democratização do ensino para os estudantes público-alvo da Educação Especial;

7. Construir a relação do ensino colaborativo entre o professor da sala regular e o professor do AEE, para que haja uma troca de informações sobre o aluno e juntos trabalhem no sentido de desenvolver as habilidades dos estudantes que freqüentam esses espaços.

Acreditamos que não é um debate simples, mas precisamos fomentar essas discussões na construção de Políticas públicas que considerem o direito das pessoas com deficiência e, por conseguinte, subsidiem propostas para a produção do conhecimento da região sul da Amazônia Paraense sobre a realidade das condições de vida dos estudantes com deficiência que vivem e estudam no campo.

É necessário continuar construindo esse diálogo entre a Educação Especial e a Educação do Campo no sentindo que se desenvolvam Políticas públicas e projetos educacionais articulados que considerem o atendimento e as especificidades e singularidades das populações do campo. Por conseguinte, as condições dos estudantes público-alvo da Educação Especial que estudam nas escolas do campo precisam ser incorporadas nas lutas e debates pelos movimentos sociais que lutam pelo direito a terra, a educação e a moradia.

No documento Download/Open (páginas 116-121)