As subseções 6.2.2 e 6.2.3 apresentaram os resultados da investigação a respeito da ocorrência ou não do fenômeno free rider entre os participantes do jogo. A conclusão parece ser que, dada a estrutura particular da experiência que foi implementada, os
moradores da Comunidade do Pilar não agem precisamente de acordo com as previsões da hipótese do free rider.
Os efeitos do comportamento caroneiro só foram plenamente observados em um dos quatro grupos de sujeitos daquela comunidade. Nos demais, mesmo com uma alta ocorrência de escolhas pouco cooperativas, o bem público foi provido e rendeu ganhos aos jogadores.
Em escala agregada, com as amostras de 40 jovens e 40 adultos, ou com os 80 entrevistados, os testes estatísticos rejeitaram a idéia de que as escolhas estariam concentradas em alguma das faixas de decomposição da dotação inicial.
Se por um lado tais conclusões contradizem a hipótese inicial formulada por esta dissertação – de que os indivíduos agiriam de maneira a confirmar-se o comportamento caroneiro forte ou fraco – elas corroboram a tendência encontrada na literatura sobre experimentos com bens públicos. Na maioria dos trabalhos anteriores (inclusive no de Marwell e Ames), ainda que se mostrem sensíveis a determinados incentivos a “pegar carona”, os agentes são propensos a investir em empreendimentos coletivos numa escala maior do que aquela que validaria a hipótese do free rider.
Evidentemente, um estudo como este não se propõe a esgotar todas as possibilidades de pesquisa para um problema como o do provimento de bens públicos. Considerando a complexidade das hipóteses estudadas, as características peculiares da amostra utilizada e a escassez de trabalhos correlatos na literatura, conclui-se que há muitos caminhos de aprofundamento para futuras investigações.
Nesse sentido, indica-se a repetição de estudos que simulem a obtenção de bens públicos com estrutura semelhante à descrita no corpo desta dissertação, desde que atendidas as sugestões apontadas na Seção 6.2.5. As experiências podem ser repetidas em várias rodadas e com amostras maiores, a fim de que sejam apreciados aspectos como a existência de pontos focais, a intensidade do efeito confusion e, principalmente, a
ocorrência do fenômeno free rider. Existe também a possibilidade de aplicar outros jogos em que se adote alterações no formato do bem público, conferindo-lhe características mais semelhantes às das instalações de infra-estrutura urbana, como ruas asfaltadas, iluminação pública, etc.
Não obstante, outros experimentos descritos em trabalhos acadêmicos podem também ser replicados junto à população residente na Comunidade do Pilar. É o caso do
Ultimatum Bargaining Game, jogo com estrutura simples e de fácil operacionalização,
largamente aplicado em diversos países, em amostras com as mais diversas características. Os resultados obtidos poderiam, inclusive, ser adicionados ao banco de dados criado pela pesquisa de Henrich et al. (2001), que estudou grupos sociais bastante peculiares, como índios peruanos e camponeses da Tanzânia.
Da mesma forma, a oportunidade de freqüentar a comunidade durante as eleições municipais de 2004 despertou o interesse por mais um tema: a adequação dos jogos de leilão para representar as dinâmicas sociais estabelecidas entre aqueles eleitores e os candidatos a cargos majoritários ou proporcionais. Pode-se considerar os indivíduos da comunidade como “leiloeiros” de seus votos e avaliar, por exemplo, qual dos formatos seria adotado para estes arremates. Ampliando o alcance da pesquisa, haveria até a possibilidade de se analisar como são as “funções-oferta” (bidding functions) dos candidatos.
Outro estudo experimental cuja inspiração deriva das observações empíricas coletadas na comunidade (particularmente no período eleitoral), é a averiguação da ocorrência do fenômeno rent seeking, que significa o favorecimento, por parte do governo ou ente que desfrute de alguma autoridade, de apenas uma parcela dos agentes, em detrimento dos demais indivíduos de determinado grupo social.
O rent seeking pode ser uma das causas da ausência de lideranças comunitárias legítimas e de pessoas que representem democraticamente as demandas coletivas. Indícios deste problema são comuns e geralmente seguem o mesmo roteiro: durante a campanha, muitos políticos tentam aproximar-se das comunidades carentes e, para isso, cooptam um dos moradores, tornando este indivíduo seu “cabeça-de-ponte”. Enquanto é do interesse do candidato, o morador escolhido recebe status e recursos suficientes para
transformá-lo numa liderança comunitária natural, pois ele passa a ser alguém com acesso às instâncias mais elevadas do poder.
No entanto, terminado o pleito, havendo ou não sucesso eleitoral do candidato, a tendência é que apenas o cidadão cooptado (às vezes nem mesmo ele) seja privilegiado pelo político. Ao invés de cumprir as promessas feitas a todos os moradores, ele procura manter um relacionamento estratégico com aquele que, de dois em dois anos, será sua liderança dentro daquela comunidade. Com isso, a maioria da população fica à mercê dos períodos eleitorais para ter uma mínima parte de suas demandas atendidas.
A revisão da literatura mostrou que, mesmo nos principais periódicos de Economia, não foi encontrado qualquer texto que estudasse este fenômeno do ponto de vista experimental, mas o desafio de formular um procedimento adequado sem dúvida poderá render descobertas de grande utilidade para variados campos do conhecimento, como a própria Economia, a Sociologia e a Ciência Política.
Por fim, é importante destacar que, em todos os formatos de pesquisa relatados nesta dissertação, considera-se salutar a interação dos economistas com profissionais de outras áreas das ciências sociais e humanas, como forma de ampliar o entendimento sobre fenômenos sociais tão complexos.